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DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
A PARTIR DA EPISTEMOLOGIA DE KARL POPPER
AVALIAÇÕES – IMPASSES – ALTERNATIVAS

(DISSERTAÇÃO DE MESTRADO)

NEY COUTO MARINHO

Dissertação apresentada ao Departamento

De Filosofia da PUC/RJ como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Filosofia

Orientador: Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos

Abril de 2001

A todos aqueles – psicanalistas, pacientes, filósofos, pensadores – que com coragem e esperança mantêm vivo o generoso legado freudiano.

AGRADECIMENTOS

Esta dissertação pretende ser o início de uma longa reflexão, há muito almejada, e que somente neste momento se tornou possível graças a várias circunstâncias e a muitas pessoas, as quais não posso nomear todas mas, para todas, desejo registrar meu profundo agradecimento.

Como qualquer produção humana significativa (pelo menos para seu autor), suas origens se confundem com a própria história pessoal.

Agradeço a meus pais – Maria Luiza e Paulo Marinho – que, desde muito cedo, me apresentaram ao mundo, com toda a sua diversidade e complexidade, às boas e más coisas que o povoam, sempre com humildade, ternura e esperança.

Agradeço aos meus colegas, pacientes e amigos que partilham comigo das mesmas inquietações.

Agradeço a Rosa Beatriz Pontes de Miranda Ferreira que me introduziu ao pensamento de W. R. Bion, a uma psicanálise reflexiva e ao mesmo tempo profundamente humana e, sobretudo, que me apresentou a mim mesmo.

Agradeço aos meus filhos – Mariana, Helena e Bruno – pelo estímulo e paciência em ouvir intermináveis diálogos dos pais, muitas vezes, sobre os mesmos assuntos e os mesmos desconhecidos personagens.

Agradeço ao meu neto – Antonio – por me despertar a alegria e a esperança, de que João Cabral fala, de um “caderno novo”.

Agradeço ao Departamento de Filosofia da PUC/RJ que, há muitos anos, me vem proporcionando as condições e o ambiente – de competência, seriedade e onsideração – sem o qual seria impensável realizar um projeto como este. Qualquer que seja o valor de minha produção, espero que a mesma seja recebida como a melhor manifestação que encontrei para externar minha gratidão por tudo que tenho recebido.

Agradeço, em especial, ao meu orientador – Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos – pela paciência, tolerância e extrema competência com que me guiou por meio deste verdadeiro “duelo de titãs” em que se converteu o apaixonado debate epistemológico anglo-saxão. Sem a sua serena e carinhosa ajuda não teria conseguido, quer ver as árvores, quer ver a floresta e, sobretudo ambas, assim como compreender que os principais impasses da filosofia da ciência. apontam para as básicas questões ilosóficas.

Finalmente, agradeço à Fernanda por todos esses anos de companhia, sem a qual nada seria possível, ou, o que é mais importante, nada faria qualquer sentido.

RESUMO

O trabalho pressupõe que o desenvolvimento da teoria psicanalítica pede uma reflexão sobre seus fundamentos epistemológicos, sua cientificidade ou racionalidade. Parte neste sentido da discussão da epistemologia de Karl Popper, tendo como pano de fundo o debate epistemológico anglo-saxão contemporâneo, envolvendo principalmente as contribuições de Lakatos, Kuhn e Feyerabend. Outro cenário em que se desenvolve a investigação é o da “crise da psicanálise”, a qual é vista como um dos elementos da crise da modernidade. São discutidas duas avaliações da teoria psicanalítica, antagônicas, mas que têm como principal referência a epistemologia popperiana: as avaliações de Adolf Grünbaum e Gregório Klimovsky. É examinada, criticamente, a insuficiência da epistemologia popperiana para tratar de questões como aquelas com que a psicanálise lida e, dentro do contexto do debate anglo-saxão, é apresentada a proposta epistemológica de Larry Laudan como uma possível alternativa. O trabalho sugere a busca de novas linhas de investigação para fundamentar uma racionalidade para a teoria psicanalítica, indicando: a moderna filosofia da linguagem (principalmente as contribuições de Wittgenstein) e a estética (a partir da Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant).

O trabalho pretende ser a fase inicial de uma pesquisa sobre o papel da razão na teoria psicanalítica, assim como sobre a investigação das possíveis contribuições da psicanálise ao estudo da razão e suas vicissitudes. Neste último aspecto, aponta para o estudo do fenômeno da “loucura”, dado o seu caráter heurístico peculiar.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 1

1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”... 1

2 – A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA ... 7

1 – CAPÍTULO I: A “QUESTÃO DA PSICANÁLISE” NA OBRA DE KARL POPPER .... 12

1.1 – CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER . 12

1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA ... 13

1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO . 29

1.1.3 – A EPISTEMOLOGIA EVOLUCIONÁRIA .... 39

1.2 – POPPER E A PSICANÁLISE ... 45

2 – CAPÍTULO II: DUAS AVALIAÇÕES DA TEORIA PSICANALÍTICA, NA TRADIÇÃO POPPERIANA . 60
2.1 – A CRÍTICA FILOSÓFICA DE ADOLF GRÜNBAUM .... 61

2.2 – A TEORIA MODELÍSTICA DE GREGORIO KLIMOVSKY.... 74

3 – CAPÍTULO III: A TEORIA PSICANALÍTICA COMO UMA TRADIÇÃO DE PESQUISA, NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN.. 87

3.1 – INSUFICIÊNCIAS DA EPISTEMOLOGIA POPPERIANA QUANDO APLICADA À PSICANÁLISE 87

3.2 – A PROPOSTA EPISTEMOLÓGICA DE LARRY LAUDAN .... 95

4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS .. 130

4.1 – AVALIAÇÕES . 131

4.2 – DESDOBRAMENTOS ... 139

4.2.1 – A QUESTÃO DA LINGUAGEM .. 139

4.2.2 – A QUESTÃO ESTÉTICA .... 143

APÊNDICE I: A RAZÃO E AS “razões” DE PAUL FEYERABEND .. 146

APÊNDICE II: A CRÍTICA AO EXTERNALISMO – À LUZ DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN .... 158

APÊNDICE III: “LE DIEU TROMPEUR” – NOTAS SOBRE O ‘CONHECIMENTO PRIVADO’ EM DESCARTES, WITTGENSTEIN E BORGES . 169

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...183


Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, “Se não puder dobrar os deuses celestiais, comoverei o Aqueronte” (Vírgilio, Eneida, Livro VII 312)*

(*Epígrafe escolhida por Freud para a Interpretação)

(Nota do editor: a notas de pé-de-página estão ao final do texto, após a bibliografia)

INTRODUÇÃO


“... minha primeira tese é de que os problemas filosóficos genuínos têm sempre raízes em problemas urgentes fora do campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.” (Popper, 1972:100)

“... o ser do homem não apenas não pode ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.” (Lacan, 1998:581)

1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”

O ponto de partida da pesquisa – “Razão e Psicanálise” - da qual esta dissertação faz parte, foi um problema extra-filosófico: o estudo e trabalho continuado com o sofrimento mental e, em particular, com a experiência da “loucura”.

Talvez, caso fosse possível alguma forma de mensuração, não houvesse maior manifestação de sofrimento humano do que na experiência da loucura. Qualquer descrição que a relativize, ou, tente reduzi-la a um determinante extra-psíquico, padece de artificialidade se suprime suas dimensões de sofrimento mental e perda da razão[1]. No cotidiano de nosso trabalho, defrontamo-nos com a dramaticidade de um sofrimento que, prima facie, necessariamente não compreendemos. A psicanálise surgiu exatamente da tentativa de dar conta, explicar ou compreender tais manifestações em que a ciência tradicional fracassava. Entretanto, a prática como psicanalistas, leva-nos inevitavelmente, à certa altura da experiência, a questionarmos os fundamentos de nossa atividade. Isto ocorre, quer seja, pelas limitações dos resultados, quer seja, pelo desafio que o insólito nos desperta.

A identificação, ou “diagnóstico”, de “loucura” - optamos por manter uma designação coloquial, vaga e abrangente[2] - baseia-se em última instância em algum padrão de racionalidade. Por este motivo é que escolhemos o ponto de vista filosófico para nele desenvolvermos nossa pesquisa. Pois, caso tentássemos estipular um critério psicológico, psiquiátrico ou psicanalítico para tal padrão, seu questionamento se tornaria impossível, uma vez que é a própria noção de racionalidade que está em exame. Neste sentido a pesquisa pretende seguir uma linha de mão dupla: investigar a racionalidade da psicanálise e, ao mesmo tempo, indagar se a psicanálise tem alguma contribuição a dar ao estudo da razão e suas vicissitudes.

Partimos de duas hipóteses iniciais:

1 – A Teoria Psicanalítica é um empreendimento racional, ou seja, constitui-se num conjunto de hipóteses que, quer sejam ou não passíveis de testabilidade segundo critérios como os popperianos, permitem a discussão crítica de suas proposições e implicações.

2 – A razão, ou algum padrão de racionalidade, se constitui em um “elemento da psicanálise” – para utilizar a denominação e sugestão do psicanalista inglês W. R. Bion[3] - sendo o seu exame, assim como o das paixões e dos mitos, um dos objetos da psicanálise.

A pesquisa a que nos propomos está dividida em duas fases, sendo que apenas a parte inicial da primeira será objeto desta dissertação. São elas:

A – A pesquisa da racionalidade da Teoria Psicanalítica. Neste primeiro momento ficaremos limitados à discussão da racionalidade científica da teoria psicanalítica dentro do debate epistemológico anglo-saxão contemporâneo, procurando avaliar de que forma a psicanálise, como qualquer outra ciência humana, nele se insere, como responde às suas exigências e que questões, por sua vez, traz ao debate. Pretendemos investigar, nesta fase inicial da pesquisa, duas linhas de discussão: uma ligada à epistemologia de Karl Popper e autores que partem de seu referencial (Adolf Grünbaum e Gregorio Klimovsky) e a outra inspirada na filosofia analítica, especialmente nas contribuições de Wittgenstein e Donald Davidson.[4] A dissertação ficará restrita à discussão dos autores da tradição popperiana.

B – A pesquisa da razão como elemento da psicanálise. Pretendemos num segundo momento, seguindo a mencionada sugestão de W. R. Bion, investigar a razão como elemento constitutivo da teoria psicanalítica, da mesma forma que as paixões. Investigaremos se os distúrbios de pensamento - um dos objetos da investigação psicanalítica – podem oferecer-nos informações maiores sobre a racionalidade e seus desvios. Esta segunda fase é dependente da anterior na medida em que naquela procuraremos identificar o “tipo de racionalidade” que a psicanálise utiliza, ou, para sermos mais precisos, o padrão de racionalidade que consideramos mais apropriado para desenvolver e dar atualidade ao legado freudiano.

Uma vez já existir uma vasta literatura a respeito da fundamentação epistemológica da psicanálise[5], tivemos que fazer uma opção que melhor circunscrevesse nosso campo de trabalho. Optamos por iniciar com o exame das contribuições de Popper – por motivos que esclareceremos adiante – assim como utilizar as formulações de Larry Laudan, sobre Tradições de Pesquisa, como instrumento para avaliação das diferentes teorias que povoam, implícita ou explicitamente, o debate em que se insere a epistemologia popperiana.

Embora a pesquisa tenha a origem inicialmente exposta – nosso especial interesse no problema da psicose[6] - um outro fator veio acrescentar-se às nossas motivações. Gostaríamos de apenas mencioná-lo, sem pretendermos incluí-lo em nossos planos de estudo, apesar de acompanhar-nos como um dado conjuntural relevante. Referimo-nos à chamada “crise da psicanálise”, fenômeno cultural complexo que surgiu no início dos anos 80, caracterizando-se pela crescente queda na procura por parte de postulantes aos Institutos de Psicanálise (Instituições de ensino organizadas para formar psicanalistas) –quer na América do Norte, Europa ou América Latina – pela diminuição da demanda por tratamentos psicanalíticos, concomitante ao progressivo desenvolvimento de tratamentos psicofarmacológicos, com o lançamento das mais diversas drogas psicotrópicas, assim como a multiplicação e penetração de terapias alternativas, sobretudo, de caráter místico. Este fenômeno paralelo ao desenvolvimento dos fundamentalismos religiosos, levou alguns autores – como Sérgio Paulo Rouanet[7] - a conjecturar sobre uma possível crise de nosso projeto civilizatório e, conseqüentemente, da razão iluminista e, neste vácuo, de qualquer forma de racionalidade, incluindo a psicanálise neste contexto de discussão. Não pretendemos entrar no debate deste ponto, apenas assinalar que é mais um fator a instigar-nos a investigar os fundamentos de nossos padrões de racionalidade, a partir do próprio questionamento da psicanálise. Há também uma dimensão prática, imediata, neste debate que a crise despertou, que se refere a uma ampla discussão em curso sobre o que privilegiar num programa de pesquisa sobre distúrbios mentais, quer em psicanálise quer em psiquiatria: a pesquisa empírica ou a clínica. Por pesquisa empírica, em geral, refere-se a dados mensuráveis, passíveis de avaliação estatística, enquanto que por pesquisa clínica, a tradicional reflexão teórica a partir da experiência clínica[8]. A magnitude do problema pode ser avaliada pela questão da droga, que atualmente se constitui num problema de dimensões muito superiores ao da histeria no início do século ou ao da loucura, em todos os séculos. Embora, pretendamos evitar dispersar-nos nestas questões, elas estarão de certa forma sempre presentes, uma vez que faz necessariamente parte do pano de fundo de nosso trabalho o debate da epistemologia anglo-saxã contemporânea, tendo como interlocutores principais, além do próprio Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend. Reaparecerão as mencionadas questões (pelo menos indiretamente), por exemplo, quando mencionarmos as críticas à proposta popperiana de racionalidade científica, em especial, as de Feyerabend. Como é conhecido, ao não aceitar a distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, um dos fundamentos da proposta metodológica de Popper, Feyerabend ligará indissoluvelmente nossos padrões de racionalidade ao contexto histórico-social. Sabemos dos impasses relativistas a que tal crítica leva, por mais pertinente que seja. Adotaremos, em caráter provisório, as formulações de Larry Laudan sobre “Tradições de Pesquisa” para lidar com tais questões, por considerá-las mais abrangentes e úteis para a discussão que pretendemos desenvolver. Dada a subordinação que fizemos do tema da dissertação ao plano geral da pesquisa, procuraremos dar uma ênfase particular à questão dos padrões de racionalidade empregados no debate epistemológico da psicanálise.

Como pretendemos manter a dissertação no âmbito estritamente filosófico, gostaríamos de registrar como a tradição tem afastado precocemente a insanidade quando investiga a racionalidade. Citamos, como exemplo histórico, as reflexões de Descartes no parágrafo 4 da “Primeira Meditação”.

“... E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? A não ser talvez que eu me compare a esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por seus exemplos.”

Em trabalho apresentado numa disciplina deste mestrado[9] discutimos a inconveniência desta exclusão prematura da insanidade, uma vez que esta nos ilumina, indicando os limites do padrão de racionalidade que está sendo proposto. Pensamos que em filosofia da ciência tal questão – racional/irracional – adquire proporções significativas. Este ponto não escapou tanto a Freud, quanto a Bion – os dois representantes do pensamento psicanalítico que tomaremos como interlocutores permanentes – que assim a formularam:

“Fica para o futuro decidir se há mais delírio em minha teoria do que eu gostaria de admitir, ou, se há mais verdade no delírio de Schreber do que outras pessoas estão preparadas para acreditar.” (Freud, S.E. XII:79)[10]

“A leitura deste capítulo (refere-se ao capítulo II de O Futuro de uma Ilusão, de Freud) parece mostrar o quanto o avanço da psicanálise torna obsoleta sua própria formulação. Freud tem como alicerce de sua discussão, como sua realização, suas próprias conjecturas sobre a natureza da civilização. A partir daí ele tem teorias sobre as conjecturas. As conjecturas merecem atenção, pois são conjecturas de um homem genial. Mas não há reconhecimento do status de conjecturas ou do status de teorias sobre conjecturas. Em psicanálise presume-se que uma teoria é falsa se ela não parece estar a serviço do ‘bem’ da maioria da humanidade. E, como idéia de “bem”, é uma platitude. A idéia toda de “cura”, de atividade terapêutica, permanece sem escrutínio. Ela é amplamente determinada pelas expectativas do paciente, embora isso seja questionado em uma boa análise (como eu a conheço). Mas em física uma teoria é boa se ela ajuda a construção de uma bomba que destrói Hiroshima. Muitíssimo do pensamento sobre psicanálise impede a possibilidade de considerar como boa uma teoria que poderia destruir o indivíduo ou o grupo. Ainda assim, nunca haverá um escrutínio científico de teorias analíticas até que essa investigação inclua a apreciação crítica de uma teoria que, por sua própria consistência, poderia levar à destruição da estabilidade mental; por exemplo, uma teoria que incrementasse memória e desejo a um ponto que eles impossibilitassem a sanidade.” (Bion, 2000:389)[11]

Enfatizamos nosso interesse em subordinar a investigação dos fundamentos epistemológicos da psicanálise à busca de um padrão de racionalidade que a sustente como instrumento de pesquisa para o fenômeno da loucura, supondo que o exame do mesmo poderá ser filosoficamente útil para um escrutínio da razão e da racionalidade científica, em particular. O estudo da loucura tem, a nosso ver, um papel heurístico peculiar.

2– A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA

Iniciamos a discussão da racionalidade da teoria psicanalítica a partir da epistemologia de Karl Popper, pelos seguintes motivos:

1 – A importância da contribuição popperiana, principalmente, na Lógica da Pesquisa Científica, através de seu critério de demarcação entre ciência empírica e não-empírica, baliza qualquer debate a respeito. Como desejamos manter, em nosso cenário, as alternativas de Lakatos, Kuhn, Feyerabend e Larry Laudan, a referência central a Popper facilita, sobremaneira, a discussão sobre a natureza dos problemas empíricos e conceituais, sobre o alcance da noção de refutabilidade, a divergência entre racionalistas e relativistas, realistas e pragmatistas e, sobretudo, a viabilidade de um programa para um padrão de racionalidade. Na discussão da epistemologia popperiana, teremos também como referência, seus comentadores brasileiros: Sérgio Fernandes e Wilson Mendonça.

2 – A influência das idéias de Popper na formulação de uma teoria sobre o pensar, de W. R. Bion, autor que tomaremos como principal referência na última parte da pesquisa, uma vez tratar-se do psicanalista que mais trabalhou e escreveu sobre o fenômeno psicótico. Embora reconheçamos essa influência de Popper, como na noção de “pré-concepção” de Bion, que muito se aproxima da de “expectativas inatas” (Popper), são trajetos distintos. Bion se mantém mais solidário a uma leitura kantiana, assim como no correr de sua obra vai preocupar-se, cada vez mais, com questões ligadas à “construção do significado”[12], tema que reiteradamente é relegado a um segundo plano na obra de Karl Popper.

3 – Está, também, ligada a Popper, a crítica mais minuciosa e consistente à teoria psicanalítica, de que temos conhecimento. Referimo-nos à obra de Adolf Grünbaum, The Foundations of Psychoanalysis – A Philosophical Critique (Berkeley: University of California Press, 1985). Grünbaum utiliza o referencial popperiano, para um minucioso exame da cientificidade da teoria psicanalítica, embora de forma bastante crítica em relação às insuficiências dos comentários de Popper sobre a psicanálise.

4 – A Popper se liga também o trabalho que Gregorio Klimovsky – epistemólogo argentino de orientação popperiana – desenvolve há mais de trinta anos com importantes nomes da psicanálise internacional, em grupo de estudos sobre epistemologia e psicanálise, a partir de experiências clínicas. Pretendemos assim contrapor duas visões dentro da tradição popperiana: as de Grünbaum e Klimovsky.

Como dentre nossos objetivos se encontra a preocupação com os padrões de racionalidade que estejam em jogo, nos diversos momentos da discussão da psicanálise, adotaremos, em caráter operativo, o padrão proposto por Larry Laudan (in, Progress and its Problems: Towards a Theory of Scientific Growth. Laudan, 1977), como referencial. Fizemos a ressalva quanto ao caráter operativo de tal adoção, pois, entendemos que a própria pesquisa propõe-se a ser uma discussão, em última instância, do que consistiria um padrão de racionalidade. Conforme já registramos, não é possível falar de psicose ou loucura sem que esteja implícita alguma contrapartida de racionalidade. Como no momento não podemos adiantar-nos quanto a um possível padrão, uma vez que esperamos que o decorrer do próprio trabalho vá selecionando seus possíveis candidatos, escolhemos a proposta de racionalidade, de Larry Laudan, como uma ferramenta provisória. É uma decisão que consideramos inescapável, uma vez que mesmo nesta fase inicial se faz necessário algum referencial que dê sentido ao debate epistemológico em que Popper – assim como os dois outros autores a serem estudados: Grünbaum e Klimovsky, estão inseridos.
No primeiro capítulo discutimos a “questão da psicanálise” na obra de Karl Popper, dividindo-o em duas partes: a primeira, uma descrição do trajeto de Popper desde sua primeira preocupação em distinguir ciência e pseudociência até sua proposta mais abrangente de discussão de programas de pesquisa metafísica. Desejamos acompanhá-lo em sua elaboração das noções de ciência e racionalidade; e, numa segunda parte, discutimos a relação direta de Popper com o tema da psicanálise, que foi sempre uma “questão” para ele, a nosso ver, não bem resolvida, guardando a respeito da teoria freudiana uma posição ambivalente: reconhecimento de suas contribuições e recusa de sua cientificidade e mesmo racionalidade.

No segundo capítulo examinamos duas avaliações da teoria psicanalítica, surgidas na esteira da epistemologia popperiana: a persistente crítica de Adolf Grünbaum aos fundamentos da psicanálise e a tentativa de Gregório Klimovsky de encontrar – nos termos do modelo hipotético-dedutivo – uma apreciação científica para o empreendimento psicanalítico. São avaliações antagônicas, quanto a seus resultados e expectativas.

No terceiro capítulo apresentamos nossa própria avaliação das insuficiências da aplicação da epistemologia popperiana à teoria psicanalítica e, dentro da tradição epistemológica anglo-saxã, sugerimos a utilização da proposta epistemológica de Larry Laudan, como a mais bem sucedida para o exame de uma teoria que envolva problemas empíricos e conceituais, como é o caso da psicanálise. É então feita uma breve resenha dos principais pontos da epistemologia pragmatista de Laudan.

No quarto capítulo procuramos fazer uma avaliação dos autores estudados, da mesma forma que da tradição a que se filiam, apontando o que nos parece ser seus impasses e suas propostas de superação. Acrescentamos, para finalizar, dois possíveis desdobramentos desta fase de nossa pesquisa: um estudo da filosofia analítica, principalmente a partir das contribuições de Wittgenstein; e uma investigação das relações entre estética e psicanálise, tomando como ponto de partida a Crítica da Faculdade de Julgar (Kant), para exame do problema da singularidade.

Os três Apêndices – sobre Feyerabend, sobre os “externalistas”, e o que trata do “conhecimento privado” – visam dar subsídios ao debate que nos parece mais relevante, nesta tradição, entre racionalistas e relativistas; assim como adiantar algumas suposições sobre o entendimento do problema da psicose a partir da filosofia da linguagem.

As traduções de textos citados, quando a bibliografia não é referida em português, é de nossa responsabilidade. Quando julgamos conveniente assinalar a data da primeira edição de alguma obra citada, a mesma é colocada entre parênteses e a data da edição utilizada a seguir, ambas entre colchetes, por exemplo: Popper, K. Lógica da Pesquisa Científica [(1934) 1974]. Os textos de Freud utilizados são da tradução inglesa – Standard Edition (S.E.). London, Hogarth Press, 1974 – e serão sempre mencionados pela abreviatura: S.E. seguida do volume em que se encontram.

CAPÍTULO I: A QUESTÃO DA PSICANÁLISE NA OBRA DE KARL POPPER


“... Após o colapso do Império Austríaco, a Áustria havia passado por uma revolução: a atmosfera estava carregada de slogans e idéias revolucionárias; circulavam teorias novas e freqüentemente extravagantes. Dentre as que me interessavam, a teoria da relatividade de Einstein era sem dúvida a mais importante; outras três eram a teoria da história de Marx, a psicanálise de Freud e a “psicologia individual” de Alfred Adler.

... Durante o verão de 1919, comecei a me sentir cada vez mais insatisfeito com essas três teorias ... passei a ter dúvidas sobre seu status científico. Meu problema assumiu, primeiramente, uma forma simples: “O que estará de errado com o marxismo, a psicanálise e a psicologia individual? Por que serão tão diferentes da teoria de Newton e especialmente da teoria da relatividade?” (Popper, 1972: 64)

Para compreendermos a insatisfação de Popper quanto ao status científico da psicanálise é necessário que esclareçamos, inicialmente, sua noção de ciência e de racionalidade. Estas sofreram desenvolvimentos no correr de sua obra, uma vez que a mesma se foi tornando um sistema cada vez mais abrangente, alcançando até a estética.

1.1 - CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER

O trajeto que propomos para o exame da evolução das concepções popperianas de ciência e racionalidade atende, fundamentalmente, a nosso campo de interesse – discussão da racionalidade da teoria psicanalítica – o que significa que deixaremos à margem uma série de questões que o programa popperiano levanta. Contudo, pensamos que as fases em que dividimos a obra de Popper correspondem às que seus comentadores estabelecem.

Assinalamos três momentos básicos para o nosso exame. A cada um corresponde uma obra maior do autor, ou seja:

1 – A Racionalidade Científica. A crítica à lógica indutiva. O critério de demarcação entre ciência e pseudociência. A noção de refutabilidade. A Lógica da Pesquisa Científica [(1934) 1974].

2 – O Racionalismo Crítico. O método de conjecturas e refutações. Introdução da noção de “lógica situacional”. Conjecturas e Refutações [(1963) 1972].

3 – A Epistemologia Evolucionária. A objetividade do conhecimento: A Teoria dos Três Mundos. Os Programas de Pesquisa Metafísica. Conhecimento Objetivo [(1973) 1975].

Neste trajeto, observamos que as noções de cientificidade e de racionalidade se vão sofisticando e, em certa medida, adquirindo uma independência, de modo a incluir também os problemas metafísicos como passíveis de crítica e desenvolvimento. Vejamos os passos de Popper neste sentido.

1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA

Popper parte da crítica ao tradicional problema da indução para formular sua proposta para uma epistemologia ou lógica ou teoria do método científico, não fazendo qualquer distinção entre tais noções – epistemologia, lógica e método – no que diz respeito à avaliação do empreendimento científico (Popper,1974:51). Sua preocupação, neste momento, é a de estabelecer uma clara distinção entre ciência e pseudociência.

“A tarefa da lógica da pesquisa científica, ou da lógica do conhecimento, é, segundo penso, proporcionar uma análise lógica desse procedimento, ou seja, analisar o método das ciências empíricas.” (Popper,1974:27) Tomando uma atitude prescritiva, afasta do método das ciências empíricas qualquer tentativa de baseá-lo, em sua origem, na experiência. Esta só pode fornecer-nos enunciados singulares e a passagem destes para enunciados universais – hipóteses ou teorias – exigiria um princípio de indução que não se justificaria pela experiência. Qualquer tentativa de justificá-lo, a partir de novas observações, levaria a uma regressão infinita. Até este ponto não se afasta, ou faz qualquer acréscimo, aos argumentos de Hume. Contudo, sua originalidade reside no radical exame e relevância que empresta à crítica humeana à indução, mas procurando recuperar o caráter racional, lógico, da atividade científica. Reafirma a inutilidade do método indutivo para a pesquisa científica, utilizando argumentos estritamente lógicos. Através da aplicação do Modus Tollens, mostra que se uma teoria T implica a ocorrência de a, e se tal não ocorre, ou seja: -a; poderíamos deduzir: -T. Esta formulação, extremamente simples, vai constituir-se na pedra angular de sua proposta do critério de refutabilidade como sendo o único sustentável para a avaliação das teorias científicas. Em outros termos: se a falsidade da conclusão se transmite às premissas, a uma delas pelo menos, a verdade do conseqüente não implica na verdade das premissas, o que seria uma conhecida falácia, a da afirmação do conseqüente. Insistimos neste ponto, pois, Popper será fiel durante toda a sua obra a esta formulação lógica, afastando qualquer argumentação psicológica para lidar com o problema da indução. A mesma atitude se mantém quando discute o questionamento humano da conexão causal: não aceita o hábito como elemento explicativo da crença em regularidades, desenvolvendo a noção de expectativa; noção que procurará fundamentar em termos não psicológicos, na última fase de sua obra, atribuindo-lhe um caráter inato. Popper separa o problema da indução do problema da causalidade (Popper,1974). Seguiremos sua sugestão, deixando para outro momento discutir sua solução para a causalidade. Sua solução para a indução se, por um lado, parece-nos definitiva em relação aos verificacionistas, seus principais interlocutores naquele momento, por outro, levanta uma série de questões, algumas das quais examinaremos com maior cuidado.

Uma vez afastada a lógica indutiva, fica questionado o papel da observação ou da experiência perceptual, como fontes de evidência imediata. Isto leva Popper a formular novos, ou repensar antigos temas da epistemologia. Selecionamos alguns que vão ser úteis em nossa futura discussão do alcance e validade de sua proposta. São eles:

Contexto da descoberta e contexto da justificação.

Enunciados básicos.

Base empírica.

Refutabilidade.

Critério de demarcação.

Experiências cruciais.

A todos esses tópicos, Popper oferecerá um tratamento que pretende ser puramente lógico, assim como prescindir da discussão lingüística ou transcendental. Limitar-nos-emos a descrever a proposta popperiana, deixando para outro momento a discussão dos impasses que a mesma traz.

Contexto da descoberta e contexto da justificação – Popper, visando afastar o psicologismo de sua epistemologia, vai distinguir dois momentos na formulação de uma teoria. O primeiro – contexto da descoberta – seria de caráter subjetivo, o ato de conceber ou inventar uma teoria, não necessário, nem passível de uma análise lógica, não sendo objeto da epistemologia. “A questão de saber como uma idéia nova ocorre ao homem – trate-se de um tema musical, de um conflito dramático ou de uma teoria científica – pode revestir-se de grande interesse para a psicologia empírica, mas não interessa à análise lógica do conhecimento científico.” (p.31) A lógica da pesquisa científica não estaria interessada em questões de fato (quid facti? de Kant) mas em questões de justificação (quid juris? de Kant). Este segundo momento – o contexto da justificação – seria o domínio por excelência da epistemologia. Nele estariam as questões fundamentais da lógica da pesquisa científica, ou seja: uma vez formulada uma teoria, caberiam as indagações: seus enunciados podem ser justificados? Em caso afirmativo, como? São suscetíveis de prova? Dependem de outros, ou, contradizem-nos? A rigor, estas são as questões básicas para Popper. Delas podemos deduzir as demais, como: qual o enunciado, ou enunciados, que seriam fundamentais para testar uma teoria? Que características deveriam ter tais enunciados? Frisa que enunciados só podem ser comparados por outros enunciados.

Enunciados básicos – Para Popper, enunciado básico, ou proposição básica, é “um enunciado que pode atuar como premissa numa falsificação empírica; em suma, o enunciado de um fato singular”. (p.45) Nesse momento, preocupa-se Popper em afastar qualquer conotação psicológica ou positivista de sua noção de enunciado básico, dado o relevante papel que ele desempenhará em sua teoria. Vai da mesma forma negar a possibilidade de verificação de enunciados e a concepção de que nossas experiências subjetivas ou nosso sentimento de convicção possam justificar qualquer enunciado. Baseia-se em Kant para distinguir o “objetivo” do “subjetivo”. Objetivo seria o conhecimento científico capaz de ser justificável, independente de capricho pessoal, sendo sua justificação objetiva, na medida em que pode ser submetida à prova e compreendida por todos.[13] Subjetivo seria qualquer conhecimento que se baseasse em nossos sentimentos de convicção. Na medida em que os enunciados básicos vão desempenhar relevante papel na proposta popperiana, está ela comprometida em dar conta de seu estatuto e, conseqüentemente, enfrentar novas questões que ultrapassam os critérios até então exclusivamente metodológicos. Referimo-nos, especificamente, à discussão do caráter empírico de tais enunciados, questões que se encontram em pleno campo da teoria do conhecimento.

A base empírica – Ciente deste problema, Popper parte do reconhecimento da questão colocada por Fries – conhecida como o trilema de Fries (dogmatismo vs. regressão infinita vs. psicologismo) - relativa ao impasse que traz repousar a justificação do conhecimento científico nas experiências sensoriais. Reconhece o problema, mas não aceita a solução de Fries (psicológica), apresentando sua alternativa. Assim coloca a questão:

“Poucos pensadores se perturbaram tão profundamente com o problema da base da experiência quanto Fries.[14] Ensinou ele que , se não cabe aceitar dogmaticamente os enunciados da Ciência, devemos ter como justificá-los. Se exigirmos justificação através de argumento que desenvolva razões, no sentido lógico, seremos levados à concepção segundo a qual enunciados só podem ser justificados por enunciados. A exigência de que todos os enunciados devam ser logicamente justificados (a que Fries se refere falando em ‘predileção por demonstrações’) tende, portanto, a conduzir a uma regressão infinita. Ora, se quisermos evitar o perigo do dogmatismo, ao mesmo tempo que a regressão infinita, aparentemente não restará outro recurso que não o psicologismo, isto é, a doutrina de acordo com a qual enunciados podem encontrar justificação não apenas em enunciados, mas também na experiência perceptual.” (p.p.99-100)

Popper critica a opção tradicional pelo psicologismo, ou seja, pela concepção de que a experiência sensorial nos fornece um “conhecimento imediato”, cuja representação será mediatizada pelo simbolismo de alguma linguagem, nos enunciados da ciência. Tal caráter de evidência imediata do conhecimento pelo sensório nos daria um sentimento de convicção, segundo o verificacionismo. Contrapõe-se a este ponto de vista, considerando-o baseado na indução e em universais. Dá como exemplo a afirmação: “aqui está um copo com água”. Esta trivial descrição perceptual – como todo enunciado singular, contém termos universais que transcendem a experiência - não admite verificação, uma vez que supõe universais (“copo”, “água”) que não se prestam a correlação com qualquer experiência sensorial específica, que é única, ocorrendo apenas uma vez. Continuando sua crítica, vai agora voltá-la para a solução de Carnap e Neurath das sentenças protocolares. Tais autores admitem que a ciência não discute percepções nem experiências mas sentenças. “Diz ele (Carnap) que as sentenças da Ciência são submetidas à prova ‘através do auxílio de sentenças protocolares’”. (p.102) Tais sentenças protocolares forneceriam os dados mais simples de serem suscetíveis de conhecimento, os conteúdos da experiência imediata, os fenômenos. Sentenças protocolares são registros ou protocolos de observações imediatas ou de percepções. Os defensores de tal formulação admitem que as sentenças protocolares sejam suscetíveis de reavaliação. Apesar dessa reavaliação crítica, que Popper considera um notável avanço em relação à solução de Fries, descarta as sentenças protocolares, por considerá-las uma tradução formal do antigo psicologismo e, ao evitar o dogmatismo, abrir espaço para a arbitrariedade, pois, qualquer sistema poderia tornar-se defensável, bastando rever as sentenças que lhe seriam incompatíveis. Em suma: “Como Neurath não tenta solucionar o problema da demarcação, sua idéia de sentenças protocolares parece mero resíduo – lembrança remanescente da concepção tradicional, defensora de que a Ciência se origina da percepção.” (p.104) Toda sua argumentação conduz à busca de uma objetividade para a ciência e, em particular, para sua base empírica. Nesta procura parte da distinção entre “Ciência objetiva, de um lado, e ‘nosso conhecimento’, de outro” (p.104) Tal distinção tem importantes conseqüências para a epistemologia popperiana, pois, vai deslocar a tradicional preocupação com as fontes do conhecimento para a avaliação de seus produtos. Entregando o estudo das fontes do conhecimento à psicologia, sociologia ou outros campos, passa a detalhar o que entende por um enunciado básico, elemento fundamental para sua proposta metodológica de basear a ciência na avaliação dos produtos das teorias, na testabilidade. Resume suas exigências em relação aos enunciados básicos na regra: “enunciados básicos têm a forma de enunciados existenciais singulares.” (p.109) Continua, mais adiante:

“Tais são os requisitos formais dos enunciados básicos; vêem-se eles satisfeitos por todos os enunciados existenciais singulares. Além desses requisitos, um enunciado básico deve satisfazer, ainda, um requisito de cunho material – requisito concernente ao evento que, tal como expressa o enunciado básico, está ocorrendo no lugar k. Deve tratar-se de um evento “observável”, ou seja, os enunciados básicos hão de ser suscetíveis de teste, intersubjetivamente, com base em ‘observação’. Como se trata de enunciados singulares, esse requisito, naturalmente, só se pode referir a observadores adequadamente colocados no espaço e no tempo – ponto que não aprofundarei.” (p.110)

Popper procura defender-se de ter reintroduzido, sub-repticiamente, o psicologismo através do termo “observável”. Alega que o introduz como um termo não definido, um conceito primitivo, que se tornaria preciso com o uso.

Sua preocupação em caracterizar o enunciado básico está voltada para a resolução do trilema de Fries. “Toda prova de uma teoria, resulte em sua corroboração ou em seu falseamento, há de deter-se em algum enunciado básico que decidimos aceitar.” (p. 111) Mais adiante apresenta sua solução para o trilema de Fries:

“Qual a nossa posição agora, com respeito ao trilema de Fries, escolha entre dogmatismo, regressão infinita ou psicologismo ? Os enunciados básicos em que nos detemos, que decidimos aceitar como satisfatórios e como suficientemente aprovados pelas provas, têm, reconhecidamente, o caráter de dogmas, mas apenas na medida em que desistirmos de justificá-los por argumentos outros (ou por outras provas). Essa espécie de dogmatismo é, todavia, inócua, pois que, surgida a necessidade, os enunciados podem ser facilmente submetidos a provas complementares. Admito, em princípio, que isso torna infinita a cadeia de deduções. Contudo, essa espécie de regressão infinita é também inócua, uma vez que, em nossa teoria, não se coloca empenho em tentar provar, por meio dela, qualquer enunciado. Finalmente, no que concerne ao psicologismo, admito que a decisão de aceitar um enunciado básico e dá-lo por satisfatório está causalmente relacionada com nossas experiências – em especial, a nossas experiências perceptuais. Não tentamos, porém, justificar enunciados básicos através do recurso a essas experiências. As experiências podem motivar uma decisão e, conseqüentemente, a aceitação ou rejeição de um enunciado, mas um enunciado básico não pode ver-se justificado por elas – não mais do que por um murro na mesa.” (pp. 112-113)

Popper assume que os enunciados básicos são aceitos “como resultado ou concordância ... são convenções”. (p.113) Entretanto, não se considera um convencionalista, pois, ao contrário deste, sua proposta em relação ao método empírico não implica numa aceitação de enunciados universais, por convenção ou decisão, mas sim de enunciados singulares, ou seja, de enunciados básicos. Para o convencionalista a escolha de enunciados universais se daria pelo princípio da simplicidade, escolhendo o mais simples dos sistemas. Popper frisa que, diferentemente, propõe a escolha a partir do rigor das provas. Reconhece, contudo, que da mesma forma que o convencionalista considera a escolha de qualquer teoria particular como um ato, uma questão prática. Com o correr do trabalho veremos como vai procurar, com êxito ou não, afastar-se o mais possível do convencionalismo. Por enquanto julgamos mais importante registrar o próximo passo de Popper: a refutabilidade como critério de demarcação entre ciência (ciência empírica) e pseudociência.

Refutabilidade como critério de demarcação – Popper considera que uma vez afastada a lógica indutiva da metodologia científica se faz necessário encontrar um critério de demarcação entre ciência empírica e metafísica, assim como da lógica e matemática. Antes de apresentar sua proposta faz uma crítica aos positivistas que tentariam apresentar um critério que, fundamentalmente, não difere da lógica indutiva. Pois, ao atribuírem significado somente aos enunciados referentes à experiência, desqualificando qualquer enunciado que não seja redutível a enunciados elementares, ou “atômicos”, a “juízos de percepção”, ou “sentenças protocolares”, caem no mesmo erro de atribuir um papel à experiência que ela não pode suportar. Vê nesta posição mais um desejo de eliminar a metafísica, como “sofistaria e ilusão” (citando Hume), do que em estabelecer uma demarcação. Agrega à sua argumentação que nenhuma lei científica pode ser reduzida a enunciados elementares da experiência. Acredita que a única possibilidade de um critério de demarcação consistente seria fruto de uma convenção. Daí sua ênfase na noção de “enunciados básicos”, que detalhamos anteriormente, e que desempenharão um importante papel em sua proposta. Uma vez ser impossível a verificação pela experiência, propõe:

“... só reconhecerei um sistema como empírico ou científico se ele for passível de comprovação[15] pela experiência. Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação, não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema. Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através do recurso a provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico.” (p.42)

Popper se antecipa a possíveis críticas – cujas respostas constituirão boa parte de sua obra - mencionando:

1 – que a ciência, de quem se espera informações positivas, nada perde ao ser definida por uma negatividade, a sua refutabilidade. Pois, as informações sobre o mundo são tanto maiores quanto mais conflitos gerem com possíveis enunciados singulares. “Não é por acaso que chamamos ‘leis’ às leis da natureza: quanto mais proíbem, mais dizem.” (p.43)

2 – que podem alegar, contra sua proposta, os mesmos argumentos que usa, ou seja: que a falseabilidade estaria sujeita às mesmas restrições que a verificabilidade. Defende-se, lembrando a assimetria que existe entre ambas, oriunda da forma lógica dos enunciados universais. Estes nunca podem ser derivados de enunciados singulares, ao passo que estes últimos podem contraditar os enunciados universais (com o emprego do modus tollens).

3 – que seria sempre possível a introdução de hipóteses auxiliares – ad hoc – para evitar que um sistema seja refutado, sem incoerência lógica. Alega que não é assim que os cientistas agem e prescreve, como principal característica de um verdadeiro método científico empírico: “... sua maneira de expor à falsificação, de todos os modos concebíveis, o sistema a ser submetido a prova. Seu objetivo não é o de salvar a vida de sistemas insustentáveis, mas, pelo contrário, o de selecionar o que se revele, comparativamente, o melhor, expondo-os todos à mais violenta luta pela sobrevivência.” (p.44)

Em sua apologia do critério de demarcação proposto, acrescenta um ponto que será de suma importância em sua futura posição fortemente realista. Ou seja: pensa que sua proposta resolve a questão levantada por Hume quanto à validade das leis naturais. Considera que Hume estava correto em sua argumentação, no que diz respeito à impossibilidade do uso de argumentos indutivos, o que implicaria na denúncia da tese fundamental do empirismo (“só a experiência pode decidir acerca da verdade ou falsidade de um enunciado científico”). Entretanto, julga Popper que esta contradição do empirismo fica superada se admitirmos que os enunciados decisíveis são apenas os falseáveis, passíveis de refutação. Tal posição levará Popper a uma radical postura em relação aos fundamentos do empreendimento científico:

“A base empírica da ciência objetiva nada tem, portanto, de ‘absoluto’. A ciência não repousa em pedra firme. A estrutura de suas teorias levanta-se, por assim dizer, num pântano. Semelha-se a um edifício construído sobre pilares. Os pilares são enterrados no pântano, mas não em qualquer base natural ou dada. Se deixamos de enterrar mais profundamente esses pilares, não o fazemos por termos alcançado terreno firme. Simplesmente nos detemos quando achamos que os pilares estão suficientemente assentados para sustentar a estrutura – pelo menos por algum tempo.” (p.119)

Experiências cruciais – Uma vez estabelecido o critério de demarcação, baseado na refutabilidade, surge a questão de estabelecer os procedimentos necessários para as experiências refutadoras. Tais procedimentos constituem as experiências cruciais. Teriam elas a responsabilidade de descartar ou corroborar, pelo menos temporariamente, as teorias em teste. Acautela-se Popper do que denomina “estratagemas convencionalistas”, ou seja, diversas reformulações da teoria em questão que a tornassem irrefutável, resistente às experiências cruciais. Popper admite que não possa dirimir seu conflito com os convencionalistas através de uma discussão teórica. Enumera alguns dos argumentos convencionalistas que seriam indiscutíveis: a introdução de hipóteses ad hoc; a modificação das definições ostensivas da teoria; a atitude cética no que se refere à confiabilidade do experimentador; assim como à sua perspicácia. Interessante registrar que aqui faz uma de suas primeiras menções à psicanálise: “Caberá ao investigador, especialmente nos campos da Sociologia e da Psicologia (o físico dificilmente necessitaria de tal advertência) prevenir-se constantemente contra a tentação de empregar novos estratagemas convencionalistas – tentação a que os psicanalistas, por exemplo, sucumbem com freqüência.” (p.87)

Popper resolve, neste momento, seu conflito com os convencionalistas utilizando suas próprias armas: “O único meio de evitar o convencionalismo é ‘tomar uma decisão: a decisão de não aplicar-lhe o método. Decidimos que, se nosso sistema sofrer ameaça, nunca procuraremos preservá-lo recorrendo a qualquer espécie de estratagema convencionalista.” (p. 86) Em conseqüência vai tratar, por exemplo, as hipóteses auxiliares ad hoc – que poderiam proliferar, salvando o sistema em teste – com rigor. “Com respeito às hipóteses auxiliares, propomos assentar a regra de que somente serão aceitáveis aquelas cuja introdução não reduza o grau de falseabilidade ou testabilidade do sistema em causa, mas ao contrário, o eleve.” (p.87) Continuando suas exigências para garantir as experiências cruciais, vai concluir:

“... uma teoria será chamada de ‘empírica’ ou ‘falseável’ sempre que, sem ambigüidade, dividir a classe de todos os possíveis enunciados básicos nas seguintes duas subclasses não vazias:

primeiro, a classe de todos os enunciados básicos com os quais é incompatível (ou que rejeita, ou proíbe): - a essa classe chamamos de classe dos falseadores potenciais da teoria; e segundo, a classe de enunciados básicos que ela não contradiz (ou que ela ‘permite’).

... Mais resumidamente, poderíamos apresentar o ponto dizendo: uma teoria é falseável se não estiver vazia a classe de seus falseadores potenciais.” (pp. 90-91)

Embora neste momento esteja Popper interessado em testar uma teoria isoladamente, a noção de experiência crucial tem o outro aspecto de decidir entre duas teorias rivais. Deste tipo de experiência, uma teoria sai refutada e a outra corroborada. Poderíamos dizer que este seria o critério popperiano para a complexa questão da escolha de teorias.

Julgamos ter apresentado de maneira extremamente sucinta, e acreditamos fidedigna, as idéias centrais da epistemologia popperiana neste primeiro momento de sua vasta obra. Do relatado, ressaltamos que sua noção de racionalidade se confunde com a de cientificidade. Esta, por sua vez, está restrita às ciências empíricas, as quais encontram seu fundamento nos enunciados básicos. Entendemos que tal noção – enunciado básico – é uma contribuição original de Popper de grande relevância, não só para a compreensão de sua epistemologia, mas para nortear todo o debate que se seguiu.

Procuramos no sucinto relato ater-nos à Lógica da Pesquisa Científica, como texto de referência, evitando inclusive certas notas que o autor acrescentou posteriormente, já em resposta a seus críticos. Tomamos tal precaução para acompanharmos o mais possível o desdobramento cronológico do pensamento de Popper. Cabe agora a menção, mesmo que superficial, às principais críticas que lhe foram feitas. Muitos dos pontos essenciais da crítica à epistemologia popperiana estão expressos na clássica coletânea, organizada por Imre Lakatos e Alan Musgrave, A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento. A importância das contribuições de Popper podem ser avaliadas, precisamente, pela grande quantidade de questionamentos que suscitou, em especial, no mundo anglo-saxão; forçando-o a acrescentar inúmeras notas de rodapé, apêndices, pós-escritos à sua Lógica. Isto nos faz lembrar o comentário de Thomas Kuhn que quando tal ocorre é sinal de crise do paradigma. Pensamos que, de fato, o paradigma proposto por Popper para a epistemologia se mostrou insuficiente para lidar com inúmeras questões, embora representasse um espetacular avanço em relação ao verificacionismo e indutivismo, até então reinante. Por outro lado, a percepção de tais dificuldades levou Popper a uma segunda fase de sua obra, que discutiremos a seguir, representada pela publicação de Conjecturas e Refutações. A fim de não acumular excessivamente questões, mencionaremos conforme o prometido algumas das críticas aos pontos fundamentais que listamos anteriormente, não obedecendo no caso uma ordem cronológica.

A noção de contexto de descoberta e contexto de justificação foi duramente criticada por Feyerabend – brilhante discípulo dissidente – em Contra o Método. O capítulo XIV do referido texto, em que trata especificamente do tema, apresenta-o da seguinte forma:

“Os resultados até agora conseguidos trazem em seu bojo a sugestão de abolir a distinção entre contexto da descoberta e contexto da justificação e de pôr de parte a distinção correlata entre termos observacionais e termos teoréticos. Nenhuma dessas distinções tem papel a desempenhar na prática científica. Tentativas de dar-lhes força trariam conseqüências desastrosas.” (p.257)

Sua argumentação apóia-se na história da ciência, questionando a possibilidade de distinção dos domínios da descoberta e da justificação uma vez que o último só pode ocorrer após o primeiro, ou melhor, que estão implicados. Admite que as atividades que pertencem ao contexto da descoberta são não apenas diferentes mas, sobretudo, conflitantes com as do contexto de justificação. E uma vez que a ciência se desenvolve a partir da descoberta, restaria saber a qual contexto se deveria dar tratamento preferencial. Em capítulos anteriores já havia discutido os experimentos de Galileu, procurando demonstrar que a vitória da física deste sobre a de Aristóteles obedeceu a razões de ordem muito diferente que as propostas por uma metodologia justificacionista. Ou seja: mudança do critério de evidência (do valor das impressões sensoriais para o dos dados fornecidos pelos instrumentos), da concepção de movimento, de experiência e de interpretação natural. Por outro lado, nada a favor de tais modificações obedeceu a uma argumentação racional, sendo inclusive mal sucedidas suas previsões. Em suma: defende que a distinção – descoberta e justificação – é artificial, arbitrária, ocultando o fato de ocorrer, na realidade, uma mudança de cosmologias, a criação de novas ontologias, afetando tanto os processos de descoberta como os critérios de teste. Na mesma linha vai considerar como definitivamente perdida a distinção entre termos observacionais e termos teoréticos:

“Enfim, descobrimos que o aprendizado não se desenvolve da observação para a teoria, mas sempre envolve ambos esses elementos. A experiência aparece acompanhada de pressupostos teóricos e não antes deles; e a experiência sem teoria é tão incompreensível quanto (supostamente) a teoria sem experiência: eliminemos parte do conhecimento teorético de um ser senciente e teremos pessoa completamente desorientada e incapaz de realizar a mais simples das ações. Eliminemos maior porção de conhecimento e o mundo sensorial dessa pessoa (sua “linguagem de observação”) começará a desintegrar-se, desaparecerão a sensação de cor e outras sensações simples, até que a pessoa venha a achar-se em estágio mais primitivo que o de um bebê.” (p.263)

A crítica de Feyerabend é bem mais abrangente do que está aqui relatado, desta forma remetemos o leitor a um anexo onde expomos nossa compreensão da mesma (Anexo I: A Razão e as “razões” de Paul Feyerabend). Para os nossos propósitos imediatos, vamos deter-nos aqui, apesar de registrar que tal crítica acompanhará, sob certo aspecto, todo o nosso texto.

Os enunciados básicos e a base empírica da ciência propostos por Popper foram também objeto de várias contestações, o que necessariamente não implica num não reconhecimento de seu valor e utilidade. Zahar num instigante texto (“O Problema da Base Empírica”, in Karl Popper – Filosofia e Problemas, org. Anthony O´Hear) vai rediscutir a proposta popperiana, partindo entre outros pontos do mesmo problema levantado por Feyerabend quanto à natureza da linguagem observacional. Zahar propõe a tese, que reconhece como ousada, “ ... de que uma abordagem fenomenológica da base empírica constitui um complemento necessário ao falseacionismo de Popper.” (p.57) Sustenta que “...em epistemologia, a única distinção legítima parece ser a que separa relatos de nível zero do resto, ou seja, de todas as proposições transcendentes.” (p.66) O alvo principal de sua crítica é a rapidez convencionalista com que Popper aceita enunciados básicos “não problemáticos”. A respeito faz a seguinte citação de Popper: “O conhecimento é possível, portanto, porque existem enunciados básicos “não problemáticos” (análogos às proposições intuitivamente certas sobre os dados dos sentidos), isto é, enunciados básicos que não precisam mais ser testados, e que não devem ser questionados depois que o acordo intersubjetivo tiver sido alcançado.” (in, Die beinden Grundprobleme, p.123) Vai discordar de John Watkins que sustentava que enunciados de nível um – dados sensoriais – constituiriam a base da física e que as proposições de nível zero, autopsicológicas, na primeira pessoa, seriam assunto exclusivo da psicologia e da psicobiologia. Para Zahar: “... somente relatos autopsicológicos deveriam ser considerados enunciados científicos básicos.” (p.60)[16]

Crítica mais ampla, mantendo os parâmetros popperianos, partiu de Imre Lakatos e resultou numa nova proposta epistemológica: “A Metodologia de Programas de Pesquisa Científica”. Em seu conhecido ensaio: “O Falseamento e a Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica”, na antologia já citada que organizou com Alan Musgrave, expõe sua crítica e proposta. A primeira – a crítica - parte dos inúmeros problemas que acarretam a noção de falseacionismo. Entendemos que como pano de fundo desta crítica está a tese Duhem-Quine que afirma a impossibilidade de refutação de uma teoria isolada, sem que todo o conjunto de que faz parte não o seja. Lakatos que, num Adendo, vai tentar superar este dilema, assim formula a referida tese:

“De acordo com a ‘tese Duhem-Quine’, em havendo imaginação suficiente, qualquer teoria (quer consista numa proposição, quer consista numa conjunção finita de muitas proposições) pode ser salva permanentemente da ‘refutação’ por algum ajustamento adequado no conhecimento de fundo em que está incluída. Como diz ‘aconteça o que acontecer, qualquer pronunciamento pode ser considerado verdadeiro, se fizermos ajustamentos suficientemente drásticos em outros pontos do sistema ... Inversamente, nenhum enunciado é imune à revisão’ (citação de Quine, in From a Logical Point of View, 1953, cap. II) De mais a mais, o ‘sistema’ é nada menos que o ‘conjunto da ciência’. ‘Uma experiência recalcitrante pode ser acomodada por uma de várias reavaliações alternativas em vários pontos alternativos do sistema total [incluindo a possibilidade de reavaliar a própria experiência recalcitrante]’.” (Lakatos e Musgrave, 1979:229)[17]

Atento à fragilidade a que a tese Duhem-Quine expõe o falseacionismo popperiano, Lakatos vai examiná-lo detidamente, tentando uma correção de reforço. Em primeiro lugar, divide as posições falseacionistas em duas: o falseacionismo dogmático, naturalista ou ingênuo, que daria ao enunciado singular refutador a força de condenar uma teoria científica irreversivelmente; e o falseacionismo sofisticado, ou metodológico, que utilizaria a noção de refutabilidade não para uma teoria isolada mas para uma série de teorias, sempre em comparação com uma concorrente que a superaria na medida em que apresentasse maior capacidade explicativa e maior conteúdo empírico. Neste caso, a refutação teria caráter provisório e comparativo. Considera Lakatos que o falseacionismo dogmático é insustentável por basear-se em duas suposições falsas:[18]

“A primeira suposição é que há uma fronteira natural, psicológica, entre as proposições teóricas ou especulativas de um lado e as proposições factuais ou observacionais (ou básicas) de outro. Isto, naturalmente, faz parte do ‘enfoque naturalista’ do método científico.

A segunda suposição é que se uma proposição satisfaz ao critério psicológico de ser factual ou observacional (ou básica), ela é verdadeira; é possível afirmar que foi demonstrada a partir dos fatos. Chamarei a esta a doutrina da prova observacional (ou experimental).” (p.118)

A essas suposições, que considera refutadas (a primeira, pela psicologia; a segunda, pela lógica), acrescenta outra base – também insustentável – que seria um critério demasiado rigoroso de demarcação entre o científico e o não-científico. A respeito deste último ponto diz: “são exatamente as teorias científicas mais admiradas que simplesmente falham em proibir qualquer estado observável de coisas.” (p.121) Formula um exemplo imaginário que refutaria a teoria newtoniana e como o mesmo poderia ser afastado pelos cientistas, tal como usualmente o fazem. Numa nota de rodapé há um breve referência à psicanálise: “Popper pergunta: ‘Que espécie de respostas clínicas refutaria, para satisfação do analista, não só um diagnóstico particular mas a própria psicanálise?’ ... Mas que espécie de observação refutaria, para satisfação dos newtonianos, não só determinada versão mas também a própria teoria newtoniana ?” (p.122)

Em sua proposta de uma Metodologia de Programas de Pesquisa, Lakatos vai defender a idéia de que os cientistas trabalham com conjuntos de teorias, os quais têm um núcleo inquestionável, que se torna irrefutável por estar protegido por um cinturão de teorias particulares que explicariam as anomalias e se ofereceriam a testes, não permitindo a aplicação do Modus Tollens ao núcleo. Dá como exemplo histórico de um programa de pesquisa bem-sucedido a teoria gravitacional de Newton. O “oceano de anomalias”(sic) em que tal teoria estava mergulhada foi afastado pela criação de modelos, teóricos, que procurariam dar conta das mesmas, deixando para um futuro a corroboração empírica. Assim, segundo Lakatos, caminhariam os grandes programas de pesquisa, não se deixando refutar com facilidade, transferindo problemas para o cinturão protetor, sempre à espera de confirmações futuras retrospectivas da teoria básica. Caso o programa mostre progresso empírico, em competição com outros, é dado como progressivo, em caso contrário, como degenerativo. Observa-se que há nesta proposta uma preocupação em harmonizar a epistemologia com a prática concreta dos cientistas e com a história do desenvolvimento da ciência.

Neste debate já se faz sentir a presença de Kuhn e suas noções de revoluções científicas, paradigma, ciência normal, e outras, contra as quais quer Lakatos apresentar uma alternativa, uma vez que a proposta original de Popper não se harmonizaria com as descrições históricas do real desenvolvimento e prática científicas, por ser uma proposta fortemente prescritiva.

Dado que nosso objetivo é discutir especificamente a questão da racionalidade da teoria psicanalítica não nos deteremos mais neste debate que rascunhamos apenas para ilustrar os temas que estavam em discussão, aos quais de certa forma retornaremos no capítulo dedicado à proposta epistemológica de Larry Laudan. Por enquanto, julgamos mais objetivo passar para a segunda fase de Popper, na qual tentará dar conta da racionalidade de teorias metafísicas. Pois, como vimos, até este momento, racionalidade e cientificidade se confundem e, a segunda, se refere fundamentalmente às ciências empíricas. Deve ser registrada a ausência de exame de exemplos das ciências humanas, talvez por escaparem da estreita noção de racionalidade utilizada.

1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO

Popper, nesta segunda fase de sua obra, vai preocupar-se com o desenvolvimento do que chamou “o método de conjecturas e refutações.” Observamos que nesse momento seu interesse está voltado para abarcar a metafísica – designação que emprega de modo vago, abrangendo tudo aquilo que escaparia à ciência empírica – em seu projeto epistemológico. Anteriormente, rascunhamos algumas das principais críticas que lhe foram feitas e que embora rebatidas por Popper, tiveram também eco em seu empreendimento filosófico e, a nosso ver, motivaram esta investida no terreno da metafísica, exigindo-lhe o desenvolvimento de novas propostas metodológicas. Cremos que tal interpretação é correta, pois, logo no primeiro capítulo de sua principal obra desta fase – Conjecturas e Refutações (O Progresso do Conhecimento Científico) – vemos o autor retomar o tema da demarcação, agora, com novos argumentos, tentando salvar a racionalidade daquelas teorias que não se enquadravam em seu estreito critério de demarcação. Por outro lado, como se pode observar no sub-título de sua principal obra deste período (O Progresso do Conhecimento Científico), é evidente sua preocupação em dar conta de um dos pontos mais questionados de sua proposta: a insuficiência para explicar o progresso científico que, segundo todas as pesquisas históricas, não obedece critérios de racionalidade tão rigorosos e acanhados como os propostos por Popper. Verificamos, então, que sua noção de racionalidade vai afastar-se dos constrangimentos da cientificidade e vai aproximar-se da noção de pensamento crítico. Esta fase consolida o que veio a ficar conhecido como o seu racionalismo crítico.

Seguindo a mesma linha do item anterior, apresentamos de forma sucinta os principais passos da argumentação popperiana e, em seguida, as críticas que suscitou. Podemos dividir sua exposição em dois grandes temas: As Origens do Conhecimento e da Ignorância e o Método de Conjecturas e Refutações.

As Origens do Conhecimento e da Ignorância – Este é o título da conferência introdutória de sua obra citada, na qual resume a idéia central que irá desenvolver na série de ensaios subseqüentes. Seu ponto de partida é a crítica à noção de verdade evidente(sic), a cujo acesso estaríamos impedidos pela “ação de uma força sinistra, origem de influências impuras e maléficas que pervertem nossa mente e nos impõem o hábito de resistir ao conhecimento (teoria da conspiração).” (p.31) Embora cite o marxismo como uma teoria típica do conjunto de teorias da conspiração, a rigor seu alvo mais amplo é toda epistemologia que pretenda fundamentar o conhecimento numa origem. Nesta empreitada crítica, corrente alguma será poupada, como textualmente diz:

“Nesta conferência, procurarei demonstrar que as diferenças entre as escolas empirista e racionalista são em verdade bem menos expressivas do que as semelhanças, e que ambas estão erradas. Sustento que estejam erradas embora eu mesmo seja um empirista e um racionalista. Mas acredito que, embora tanto a razão como a observação desempenhem funções importantes, essas funções pouco se assemelham às que seus defensores clássicos lhes atribuíam. Mais precisamente, procurarei demonstrar que nem a observação nem a razão podem ser descritas como fontes do conhecimento, no sentido em que até hoje têm sido definidas.” (p.32)

Opõe-se tanto ao que denomina epistemologias otimistas (Bacon e Descartes) quanto às que designa como pessimistas (as diversas formas de irracionalismo ou de ceticismo e, sobretudo, as correntes relativistas que começavam a ganhar terreno). Considera que ambas as tendências falham por buscarem as fontes do conhecimento, com esperança ou desespero. Pensa que o erro fundamental de tais empreendimentos está em não distinguir com suficiente clareza a origem da validade do conhecimento. A autoridade dos sentidos, o primado da observação, a veracitas naturae, de Bacon, ou, a autoridade do intelecto, o primado das idéias claras e distintas, a veracitas Dei, de Descartes, não aboliram o papel da autoridade na epistemologia. Teriam feito apenas substituições, em lugar de Aristóteles ou a Bíblia, estariam os sentidos ou o intelecto (sic). A crítica que faz dessas epistemologias otimistas é que em ambas há o objetivo de propor um método para alcançar verdades evidentes, seguras. A “leitura do livro da natureza”, proposta por Bacon, pretendia levar ao conhecimento ou episteme, não a conjecturas. O mesmo intento é o da crítica de Bacon ao “preconceito da mente que prejulga erroneamente a natureza, e possivelmente a julga mal”, levando à doxa, às opiniões e leituras impróprias do livro da natureza.[19] Popper reafirma que sua proposta epistemológica caminha em sentido oposto, isto é, todo conhecimento depende de um conhecimento prévio, ousado, não sendo passível de ser justificado, quer por novas observações (estas teriam papel significativo somente no contexto da testabilidade, uma vez já formulada a nova teoria), o que levaria a um regresso infinito, quer pela razão; um conhecimento que só pode ser avaliado pelos seus produtos. Quanto a tentativa de fundamentação pela razão, lembra que: “a física de Descartes, embora admirável sob muitos aspectos, estava errada; contudo, ela se baseava em idéias reputadas claras e distintas – que, portanto, deveria ser verdadeiras.” (p.45) Após reiterar com novos argumentos sua crítica à busca das fontes do conhecimento, assim como rejeitar a atribuição das fontes de nossa ignorância aos obstáculos que colocamos (negligência, obstinação ou preconceitos) à contemplação da verdade evidente, faz sua proposta:

“Podemos ter a esperança de detectar e eliminar o erro criticando as teorias e opiniões alheias e – se treinarmos para isso – as nossas próprias”. (este último ponto é sem dúvida altamente desejável, mas desnecessário: se não pudermos criticar nossas próprias teorias e opiniões, haverá quem o faça por nós). Essa resposta sintetiza a visão do que sugiro chamarmos de “racionalismo crítico”: um ponto de vista, uma atitude e uma tradição que devemos aos gregos. É muito diferente do “racionalismo” e do “intelectualismo”, da escola de Descartes e também muito diferente da epistemologia de Kant. Contudo, é uma posição que, no campo da ética e do conhecimento moral, foi abordada por Kant com o seu princípio da autonomia. Este princípio expressa a percepção do filósofo de que não devemos aceitar o comando de uma autoridade – por mais sublime que seja – como base da ética. Sempre que defrontamos um comando dado por uma autoridade devemos julgar, criticamente, se obedecê-lo será um ato moral ou imoral. A autoridade poderá ter o poder de obrigar-nos a obedecer-lhe; porém, como temos a capacidade de escolher, a responsabilidade última pela ação nos pertence. Obedecer ou não uma ordem é uma decisão crítica que tomamos – como também o é a submissão a qualquer autoridade.” (p.54)

No momento da citação acima, Popper expõe não somente sua proposta – o racionalismo crítico – mas o background ético e, segundo alguns comentadores[20], político, de sua epistemologia que desempenhará um relevante papel em sua proposta filosófica.

Popper resume sua posição a respeito das origens do conhecimento e da ignorância em dez teses. Nestas, reafirma que não há “fontes últimas” do conhecimento; “a verdadeira questão epistemológica não tem a ver com fontes: perguntamos se a afirmativa é verdadeira – isto é, se concorda com os fatos”; afirma não haver conhecimento sem conhecimento prévio – tradição e conhecimento inato – sendo que ambos devem oferecer-se à crítica; o progresso do conhecimento científico estaria na modificação das teorias precedentes; volta a contestar tanto as epistemologias “otimistas” quanto as “pessimistas”, uma vez que recusa critérios de verdade, ao mesmo tempo que admite critérios de reconhecimento do erro e da falsidade; rejeita a autoridade quer da observação quer da razão, assim como relativiza a importância da precisão ou da exatidão que só interessam para a conveniência do problema em questão; sugere que toda solução de um problema levanta outros, especialmente, quando é uma solução corajosa. No que diz respeito ao papel da linguagem, diz textualmente:

“A precisão da linguagem é um fantasma; os problemas relativos ao significado e à definição das palavras na verdade não têm importância ... As palavras só têm utilidade como instrumentos para a formulação de teorias; os problemas verbais devem ser evitados a todo custo.” (p.57)

O Método das Conjecturas e Refutações – É neste primeiro capítulo do livro que tomamos como referência desta segunda fase de Popper, que vamos encontrar sua proposta para o método científico. É também neste momento que faz sua mais extensa crítica à cientificidade da psicanálise, a qual deixaremos para um tópico específico. Mais interessante, no momento, é caracterizar os passos que dá para firmar sua noção de racionalidade. Sua argumentação vai basear-se num novo exame da solução de Hume para a questão da indução e da causalidade. Embora tais problemas já tenham sido tratados na Lógica da Pesquisa Científica, são agora abordados com outra ênfase e nova linguagem, isto é, há uma visível preocupação em retomar o problema de Hume com o fito de encontrar uma racionalidade mais ampla do que meramente a de demarcação entre ciência e pseudociência. Desta forma,

vai Popper criticar a solução psicológica de Hume, ou seja, não seria o costume ou o hábito que dariam um falso suporte à indução. Considera Popper a psicologia de Hume como popular e baseada no senso comum, pois, observa que:

A – O resultado típico da repetição não é a crença numa lei, mas a formação de um comportamento ou uma expectativa que se tornam inconscientes, “fisiológicos” (como o andar de bicicleta e suas regras) e só são percebidos quando algo sai errado (“não percebemos as batidas de um relógio, mas notaremos o silêncio, se o relógio parar”).

B – Hábitos e costumes, via de regra, não se originam na repetição. Dá como exemplo o andar, falar ou o comer em horas determinadas, comportamentos que antecedem a repetição.

C – A crença numa lei não corresponde precisamente ao comportamento que revela a expectativa de uma sucessão de eventos aparentemente baseados numa lei. “Como admite Hume, uma única observação pode ser suficiente para criar uma expectativa ou uma crença – fato que ele procurava explicar como resultado de um hábito indutivo, formado por inúmeras longas seqüências repetitivas que experimentamos em período anterior da nossa vida.” (p.73)

Discorda do uso não critico da idéia central de Hume de que a repetição seja baseada na similaridade. Popper assinala que a similaridade já é fruto de uma interpretação. Interpretamos como semelhantes eventos que, então, passamos a tomar como repetições. Defende que em realidade a idéia de repetição é fruto de nossa inclinação a esperar regularidades.

“Tratava-se (referindo-se a teoria que ele, Popper, havia já defendido) de uma teoria baseada em processo de tentativas – de conjecturas e refutações. Um processo que permitia compreender por que nossas tentativas de impor interpretações ao mundo vinham, logicamente, antes da observação de similaridades. Como havia razões lógicas para agir assim, pensei que esse procedimento poderia ser aplicado também ao campo científico; que as teorias científicas não eram uma composição de observações mas sim invenções – conjecturas apresentadas ousadamente, para serem eliminadas no caso de não se ajustarem às observações (as quais raramente eram acidentais, sendo coligidas, de modo geral, com o propósito definido de testar uma teoria procurando, se possível, refutá-la).” (p.76)

Embora rejeite, com veemência, a teoria das idéias inatas, advoga que “... todos os organismos têm reações ou respostas inatas – entre elas, respostas adaptadas a acontecimentos iminentes. Podemos descrever essas respostas como “expectativas” sem implicar que tais “expectativas” sejam iminentes.” (p.77) Ressalta que tais “expectativas inatas” não devem ser confundidas com um conhecimento válido a priori, pois, podem equivocar-se. Assim, um bebê nasce com a expectativa de ser alimentado mas pode ser abandonado e morrer de fome; este é o seu exemplo.

Com a introdução de “expectativas inatas” procura não só contrapor-se à solução de Hume, quanto ao papel do hábito, mas fundamentar seu método, entendendo que todo cientista trabalha também com um “horizonte de expectativas”, que são seus interesses teóricos, seu problema, suas conjecturas e antecipações, as teorias que aceita como seu pano de fundo e quadro de referências. A noção de “expectativas inatas” assumirá um papel cada vez mais relevante na proposta popperiana, principalmente, em sua última fase, a da “epistemologia evolucionária”. No momento em discussão ela equivale mais a uma fundamentação das conjecturas, como ponto de origem de qualquer conhecimento.

Popper aproxima sua proposta de solução ao “problema de Hume” – a justificação da indução e da causalidade – à solução kantiana. Porém, faz então um reparo a Kant – fruto de uma polêmica leitura da Crítica da Razão Pura , como discutiremos adiante – ao considerar que Kant estava certo ao dizer que “nosso intelecto não deriva suas leis da natureza, mas impõe suas leis à natureza”, mas errado ao admitir que a dinâmica de Newton fosse válida a priori. Continua Popper, a partir desta leitura de Kant, a criticá-lo por propor uma epistemologia que teria sempre êxito, ou seja, que a natureza aceitaria nossas leis.

O método das conjecturas e refutações tem também um caráter prescritivo , a ciência deve progredir assim. É conhecida a afirmação de Popper que: “da ameba a Einstein é um passo.” Frisa que a ameba também utiliza o método de ensaio e erro, porém o cientista “procura eliminar (erros), consciente e cuidadosamente, na tentativa de refutar suas teorias com argumentos penetrantes – inclusive o apelo aos testes experimentais mais severos que suas teorias e engenho lhe permitem preparar.” (p.81) Faz parte também do anedotário sua reação, quando questionado por historiadores da ciência quanto à validade histórica de tais normas para o progresso científico, que teria sido de retrucar: “Então ... pior para a ciência.”

Uma vez que nosso objetivo imediato é mostrar como evoluiu a noção de racionalidade em Popper, cabe assinalar três pontos que caracterizariam o método racional que apresenta, após questionar a razoabilidade da crença de que “o futuro repetirá o passado” mesmo quando com a alegação de que “as leis naturais não se alterarão”, contudo, estas só são naturais ante o fracasso das tentativas, até então, feitas para refutá-las, retruca Popper. Os pontos mencionados estão no seguinte parágrafo:

“... Precisamos com efeito rejeitar o ponto de vista de que a crença na ciência é tão irracional quanto a crença nas práticas mágicas primitivas – que os dois tipos de crença implicam a mesma aceitação de uma ‘ideologia total’ – tradição ou convenção baseada na fé. Mas precisamos ter todo o cuidado se formulamos nosso problema, como Hume, em termos de razoabilidade das nossas crenças. Na verdade, deveríamos dividir o problema em três partes – o conhecido problema da demarcação (como distinguir a ciência da mágica primitiva); o problema da racionalidade do procedimento crítico ou científico (e o papel exercido pela observação); finalmente, o problema da racionalidade da nossa aceitação das teorias, para fins práticos e científicos ...” (p.87)

A abrangência do racionalismo crítico para o âmbito dos problemas filosóficos é formulada no capítulo seguinte – “A Natureza dos Problemas Filosóficos e suas Raízes Científicas” – quando vai afirmar que: “os problemas filosóficos genuínos têm sempre suas raízes em problemas urgentes fora do campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.” (p.100) A discussão racional estaria então norteada pela solução dos problemas em questão, esses podem ser filosóficos ou não. Entendemos que Popper está dando passos, metodológicos, para a formulação de sua proposta de “lógica (ou análise) situacional”, formulação que discutiremos no próximo tópico.

Há, como já assinalamos, uma crescente preocupação de Popper em dar conta do progresso científico, da expansão do conhecimento, de critérios racionais para a escolha entre teorias. É patente sua tentativa de afastar o irracionalismo, evitar o transcendentalismo e afirmar a irrelevância do papel da linguagem nas questões epistemológicas. Assim lemos o capítulo 10 de Conjecturas e Refutações (“Verdade, Racionalidade e a Expansão do Conhecimento”). Em outro momento vamos discutir o êxito deste empreendimento, por ora, apenas sintetizamos sua formulação:

Considera que a ciência tem necessidade de crescer, seu crescimento é que a torna racional e empírica. Se as teorias saltam de qualquer teoria precedente, não importa se de mitos ou práticas mágicas, para se oferecerem como explicações de problemas, sujeitas a testes, isto não daria um caráter irracional à seleção da melhor delas. Advoga que temos critérios para a escolha da melhor teoria, do que seja mesmo uma “boa teoria”. Estes seriam: maior conteúdo informativo (empírico); maior força lógica; maior capacidade explanatória e poder de previsão, o que resultaria numa também maior possibilidade de ser rigorosamente testada do que suas rivais.

Popper não atribui a “sede de progresso” da ciência à importância prática ou social desse progresso, mas à sua significação intelectual. Defende mesmo uma aproximação à verdade – verdade como correspondência – assumindo uma posição realista que se acentuará no correr do restante de sua obra. Por outro lado, não é qualquer verdade que busca a ciência, mas verdades interessantes:

“Aceitamos, portanto, a idéia de que a função da ciência é a busca da verdade, ou seja, de teorias verdadeira (embora, como observou Xenófanes, podemos nunca alcançá-las ou mesmo não reconhecer sua veracidade). Enfatizamos, porém, o fato de que a verdade não é o único objetivo da ciência. Procuramos mais do que a simples verdade: buscamos uma verdade interessante – difícil de ser descoberta. Nas ciências naturais (em oposição à matemática), procuramos a verdade com alto grau de capacidade explicativa, no sentido de logicamente improvável.” (p.255)

Uma vez feito este sumário dos principais argumentos do racionalismo crítico popperiano, cabe, como nos propomos, fazer o contraponto, registrando alguns dos questionamentos que lhe foram feitos. Limitando-nos ao escopo deste trabalho, privilegiamos a crítica da leitura que Popper faz de Kant.

Wilson Mendonça em Conhecimento e Ação: Uma Leitura de Popper , rebate no tópico – “Kant Mal Compreendido” – as reiteradas afirmações de Popper de que Kant pretenderia deduzir aprioristicamente as leis Newton, as quais – segundo a leitura de Popper – seriam