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DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
A PARTIR DA EPISTEMOLOGIA DE KARL POPPER
AVALIAÇÕES – IMPASSES – ALTERNATIVAS

(DISSERTAÇÃO DE MESTRADO)

NEY COUTO MARINHO

Dissertação apresentada ao Departamento

De Filosofia da PUC/RJ como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Filosofia

Orientador: Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos

Abril de 2001

A todos aqueles – psicanalistas, pacientes, filósofos, pensadores – que com coragem e esperança mantêm vivo o generoso legado freudiano.

AGRADECIMENTOS

Esta dissertação pretende ser o início de uma longa reflexão, há muito almejada, e que somente neste momento se tornou possível graças a várias circunstâncias e a muitas pessoas, as quais não posso nomear todas mas, para todas, desejo registrar meu profundo agradecimento.

Como qualquer produção humana significativa (pelo menos para seu autor), suas origens se confundem com a própria história pessoal.

Agradeço a meus pais – Maria Luiza e Paulo Marinho – que, desde muito cedo, me apresentaram ao mundo, com toda a sua diversidade e complexidade, às boas e más coisas que o povoam, sempre com humildade, ternura e esperança.

Agradeço aos meus colegas, pacientes e amigos que partilham comigo das mesmas inquietações.

Agradeço a Rosa Beatriz Pontes de Miranda Ferreira que me introduziu ao pensamento de W. R. Bion, a uma psicanálise reflexiva e ao mesmo tempo profundamente humana e, sobretudo, que me apresentou a mim mesmo.

Agradeço aos meus filhos – Mariana, Helena e Bruno – pelo estímulo e paciência em ouvir intermináveis diálogos dos pais, muitas vezes, sobre os mesmos assuntos e os mesmos desconhecidos personagens.

Agradeço ao meu neto – Antonio – por me despertar a alegria e a esperança, de que João Cabral fala, de um “caderno novo”.

Agradeço ao Departamento de Filosofia da PUC/RJ que, há muitos anos, me vem proporcionando as condições e o ambiente – de competência, seriedade e onsideração – sem o qual seria impensável realizar um projeto como este. Qualquer que seja o valor de minha produção, espero que a mesma seja recebida como a melhor manifestação que encontrei para externar minha gratidão por tudo que tenho recebido.

Agradeço, em especial, ao meu orientador – Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos – pela paciência, tolerância e extrema competência com que me guiou por meio deste verdadeiro “duelo de titãs” em que se converteu o apaixonado debate epistemológico anglo-saxão. Sem a sua serena e carinhosa ajuda não teria conseguido, quer ver as árvores, quer ver a floresta e, sobretudo ambas, assim como compreender que os principais impasses da filosofia da ciência. apontam para as básicas questões ilosóficas.

Finalmente, agradeço à Fernanda por todos esses anos de companhia, sem a qual nada seria possível, ou, o que é mais importante, nada faria qualquer sentido.

RESUMO

O trabalho pressupõe que o desenvolvimento da teoria psicanalítica pede uma reflexão sobre seus fundamentos epistemológicos, sua cientificidade ou racionalidade. Parte neste sentido da discussão da epistemologia de Karl Popper, tendo como pano de fundo o debate epistemológico anglo-saxão contemporâneo, envolvendo principalmente as contribuições de Lakatos, Kuhn e Feyerabend. Outro cenário em que se desenvolve a investigação é o da “crise da psicanálise”, a qual é vista como um dos elementos da crise da modernidade. São discutidas duas avaliações da teoria psicanalítica, antagônicas, mas que têm como principal referência a epistemologia popperiana: as avaliações de Adolf Grünbaum e Gregório Klimovsky. É examinada, criticamente, a insuficiência da epistemologia popperiana para tratar de questões como aquelas com que a psicanálise lida e, dentro do contexto do debate anglo-saxão, é apresentada a proposta epistemológica de Larry Laudan como uma possível alternativa. O trabalho sugere a busca de novas linhas de investigação para fundamentar uma racionalidade para a teoria psicanalítica, indicando: a moderna filosofia da linguagem (principalmente as contribuições de Wittgenstein) e a estética (a partir da Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant).

O trabalho pretende ser a fase inicial de uma pesquisa sobre o papel da razão na teoria psicanalítica, assim como sobre a investigação das possíveis contribuições da psicanálise ao estudo da razão e suas vicissitudes. Neste último aspecto, aponta para o estudo do fenômeno da “loucura”, dado o seu caráter heurístico peculiar.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 1

1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”... 1

2 – A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA ... 7

1 – CAPÍTULO I: A “QUESTÃO DA PSICANÁLISE” NA OBRA DE KARL POPPER .... 12

1.1 – CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER . 12

1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA ... 13

1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO . 29

1.1.3 – A EPISTEMOLOGIA EVOLUCIONÁRIA .... 39

1.2 – POPPER E A PSICANÁLISE ... 45

2 – CAPÍTULO II: DUAS AVALIAÇÕES DA TEORIA PSICANALÍTICA, NA TRADIÇÃO POPPERIANA . 60
2.1 – A CRÍTICA FILOSÓFICA DE ADOLF GRÜNBAUM .... 61

2.2 – A TEORIA MODELÍSTICA DE GREGORIO KLIMOVSKY.... 74

3 – CAPÍTULO III: A TEORIA PSICANALÍTICA COMO UMA TRADIÇÃO DE PESQUISA, NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN.. 87

3.1 – INSUFICIÊNCIAS DA EPISTEMOLOGIA POPPERIANA QUANDO APLICADA À PSICANÁLISE 87

3.2 – A PROPOSTA EPISTEMOLÓGICA DE LARRY LAUDAN .... 95

4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS .. 130

4.1 – AVALIAÇÕES . 131

4.2 – DESDOBRAMENTOS ... 139

4.2.1 – A QUESTÃO DA LINGUAGEM .. 139

4.2.2 – A QUESTÃO ESTÉTICA .... 143

APÊNDICE I: A RAZÃO E AS “razões” DE PAUL FEYERABEND .. 146

APÊNDICE II: A CRÍTICA AO EXTERNALISMO – À LUZ DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN .... 158

APÊNDICE III: “LE DIEU TROMPEUR” – NOTAS SOBRE O ‘CONHECIMENTO PRIVADO’ EM DESCARTES, WITTGENSTEIN E BORGES . 169

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...183


Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, “Se não puder dobrar os deuses celestiais, comoverei o Aqueronte” (Vírgilio, Eneida, Livro VII 312)*

(*Epígrafe escolhida por Freud para a Interpretação)

(Nota do editor: a notas de pé-de-página estão ao final do texto, após a bibliografia)

INTRODUÇÃO


“... minha primeira tese é de que os problemas filosóficos genuínos têm sempre raízes em problemas urgentes fora do campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.” (Popper, 1972:100)

“... o ser do homem não apenas não pode ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.” (Lacan, 1998:581)

1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”

O ponto de partida da pesquisa – “Razão e Psicanálise” - da qual esta dissertação faz parte, foi um problema extra-filosófico: o estudo e trabalho continuado com o sofrimento mental e, em particular, com a experiência da “loucura”.

Talvez, caso fosse possível alguma forma de mensuração, não houvesse maior manifestação de sofrimento humano do que na experiência da loucura. Qualquer descrição que a relativize, ou, tente reduzi-la a um determinante extra-psíquico, padece de artificialidade se suprime suas dimensões de sofrimento mental e perda da razão[1]. No cotidiano de nosso trabalho, defrontamo-nos com a dramaticidade de um sofrimento que, prima facie, necessariamente não compreendemos. A psicanálise surgiu exatamente da tentativa de dar conta, explicar ou compreender tais manifestações em que a ciência tradicional fracassava. Entretanto, a prática como psicanalistas, leva-nos inevitavelmente, à certa altura da experiência, a questionarmos os fundamentos de nossa atividade. Isto ocorre, quer seja, pelas limitações dos resultados, quer seja, pelo desafio que o insólito nos desperta.

A identificação, ou “diagnóstico”, de “loucura” - optamos por manter uma designação coloquial, vaga e abrangente[2] - baseia-se em última instância em algum padrão de racionalidade. Por este motivo é que escolhemos o ponto de vista filosófico para nele desenvolvermos nossa pesquisa. Pois, caso tentássemos estipular um critério psicológico, psiquiátrico ou psicanalítico para tal padrão, seu questionamento se tornaria impossível, uma vez que é a própria noção de racionalidade que está em exame. Neste sentido a pesquisa pretende seguir uma linha de mão dupla: investigar a racionalidade da psicanálise e, ao mesmo tempo, indagar se a psicanálise tem alguma contribuição a dar ao estudo da razão e suas vicissitudes.

Partimos de duas hipóteses iniciais:

1 – A Teoria Psicanalítica é um empreendimento racional, ou seja, constitui-se num conjunto de hipóteses que, quer sejam ou não passíveis de testabilidade segundo critérios como os popperianos, permitem a discussão crítica de suas proposições e implicações.

2 – A razão, ou algum padrão de racionalidade, se constitui em um “elemento da psicanálise” – para utilizar a denominação e sugestão do psicanalista inglês W. R. Bion[3] - sendo o seu exame, assim como o das paixões e dos mitos, um dos objetos da psicanálise.

A pesquisa a que nos propomos está dividida em duas fases, sendo que apenas a parte inicial da primeira será objeto desta dissertação. São elas:

A – A pesquisa da racionalidade da Teoria Psicanalítica. Neste primeiro momento ficaremos limitados à discussão da racionalidade científica da teoria psicanalítica dentro do debate epistemológico anglo-saxão contemporâneo, procurando avaliar de que forma a psicanálise, como qualquer outra ciência humana, nele se insere, como responde às suas exigências e que questões, por sua vez, traz ao debate. Pretendemos investigar, nesta fase inicial da pesquisa, duas linhas de discussão: uma ligada à epistemologia de Karl Popper e autores que partem de seu referencial (Adolf Grünbaum e Gregorio Klimovsky) e a outra inspirada na filosofia analítica, especialmente nas contribuições de Wittgenstein e Donald Davidson.[4] A dissertação ficará restrita à discussão dos autores da tradição popperiana.

B – A pesquisa da razão como elemento da psicanálise. Pretendemos num segundo momento, seguindo a mencionada sugestão de W. R. Bion, investigar a razão como elemento constitutivo da teoria psicanalítica, da mesma forma que as paixões. Investigaremos se os distúrbios de pensamento - um dos objetos da investigação psicanalítica – podem oferecer-nos informações maiores sobre a racionalidade e seus desvios. Esta segunda fase é dependente da anterior na medida em que naquela procuraremos identificar o “tipo de racionalidade” que a psicanálise utiliza, ou, para sermos mais precisos, o padrão de racionalidade que consideramos mais apropriado para desenvolver e dar atualidade ao legado freudiano.

Uma vez já existir uma vasta literatura a respeito da fundamentação epistemológica da psicanálise[5], tivemos que fazer uma opção que melhor circunscrevesse nosso campo de trabalho. Optamos por iniciar com o exame das contribuições de Popper – por motivos que esclareceremos adiante – assim como utilizar as formulações de Larry Laudan, sobre Tradições de Pesquisa, como instrumento para avaliação das diferentes teorias que povoam, implícita ou explicitamente, o debate em que se insere a epistemologia popperiana.

Embora a pesquisa tenha a origem inicialmente exposta – nosso especial interesse no problema da psicose[6] - um outro fator veio acrescentar-se às nossas motivações. Gostaríamos de apenas mencioná-lo, sem pretendermos incluí-lo em nossos planos de estudo, apesar de acompanhar-nos como um dado conjuntural relevante. Referimo-nos à chamada “crise da psicanálise”, fenômeno cultural complexo que surgiu no início dos anos 80, caracterizando-se pela crescente queda na procura por parte de postulantes aos Institutos de Psicanálise (Instituições de ensino organizadas para formar psicanalistas) –quer na América do Norte, Europa ou América Latina – pela diminuição da demanda por tratamentos psicanalíticos, concomitante ao progressivo desenvolvimento de tratamentos psicofarmacológicos, com o lançamento das mais diversas drogas psicotrópicas, assim como a multiplicação e penetração de terapias alternativas, sobretudo, de caráter místico. Este fenômeno paralelo ao desenvolvimento dos fundamentalismos religiosos, levou alguns autores – como Sérgio Paulo Rouanet[7] - a conjecturar sobre uma possível crise de nosso projeto civilizatório e, conseqüentemente, da razão iluminista e, neste vácuo, de qualquer forma de racionalidade, incluindo a psicanálise neste contexto de discussão. Não pretendemos entrar no debate deste ponto, apenas assinalar que é mais um fator a instigar-nos a investigar os fundamentos de nossos padrões de racionalidade, a partir do próprio questionamento da psicanálise. Há também uma dimensão prática, imediata, neste debate que a crise despertou, que se refere a uma ampla discussão em curso sobre o que privilegiar num programa de pesquisa sobre distúrbios mentais, quer em psicanálise quer em psiquiatria: a pesquisa empírica ou a clínica. Por pesquisa empírica, em geral, refere-se a dados mensuráveis, passíveis de avaliação estatística, enquanto que por pesquisa clínica, a tradicional reflexão teórica a partir da experiência clínica[8]. A magnitude do problema pode ser avaliada pela questão da droga, que atualmente se constitui num problema de dimensões muito superiores ao da histeria no início do século ou ao da loucura, em todos os séculos. Embora, pretendamos evitar dispersar-nos nestas questões, elas estarão de certa forma sempre presentes, uma vez que faz necessariamente parte do pano de fundo de nosso trabalho o debate da epistemologia anglo-saxã contemporânea, tendo como interlocutores principais, além do próprio Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend. Reaparecerão as mencionadas questões (pelo menos indiretamente), por exemplo, quando mencionarmos as críticas à proposta popperiana de racionalidade científica, em especial, as de Feyerabend. Como é conhecido, ao não aceitar a distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, um dos fundamentos da proposta metodológica de Popper, Feyerabend ligará indissoluvelmente nossos padrões de racionalidade ao contexto histórico-social. Sabemos dos impasses relativistas a que tal crítica leva, por mais pertinente que seja. Adotaremos, em caráter provisório, as formulações de Larry Laudan sobre “Tradições de Pesquisa” para lidar com tais questões, por considerá-las mais abrangentes e úteis para a discussão que pretendemos desenvolver. Dada a subordinação que fizemos do tema da dissertação ao plano geral da pesquisa, procuraremos dar uma ênfase particular à questão dos padrões de racionalidade empregados no debate epistemológico da psicanálise.

Como pretendemos manter a dissertação no âmbito estritamente filosófico, gostaríamos de registrar como a tradição tem afastado precocemente a insanidade quando investiga a racionalidade. Citamos, como exemplo histórico, as reflexões de Descartes no parágrafo 4 da “Primeira Meditação”.

“... E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus? A não ser talvez que eu me compare a esses insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por seus exemplos.”

Em trabalho apresentado numa disciplina deste mestrado[9] discutimos a inconveniência desta exclusão prematura da insanidade, uma vez que esta nos ilumina, indicando os limites do padrão de racionalidade que está sendo proposto. Pensamos que em filosofia da ciência tal questão – racional/irracional – adquire proporções significativas. Este ponto não escapou tanto a Freud, quanto a Bion – os dois representantes do pensamento psicanalítico que tomaremos como interlocutores permanentes – que assim a formularam:

“Fica para o futuro decidir se há mais delírio em minha teoria do que eu gostaria de admitir, ou, se há mais verdade no delírio de Schreber do que outras pessoas estão preparadas para acreditar.” (Freud, S.E. XII:79)[10]

“A leitura deste capítulo (refere-se ao capítulo II de O Futuro de uma Ilusão, de Freud) parece mostrar o quanto o avanço da psicanálise torna obsoleta sua própria formulação. Freud tem como alicerce de sua discussão, como sua realização, suas próprias conjecturas sobre a natureza da civilização. A partir daí ele tem teorias sobre as conjecturas. As conjecturas merecem atenção, pois são conjecturas de um homem genial. Mas não há reconhecimento do status de conjecturas ou do status de teorias sobre conjecturas. Em psicanálise presume-se que uma teoria é falsa se ela não parece estar a serviço do ‘bem’ da maioria da humanidade. E, como idéia de “bem”, é uma platitude. A idéia toda de “cura”, de atividade terapêutica, permanece sem escrutínio. Ela é amplamente determinada pelas expectativas do paciente, embora isso seja questionado em uma boa análise (como eu a conheço). Mas em física uma teoria é boa se ela ajuda a construção de uma bomba que destrói Hiroshima. Muitíssimo do pensamento sobre psicanálise impede a possibilidade de considerar como boa uma teoria que poderia destruir o indivíduo ou o grupo. Ainda assim, nunca haverá um escrutínio científico de teorias analíticas até que essa investigação inclua a apreciação crítica de uma teoria que, por sua própria consistência, poderia levar à destruição da estabilidade mental; por exemplo, uma teoria que incrementasse memória e desejo a um ponto que eles impossibilitassem a sanidade.” (Bion, 2000:389)[11]

Enfatizamos nosso interesse em subordinar a investigação dos fundamentos epistemológicos da psicanálise à busca de um padrão de racionalidade que a sustente como instrumento de pesquisa para o fenômeno da loucura, supondo que o exame do mesmo poderá ser filosoficamente útil para um escrutínio da razão e da racionalidade científica, em particular. O estudo da loucura tem, a nosso ver, um papel heurístico peculiar.

2– A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA

Iniciamos a discussão da racionalidade da teoria psicanalítica a partir da epistemologia de Karl Popper, pelos seguintes motivos:

1 – A importância da contribuição popperiana, principalmente, na Lógica da Pesquisa Científica, através de seu critério de demarcação entre ciência empírica e não-empírica, baliza qualquer debate a respeito. Como desejamos manter, em nosso cenário, as alternativas de Lakatos, Kuhn, Feyerabend e Larry Laudan, a referência central a Popper facilita, sobremaneira, a discussão sobre a natureza dos problemas empíricos e conceituais, sobre o alcance da noção de refutabilidade, a divergência entre racionalistas e relativistas, realistas e pragmatistas e, sobretudo, a viabilidade de um programa para um padrão de racionalidade. Na discussão da epistemologia popperiana, teremos também como referência, seus comentadores brasileiros: Sérgio Fernandes e Wilson Mendonça.

2 – A influência das idéias de Popper na formulação de uma teoria sobre o pensar, de W. R. Bion, autor que tomaremos como principal referência na última parte da pesquisa, uma vez tratar-se do psicanalista que mais trabalhou e escreveu sobre o fenômeno psicótico. Embora reconheçamos essa influência de Popper, como na noção de “pré-concepção” de Bion, que muito se aproxima da de “expectativas inatas” (Popper), são trajetos distintos. Bion se mantém mais solidário a uma leitura kantiana, assim como no correr de sua obra vai preocupar-se, cada vez mais, com questões ligadas à “construção do significado”[12], tema que reiteradamente é relegado a um segundo plano na obra de Karl Popper.

3 – Está, também, ligada a Popper, a crítica mais minuciosa e consistente à teoria psicanalítica, de que temos conhecimento. Referimo-nos à obra de Adolf Grünbaum, The Foundations of Psychoanalysis – A Philosophical Critique (Berkeley: University of California Press, 1985). Grünbaum utiliza o referencial popperiano, para um minucioso exame da cientificidade da teoria psicanalítica, embora de forma bastante crítica em relação às insuficiências dos comentários de Popper sobre a psicanálise.

4 – A Popper se liga também o trabalho que Gregorio Klimovsky – epistemólogo argentino de orientação popperiana – desenvolve há mais de trinta anos com importantes nomes da psicanálise internacional, em grupo de estudos sobre epistemologia e psicanálise, a partir de experiências clínicas. Pretendemos assim contrapor duas visões dentro da tradição popperiana: as de Grünbaum e Klimovsky.

Como dentre nossos objetivos se encontra a preocupação com os padrões de racionalidade que estejam em jogo, nos diversos momentos da discussão da psicanálise, adotaremos, em caráter operativo, o padrão proposto por Larry Laudan (in, Progress and its Problems: Towards a Theory of Scientific Growth. Laudan, 1977), como referencial. Fizemos a ressalva quanto ao caráter operativo de tal adoção, pois, entendemos que a própria pesquisa propõe-se a ser uma discussão, em última instância, do que consistiria um padrão de racionalidade. Conforme já registramos, não é possível falar de psicose ou loucura sem que esteja implícita alguma contrapartida de racionalidade. Como no momento não podemos adiantar-nos quanto a um possível padrão, uma vez que esperamos que o decorrer do próprio trabalho vá selecionando seus possíveis candidatos, escolhemos a proposta de racionalidade, de Larry Laudan, como uma ferramenta provisória. É uma decisão que consideramos inescapável, uma vez que mesmo nesta fase inicial se faz necessário algum referencial que dê sentido ao debate epistemológico em que Popper – assim como os dois outros autores a serem estudados: Grünbaum e Klimovsky, estão inseridos.
No primeiro capítulo discutimos a “questão da psicanálise” na obra de Karl Popper, dividindo-o em duas partes: a primeira, uma descrição do trajeto de Popper desde sua primeira preocupação em distinguir ciência e pseudociência até sua proposta mais abrangente de discussão de programas de pesquisa metafísica. Desejamos acompanhá-lo em sua elaboração das noções de ciência e racionalidade; e, numa segunda parte, discutimos a relação direta de Popper com o tema da psicanálise, que foi sempre uma “questão” para ele, a nosso ver, não bem resolvida, guardando a respeito da teoria freudiana uma posição ambivalente: reconhecimento de suas contribuições e recusa de sua cientificidade e mesmo racionalidade.

No segundo capítulo examinamos duas avaliações da teoria psicanalítica, surgidas na esteira da epistemologia popperiana: a persistente crítica de Adolf Grünbaum aos fundamentos da psicanálise e a tentativa de Gregório Klimovsky de encontrar – nos termos do modelo hipotético-dedutivo – uma apreciação científica para o empreendimento psicanalítico. São avaliações antagônicas, quanto a seus resultados e expectativas.

No terceiro capítulo apresentamos nossa própria avaliação das insuficiências da aplicação da epistemologia popperiana à teoria psicanalítica e, dentro da tradição epistemológica anglo-saxã, sugerimos a utilização da proposta epistemológica de Larry Laudan, como a mais bem sucedida para o exame de uma teoria que envolva problemas empíricos e conceituais, como é o caso da psicanálise. É então feita uma breve resenha dos principais pontos da epistemologia pragmatista de Laudan.

No quarto capítulo procuramos fazer uma avaliação dos autores estudados, da mesma forma que da tradição a que se filiam, apontando o que nos parece ser seus impasses e suas propostas de superação. Acrescentamos, para finalizar, dois possíveis desdobramentos desta fase de nossa pesquisa: um estudo da filosofia analítica, principalmente a partir das contribuições de Wittgenstein; e uma investigação das relações entre estética e psicanálise, tomando como ponto de partida a Crítica da Faculdade de Julgar (Kant), para exame do problema da singularidade.

Os três Apêndices – sobre Feyerabend, sobre os “externalistas”, e o que trata do “conhecimento privado” – visam dar subsídios ao debate que nos parece mais relevante, nesta tradição, entre racionalistas e relativistas; assim como adiantar algumas suposições sobre o entendimento do problema da psicose a partir da filosofia da linguagem.

As traduções de textos citados, quando a bibliografia não é referida em português, é de nossa responsabilidade. Quando julgamos conveniente assinalar a data da primeira edição de alguma obra citada, a mesma é colocada entre parênteses e a data da edição utilizada a seguir, ambas entre colchetes, por exemplo: Popper, K. Lógica da Pesquisa Científica [(1934) 1974]. Os textos de Freud utilizados são da tradução inglesa – Standard Edition (S.E.). London, Hogarth Press, 1974 – e serão sempre mencionados pela abreviatura: S.E. seguida do volume em que se encontram.

CAPÍTULO I: A QUESTÃO DA PSICANÁLISE NA OBRA DE KARL POPPER


“... Após o colapso do Império Austríaco, a Áustria havia passado por uma revolução: a atmosfera estava carregada de slogans e idéias revolucionárias; circulavam teorias novas e freqüentemente extravagantes. Dentre as que me interessavam, a teoria da relatividade de Einstein era sem dúvida a mais importante; outras três eram a teoria da história de Marx, a psicanálise de Freud e a “psicologia individual” de Alfred Adler.

... Durante o verão de 1919, comecei a me sentir cada vez mais insatisfeito com essas três teorias ... passei a ter dúvidas sobre seu status científico. Meu problema assumiu, primeiramente, uma forma simples: “O que estará de errado com o marxismo, a psicanálise e a psicologia individual? Por que serão tão diferentes da teoria de Newton e especialmente da teoria da relatividade?” (Popper, 1972: 64)

Para compreendermos a insatisfação de Popper quanto ao status científico da psicanálise é necessário que esclareçamos, inicialmente, sua noção de ciência e de racionalidade. Estas sofreram desenvolvimentos no correr de sua obra, uma vez que a mesma se foi tornando um sistema cada vez mais abrangente, alcançando até a estética.

1.1 - CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER

O trajeto que propomos para o exame da evolução das concepções popperianas de ciência e racionalidade atende, fundamentalmente, a nosso campo de interesse – discussão da racionalidade da teoria psicanalítica – o que significa que deixaremos à margem uma série de questões que o programa popperiano levanta. Contudo, pensamos que as fases em que dividimos a obra de Popper correspondem às que seus comentadores estabelecem.

Assinalamos três momentos básicos para o nosso exame. A cada um corresponde uma obra maior do autor, ou seja:

1 – A Racionalidade Científica. A crítica à lógica indutiva. O critério de demarcação entre ciência e pseudociência. A noção de refutabilidade. A Lógica da Pesquisa Científica [(1934) 1974].

2 – O Racionalismo Crítico. O método de conjecturas e refutações. Introdução da noção de “lógica situacional”. Conjecturas e Refutações [(1963) 1972].

3 – A Epistemologia Evolucionária. A objetividade do conhecimento: A Teoria dos Três Mundos. Os Programas de Pesquisa Metafísica. Conhecimento Objetivo [(1973) 1975].

Neste trajeto, observamos que as noções de cientificidade e de racionalidade se vão sofisticando e, em certa medida, adquirindo uma independência, de modo a incluir também os problemas metafísicos como passíveis de crítica e desenvolvimento. Vejamos os passos de Popper neste sentido.

1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA

Popper parte da crítica ao tradicional problema da indução para formular sua proposta para uma epistemologia ou lógica ou teoria do método científico, não fazendo qualquer distinção entre tais noções – epistemologia, lógica e método – no que diz respeito à avaliação do empreendimento científico (Popper,1974:51). Sua preocupação, neste momento, é a de estabelecer uma clara distinção entre ciência e pseudociência.

“A tarefa da lógica da pesquisa científica, ou da lógica do conhecimento, é, segundo penso, proporcionar uma análise lógica desse procedimento, ou seja, analisar o método das ciências empíricas.” (Popper,1974:27) Tomando uma atitude prescritiva, afasta do método das ciências empíricas qualquer tentativa de baseá-lo, em sua origem, na experiência. Esta só pode fornecer-nos enunciados singulares e a passagem destes para enunciados universais – hipóteses ou teorias – exigiria um princípio de indução que não se justificaria pela experiência. Qualquer tentativa de justificá-lo, a partir de novas observações, levaria a uma regressão infinita. Até este ponto não se afasta, ou faz qualquer acréscimo, aos argumentos de Hume. Contudo, sua originalidade reside no radical exame e relevância que empresta à crítica humeana à indução, mas procurando recuperar o caráter racional, lógico, da atividade científica. Reafirma a inutilidade do método indutivo para a pesquisa científica, utilizando argumentos estritamente lógicos. Através da aplicação do Modus Tollens, mostra que se uma teoria T implica a ocorrência de a, e se tal não ocorre, ou seja: -a; poderíamos deduzir: -T. Esta formulação, extremamente simples, vai constituir-se na pedra angular de sua proposta do critério de refutabilidade como sendo o único sustentável para a avaliação das teorias científicas. Em outros termos: se a falsidade da conclusão se transmite às premissas, a uma delas pelo menos, a verdade do conseqüente não implica na verdade das premissas, o que seria uma conhecida falácia, a da afirmação do conseqüente. Insistimos neste ponto, pois, Popper será fiel durante toda a sua obra a esta formulação lógica, afastando qualquer argumentação psicológica para lidar com o problema da indução. A mesma atitude se mantém quando discute o questionamento humano da conexão causal: não aceita o hábito como elemento explicativo da crença em regularidades, desenvolvendo a noção de expectativa; noção que procurará fundamentar em termos não psicológicos, na última fase de sua obra, atribuindo-lhe um caráter inato. Popper separa o problema da indução do problema da causalidade (Popper,1974). Seguiremos sua sugestão, deixando para outro momento discutir sua solução para a causalidade. Sua solução para a indução se, por um lado, parece-nos definitiva em relação aos verificacionistas, seus principais interlocutores naquele momento, por outro, levanta uma série de questões, algumas das quais examinaremos com maior cuidado.

Uma vez afastada a lógica indutiva, fica questionado o papel da observação ou da experiência perceptual, como fontes de evidência imediata. Isto leva Popper a formular novos, ou repensar antigos temas da epistemologia. Selecionamos alguns que vão ser úteis em nossa futura discussão do alcance e validade de sua proposta. São eles:

Contexto da descoberta e contexto da justificação.

Enunciados básicos.

Base empírica.

Refutabilidade.

Critério de demarcação.

Experiências cruciais.

A todos esses tópicos, Popper oferecerá um tratamento que pretende ser puramente lógico, assim como prescindir da discussão lingüística ou transcendental. Limitar-nos-emos a descrever a proposta popperiana, deixando para outro momento a discussão dos impasses que a mesma traz.

Contexto da descoberta e contexto da justificação – Popper, visando afastar o psicologismo de sua epistemologia, vai distinguir dois momentos na formulação de uma teoria. O primeiro – contexto da descoberta – seria de caráter subjetivo, o ato de conceber ou inventar uma teoria, não necessário, nem passível de uma análise lógica, não sendo objeto da epistemologia. “A questão de saber como uma idéia nova ocorre ao homem – trate-se de um tema musical, de um conflito dramático ou de uma teoria científica – pode revestir-se de grande interesse para a psicologia empírica, mas não interessa à análise lógica do conhecimento científico.” (p.31) A lógica da pesquisa científica não estaria interessada em questões de fato (quid facti? de Kant) mas em questões de justificação (quid juris? de Kant). Este segundo momento – o contexto da justificação – seria o domínio por excelência da epistemologia. Nele estariam as questões fundamentais da lógica da pesquisa científica, ou seja: uma vez formulada uma teoria, caberiam as indagações: seus enunciados podem ser justificados? Em caso afirmativo, como? São suscetíveis de prova? Dependem de outros, ou, contradizem-nos? A rigor, estas são as questões básicas para Popper. Delas podemos deduzir as demais, como: qual o enunciado, ou enunciados, que seriam fundamentais para testar uma teoria? Que características deveriam ter tais enunciados? Frisa que enunciados só podem ser comparados por outros enunciados.

Enunciados básicos – Para Popper, enunciado básico, ou proposição básica, é “um enunciado que pode atuar como premissa numa falsificação empírica; em suma, o enunciado de um fato singular”. (p.45) Nesse momento, preocupa-se Popper em afastar qualquer conotação psicológica ou positivista de sua noção de enunciado básico, dado o relevante papel que ele desempenhará em sua teoria. Vai da mesma forma negar a possibilidade de verificação de enunciados e a concepção de que nossas experiências subjetivas ou nosso sentimento de convicção possam justificar qualquer enunciado. Baseia-se em Kant para distinguir o “objetivo” do “subjetivo”. Objetivo seria o conhecimento científico capaz de ser justificável, independente de capricho pessoal, sendo sua justificação objetiva, na medida em que pode ser submetida à prova e compreendida por todos.[13] Subjetivo seria qualquer conhecimento que se baseasse em nossos sentimentos de convicção. Na medida em que os enunciados básicos vão desempenhar relevante papel na proposta popperiana, está ela comprometida em dar conta de seu estatuto e, conseqüentemente, enfrentar novas questões que ultrapassam os critérios até então exclusivamente metodológicos. Referimo-nos, especificamente, à discussão do caráter empírico de tais enunciados, questões que se encontram em pleno campo da teoria do conhecimento.

A base empírica – Ciente deste problema, Popper parte do reconhecimento da questão colocada por Fries – conhecida como o trilema de Fries (dogmatismo vs. regressão infinita vs. psicologismo) - relativa ao impasse que traz repousar a justificação do conhecimento científico nas experiências sensoriais. Reconhece o problema, mas não aceita a solução de Fries (psicológica), apresentando sua alternativa. Assim coloca a questão:

“Poucos pensadores se perturbaram tão profundamente com o problema da base da experiência quanto Fries.[14] Ensinou ele que , se não cabe aceitar dogmaticamente os enunciados da Ciência, devemos ter como justificá-los. Se exigirmos justificação através de argumento que desenvolva razões, no sentido lógico, seremos levados à concepção segundo a qual enunciados só podem ser justificados por enunciados. A exigência de que todos os enunciados devam ser logicamente justificados (a que Fries se refere falando em ‘predileção por demonstrações’) tende, portanto, a conduzir a uma regressão infinita. Ora, se quisermos evitar o perigo do dogmatismo, ao mesmo tempo que a regressão infinita, aparentemente não restará outro recurso que não o psicologismo, isto é, a doutrina de acordo com a qual enunciados podem encontrar justificação não apenas em enunciados, mas também na experiência perceptual.” (p.p.99-100)

Popper critica a opção tradicional pelo psicologismo, ou seja, pela concepção de que a experiência sensorial nos fornece um “conhecimento imediato”, cuja representação será mediatizada pelo simbolismo de alguma linguagem, nos enunciados da ciência. Tal caráter de evidência imediata do conhecimento pelo sensório nos daria um sentimento de convicção, segundo o verificacionismo. Contrapõe-se a este ponto de vista, considerando-o baseado na indução e em universais. Dá como exemplo a afirmação: “aqui está um copo com água”. Esta trivial descrição perceptual – como todo enunciado singular, contém termos universais que transcendem a experiência - não admite verificação, uma vez que supõe universais (“copo”, “água”) que não se prestam a correlação com qualquer experiência sensorial específica, que é única, ocorrendo apenas uma vez. Continuando sua crítica, vai agora voltá-la para a solução de Carnap e Neurath das sentenças protocolares. Tais autores admitem que a ciência não discute percepções nem experiências mas sentenças. “Diz ele (Carnap) que as sentenças da Ciência são submetidas à prova ‘através do auxílio de sentenças protocolares’”. (p.102) Tais sentenças protocolares forneceriam os dados mais simples de serem suscetíveis de conhecimento, os conteúdos da experiência imediata, os fenômenos. Sentenças protocolares são registros ou protocolos de observações imediatas ou de percepções. Os defensores de tal formulação admitem que as sentenças protocolares sejam suscetíveis de reavaliação. Apesar dessa reavaliação crítica, que Popper considera um notável avanço em relação à solução de Fries, descarta as sentenças protocolares, por considerá-las uma tradução formal do antigo psicologismo e, ao evitar o dogmatismo, abrir espaço para a arbitrariedade, pois, qualquer sistema poderia tornar-se defensável, bastando rever as sentenças que lhe seriam incompatíveis. Em suma: “Como Neurath não tenta solucionar o problema da demarcação, sua idéia de sentenças protocolares parece mero resíduo – lembrança remanescente da concepção tradicional, defensora de que a Ciência se origina da percepção.” (p.104) Toda sua argumentação conduz à busca de uma objetividade para a ciência e, em particular, para sua base empírica. Nesta procura parte da distinção entre “Ciência objetiva, de um lado, e ‘nosso conhecimento’, de outro” (p.104) Tal distinção tem importantes conseqüências para a epistemologia popperiana, pois, vai deslocar a tradicional preocupação com as fontes do conhecimento para a avaliação de seus produtos. Entregando o estudo das fontes do conhecimento à psicologia, sociologia ou outros campos, passa a detalhar o que entende por um enunciado básico, elemento fundamental para sua proposta metodológica de basear a ciência na avaliação dos produtos das teorias, na testabilidade. Resume suas exigências em relação aos enunciados básicos na regra: “enunciados básicos têm a forma de enunciados existenciais singulares.” (p.109) Continua, mais adiante:

“Tais são os requisitos formais dos enunciados básicos; vêem-se eles satisfeitos por todos os enunciados existenciais singulares. Além desses requisitos, um enunciado básico deve satisfazer, ainda, um requisito de cunho material – requisito concernente ao evento que, tal como expressa o enunciado básico, está ocorrendo no lugar k. Deve tratar-se de um evento “observável”, ou seja, os enunciados básicos hão de ser suscetíveis de teste, intersubjetivamente, com base em ‘observação’. Como se trata de enunciados singulares, esse requisito, naturalmente, só se pode referir a observadores adequadamente colocados no espaço e no tempo – ponto que não aprofundarei.” (p.110)

Popper procura defender-se de ter reintroduzido, sub-repticiamente, o psicologismo através do termo “observável”. Alega que o introduz como um termo não definido, um conceito primitivo, que se tornaria preciso com o uso.

Sua preocupação em caracterizar o enunciado básico está voltada para a resolução do trilema de Fries. “Toda prova de uma teoria, resulte em sua corroboração ou em seu falseamento, há de deter-se em algum enunciado básico que decidimos aceitar.” (p. 111) Mais adiante apresenta sua solução para o trilema de Fries:

“Qual a nossa posição agora, com respeito ao trilema de Fries, escolha entre dogmatismo, regressão infinita ou psicologismo ? Os enunciados básicos em que nos detemos, que decidimos aceitar como satisfatórios e como suficientemente aprovados pelas provas, têm, reconhecidamente, o caráter de dogmas, mas apenas na medida em que desistirmos de justificá-los por argumentos outros (ou por outras provas). Essa espécie de dogmatismo é, todavia, inócua, pois que, surgida a necessidade, os enunciados podem ser facilmente submetidos a provas complementares. Admito, em princípio, que isso torna infinita a cadeia de deduções. Contudo, essa espécie de regressão infinita é também inócua, uma vez que, em nossa teoria, não se coloca empenho em tentar provar, por meio dela, qualquer enunciado. Finalmente, no que concerne ao psicologismo, admito que a decisão de aceitar um enunciado básico e dá-lo por satisfatório está causalmente relacionada com nossas experiências – em especial, a nossas experiências perceptuais. Não tentamos, porém, justificar enunciados básicos através do recurso a essas experiências. As experiências podem motivar uma decisão e, conseqüentemente, a aceitação ou rejeição de um enunciado, mas um enunciado básico não pode ver-se justificado por elas – não mais do que por um murro na mesa.” (pp. 112-113)

Popper assume que os enunciados básicos são aceitos “como resultado ou concordância ... são convenções”. (p.113) Entretanto, não se considera um convencionalista, pois, ao contrário deste, sua proposta em relação ao método empírico não implica numa aceitação de enunciados universais, por convenção ou decisão, mas sim de enunciados singulares, ou seja, de enunciados básicos. Para o convencionalista a escolha de enunciados universais se daria pelo princípio da simplicidade, escolhendo o mais simples dos sistemas. Popper frisa que, diferentemente, propõe a escolha a partir do rigor das provas. Reconhece, contudo, que da mesma forma que o convencionalista considera a escolha de qualquer teoria particular como um ato, uma questão prática. Com o correr do trabalho veremos como vai procurar, com êxito ou não, afastar-se o mais possível do convencionalismo. Por enquanto julgamos mais importante registrar o próximo passo de Popper: a refutabilidade como critério de demarcação entre ciência (ciência empírica) e pseudociência.

Refutabilidade como critério de demarcação – Popper considera que uma vez afastada a lógica indutiva da metodologia científica se faz necessário encontrar um critério de demarcação entre ciência empírica e metafísica, assim como da lógica e matemática. Antes de apresentar sua proposta faz uma crítica aos positivistas que tentariam apresentar um critério que, fundamentalmente, não difere da lógica indutiva. Pois, ao atribuírem significado somente aos enunciados referentes à experiência, desqualificando qualquer enunciado que não seja redutível a enunciados elementares, ou “atômicos”, a “juízos de percepção”, ou “sentenças protocolares”, caem no mesmo erro de atribuir um papel à experiência que ela não pode suportar. Vê nesta posição mais um desejo de eliminar a metafísica, como “sofistaria e ilusão” (citando Hume), do que em estabelecer uma demarcação. Agrega à sua argumentação que nenhuma lei científica pode ser reduzida a enunciados elementares da experiência. Acredita que a única possibilidade de um critério de demarcação consistente seria fruto de uma convenção. Daí sua ênfase na noção de “enunciados básicos”, que detalhamos anteriormente, e que desempenharão um importante papel em sua proposta. Uma vez ser impossível a verificação pela experiência, propõe:

“... só reconhecerei um sistema como empírico ou científico se ele for passível de comprovação[15] pela experiência. Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação, não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema. Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através do recurso a provas empíricas, em sentido negativo: deve ser possível refutar, pela experiência, um sistema científico empírico.” (p.42)

Popper se antecipa a possíveis críticas – cujas respostas constituirão boa parte de sua obra - mencionando:

1 – que a ciência, de quem se espera informações positivas, nada perde ao ser definida por uma negatividade, a sua refutabilidade. Pois, as informações sobre o mundo são tanto maiores quanto mais conflitos gerem com possíveis enunciados singulares. “Não é por acaso que chamamos ‘leis’ às leis da natureza: quanto mais proíbem, mais dizem.” (p.43)

2 – que podem alegar, contra sua proposta, os mesmos argumentos que usa, ou seja: que a falseabilidade estaria sujeita às mesmas restrições que a verificabilidade. Defende-se, lembrando a assimetria que existe entre ambas, oriunda da forma lógica dos enunciados universais. Estes nunca podem ser derivados de enunciados singulares, ao passo que estes últimos podem contraditar os enunciados universais (com o emprego do modus tollens).

3 – que seria sempre possível a introdução de hipóteses auxiliares – ad hoc – para evitar que um sistema seja refutado, sem incoerência lógica. Alega que não é assim que os cientistas agem e prescreve, como principal característica de um verdadeiro método científico empírico: “... sua maneira de expor à falsificação, de todos os modos concebíveis, o sistema a ser submetido a prova. Seu objetivo não é o de salvar a vida de sistemas insustentáveis, mas, pelo contrário, o de selecionar o que se revele, comparativamente, o melhor, expondo-os todos à mais violenta luta pela sobrevivência.” (p.44)

Em sua apologia do critério de demarcação proposto, acrescenta um ponto que será de suma importância em sua futura posição fortemente realista. Ou seja: pensa que sua proposta resolve a questão levantada por Hume quanto à validade das leis naturais. Considera que Hume estava correto em sua argumentação, no que diz respeito à impossibilidade do uso de argumentos indutivos, o que implicaria na denúncia da tese fundamental do empirismo (“só a experiência pode decidir acerca da verdade ou falsidade de um enunciado científico”). Entretanto, julga Popper que esta contradição do empirismo fica superada se admitirmos que os enunciados decisíveis são apenas os falseáveis, passíveis de refutação. Tal posição levará Popper a uma radical postura em relação aos fundamentos do empreendimento científico:

“A base empírica da ciência objetiva nada tem, portanto, de ‘absoluto’. A ciência não repousa em pedra firme. A estrutura de suas teorias levanta-se, por assim dizer, num pântano. Semelha-se a um edifício construído sobre pilares. Os pilares são enterrados no pântano, mas não em qualquer base natural ou dada. Se deixamos de enterrar mais profundamente esses pilares, não o fazemos por termos alcançado terreno firme. Simplesmente nos detemos quando achamos que os pilares estão suficientemente assentados para sustentar a estrutura – pelo menos por algum tempo.” (p.119)

Experiências cruciais – Uma vez estabelecido o critério de demarcação, baseado na refutabilidade, surge a questão de estabelecer os procedimentos necessários para as experiências refutadoras. Tais procedimentos constituem as experiências cruciais. Teriam elas a responsabilidade de descartar ou corroborar, pelo menos temporariamente, as teorias em teste. Acautela-se Popper do que denomina “estratagemas convencionalistas”, ou seja, diversas reformulações da teoria em questão que a tornassem irrefutável, resistente às experiências cruciais. Popper admite que não possa dirimir seu conflito com os convencionalistas através de uma discussão teórica. Enumera alguns dos argumentos convencionalistas que seriam indiscutíveis: a introdução de hipóteses ad hoc; a modificação das definições ostensivas da teoria; a atitude cética no que se refere à confiabilidade do experimentador; assim como à sua perspicácia. Interessante registrar que aqui faz uma de suas primeiras menções à psicanálise: “Caberá ao investigador, especialmente nos campos da Sociologia e da Psicologia (o físico dificilmente necessitaria de tal advertência) prevenir-se constantemente contra a tentação de empregar novos estratagemas convencionalistas – tentação a que os psicanalistas, por exemplo, sucumbem com freqüência.” (p.87)

Popper resolve, neste momento, seu conflito com os convencionalistas utilizando suas próprias armas: “O único meio de evitar o convencionalismo é ‘tomar uma decisão: a decisão de não aplicar-lhe o método. Decidimos que, se nosso sistema sofrer ameaça, nunca procuraremos preservá-lo recorrendo a qualquer espécie de estratagema convencionalista.” (p. 86) Em conseqüência vai tratar, por exemplo, as hipóteses auxiliares ad hoc – que poderiam proliferar, salvando o sistema em teste – com rigor. “Com respeito às hipóteses auxiliares, propomos assentar a regra de que somente serão aceitáveis aquelas cuja introdução não reduza o grau de falseabilidade ou testabilidade do sistema em causa, mas ao contrário, o eleve.” (p.87) Continuando suas exigências para garantir as experiências cruciais, vai concluir:

“... uma teoria será chamada de ‘empírica’ ou ‘falseável’ sempre que, sem ambigüidade, dividir a classe de todos os possíveis enunciados básicos nas seguintes duas subclasses não vazias:

primeiro, a classe de todos os enunciados básicos com os quais é incompatível (ou que rejeita, ou proíbe): - a essa classe chamamos de classe dos falseadores potenciais da teoria; e segundo, a classe de enunciados básicos que ela não contradiz (ou que ela ‘permite’).

... Mais resumidamente, poderíamos apresentar o ponto dizendo: uma teoria é falseável se não estiver vazia a classe de seus falseadores potenciais.” (pp. 90-91)

Embora neste momento esteja Popper interessado em testar uma teoria isoladamente, a noção de experiência crucial tem o outro aspecto de decidir entre duas teorias rivais. Deste tipo de experiência, uma teoria sai refutada e a outra corroborada. Poderíamos dizer que este seria o critério popperiano para a complexa questão da escolha de teorias.

Julgamos ter apresentado de maneira extremamente sucinta, e acreditamos fidedigna, as idéias centrais da epistemologia popperiana neste primeiro momento de sua vasta obra. Do relatado, ressaltamos que sua noção de racionalidade se confunde com a de cientificidade. Esta, por sua vez, está restrita às ciências empíricas, as quais encontram seu fundamento nos enunciados básicos. Entendemos que tal noção – enunciado básico – é uma contribuição original de Popper de grande relevância, não só para a compreensão de sua epistemologia, mas para nortear todo o debate que se seguiu.

Procuramos no sucinto relato ater-nos à Lógica da Pesquisa Científica, como texto de referência, evitando inclusive certas notas que o autor acrescentou posteriormente, já em resposta a seus críticos. Tomamos tal precaução para acompanharmos o mais possível o desdobramento cronológico do pensamento de Popper. Cabe agora a menção, mesmo que superficial, às principais críticas que lhe foram feitas. Muitos dos pontos essenciais da crítica à epistemologia popperiana estão expressos na clássica coletânea, organizada por Imre Lakatos e Alan Musgrave, A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento. A importância das contribuições de Popper podem ser avaliadas, precisamente, pela grande quantidade de questionamentos que suscitou, em especial, no mundo anglo-saxão; forçando-o a acrescentar inúmeras notas de rodapé, apêndices, pós-escritos à sua Lógica. Isto nos faz lembrar o comentário de Thomas Kuhn que quando tal ocorre é sinal de crise do paradigma. Pensamos que, de fato, o paradigma proposto por Popper para a epistemologia se mostrou insuficiente para lidar com inúmeras questões, embora representasse um espetacular avanço em relação ao verificacionismo e indutivismo, até então reinante. Por outro lado, a percepção de tais dificuldades levou Popper a uma segunda fase de sua obra, que discutiremos a seguir, representada pela publicação de Conjecturas e Refutações. A fim de não acumular excessivamente questões, mencionaremos conforme o prometido algumas das críticas aos pontos fundamentais que listamos anteriormente, não obedecendo no caso uma ordem cronológica.

A noção de contexto de descoberta e contexto de justificação foi duramente criticada por Feyerabend – brilhante discípulo dissidente – em Contra o Método. O capítulo XIV do referido texto, em que trata especificamente do tema, apresenta-o da seguinte forma:

“Os resultados até agora conseguidos trazem em seu bojo a sugestão de abolir a distinção entre contexto da descoberta e contexto da justificação e de pôr de parte a distinção correlata entre termos observacionais e termos teoréticos. Nenhuma dessas distinções tem papel a desempenhar na prática científica. Tentativas de dar-lhes força trariam conseqüências desastrosas.” (p.257)

Sua argumentação apóia-se na história da ciência, questionando a possibilidade de distinção dos domínios da descoberta e da justificação uma vez que o último só pode ocorrer após o primeiro, ou melhor, que estão implicados. Admite que as atividades que pertencem ao contexto da descoberta são não apenas diferentes mas, sobretudo, conflitantes com as do contexto de justificação. E uma vez que a ciência se desenvolve a partir da descoberta, restaria saber a qual contexto se deveria dar tratamento preferencial. Em capítulos anteriores já havia discutido os experimentos de Galileu, procurando demonstrar que a vitória da física deste sobre a de Aristóteles obedeceu a razões de ordem muito diferente que as propostas por uma metodologia justificacionista. Ou seja: mudança do critério de evidência (do valor das impressões sensoriais para o dos dados fornecidos pelos instrumentos), da concepção de movimento, de experiência e de interpretação natural. Por outro lado, nada a favor de tais modificações obedeceu a uma argumentação racional, sendo inclusive mal sucedidas suas previsões. Em suma: defende que a distinção – descoberta e justificação – é artificial, arbitrária, ocultando o fato de ocorrer, na realidade, uma mudança de cosmologias, a criação de novas ontologias, afetando tanto os processos de descoberta como os critérios de teste. Na mesma linha vai considerar como definitivamente perdida a distinção entre termos observacionais e termos teoréticos:

“Enfim, descobrimos que o aprendizado não se desenvolve da observação para a teoria, mas sempre envolve ambos esses elementos. A experiência aparece acompanhada de pressupostos teóricos e não antes deles; e a experiência sem teoria é tão incompreensível quanto (supostamente) a teoria sem experiência: eliminemos parte do conhecimento teorético de um ser senciente e teremos pessoa completamente desorientada e incapaz de realizar a mais simples das ações. Eliminemos maior porção de conhecimento e o mundo sensorial dessa pessoa (sua “linguagem de observação”) começará a desintegrar-se, desaparecerão a sensação de cor e outras sensações simples, até que a pessoa venha a achar-se em estágio mais primitivo que o de um bebê.” (p.263)

A crítica de Feyerabend é bem mais abrangente do que está aqui relatado, desta forma remetemos o leitor a um anexo onde expomos nossa compreensão da mesma (Anexo I: A Razão e as “razões” de Paul Feyerabend). Para os nossos propósitos imediatos, vamos deter-nos aqui, apesar de registrar que tal crítica acompanhará, sob certo aspecto, todo o nosso texto.

Os enunciados básicos e a base empírica da ciência propostos por Popper foram também objeto de várias contestações, o que necessariamente não implica num não reconhecimento de seu valor e utilidade. Zahar num instigante texto (“O Problema da Base Empírica”, in Karl Popper – Filosofia e Problemas, org. Anthony O´Hear) vai rediscutir a proposta popperiana, partindo entre outros pontos do mesmo problema levantado por Feyerabend quanto à natureza da linguagem observacional. Zahar propõe a tese, que reconhece como ousada, “ ... de que uma abordagem fenomenológica da base empírica constitui um complemento necessário ao falseacionismo de Popper.” (p.57) Sustenta que “...em epistemologia, a única distinção legítima parece ser a que separa relatos de nível zero do resto, ou seja, de todas as proposições transcendentes.” (p.66) O alvo principal de sua crítica é a rapidez convencionalista com que Popper aceita enunciados básicos “não problemáticos”. A respeito faz a seguinte citação de Popper: “O conhecimento é possível, portanto, porque existem enunciados básicos “não problemáticos” (análogos às proposições intuitivamente certas sobre os dados dos sentidos), isto é, enunciados básicos que não precisam mais ser testados, e que não devem ser questionados depois que o acordo intersubjetivo tiver sido alcançado.” (in, Die beinden Grundprobleme, p.123) Vai discordar de John Watkins que sustentava que enunciados de nível um – dados sensoriais – constituiriam a base da física e que as proposições de nível zero, autopsicológicas, na primeira pessoa, seriam assunto exclusivo da psicologia e da psicobiologia. Para Zahar: “... somente relatos autopsicológicos deveriam ser considerados enunciados científicos básicos.” (p.60)[16]

Crítica mais ampla, mantendo os parâmetros popperianos, partiu de Imre Lakatos e resultou numa nova proposta epistemológica: “A Metodologia de Programas de Pesquisa Científica”. Em seu conhecido ensaio: “O Falseamento e a Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica”, na antologia já citada que organizou com Alan Musgrave, expõe sua crítica e proposta. A primeira – a crítica - parte dos inúmeros problemas que acarretam a noção de falseacionismo. Entendemos que como pano de fundo desta crítica está a tese Duhem-Quine que afirma a impossibilidade de refutação de uma teoria isolada, sem que todo o conjunto de que faz parte não o seja. Lakatos que, num Adendo, vai tentar superar este dilema, assim formula a referida tese:

“De acordo com a ‘tese Duhem-Quine’, em havendo imaginação suficiente, qualquer teoria (quer consista numa proposição, quer consista numa conjunção finita de muitas proposições) pode ser salva permanentemente da ‘refutação’ por algum ajustamento adequado no conhecimento de fundo em que está incluída. Como diz ‘aconteça o que acontecer, qualquer pronunciamento pode ser considerado verdadeiro, se fizermos ajustamentos suficientemente drásticos em outros pontos do sistema ... Inversamente, nenhum enunciado é imune à revisão’ (citação de Quine, in From a Logical Point of View, 1953, cap. II) De mais a mais, o ‘sistema’ é nada menos que o ‘conjunto da ciência’. ‘Uma experiência recalcitrante pode ser acomodada por uma de várias reavaliações alternativas em vários pontos alternativos do sistema total [incluindo a possibilidade de reavaliar a própria experiência recalcitrante]’.” (Lakatos e Musgrave, 1979:229)[17]

Atento à fragilidade a que a tese Duhem-Quine expõe o falseacionismo popperiano, Lakatos vai examiná-lo detidamente, tentando uma correção de reforço. Em primeiro lugar, divide as posições falseacionistas em duas: o falseacionismo dogmático, naturalista ou ingênuo, que daria ao enunciado singular refutador a força de condenar uma teoria científica irreversivelmente; e o falseacionismo sofisticado, ou metodológico, que utilizaria a noção de refutabilidade não para uma teoria isolada mas para uma série de teorias, sempre em comparação com uma concorrente que a superaria na medida em que apresentasse maior capacidade explicativa e maior conteúdo empírico. Neste caso, a refutação teria caráter provisório e comparativo. Considera Lakatos que o falseacionismo dogmático é insustentável por basear-se em duas suposições falsas:[18]

“A primeira suposição é que há uma fronteira natural, psicológica, entre as proposições teóricas ou especulativas de um lado e as proposições factuais ou observacionais (ou básicas) de outro. Isto, naturalmente, faz parte do ‘enfoque naturalista’ do método científico.

A segunda suposição é que se uma proposição satisfaz ao critério psicológico de ser factual ou observacional (ou básica), ela é verdadeira; é possível afirmar que foi demonstrada a partir dos fatos. Chamarei a esta a doutrina da prova observacional (ou experimental).” (p.118)

A essas suposições, que considera refutadas (a primeira, pela psicologia; a segunda, pela lógica), acrescenta outra base – também insustentável – que seria um critério demasiado rigoroso de demarcação entre o científico e o não-científico. A respeito deste último ponto diz: “são exatamente as teorias científicas mais admiradas que simplesmente falham em proibir qualquer estado observável de coisas.” (p.121) Formula um exemplo imaginário que refutaria a teoria newtoniana e como o mesmo poderia ser afastado pelos cientistas, tal como usualmente o fazem. Numa nota de rodapé há um breve referência à psicanálise: “Popper pergunta: ‘Que espécie de respostas clínicas refutaria, para satisfação do analista, não só um diagnóstico particular mas a própria psicanálise?’ ... Mas que espécie de observação refutaria, para satisfação dos newtonianos, não só determinada versão mas também a própria teoria newtoniana ?” (p.122)

Em sua proposta de uma Metodologia de Programas de Pesquisa, Lakatos vai defender a idéia de que os cientistas trabalham com conjuntos de teorias, os quais têm um núcleo inquestionável, que se torna irrefutável por estar protegido por um cinturão de teorias particulares que explicariam as anomalias e se ofereceriam a testes, não permitindo a aplicação do Modus Tollens ao núcleo. Dá como exemplo histórico de um programa de pesquisa bem-sucedido a teoria gravitacional de Newton. O “oceano de anomalias”(sic) em que tal teoria estava mergulhada foi afastado pela criação de modelos, teóricos, que procurariam dar conta das mesmas, deixando para um futuro a corroboração empírica. Assim, segundo Lakatos, caminhariam os grandes programas de pesquisa, não se deixando refutar com facilidade, transferindo problemas para o cinturão protetor, sempre à espera de confirmações futuras retrospectivas da teoria básica. Caso o programa mostre progresso empírico, em competição com outros, é dado como progressivo, em caso contrário, como degenerativo. Observa-se que há nesta proposta uma preocupação em harmonizar a epistemologia com a prática concreta dos cientistas e com a história do desenvolvimento da ciência.

Neste debate já se faz sentir a presença de Kuhn e suas noções de revoluções científicas, paradigma, ciência normal, e outras, contra as quais quer Lakatos apresentar uma alternativa, uma vez que a proposta original de Popper não se harmonizaria com as descrições históricas do real desenvolvimento e prática científicas, por ser uma proposta fortemente prescritiva.

Dado que nosso objetivo é discutir especificamente a questão da racionalidade da teoria psicanalítica não nos deteremos mais neste debate que rascunhamos apenas para ilustrar os temas que estavam em discussão, aos quais de certa forma retornaremos no capítulo dedicado à proposta epistemológica de Larry Laudan. Por enquanto, julgamos mais objetivo passar para a segunda fase de Popper, na qual tentará dar conta da racionalidade de teorias metafísicas. Pois, como vimos, até este momento, racionalidade e cientificidade se confundem e, a segunda, se refere fundamentalmente às ciências empíricas. Deve ser registrada a ausência de exame de exemplos das ciências humanas, talvez por escaparem da estreita noção de racionalidade utilizada.

1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO

Popper, nesta segunda fase de sua obra, vai preocupar-se com o desenvolvimento do que chamou “o método de conjecturas e refutações.” Observamos que nesse momento seu interesse está voltado para abarcar a metafísica – designação que emprega de modo vago, abrangendo tudo aquilo que escaparia à ciência empírica – em seu projeto epistemológico. Anteriormente, rascunhamos algumas das principais críticas que lhe foram feitas e que embora rebatidas por Popper, tiveram também eco em seu empreendimento filosófico e, a nosso ver, motivaram esta investida no terreno da metafísica, exigindo-lhe o desenvolvimento de novas propostas metodológicas. Cremos que tal interpretação é correta, pois, logo no primeiro capítulo de sua principal obra desta fase – Conjecturas e Refutações (O Progresso do Conhecimento Científico) – vemos o autor retomar o tema da demarcação, agora, com novos argumentos, tentando salvar a racionalidade daquelas teorias que não se enquadravam em seu estreito critério de demarcação. Por outro lado, como se pode observar no sub-título de sua principal obra deste período (O Progresso do Conhecimento Científico), é evidente sua preocupação em dar conta de um dos pontos mais questionados de sua proposta: a insuficiência para explicar o progresso científico que, segundo todas as pesquisas históricas, não obedece critérios de racionalidade tão rigorosos e acanhados como os propostos por Popper. Verificamos, então, que sua noção de racionalidade vai afastar-se dos constrangimentos da cientificidade e vai aproximar-se da noção de pensamento crítico. Esta fase consolida o que veio a ficar conhecido como o seu racionalismo crítico.

Seguindo a mesma linha do item anterior, apresentamos de forma sucinta os principais passos da argumentação popperiana e, em seguida, as críticas que suscitou. Podemos dividir sua exposição em dois grandes temas: As Origens do Conhecimento e da Ignorância e o Método de Conjecturas e Refutações.

As Origens do Conhecimento e da Ignorância – Este é o título da conferência introdutória de sua obra citada, na qual resume a idéia central que irá desenvolver na série de ensaios subseqüentes. Seu ponto de partida é a crítica à noção de verdade evidente(sic), a cujo acesso estaríamos impedidos pela “ação de uma força sinistra, origem de influências impuras e maléficas que pervertem nossa mente e nos impõem o hábito de resistir ao conhecimento (teoria da conspiração).” (p.31) Embora cite o marxismo como uma teoria típica do conjunto de teorias da conspiração, a rigor seu alvo mais amplo é toda epistemologia que pretenda fundamentar o conhecimento numa origem. Nesta empreitada crítica, corrente alguma será poupada, como textualmente diz:

“Nesta conferência, procurarei demonstrar que as diferenças entre as escolas empirista e racionalista são em verdade bem menos expressivas do que as semelhanças, e que ambas estão erradas. Sustento que estejam erradas embora eu mesmo seja um empirista e um racionalista. Mas acredito que, embora tanto a razão como a observação desempenhem funções importantes, essas funções pouco se assemelham às que seus defensores clássicos lhes atribuíam. Mais precisamente, procurarei demonstrar que nem a observação nem a razão podem ser descritas como fontes do conhecimento, no sentido em que até hoje têm sido definidas.” (p.32)

Opõe-se tanto ao que denomina epistemologias otimistas (Bacon e Descartes) quanto às que designa como pessimistas (as diversas formas de irracionalismo ou de ceticismo e, sobretudo, as correntes relativistas que começavam a ganhar terreno). Considera que ambas as tendências falham por buscarem as fontes do conhecimento, com esperança ou desespero. Pensa que o erro fundamental de tais empreendimentos está em não distinguir com suficiente clareza a origem da validade do conhecimento. A autoridade dos sentidos, o primado da observação, a veracitas naturae, de Bacon, ou, a autoridade do intelecto, o primado das idéias claras e distintas, a veracitas Dei, de Descartes, não aboliram o papel da autoridade na epistemologia. Teriam feito apenas substituições, em lugar de Aristóteles ou a Bíblia, estariam os sentidos ou o intelecto (sic). A crítica que faz dessas epistemologias otimistas é que em ambas há o objetivo de propor um método para alcançar verdades evidentes, seguras. A “leitura do livro da natureza”, proposta por Bacon, pretendia levar ao conhecimento ou episteme, não a conjecturas. O mesmo intento é o da crítica de Bacon ao “preconceito da mente que prejulga erroneamente a natureza, e possivelmente a julga mal”, levando à doxa, às opiniões e leituras impróprias do livro da natureza.[19] Popper reafirma que sua proposta epistemológica caminha em sentido oposto, isto é, todo conhecimento depende de um conhecimento prévio, ousado, não sendo passível de ser justificado, quer por novas observações (estas teriam papel significativo somente no contexto da testabilidade, uma vez já formulada a nova teoria), o que levaria a um regresso infinito, quer pela razão; um conhecimento que só pode ser avaliado pelos seus produtos. Quanto a tentativa de fundamentação pela razão, lembra que: “a física de Descartes, embora admirável sob muitos aspectos, estava errada; contudo, ela se baseava em idéias reputadas claras e distintas – que, portanto, deveria ser verdadeiras.” (p.45) Após reiterar com novos argumentos sua crítica à busca das fontes do conhecimento, assim como rejeitar a atribuição das fontes de nossa ignorância aos obstáculos que colocamos (negligência, obstinação ou preconceitos) à contemplação da verdade evidente, faz sua proposta:

“Podemos ter a esperança de detectar e eliminar o erro criticando as teorias e opiniões alheias e – se treinarmos para isso – as nossas próprias”. (este último ponto é sem dúvida altamente desejável, mas desnecessário: se não pudermos criticar nossas próprias teorias e opiniões, haverá quem o faça por nós). Essa resposta sintetiza a visão do que sugiro chamarmos de “racionalismo crítico”: um ponto de vista, uma atitude e uma tradição que devemos aos gregos. É muito diferente do “racionalismo” e do “intelectualismo”, da escola de Descartes e também muito diferente da epistemologia de Kant. Contudo, é uma posição que, no campo da ética e do conhecimento moral, foi abordada por Kant com o seu princípio da autonomia. Este princípio expressa a percepção do filósofo de que não devemos aceitar o comando de uma autoridade – por mais sublime que seja – como base da ética. Sempre que defrontamos um comando dado por uma autoridade devemos julgar, criticamente, se obedecê-lo será um ato moral ou imoral. A autoridade poderá ter o poder de obrigar-nos a obedecer-lhe; porém, como temos a capacidade de escolher, a responsabilidade última pela ação nos pertence. Obedecer ou não uma ordem é uma decisão crítica que tomamos – como também o é a submissão a qualquer autoridade.” (p.54)

No momento da citação acima, Popper expõe não somente sua proposta – o racionalismo crítico – mas o background ético e, segundo alguns comentadores[20], político, de sua epistemologia que desempenhará um relevante papel em sua proposta filosófica.

Popper resume sua posição a respeito das origens do conhecimento e da ignorância em dez teses. Nestas, reafirma que não há “fontes últimas” do conhecimento; “a verdadeira questão epistemológica não tem a ver com fontes: perguntamos se a afirmativa é verdadeira – isto é, se concorda com os fatos”; afirma não haver conhecimento sem conhecimento prévio – tradição e conhecimento inato – sendo que ambos devem oferecer-se à crítica; o progresso do conhecimento científico estaria na modificação das teorias precedentes; volta a contestar tanto as epistemologias “otimistas” quanto as “pessimistas”, uma vez que recusa critérios de verdade, ao mesmo tempo que admite critérios de reconhecimento do erro e da falsidade; rejeita a autoridade quer da observação quer da razão, assim como relativiza a importância da precisão ou da exatidão que só interessam para a conveniência do problema em questão; sugere que toda solução de um problema levanta outros, especialmente, quando é uma solução corajosa. No que diz respeito ao papel da linguagem, diz textualmente:

“A precisão da linguagem é um fantasma; os problemas relativos ao significado e à definição das palavras na verdade não têm importância ... As palavras só têm utilidade como instrumentos para a formulação de teorias; os problemas verbais devem ser evitados a todo custo.” (p.57)

O Método das Conjecturas e Refutações – É neste primeiro capítulo do livro que tomamos como referência desta segunda fase de Popper, que vamos encontrar sua proposta para o método científico. É também neste momento que faz sua mais extensa crítica à cientificidade da psicanálise, a qual deixaremos para um tópico específico. Mais interessante, no momento, é caracterizar os passos que dá para firmar sua noção de racionalidade. Sua argumentação vai basear-se num novo exame da solução de Hume para a questão da indução e da causalidade. Embora tais problemas já tenham sido tratados na Lógica da Pesquisa Científica, são agora abordados com outra ênfase e nova linguagem, isto é, há uma visível preocupação em retomar o problema de Hume com o fito de encontrar uma racionalidade mais ampla do que meramente a de demarcação entre ciência e pseudociência. Desta forma,

vai Popper criticar a solução psicológica de Hume, ou seja, não seria o costume ou o hábito que dariam um falso suporte à indução. Considera Popper a psicologia de Hume como popular e baseada no senso comum, pois, observa que:

A – O resultado típico da repetição não é a crença numa lei, mas a formação de um comportamento ou uma expectativa que se tornam inconscientes, “fisiológicos” (como o andar de bicicleta e suas regras) e só são percebidos quando algo sai errado (“não percebemos as batidas de um relógio, mas notaremos o silêncio, se o relógio parar”).

B – Hábitos e costumes, via de regra, não se originam na repetição. Dá como exemplo o andar, falar ou o comer em horas determinadas, comportamentos que antecedem a repetição.

C – A crença numa lei não corresponde precisamente ao comportamento que revela a expectativa de uma sucessão de eventos aparentemente baseados numa lei. “Como admite Hume, uma única observação pode ser suficiente para criar uma expectativa ou uma crença – fato que ele procurava explicar como resultado de um hábito indutivo, formado por inúmeras longas seqüências repetitivas que experimentamos em período anterior da nossa vida.” (p.73)

Discorda do uso não critico da idéia central de Hume de que a repetição seja baseada na similaridade. Popper assinala que a similaridade já é fruto de uma interpretação. Interpretamos como semelhantes eventos que, então, passamos a tomar como repetições. Defende que em realidade a idéia de repetição é fruto de nossa inclinação a esperar regularidades.

“Tratava-se (referindo-se a teoria que ele, Popper, havia já defendido) de uma teoria baseada em processo de tentativas – de conjecturas e refutações. Um processo que permitia compreender por que nossas tentativas de impor interpretações ao mundo vinham, logicamente, antes da observação de similaridades. Como havia razões lógicas para agir assim, pensei que esse procedimento poderia ser aplicado também ao campo científico; que as teorias científicas não eram uma composição de observações mas sim invenções – conjecturas apresentadas ousadamente, para serem eliminadas no caso de não se ajustarem às observações (as quais raramente eram acidentais, sendo coligidas, de modo geral, com o propósito definido de testar uma teoria procurando, se possível, refutá-la).” (p.76)

Embora rejeite, com veemência, a teoria das idéias inatas, advoga que “... todos os organismos têm reações ou respostas inatas – entre elas, respostas adaptadas a acontecimentos iminentes. Podemos descrever essas respostas como “expectativas” sem implicar que tais “expectativas” sejam iminentes.” (p.77) Ressalta que tais “expectativas inatas” não devem ser confundidas com um conhecimento válido a priori, pois, podem equivocar-se. Assim, um bebê nasce com a expectativa de ser alimentado mas pode ser abandonado e morrer de fome; este é o seu exemplo.

Com a introdução de “expectativas inatas” procura não só contrapor-se à solução de Hume, quanto ao papel do hábito, mas fundamentar seu método, entendendo que todo cientista trabalha também com um “horizonte de expectativas”, que são seus interesses teóricos, seu problema, suas conjecturas e antecipações, as teorias que aceita como seu pano de fundo e quadro de referências. A noção de “expectativas inatas” assumirá um papel cada vez mais relevante na proposta popperiana, principalmente, em sua última fase, a da “epistemologia evolucionária”. No momento em discussão ela equivale mais a uma fundamentação das conjecturas, como ponto de origem de qualquer conhecimento.

Popper aproxima sua proposta de solução ao “problema de Hume” – a justificação da indução e da causalidade – à solução kantiana. Porém, faz então um reparo a Kant – fruto de uma polêmica leitura da Crítica da Razão Pura , como discutiremos adiante – ao considerar que Kant estava certo ao dizer que “nosso intelecto não deriva suas leis da natureza, mas impõe suas leis à natureza”, mas errado ao admitir que a dinâmica de Newton fosse válida a priori. Continua Popper, a partir desta leitura de Kant, a criticá-lo por propor uma epistemologia que teria sempre êxito, ou seja, que a natureza aceitaria nossas leis.

O método das conjecturas e refutações tem também um caráter prescritivo , a ciência deve progredir assim. É conhecida a afirmação de Popper que: “da ameba a Einstein é um passo.” Frisa que a ameba também utiliza o método de ensaio e erro, porém o cientista “procura eliminar (erros), consciente e cuidadosamente, na tentativa de refutar suas teorias com argumentos penetrantes – inclusive o apelo aos testes experimentais mais severos que suas teorias e engenho lhe permitem preparar.” (p.81) Faz parte também do anedotário sua reação, quando questionado por historiadores da ciência quanto à validade histórica de tais normas para o progresso científico, que teria sido de retrucar: “Então ... pior para a ciência.”

Uma vez que nosso objetivo imediato é mostrar como evoluiu a noção de racionalidade em Popper, cabe assinalar três pontos que caracterizariam o método racional que apresenta, após questionar a razoabilidade da crença de que “o futuro repetirá o passado” mesmo quando com a alegação de que “as leis naturais não se alterarão”, contudo, estas só são naturais ante o fracasso das tentativas, até então, feitas para refutá-las, retruca Popper. Os pontos mencionados estão no seguinte parágrafo:

“... Precisamos com efeito rejeitar o ponto de vista de que a crença na ciência é tão irracional quanto a crença nas práticas mágicas primitivas – que os dois tipos de crença implicam a mesma aceitação de uma ‘ideologia total’ – tradição ou convenção baseada na fé. Mas precisamos ter todo o cuidado se formulamos nosso problema, como Hume, em termos de razoabilidade das nossas crenças. Na verdade, deveríamos dividir o problema em três partes – o conhecido problema da demarcação (como distinguir a ciência da mágica primitiva); o problema da racionalidade do procedimento crítico ou científico (e o papel exercido pela observação); finalmente, o problema da racionalidade da nossa aceitação das teorias, para fins práticos e científicos ...” (p.87)

A abrangência do racionalismo crítico para o âmbito dos problemas filosóficos é formulada no capítulo seguinte – “A Natureza dos Problemas Filosóficos e suas Raízes Científicas” – quando vai afirmar que: “os problemas filosóficos genuínos têm sempre suas raízes em problemas urgentes fora do campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.” (p.100) A discussão racional estaria então norteada pela solução dos problemas em questão, esses podem ser filosóficos ou não. Entendemos que Popper está dando passos, metodológicos, para a formulação de sua proposta de “lógica (ou análise) situacional”, formulação que discutiremos no próximo tópico.

Há, como já assinalamos, uma crescente preocupação de Popper em dar conta do progresso científico, da expansão do conhecimento, de critérios racionais para a escolha entre teorias. É patente sua tentativa de afastar o irracionalismo, evitar o transcendentalismo e afirmar a irrelevância do papel da linguagem nas questões epistemológicas. Assim lemos o capítulo 10 de Conjecturas e Refutações (“Verdade, Racionalidade e a Expansão do Conhecimento”). Em outro momento vamos discutir o êxito deste empreendimento, por ora, apenas sintetizamos sua formulação:

Considera que a ciência tem necessidade de crescer, seu crescimento é que a torna racional e empírica. Se as teorias saltam de qualquer teoria precedente, não importa se de mitos ou práticas mágicas, para se oferecerem como explicações de problemas, sujeitas a testes, isto não daria um caráter irracional à seleção da melhor delas. Advoga que temos critérios para a escolha da melhor teoria, do que seja mesmo uma “boa teoria”. Estes seriam: maior conteúdo informativo (empírico); maior força lógica; maior capacidade explanatória e poder de previsão, o que resultaria numa também maior possibilidade de ser rigorosamente testada do que suas rivais.

Popper não atribui a “sede de progresso” da ciência à importância prática ou social desse progresso, mas à sua significação intelectual. Defende mesmo uma aproximação à verdade – verdade como correspondência – assumindo uma posição realista que se acentuará no correr do restante de sua obra. Por outro lado, não é qualquer verdade que busca a ciência, mas verdades interessantes:

“Aceitamos, portanto, a idéia de que a função da ciência é a busca da verdade, ou seja, de teorias verdadeira (embora, como observou Xenófanes, podemos nunca alcançá-las ou mesmo não reconhecer sua veracidade). Enfatizamos, porém, o fato de que a verdade não é o único objetivo da ciência. Procuramos mais do que a simples verdade: buscamos uma verdade interessante – difícil de ser descoberta. Nas ciências naturais (em oposição à matemática), procuramos a verdade com alto grau de capacidade explicativa, no sentido de logicamente improvável.” (p.255)

Uma vez feito este sumário dos principais argumentos do racionalismo crítico popperiano, cabe, como nos propomos, fazer o contraponto, registrando alguns dos questionamentos que lhe foram feitos. Limitando-nos ao escopo deste trabalho, privilegiamos a crítica da leitura que Popper faz de Kant.

Wilson Mendonça em Conhecimento e Ação: Uma Leitura de Popper , rebate no tópico – “Kant Mal Compreendido” – as reiteradas afirmações de Popper de que Kant pretenderia deduzir aprioristicamente as leis Newton, as quais – segundo a leitura de Popper – seriam para Kant o modelo do conhecimento verdadeiro. A citação que Mendonça faz de Kant é suficiente, a nosso ver, para esclarecer tal equívoco:

“Mas quanto a fornecer mais leis além daquelas sobre as quais repousa uma Natureza em geral, enquanto conformidade dos fenômenos no espaço e no tempo a leis, para isso não basta o poder que o entendimento puro tem de prescrever leis a priori aos fenômenos através de simples categorias. As leis particulares, porquanto concernem a fenômenos determinados empiricamente, não podem ser integralmente derivadas das categorias, muito embora todas estejam submetidas a elas. É preciso o concurso da experiência para chegar a conhecer estas leis.” (p.24)

Na mesma linha, Wolfgang Röd[21] discute as relações entre Popper e Kant, chamando a atenção para a influência de autores kantianos, hoje bastante esquecidos, como Fries (1773-1843) e Riehl (1844-1924), no pensamento popperiano. Assinala que a denominação racionalismo crítico já havia sido utilizada por Riehl, sendo deste também a influência quanto à opinião de que Kant haveria se excedido ao negar qualquer possibilidade de se obter o conhecimento da realidade em si. Röd atribui a leitura equivocada de Popper, da Crítica da Razão Pura, ao fato de ter tomado o termo “dedução” em seu sentido usual, ao passo que Kant deixou claro o que ele pretendia significar com o termo: “... expor os conceitos puros do entendimento (e com eles todo o conhecimento teórico a priori) como princípios da possibilidade da experiência ...” Kant teria adotado o linguajar dos jurista que entendem por “dedução” a justificação de uma pretensão legal. Julgamos que o importante neste ponto é que, de fato, Popper não aceitaria a solução kantiana, assim formulada por Röd: “... os objetos, aos quais os conceitos do entendimento se relacionam, não existem independentes destes, mas são constituídos por eles. Em uma palavra, os objetos não são coisas em si, mas fenômenos.”

Um exame profundo e minucioso das relações entre Popper e Kant vamos encontrar na obra de Sérgio Fernandes: Foundations of Objective Knowledge – The Relations of Popper’s Theory of Knowledge to that of Kant, que utilizaremos no próximo tópico, ao discutir a noção de conhecimento objetivo, em Popper. Por ora, registramos apenas o comentário que Fernandes faz da relutância de Popper em discutir o termo “racional”, a qual atribui a duas ordens de temores: o indutivismo e o essencialismo, correntes com as quais não quer ser, através de qualquer leitura que lhe façam, identificado; limita-se então a localizar o ponto decisivo da racionalidade na “atitude crítica”.

Apesar de fugir à competência desta dissertação muitos dos pontos acima mencionados (acrescentaríamos, ainda, a forma ligeira como Popper trata o problema da linguagem) assinalamo-los por serem cruciais, interessando-nos para o desdobramento da pesquisa de que este texto faz parte.

1.1.3 – A EPISTEMOLOGIA EVOLUCIONÁRIA

Nesta última fase em que dividimos a obra de Popper, evidencia-se sua preocupação em dar uma objetividade ao conhecimento científico, compatível com sua já então consolidada opção pelo realismo. Verificamos isto na obra que tomamos como referência – Conhecimento Objetivo, Uma Abordagem Evolucionária [Popper,(1973)1975] – desde a dedicatória e seu prefácio. O livro é dedicado a Alfred Tarski, em cuja teoria da verdade pretende Popper ter encontrado os fundamentos lógicos que lhe faltavam para o seu realismo. No prefácio, de uma forma que o próprio autor reconhece como rude, afirma sua proposta:

“... se estou disposto a sustentar até o fim a verdade essencial do realismo do senso comum, considero a teoria de senso comum do conhecimento como uma asneira subjetivista. Tenho tentado erradicá-la e substituí-la por uma teoria objetiva do conhecimento, essencialmente conjectural. Isto pode ser uma pretensão audaciosa, mas não peço desculpas por ela.” (p.7)

Como nas obras de referência que selecionamos para caracterizar as fases anteriores, Popper inicia a discussão sobre o conhecimento objetivo, retomando o “problema de Hume”. Esta nova apresentação repete argumentos anteriores, mas como uma nova roupagem e novo sentido, ou seja, tenta articular sua crítica lógica à indução com a crítica psicológica. Considera tal articulação válida por postular um princípio de transferência, segundo o qual: “... o que se mantém em lógica também se mantém – desde que adequadamente transferido – em psicologia. (Este princípio heurístico é o que agora chamo ‘princípio de transferência’.)” (p.34) Acrescenta que passou a encarar a psicologia como uma disciplina biológica e que assim deveria ser vista qualquer teoria psicológica sobre a aquisição de conhecimento. Antes de distinguir conhecimento subjetivo de conhecimento objetivo, retoma a analogia “Einstein e a Ameba” para reafirmar que embora ambos partilhem de expectativas inatas, somente o primeiro é crítico em relação às mesmas, procurando conscientemente a eliminação do erro; enquanto, a segunda, não tem essa possibilidade – de enfrentar suas hipóteses – uma vez que estas fazem parte dela (Ameba). Diz então: “Só conhecimento objetivo é criticável: o conhecimento subjetivo só se torna criticável quando se torna objetivo. E torna-se objetivo quando dizemos o que pensamos; e mais ainda quando o escrevemos, ou imprimimos.” (p.35) Ainda neste capítulo inicial – “Conhecimento Conjectural: Minha Solução do Problema da Indução” – vai reafirmar, enfaticamente, o papel da verdade como idéia reguladora. O fato de não podermos justificar nossas teorias não quer dizer que não as testemos movidos pela busca da verdade e eliminação da falsidade.

Formula, então, a teoria dos três mundos:

Mundo 1 – seria o mundo dos objetos físicos ou de estados materiais.

Mundo 2 – seria o mundo de estados de consciência ou de estados mentais, ou talvez de disposições comportamentais para agir.

Mundo 3 – seria o mundo de conteúdos objetivos de pensamento, especialmente de pensamentos científicos e poéticos e de obras de arte.

A necessidade de tal formulação nos parece uma decorrência do interesse cada vez maior em ampliar seu sistema, abarcando a metafísica e a estética. Um passo importante já havia sido dado quando da introdução da “análise ou lógica situacional” como método de avaliação de questões metafísicas, ou seja, todas aquelas que não são passíveis de testabilidade, pelo menos, direta. Na falta de testes, de experiências cruciais, a discussão por meio da “análise situacional” permitiria dar uma racionalidade ao debate de tais proposições. Faltava uma fundamentação da objetividade, não-arbitrariedade, deste campo. Assim, o mundo 3 vem preencher esta lacuna. Embora sendo um mundo por nós criado, guarda autonomia em relação ao criador e com este interage. Compara nossas teorias – habitantes por excelência do mundo 3 – com filhos que geramos, mas levam vida própria e muito têm a nos ensinar. Além de sistemas teóricos e, mais importantes que estes, são os problemas e situações de problema que habitam tal mundo, assim como o estado de uma discussão ou o estado de um argumento crítico.

Reconhece algumas das importantes implicações de sua nova proposta, uma delas seriam os novos sentidos que adquirem os termos pensamento e conhecimento:

“Minha tese envolve a existência de dois sentidos diferentes de conhecimentos ou de pensamento: 1) conhecimento ou pensamento no sentido subjetivo, constituído de um estado de espírito ou de consciência ou de uma disposição para reagir; e 2) conhecimento ou pensamento num sentido objetivo, constituído de problemas, teorias e argumentos como tais. Neste sentido objetivo, o conhecimento é totalmente independente de qualquer alegação de conhecer que alguém faça; é também independente da crença ou disposição de qualquer pessoa para concordar; ou para afirmar, ou para agir. O conhecimento no sentido objetivo é conhecimento sem conhecedor; é conhecimento sem sujeito que conheça.

Frege escreveu a respeito do pensamento no sentido objetivo: ‘Por pensamento entendo não o ato subjetivo de pensar, mas o seu conteúdo objetivo ...’” (p.110/1)

Popper se preocupa em distinguir seu Mundo 3 de outras formulações que poderiam ser aproximadas, como o mundo das idéias (Platão) ou o espírito absoluto (Hegel), permitindo somente uma aproximação às concepções de Frege.[22]

O Mundo 3 passa, desde então, a desempenhar um papel fundamental na epistemologia popperiana, pois, embora autônomo é uma produção humana (“... um produto natural humano, comparável a uma teia de aranha”) e interage com o Mundo 2, tornando-se tal interação a responsável pelo crescimento do conhecimento objetivo (“... há estreita analogia entre o crescimento do conhecimento e o crescimento biológico, isto é, a evolução de plantas e animais.”).

Na medida em que a introdução desta nova noção dá a objetividade que faltava – e que satisfaz a Popper – à “análise situacional”, esta passa também a desempenhar um crescente papel, através da fórmula muitas vezes repetida:

P1 ® TT ® EE ® P2

Em que:

P1 : Problema apresentado

TT : Teoria ou Solução Experimental

EE : Eliminação de erros (por discussão crítica ou por testes experimentais)

P2 : Novo problema surgido

Juntamente com a “análise situacional”, o darwinismo passou a ter uma crescente importância no pensamento popperiano, a ponto do subtítulo da obra que tomamos como referência ser: Uma Abordagem Evolucionária. O que seria uma analogia – seleção das teorias mais aptas/seleção das espécies melhor adaptadas – toma por vezes a aparência de uma identidade ou de um continuum dos processos biológicos e mentais. Tal indistinção se explica pelo fato de Popper considerar o darwinismo um exemplo de “lógica situacional”. Por outro lado, por considerar não passível de testabilidade o darwinismo, coloca-o na categoria de um Programa de Pesquisa Metafísica.

Por Programa de Pesquisa Metafísica entende uma teoria não passível de ser testada, portanto, metafísica (segundo sua concepção), mas passível de ser racionalmente criticada por enquadrar-se numa “lógica situacional”, ou seja, propõe-se a solucionar um problema, sendo em conseqüência também passível de ser comparada com teorias rivais. O modelo de Programa de Pesquisa Metafísica seria a teoria da seleção natural de Darwin, da qual faz uma longa exposição no item 37 de sua Autobiografia Intelectual (Popper,1977).

Ainda nesta fase, Popper faz algumas considerações sobre a linguagem e seu papel no desenvolvimento do Mundo 3. Atribui quatro funções à linguagem, duas inferiores (expressiva e sinalizadora), as quais partilharíamos com os animais; e duas superiores (descritiva e argumentativa), próprias somente dos seres humanos, fruto de um processo evolutivo e realimentadoras do mesmo, na medida que teriam um papel essencial no Mundo 3.

Resta assinalar que neste período Popper faz, de forma muito ligeira, uma referência à estética, considerando que as obras de arte podem ser apreciadas também à luz da “lógica situacional”. Neste caso procurar-se-ia identificar o problema com que o artista estaria se defrontando e sua solução apresentada. A teoria da arte como auto-expressão é fortemente criticada, assim como qualquer teoria estética “subjetivista”. Não fica muito claro se Popper estende sua crítica a qualquer forma de expressionismo.

Sérgio Fernandes (op.cit. p.116) chama atenção para o equívoco em que cairíamos se tomássemos a teoria do conhecimento de Popper como naturalista. Este, talvez, seja o ponto em que se concentra a maior parte das críticas a esta última fase de Popper. Fernandes acrescenta que freqüentemente Popper trata como biológico o que para Kant é transcendental, mas isto não implica que considere idéias metafísicas, regulativas, como biologicamente explicáveis. É possível que tal interpretação naturalista surja da aproximação que Popper faz de seu método de “análise (ou lógica) situacional” e os processos descritos pela teoria da evolução darwiniana:

“Caso a visão da teoria darwiniana como lógica situacional seja aceitável, poderíamos explicar a estranha similaridade entre minha teoria do crescimento do conhecimento e o darwinismo: ambos seriam casos de lógica situacional.” (Popper, 1977, tópico 37)

A citação acima é considerada como “desconcertante”, por John Watkins (“Popper e o Darwinismo”, in Karl Popper: Filosofia e Problemas; org. Anthony O’Hear). Watkins discorda da aproximação referida, lembrando importantes diferenças entre ambas as teorias, como: “Para Darwin, não poderia haver algo como um “monstro promissor” (ou seja, a possibilidade de mutações amplas e úteis); mas a história da ciência, vista pelos olhos popperianos está repleta de ‘monstros promissores’.” (op.cit. p.p. 229-230) Na mesma coletânea, diz Michael Smithurst (no artigo: “Popper e o Ceticismo da Epistemologia Evolucionista, ou, Para que Foram Feitos os Humanos?”):

“Popper vê a eliminação de teorias como um empreendimento progressivo, pois se trata de chegar mais próximo da verdade; mas a evolução darwiniana é não-progressiva, e não se aproxima de nada, a um ponto que, ironicamente, T. S. Kuhn, que também representa sua filosofia da ciência como ‘evolutiva’, a invoca como motivo para evitar mencionar a verdade ao se referir às teorias.” (p.p. 249-250)

Esta aproximação com o darwinismo seria, a nosso ver, onde os críticos mais se concentram nesta última fase de Popper.

Pensamos que feita esta sumária resenha do desenvolvimento das concepções de Popper sobre ciência e racionalidade, podemos passar a discutir especificamente – nosso objetivo maior – como é tratada a psicanálise na obra de Popper e que lugar poderia ter em sua epistemologia. Neste capítulo nos limitaremos exclusivamente aos textos do próprio Popper.

1.2 – POPPER E A PSICANÁLISE

A psicanálise é uma questão para Popper desde sua juventude (17 anos), quando precocemente foi despertado para o problema de traçar uma distinção entre a ciência e a pseudociência. Contudo, ao contrário do que ocorreu em relação à teoria de Einstein e ao marxismo, duas teorias que então também o atraíram, às quais dedicou inúmeros textos, pouco encontramos em Popper sobre a psicanálise. As referências são esparsas, ligeiras e, até certo ponto, pouco significativas, ou mesmo, ambivalentes. Talvez, aí esteja a origem de avaliações em relação à psicanálise, tão díspares, inspiradas na epistemologia popperiana, quanto às de Grünbaum e Klimovsky, conforme discutiremos no próximo capítulo.

É no primeiro capítulo de Conjecturas e Refutações (Popper,1972) que vamos encontrar suas críticas mais extensas à psicanálise. Estas podem ser agrupadas nos seguintes itens:

Uma excessiva capacidade de explicação. “Não conseguia imaginar qualquer tipo de comportamento humano que ambas as teorias (refere-se a de Freud e a de Adler) fossem incapazes de explicar.” (1972:65)

A idéia de uma “confirmação” da teoria a partir de experiências anteriores. Neste caso a referência que faz é diretamente a uma conversa com Alfred Adler, embora sugira que a atitude dos adeptos de Freud fosse a mesma:

“Os analistas freudianos afirmavam que suas teorias eram constantemente verificadas por “observações clínicas”. Quanto a Adler, fiquei muito impressionado por uma experiência pessoal. Certa vez, em 1919, informei-o de um caso que não me parecia ser particularmente adleriano, mas que ele não teve qualquer dificuldade em analisar nos termos da sua teoria do sentimento de inferioridade, embora nem mesmo tivesse visto a criança em questão. Ligeiramente chocado, perguntei como podia ter tanta certeza. ‘Porque já tive mil experiências desse tipo’ - respondeu; ao que não pude deixar de retrucar: ‘Com este novo caso, o número passará então a mil e um ...’ O que queria dizer era que suas observações anteriores podiam não merecer muito mais certeza do que a última; que cada observação havia sido examinada à luz da ‘experiência anterior’, somando-se ao mesmo tempo às outras como confirmação adicional.” (1972:65)

A utilização de “observações clínicas”. “As observações clínicas, como qualquer tipo de observação, são interpretações empreendidas à luz das teorias, por esta razão podem parecer sustentar as teorias à luz das quais foram interpretadas”. (1972:67, nota3) Além da circularidade das “observações clínicas”, critica a falta de observações que fossem empreendidas como testes (“tentativas de refutação”). Pede também critérios de refutação que estabelecessem as condições em que a teoria, não um diagnóstico em particular, fosse passível de ser refutada.

O “Efeito de Édipo”. Expressão que cunhou para caracterizar “a influência exercida por uma teoria, expectativa ou predição sobre o acontecimento previsto ou descrito”. (1972:67, nota3) Lembra a série de acontecimentos casuais que levaram Édipo ao parricídio, a partir da predição deste evento pelo oráculo. Cita Freud: “... do ponto de vista da teoria analítica, nenhuma objeção pode ser feita à afirmativa de que a maioria dos sonhos usados durante uma análise ... devem sua origem à sugestão (do analista) ... não há nada neste fato que possa prejudicar a confiabilidade dos resultados obtidos.” (1972:67, nota 3) Como teremos oportunidade de discutir adiante, esta é uma citação truncada, que vai ser corrigida por Grünbaum, em sua crítica não menos contundente, e mais rigorosa, à psicanálise. Aceitando, provisoriamente a leitura que Popper faz de Freud, o que desejamos registrar é sua afirmação de que tal impossibilidade de uma previsão “arriscada”, por parte da teoria psicanalítica, torna-a uma teoria irrefutável.

Em que pese tais críticas que, embora gerais, são incisivas, acredita Popper que “... Pessoalmente, não duvido da importância de muito do que afirmam (refere-se a Freud e Adler) e acredito que algum dia essas afirmações terão um papel importante numa ciência psicológica ‘testável’.” (1972:67)

Examinaremos as objeções de Popper em três momentos:

A – Neste capítulo pretendemos discuti-las aceitando suas formulações e explicitando-as, dentro da epistemologia popperiana, baseados no sumário que fizemos na seção anterior.

B – No próximo capítulo examinaremos as mesmas objeções, agora melhor formuladas por Adolf Grünbaum, que chega a conclusões análogas a Popper, quando levantaremos nossos questionamentos às mesmas.

C – Num terceiro momento, Capítulo III, examinaremos os próprios fundamentos da epistemologia popperiana, quando aplicado às ciências humanas e, em particular, à psicanálise, contrastando-a com a proposta epistemológica de Larry Laudan.

As objeções que Popper faz à cientificidade da psicanálise são compatíveis com os pontos de vista que desenvolve no que consideramos a primeira fase de sua epistemologia. Estava então voltado para o estabelecimento de um critério de demarcação entre ciência e pseudociência, servindo a psicanálise – assim como a astrologia – como um bom exemplo da segunda, sobretudo, por não oferecer possibilidade de ser testada por algum enunciado básico que a refutasse. Não teria a psicanálise previsões arriscadas que pudessem servir como experiências cruciais refutadoras. Além do mais, o que insinua na crítica às observações clínicas é que estas não só seriam teorias que interpretariam os dados, mas que na melhor das hipóteses cairiam nos velhos vícios dos processos indutivos. Lembremos de uma de suas famosas frases: “Pode ser útil colecionar insetos, mas não observações.” Está também implícito na primeira objeção – “excessiva capacidade explicativa” – o uso de hipóteses ad hoc pela psicanálise, pois, só assim poderia explicar tantos fenômenos. O uso de tal tipo de hipótese – ou seja: hipóteses auxiliares que não podem ser testadas independentemente – imunizaria a teoria psicanalítica de qualquer refutação.

Lembremos algumas das críticas que na seção anterior relacionamos ante este tão rigoroso critério de demarcação. Referimo-nos, em especial, às críticas de Lakatos e Feyerabend que, utilizando exemplos de outros campos do conhecimento (ciências naturais), recusam que os cientistas trabalhem como propõe Popper e, Lakatos em particular, consideram ingênuo (ou dogmático) o falseacionismo desta fase da obra de Popper, Acrescentaríamos que Gregorio Klimovsky (in, Las Desventuras Del Conocimiento Científico, 1999), autor de declarada orientação popperiana, após discutir minuciosamente as dificuldades de utilização de experiências cruciais, assim como o caráter necessariamente convencional dos enunciados de primeiro nível (observacionais), conclui: “ ... toda afirmação acerca da base empírica é de natureza hipotética e é, portanto, revisável ... Se isto é assim, o que resta da ambição da ciência de dispor de uma série de conhecimentos indiscutíveis a partir dos quais se possam contrastar hipóteses e teorias ? Desde o ponto de vista filosófico, a resposta é que tal conhecimento indiscutível não existe.” (op.cit.; p.223) Popper certamente concordaria com tais afirmações. Contudo, seu critério de demarcação foi excessivo, a nosso ver, não tanto pelo rigor, mas por substituir a questão da racionalidade pela da cientificidade, ou, pelo menos, borrar tal distinção num primeiro momento de sua obra. Mesmo que aceitemos o critério proposto – com todo o necessário caráter hipotético dos refutadores – não nos satisfaz a vasta gama de produção científica que ficaria relegada à pseudociência, num limbo epistemológico pouco diferenciado: psicanálise/astrologia/teoria da seleção natural de Darwin. Pensamos que a mesma insatisfação acometeu a Popper, daí propor o método de conjecturas e refutações e a “análise ou lógica situacional”. Uma vez que neste capítulo nos propusemos a manter o exame dentro da própria obra popperiana, vamos investigar como a psicanálise poderia receber outro tratamento.

Curiosamente, Popper não retoma o tema da teoria psicanalítica no restante de sua obra. Entretanto, a proposta de utilização da “análise situacional” visa exatamente fornecer um espaço mais amplo para a discussão daquelas teorias que embora não testáveis – metafísicas, na terminologia popperiana - são passíveis de discussão racional, uma vez que se propõem a dar conta de problemas reconhecidos pela comunidade científica. Lembraríamos que, nesta segunda fase, Popper passa a falar com maior insistência de escolha entre teorias rivais. Na fase anterior, talvez, o que avalizasse mais a crítica de Lakatos seria o fato da pretensão, dogmática, de refutação de uma teoria isolada. Assim, oferecemos um exemplo, a partir de Freud, de uma das teorias componentes da teoria psicanalítica que, exatamente, pretende dar conta de uma situação-problema. Não entraremos na discussão da solução dada por Freud, porém registramos sua formulação, uma vez que corresponde a nosso ver ao modelo que Popper espera encontrar nas legítimas teorias metafísicas.

Referimo-nos à obra de Freud: Análise do Ego e Psicologia do Grupo (Freud, 1921, S.E. 18: 66-143). Vejamos como o texto freudiano se enquadra numa análise situacional:

Problema (P1) : Os indivíduos quando em grupo, sob certas condições, se comportam, sentem, pensam, de forma muito diversa do que seria esperado por suas formas usuais de comportamento, sentimento e pensamento.

“E esta condição (pertencer a um determinado grupo) é sua inserção numa coleção de pessoas que adquiriram as características de um ‘grupo psicológico’. O que é, então, um ‘grupo’ ? Como ele adquire a capacidade de exercer uma tão decisiva influência sobre a vida mental do indivíduo ? E qual é a natureza da mudança mental que ele impõe ao indivíduo ?” (Freud, S.E. 18: 72)

Freud considera que é tarefa de uma teoria psicológica sobre grupos dar conta dessas três questões. A validade do problema e a pertinência das questões são dados pelo reconhecimento pela comunidade científica, que apresentou várias teorias a respeito, e pela observação cotidiana. No correr do texto, Freud examina as principais teorias disponíveis: a de Le Bon, a de McDougall e a de Trotter. Aponta concordâncias e assinala as insuficiências de tais teorias, como a título de exemplo: a incapacidade de darem resposta adequada ao fenômeno do pânico. Este ocorreria de forma desproporcional ao perigo existente. Assim, as teorias que atribuíam o pânico ao “contágio” (“indução primária”), como a de McDougall, não dariam conta do contra-exemplo de estados de pânico em ausência de graves perigos, ou, capacidade do grupo de enfrentar reais estados de graves ameaças.

Teoria proposta (TT) : Os grupos psicológicos se formam por desenvolver uma ligação entre seus membros de caráter libidinal[23] e seu líder representar para cada membro seu próprio ideal.

Tal teoria dá conta das três perguntas acima levantadas, esclarece o papel do líder melhor que as anteriores e deu margem a experiências de tratamento psicanalítico em grupo, assim como à utilização de técnicas grupais para diversas formas de assistência. Foi o caso das experiências de W. R. Bion e Jonh Rickman (Bion, 1970)[24] no exército britânico – na recuperação psicológica de combatentes – e de W. R. Bion na Tavistock Clinic (Bion, 1970).

Eliminação de erros (EE) : As experiências citadas exigiram a correção da teoria original (T1), a qual não dava suficientemente conta do papel e do processo de escolha do líder, entre outros problemas (P2), .

Novos problemas (P2) : Como é escolhido o líder num grupo ? Qual o seu papel (além do que Freud havia sugerido) ? Como explicar a formação e o papel que exercem os sub-grupos, dentro do grupo maior ?

Nova teoria (T2) : Para dar conta dessas questões uma nova teoria foi formulada (Bion, 1970), colocada a teste, através da aplicação de sua metodologia em grupos variados, surgindo novos problemas (P3) que exigiram repensar e formular nova teoria (T3)[25], a partir da correção de erros (EE).

A experiência psicanalítica com grupos, somente possível a partir do trabalho original de Freud, permitiu a formulação de novas teorias, eliminando erros anteriores, ou seja, tendo uma maior capacidade explicativa e abrindo novos campos de investigação. Os resultados empíricos se expressaram pela capacidade que a experiência citada forneceu de uma mais rápida e melhor recuperação de combatentes, assim como pela possibilidade de utilização de técnicas grupais no tratamento de pacientes internados em hospitais psiquiátricos (a experiência de comunidades terapêuticas, na qual a própria vida comunitária representava um importante fator terapêutico, reduzindo o tempo tradicional de internação e facilitando a ressocialização), e ainda nos tratamentos em hospitais gerais de pacientes com distúrbios psicossomáticos ou com resistência a tratamentos de enfermidades crônicas (como a diabetes), entre outras aplicações de terapêuticas grupais.

Citamos, muito sumariamente, este exemplo de análise situacional de uma das teorias componentes da teoria psicanalítica, apenas para registrar um ponto ao qual voltaremos no Capítulo III, quando discutirmos as insuficiências da epistemologia popperiana para lidar com as ciências humanas e, em particular, com a psicanálise. Adiantamos que, apesar das insuficiências, há um espaço que não foi explorado por Popper para uma aproximação mais criativa e menos dogmática da “questão da psicanálise”.

A fim de suprir a ausência de comentários mais extensos e consistentes a respeito da psicanálise, na obra de Popper, utilizaremos o seu texto A Lógica das Ciências Sociais (tradução brasileira da participação de Popper in The Positivist Dispute in German Sociology. Popper, 1978) como fonte de discussão do padrão de racionalidade que propõe para as ciências humanas. Neste trabalho, em que expõe seu ponto de vista em vinte e sete teses, encontramos uma subordinação da psicologia à sociologia, o que a nosso ver descaracteriza o objeto, ou, para usar uma linguagem popperiana, a própria natureza dos problemas com que a psicologia se defronta.

Na vigésima-segunda tese diz:

“A psicologia é uma ciência social visto dependerem, grandemente, nossos pensamentos e ações de nossas condições sociais. Idéias como (a) a imitação, (b) a linguagem, (c) a família, são obviamente idéias sociais; está claro que a psicologia da aprendizagem e do pensamento e também, por exemplo, a psicanálise, não podem existir sem utilizar uma ou outra dessas idéias sociais, o que demonstra ser impossível explicar a sociedade exclusivamente em termos psicológicos, ou reduzi-la à psicologia. Logo, não podemos considerar a psicologia como a base das ciências sociais.

O que não podemos, a princípio, explicar psicologicamente, e o que devemos pressupor em toda explicação psicológica é o ambiente social do homem. A missão de descrever esse ambiente social (isto é, com a ajuda de teorias explicativas – como declaradas anteriormente – visto que descrições livres de teorias não existem) é a tarefa fundamental da ciência social.” (p. 30)

Tais afirmações, à primeira vista, chocantes, se tornam mais coerentes (talvez, excessivamente) quando articuladas com as demais teses em que faz sua proposta de uma “lógica situacional”, para as ciências sociais. Este ponto fica mais claro na vigésima-quinta tese:

“A investigação lógica da Economia culmina com um resultado que pode ser aplicado a todas as ciências sociais. Este resultado mostra que existe um método puramente objetivo nas ciências sociais, que bem pode ser chamado de método de compreensão objetiva, ou de lógica situacional. Uma ciência orientada para a compreensão objetiva ou lógica situacional pode ser desenvolvida independentemente de todas as idéias subjetivas ou psicológicas. Este método consiste em analisar suficientemente a situação social dos homens ativos para explicar a ação com a ajuda da situação, sem outra ajuda maior da psicologia. A compreensão objetiva consiste em considerar que a ação foi objetivamente apropriada à situação. Em outras palavras, a situação é analisada o bastante para que os elementos que parecem, inicialmente, ser psicológicos (como desejos, motivos, lembranças e associações), sejam transformados em elementos da situação. O homem com determinados desejos, portanto, torna-se um homem cuja situação pode ser caracterizada pelo fato de que persegue certos alvos objetivos; e um homem com determinadas lembranças ou associações torna-se um homem cuja situação pode ser caracterizada pelo fato de que é equipado, objetivamente, com outras teorias ou com certas informações.” (p. 31/2)

A seguir, na mesma tese, Popper vai dar o “exemplo de Carlos Magno”, ou seja, a possibilidade de compreendermos objetivamente as ações de Carlos Magno caso possuíssemos todas as informações de que o personagem dispunha e assim estabelecermos seus alvos e objetivos. Acha que esse método – lógica situacional – é:

“...racional, empiricamente criticável, e capaz de melhorias. Podemos, por exemplo, encontrar uma carta que demonstre que o conhecimento à disposição de Carlos Magno era diferente do que admitimos em nossa análise. Por contraste, as hipóteses psicológicas ou caracterológicas são dificilmente criticáveis por argumentos racionais.” ( Vigésima-sexta tese, p. 32)

O exemplo acima de aplicação da “análise situacional” às ciências humanas levanta uma gama de problemas que tocam as bases da epistemologia popperiana. Como reservamos um espaço para a discussão mais abrangente da mesma, registramo-lo apenas para ilustrar como Popper tenta lidar com a questão – há uma referência en passant à psicanálise – nesta fase de pleno desenvolvimento de seu racionalismo crítico e epistemologia evolucionária. Por ora, interessa-nos encontrar um lugar para a discussão da racionalidade da psicanálise. Pensamos tê-lo encontrado em sua proposta de Programas de Pesquisa Metafísica. Como já assinalamos na seeção anterior, foi este o espaço que Popper reservou para a teoria da seleção natural de Darwin, teoria não-testável, portanto, metafísica, mas que recebeu um tratamento mais atencioso por parte de Popper. Chegou mesmo a sugerir aperfeiçoamentos na teoria darwiniana, bastante ousados, porém preciosos para alguns comentadores, como Watkins (1977).

Quando lembramos o texto de Freud sobre grupos, pensávamos precisamente na possibilidade da epistemologia popperiana aproveitá-lo para uma interlocução que poderia superar dificuldades mútuas.

Em resumo: entendemos que a teoria psicanalítica, dentro de critérios de cientificidade estritamente popperianos, não se sustenta como ciência. Deverá a psicanálise encontrar sua racionalidade, na proposta popperiana, como um Programa de Pesquisa Metafísica. Posição idêntica encontramos entre popperianos, como Renée Bouveresse Quilliot e Roland Quilliot que são citados por Elizabeth Saporiti (1997: 69), partilhando a mesma opinião:

“Assim sendo, a Psicanálise poderia ter pretensões de racionalidade, mesmo não sendo científica. (Passa a citar os Quilliot): “E, quando Popper aproxima Freud de Darwin, alegando que a teoria freudiana, da mesma forma que a darwiniana, oferece o que ele chama de ‘uma lógica’ das situações, ele está reconhecendo abertamente o caráter racional da teoria freudiana. Pode-se assim concluir que, na posição de Popper, nada impediu jamais que se atribuísse à teoria freudiana o mesmo estatuto que o próprio Popper vem atribuindo há muito tempo à teoria da evolução: o de ser um ‘programa de pesquisa metafísica’ útil à ciência.”[26]

Resta ainda um comentário sobre a ambivalência de Popper em relação à psicanálise. No mesmo capítulo já citado de Conjecturas e Refutações, diz;

“Mencionaria aqui um ponto de concordância com a psicanálise. Esta afirma que os neuróticos interpretam o mundo de acordo com um modelo pessoal fixo, que não é facilmente abandonado, e cujas raízes podem remontar às primeiras fases da infância. Um modelo ou esquema adotado muito cedo se mantém e serve como padrão interpretativo para toda experiência nova, verificando-a, por assim dizer, e contribuindo para enrijecê-la. Esta é uma descrição do que chamei de “atitude dogmática”, por comparação com a atitude crítica que tem em comum com ela a facilidade da adoção de um sistema de expectativas – um mito, talvez: hipótese ou conjectura -, mas que estará sempre pronta a modificá-lo, a corrigi-lo e até mesmo a abandoná-lo. Estou inclinado a achar que a maioria das neuroses podem ser devidas ao não desenvolvimento da atitude crítica – a um dogmatismo enrijecido (e não natural); à resistência às exigências de adaptações de certas interpretações e respostas esquemáticas. Resistência que em si pode ser explicada, em certos casos, por uma injúria ou um choque que provocou medo e o aumento da necessidade de segurança, analogamente ao que acontece quando ferimos um membro, que depois temos medo de usar – o que o enrijece. (Pode-se até mesmo argumentar que o caso do membro é não só analógico à resposta dogmática, mas um exemplo desse tipo de resposta). Em qualquer caso concreto, a explicação precisará levar em conta o peso das dificuldades que podem ser consideráveis, especialmente num mundo complexo e cambiante: experiências feitas com animais nos ensinam que variando as dificuldades impostas, podemos provocar vários graus de comportamento neurótico.” (p.79)

Infelizmente, Popper não explorou esse seu insight sobre a importância, para a psicanálise, da distinção entre um “pensamento dogmático” e um “pensamento crítico”, que será um dos pontos fundamentais para a compreensão da psicose, assim como do tipo de racionalidade que a psicanálise utiliza. A exploração deste ponto poderia também atender à sugestão de Klimovsky (1987:282) quanto à psicanálise poder oferecer alguma contribuição à epistemologia.

Reservamos para o final desta seção nossos comentários sobre duas noções que aparecem com freqüência nas críticas de Popper e que retornarão nas de Grünbaum, principalmente a primeira. Referimo-nos às noções de sugestão e de ambivalência. Tais conceitos merecem um lugar especial dada a forma bastante equivocada como são tratados, tradicionalmente, pelos críticos da psicanálise.

Quanto ao problema da sugestão, Freud se defrontou com o mesmo desde cedo e discute-o em vários momentos, dos quais vamos selecionar: duas de suas Conferências Introdutórias (Freud, 1916/7; S. E. XVI) – as de número XXVII e XXVIII – e seu texto já citado sobre os grupos humanos (Freud, 1921; S. E. XVIII). Nestas obras reconhece o fenômeno da sugestão como um fenômeno universal, ou seja, que ocorre em qualquer situação, tanto nas relações do indivíduo consigo mesmo (auto-sugestão), como com um outro (hipnotizador, parceiro amoroso), quanto nos grupos.[27] A rigor, a teoria psicanalítica nasceu da tentativa de superar certos problemas – tanto clínicos como teóricos – que os diversos métodos terapêuticos baseados no uso da sugestão, que surgiram no final do século XIX, ofereciam. Do ponto de vista teórico, a noção de sugestão se fez presente em todas as teorias sobre os grupos humanos em voga na época, sob diversos nomes: imitação (Tarde), contágio (Mc Dougall), prestígio (Le Bon), com bem assinala Freud; a respeito do que comenta:

“Devemos, pois, estar preparados para a afirmação que a sugestão (ou mais corretamente a sugestibilidade) é realmente um irredutível e primitivo fenômeno, um fato fundamental na vida do homem. Tal, também, era a opinião de Berheim, de cujas impressionantes artes fui uma testemunha no ano de 1889. Contudo, posso recordar de mesmo então ter tido um sentimento de abafada hostilidade a esta tirania da sugestão. Quando um paciente que se mostrava inacessível, ouvia o grito: ‘O que você está fazendo? Vous vous contresuggestionez!’ , eu dizia para mim mesmo que isto era uma evidente injustiça e um ato de violência. Pois, o homem certamente tinha o direito a contra-sugestões se estavam tentando subjugá-lo com sugestões. Mais tarde, minha resistência tomou a direção de protestar contra a visão de que a sugestão, que tudo explicava, fosse ela própria isenta de explicação. Eu repetia o velho quebra-cabêça: Christophorus Christum, sed Christus sustulit orbem: Constiterit pedibus dic ubi Christophorus? (‘Cristovão sustentava Cristo; Cristo sustentava o mundo; Diga, onde Cristovão punha então seu pé?’).” (Freud, 1921; S.E. XVIII:89)

Freud vai propor como fundamento da sugestão a libido, cujo papel na dinâmica dos grupos já comentamos anteriormente. Em qualquer relação pessoal a libido se faz também presente pelo fenômeno da transferência, ou seja, o paciente, como qualquer pessoa, transfere para o outro vínculos afetivos que reproduzem relações anteriores, sendo as mais básicas as relações com os primeiros objetos de amor e ódio: pais e irmãos, por exemplo. Segundo a concepção freudiana, a possibilidade de alguma forma de influência, e não nos referimos somente à terapêutica, está matizada pelo fenômeno da transferência. Esta pode ser positiva (amorosa) ou negativa (agressiva). Quando consideramos como muito equivocadas e superficiais as críticas que se baseiam no papel da sugestão, assim o julgamos pelos seguintes motivos:

A – Ignoram a universalidade do fenômeno.

B – Não discutem a teoria psicanalítica da sugestão, que envolve o fenômeno da transferência e sua teoria da libido, da mesma forma que não apresentam outra teoria concorrente.

C – Não discutem a sugestão e a resistência à mesma, ou seja, as duas formas de transferência que Freud propõe. Importante lembrar que não só na psicanálise, mas na tradição psiquiátrica, tão importante quanto a sugestibilidade é o seu oposto: o negativismo, freqüente em quadros psicóticos. Da mesma forma, não é discutido o aspecto seletivo da sugestão, isto é: o paciente não aceita qualquer interpretação ou explicação que lhe seja sugerida.

D – Como há pouco mencionamos, ao citar Popper sobre o “pensamento dogmático” (neurótico) e o “pensamento crítico” (normal), não pretende a teoria psicanalítica explicar o sintoma ou a história do paciente, mas sim permitir que este encontre significações, as quais serão sempre provisórias, permitindo re-significações, o que o “pensamento dogmático” não possibilita. Lembramos que um dos sintomas característicos – patognomômico – das psicoses é a impossibilidade de um “pensamento crítico”. O delírio – para tomarmos a forma paradigmática do pensamento psicótico – é necessariamente irredutível à argumentação racional; sua verdade é evidente e manifesta, suas idéias são, muitas vezes, claras e distintas, não dando margem a dúvidas, segundo o ponto de vista do paciente. Neste sentido é que pensamos ter escapado a Popper, como a outros epistemólogos da mesma tradição, que desprezam o irracional, a contribuição fundamental da psicanálise ao problema da psicose: a de denunciar a sua pretensão de constituir-se em um conhecimento privado[28].

Quanto à noção de ambivalência, Popper admite a existência do fenômeno mas o considera um obstáculo à testabilidade da psicanálise:

“Mas que resultados clínicos poderiam refutar satisfatoriamente não só um diagnóstico analítico em particular mas a própria psicanálise? Os analistas têm discutido critérios e concordado com eles? Não existirá, ao contrário, toda uma série de conceitos analíticos como, por exemplo, o conceito de ‘ambivalência’ (não estou sugerindo que esse conceito não exista) que tornariam difícil, se não impossível, chegar a um acordo sobre tais critérios?” (Popper, 1972:67)

Poderíamos pensar que um psicanalista de inclinação popperiana responderia às inquietações de Popper, sugerindo a aplicação do método da “análise situacional”, próprio para as teorias não testáveis (metafísicas, segundo Popper) pelos métodos próprios das ciências empíricas. Contudo, este ponto escapa a Popper que na continuação do trecho acima citado vai mostrar sua surpresa, após uma citação um tanto truncada de Freud, pelo fato deste reconhecer que muitos dos sonhos usados nas análises devem-se à sugestão do analista. Como procuramos há pouco esclarecer o fenômeno da sugestão é reconhecido pela teoria psicanalítica e é um de seus problemas.[29] O mesmo ocorre com a noção de ambivalência. A psicanálise não pretende eliminá-la de sua ontologia, pelo contrário, oferecer uma teoria que lhe dê sentido.

O termo ambivalência foi utilizado por Freud, tornando-se progressivamente mais relevante em sua teoria, a partir da introdução do mesmo na psiquiatria, por Eugen Bleuler, como nos conta Laplanche e Pontalis (1970):

“O termo ‘ambivalência’ foi por Freud tomado a Bleuler, que o criou. Bleuler considera a ambivalência em três domínios. Voluntário (Ambitendentz): o indivíduo quer ao mesmo tempo comer e não comer, por exemplo. Intelectual: o indivíduo enuncia ao mesmo tempo uma proposição e o seu contrário. Afectivo: ama e odeia num só movimento a mesma pessoa.

Bleuler faz da ambivalência um sintoma preponderante da esquizofrenia, mas reconhece a existência de uma ambivalência normal.

... Bleuler acaba por privilegiar a ambivalência afectiva, e é este sentido que orienta a utilização freudiana.” (Laplanche e Pontalis, 1970:49)

Como é comum ocorrer na história da psiquiatria, uma noção como a de ambivalência surge, inicialmente, na descrição de quadros graves, sendo mesmo um dos sintomas básicos da esquizofrenia [Bleuler (1911), 1960], e aos poucos é identificada como constituinte da vida psíquica normal. Como registramos na Introdução o inusitado daqueles fenômenos que não são absorvidos pela psicologia normal seriam os tipicamente psicóticos, como é o caso das idéias delirantes. Coube à teoria psicanalítica fazer uma radical aproximação entre essas duas classes de fenômenos – psicóticos e normais – embora mantendo um diferencial. É neste sentido que a ambivalência vai aparecer na teoria psicanalítica como a manifestação de um permanente conflito entre tendências pulsionais – amor e ódio pelo mesmo objeto, por exemplo. Está tal conceito – ambivalência – também na base da noção de conflito mental, sem a qual ficaria ininteligível a proposta psicanalítica e, segundo esta, a própria compreensão da vida psíquica. Consideramos extremamente equivocada a crítica epistemológica, baseada no fato da teoria psicanalítica utilizar o conceito de ambivalência, quando tal crítica não apresenta outra teoria rival para dar conta do problema, ao mesmo tempo que reconhece a legitimidade de sua existência.

CAPÍTULO II: DUAS AVALIAÇÕES DA TEORIA PSICANALÍTICA, NA TRADIÇÃO POPPERIANA.

Apresentamos duas avaliações conflitantes da teoria psicanalítica, tomando como referência a tradição popperiana: a de Adolf Grünbaum e a de Gregorio Klimovsky. Ao falarmos em tradição popperiana estamos introduzindo e utilizando a noção de Larry Laudan (1977) de Tradição de Pesquisa que, conforme anunciamos na Introdução, é o referencial epistemológico que empregamos nesta dissertação. Consideramos válida a arregimentação de ambos os autores, apesar das diferenças que os mesmos tenham da leitura de Popper. Grünbaum, por várias vezes, manifestou sua discordância com o critério de demarcação popperiano, entre ciência e pseudociência (Grünbaum, 1979), defendendo um indutivismo neo-baconiano. Entretanto, apesar de discordâncias, aparentemente tão profundas, seu principal e constante interlocutor é Popper, sua noção de cientificidade baseia-se na de refutabilidade, da mesma forma que, tal como Popper, rejeita um papel relevante para qualquer abordagem hermenêutica ou que se fundamente na moderna filosofia da linguagem. Em suma, os padrões básicos de racionalidade e cientificidade que emprega não se distinguem daqueles que, no capítulo anterior, classificamos como os de Popper em sua primeira fase. Por outro lado, Klimovsky, em suas principais obras (1998; 1999), adota declaradamente critérios popperianos, empregando o que denomina o método hipotético-dedutivo em sua versão complexa, considerando-o aplicável às ciências humanas, inclusive à psicanálise.

Em conseqüência, julgamo-nos autorizados a examinar, através desses autores, o comportamento da epistemologia popperiana quando aplicada à psicanálise. É certo que Popper dificilmente concordaria com quaisquer das conclusões a que tais autores chegam, mas é certo também que Popper aceitaria que tratássemos sua teoria epistemológica como um objeto do Mundo 3, passível de ser testado, avaliado, discutido, independente de quem a formulou, que é a postura que estamos assumindo.

2.1 – A CRÍTICA FILOSÓFICA DE ADOLF GRÜNBAUM

No domínio do debate epistemológico que envolve a tradição popperiana, Adolf Grünbaum – um prestigiado nome da filosofia da ciência contemporânea – realizou a mais minuciosa e consistente crítica epistemológica à teoria psicanalítica de que temos conhecimento. Dentro de uma perspectiva própria, utiliza concepções popperianas, corrigindo muitas vezes as afirmações imprecisas e esparsas de Popper a respeito da psicanálise. Tomaremos como referência o seu texto mais longo e detalhado : The Foundations of Psychoanalysis – A Philosophical Critique (Grünbaum, 1984), não só pela abrangência de sua crítica, como pela grande repercussão que teve e, ainda tem, no ambiente psicanalítico. Não temos notícia de alguma resposta às suas críticas com igual amplitude. Como não temos a pretensão de preencher esta lacuna, o que exigiria um trabalho específico, limitar-nos-emos a articular suas críticas às de Popper, apontar nossas concordâncias e discordâncias, e, seguindo a mesma metodologia do capítulo anterior, deixar nossos questionamentos sobre as bases de sua proposta epistemológica para uma seção própria, no capítulo seguinte.

Julgamos mais objetivo apresentar a avaliação de Grünbaum a partir de suas conclusões:

“Três principais conclusões emergem das avaliações que fiz nos capítulos precedentes.

1 – Na medida em que a evidência para o corpo psicanalítico é atualmente tida como derivar das produções dos pacientes em análise, esta garantia é acentuadamente fraca.

2 – Em vista do meu relato das falhas epistêmicas inerentes ao método psicanalítico, pareceria que a validação das hipóteses cardinais de Freud tem que vir, se possível, principalmente de estudos extra-clínicos, ou epidemiológicos, ou mesmo experimentais, bem configurados (ver Masling 1983; Eysenck e Wilson 1973). Contudo esta avaliação é uma tarefa para o futuro.

3 – Apesar da pobreza das credenciais clínicas, talvez possa ocorrer que a brilhante imaginação teórica de Freud tenha sido real e fortuitamente bem sucedida para a psicopatologia ou a compreensão de alguma sub-classe de atos falhos. Entretanto, enquanto a psicanálise possa assim ser vista como cientificamente viva, ela não está atualmente nada bem, pelo menos no que diz respeito aos seus fundamentos clínicos. Nem há um favorável veredito de tais achados experimentais como tivemos ocasião de discutir em profundidade no capítulo 3 (p.p.188-189), cap. 4 (p.p.202-205) e cap. 9 (p.270).”

A crítica de Grünbaum, em sua obra principal, se divide em duas partes: uma longa introdução, na qual procura contestar a visão hermenêutica da psicanálise, e o corpo central do livro, no qual discute sempre a partir dos próprios textos e standards epistemológicos de Freud.

A crítica à hermenêutica foge ao escopo de nosso trabalho e registramos apenas a estratégia fundamental da argumentação de Grünbaum, que se dirige sobretudo a Habermas e Paul Ricoeur.

A idéia que Grünbaum atribui aos hermeneutas é a de que Freud teria se auto-equivocado, propondo ser a psicanálise uma ciência natural, obedecendo a leis causais semelhantes às utilizadas na física ou química, enquanto o método que emprega seria, na realidade, o das ciências humanas. Estas não se enquadrariam no mesmo tipo de leis que as ciências naturais, uma vez que obedeceriam à “causalidade do destino”. Termo que Habermas tomaria de Hegel e, aplicando à psicanálise, sugeriria que a mesma procura compreender os sintomas, quadros clínicos, à luz de uma narrativa histórica do indivíduo. Assim, os resultados terapêuticos – segundo o entendimento de Grünbaum da posição dos hermeneutas – seriam fruto da liberação, pela dissolução da repressão (isto é, dos conteúdos ideativos de que o paciente não tem consciência), de uma mais livre capacidade de auto-reflexão. Grünbaum vai criticar, desde a dicotomia ciências naturais e ciências humanas, até o papel da auto-reflexão. Considera que Habermas tem uma visão equivocada da metodologia das ciências naturais, uma vez que estas também dependeriam do contexto histórico, não diferindo das ciências humanas a este respeito. O contexto histórico de que Grünbaum fala refere-se às ocorrências dos eventos – físicos, materiais – num determinado tempo, sob certas condições, ligados a um passado de outros eventos. Quanto à crítica à auto-reflexão, o papel da consciência não é abordado, sendo a crítica centrada na incompetência do paciente de ter um papel privilegiado no processo de avaliação epistemológica do trabalho psicanalítico. Tais objeções são mais voltadas a Habermas.

Em relação a Ricoeur, as críticas vão dirigir-se ao fato de restringir o domínio de conhecimento do objeto psicanalítico à linguagem. Ou seja, Ricoeur considera que o campo epistemológico da psicanálise, por excelência, é o diálogo clínico, sendo que somente por seu intermédio poder-se-ia fazer uma avaliação da validade da teoria psicanalítica. Grünbaum rejeita tal limitação e faz referência aos elementos não-verbais dos quais a psicanálise faz extenso uso. O ponto que Grünbaum enfatiza, em sua crítica, é o fato de que: “ ... Ricoeur insiste que ’a psicanálise não satisfaz os standards da ciência de observação e os ‘fatos’ com que ela lida não são verificáveis por múltiplos, independentes observadores ... não há ´fatos´nem qualquer observação de ‘fatos’ em psicanálise mas a interpretação de uma narrativa histórica’.” (p.p.44-45) Dentro de sua proposta epistemológica, que não distingue ciências naturais e humanas, Grünbaum ora reduz as formulações de Ricoeur a um modelo explicativo causal, ora vai apontar o que entende ser incoerências na investigação de Ricoeur, como quando: “ ... ele (Ricoeur) nada oferece em relação à validação de hipóteses causais, das quais, ele reconhece, a teoria de Freud está repleta !” (p.68)

Ainda nesta parte introdutória, de crítica aos hermeneutas, Grünbaum nega a distinção entre razões e causas. Sua crítica a tal distinção se remete ao trabalho de von Wright (1977) – Explanation and Understanding – que caracteriza as explicações sobre as ações humanas como “ ... fazendo os fenômenos teleologicamente inteligíveis mais do que previsíveis (ou explicáveis) a partir do conhecimento de suas causas eficientes.” (citação que faz de von Wright 1977:8, na p.69). Sua discussão deste ponto de vista fica bastante prejudicada, pois, como em outras ocasiões, procura reduzir a argumentação oponente a explicações causais, sem contudo examinar detalhadamente os fundamentos do texto de von Wright. Mesmo que tal ocorra pelo fato do tema ser tratado numa introdução, pareceu-nos também indicativo o papel secundário que dá à linguagem. A respeito do silogismo prático, exposto por von Wright, Grünbaum formula-o da seguinte maneira:

“A questão da razão versus causa (r vs. c) se desenvolve por referência ao assim chamado ‘silogismo prático’, que tem a seguinte forma: uma ação A é tida como levada a efeito porque o agente objetiva alcançar o alvo G e acredita que realizando A atingirá G. E, indicando estas razões estabelecidas para fazer A, R vs. C nega que um estado de um agente de ter uma razão para ação (no sentido explicativo) possa pertencer a uma espécie do gênero ‘causa’.” (p.70)

Grünbaum critica a especificidade do silogismo prático para a compreensão do agir humano sem, entretanto, discutir os pontos fundamentais da argumentação de von Wright que envolvem, por exemplo, o espaço da liberdade (o agente poderá ou não realizar a ação A, embora tenha todos os motivos, ou razões, para tal) e a distinção lógico-linguística das descrições, que tomam as formas: causais ou teleológicas, segundo estruturas lógicas distintas que as sustentam.

A linha argumentativa de Grünbaum, nesta introdução, está dirigida não somente à crítica das teorias hermenêuticas da psicanálise, mas ao estabelecimento do método que irá empregar na parte principal de seu livro:

“Declaradamente, seus (de Freud) critérios de validação são essencialmente aqueles do indutivismo hipotético-dedutivo (Freud, S.E. 1914, 14:77; 1915, 14:117; 1923, 20:32). E a adesão a eles é a marca distintiva da probidade científica que requeria para sua teoria. Daí, cumpre a mim avaliar os argumentos de Freud em favor de sua monumental teoria clínica e terapia da personalidade, segundo seus próprios standards.” (p.93/4)

Antes de entrarmos na avaliação de Grünbaum, gostaríamos de assinalar que, pelo afirmado acima, o autor seguirá uma metodologia própria, diversa da de Popper, em sua crítica. Utilizará o que entende, a nosso ver, com uma boa fundamentação nos textos que cita de Freud, ser os próprios standards deste. Não toma, portanto, como Popper supostamente faria, a psicanálise como uma teoria do Mundo 3, passível de ser investigada independente das intenções de seu criador. A propósito, é bom lembrar que outros autores, como von Wright (1977), consideram que Freud utiliza tanto formulações causalistas como teleológicas, ou seja, tanto explica, como compreende.

Grünbaum desenvolve a parte mais substantiva de sua crítica aos fundamentos da psicanálise em duas etapas: inicialmente, vai defender – em oposição a Popper – que é uma teoria testável e, em seguida, que os testes – baseados na experiência clínica – a refutam. Vejamos esses dois momentos.

A refutabilidade da psicanálise é evidenciada por diversas citações de Freud, nas quais este propõe possibilidades de ocorrências clínicas que invalidariam a teoria psicanalítica. Grünbaum dá como exemplo o texto: Um Caso de Paranóia que Contraria a Teoria Psicanalítica da Doença (Freud, S.E. 1915, XIV: 263-272). Vamos deter-nos neste exemplo, uma vez que o autor o utiliza, assim como o tema da paranóia freqüentemente serve de paradigma para a sua tese quanto à refutabilidade da teoria psicanalítica.

Cita Freud: “A ‘teoria psicanalítica da paranóia’, que está em questão no trabalho, é a hipótese que o amor homossexual reprimido é causalmente necessário para o sofrimento por delírios paranóides (Freud, S.E. 1915, XIV: 265-266).” (p. 108) Por outro lado, o caso clínico descrito é o de uma jovem que se sente perseguida por seu amante, ou seja, por uma pessoa do sexo oposto, enquanto que , segundo a teoria psicanalítica da doença, o perseguidor deveria ser do mesmo sexo. Tal previsão seria possível, pois, o amor homossexual reprimido apareceria à consciência como o seu oposto – em vez de eu o(a) amo , eu o(a) odeio e/ou ele(ela) me persegue. O caso, descrito de uma forma brilhantemente sucinta por Freud, é esclarecido por este, uma vez que surge uma figura feminina, na segunda entrevista que tem com a paciente, que se revela, segundo a interpretação freudiana, como a verdadeira perseguidora. Tratar-se-ia de um final feliz. Para Freud, estaria salva a teoria psicanalítica da paranóia e, para Grünbaum, estaria demonstrada a possibilidade de refutação da psicanálise que, ao contrário do que afirmava Popper, prevê situações em que a teoria poderia ser refutada, além de apresentar-se como uma teoria baseada em nexos causais necessários, contrariando a posição dos hermeneutas. Entretanto, julgamos que um exame mais cuidadoso de toda a situação pode levar mais a dúvidas do que a confirmações, neste ou naquele sentido.

Grünbaum retira importantes implicações para a sua tese deste exemplo, resumindo-as no seguinte trecho:

“Daí, este exemplo tem uma ampla e importante moral: sempre que indicadores empíricos possam garantir a ausência de um determinado fator patogênico teórico P, assim como um diagnóstico diferencial pela presença de uma determinada neurose teórica N, então uma hipótese etiológica de uma forte forma ‘P é causalmente necessária para N’ é clara e empiricamente falseável. Seria falseável para qualquer vítima de N que não tivesse sido sujeita a P. Pois, a hipótese prediz que qualquer um que não esteja assim sujeito (ao fator P) será poupado dos tormentos de N, uma predição que tem uma implicação profilática significativa. Da mesma forma, a hipótese retrocede que qualquer caso de N foi também um caso de P. Daí, se há indicadores empíricos para a presença de P, então esta retroatividade pode ser empiricamente instanciada por uma pessoa que exemplifica tanto N quanto P.” (p.109)

Mesmo reconhecendo as ressalvas que Freud faz, no trabalho estudado, quanto ao papel do fator patogênico – amor homossexual reprimido – no desenvolvimento da paranóia, insiste Grünbaum que é tal situação paradigmática da refutabilidade da teoria psicanalítica, ao contrário do que postulava Popper. Vai mais longe: “ ... se a homossexualidade reprimida é realmente um fator etiológico específico na paranóia, então o declínio do tabu que cerca a homossexualidade em nossa sociedade deveria ser acompanhado por decréscimo de incidência de paranóia masculina.” (p. 111) No mesmo local, pouco adiante, faz também suas ressalvas, quanto ao teste que propõe, acrescentando a cláusula ceteris paribus, ou seja, não havendo outros elementos propiciadores da enfermidade operando. Não considera, porém, que tal restrição seja significativa, tal o caráter de conditio sine qua non (sic) do fator patogênico.

Acrescenta, sempre citando a obra de Freud, vários outros momentos em que Freud coloca sua teoria em posição suscetível de teste empírico, que é o tema de toda essa seção de seu livro (p.p.97-126). Seu diálogo é com Popper, chegando inclusive a criticar a inconsistência do caso imaginado em Conjecturas e Refutações (Popper,1972) – o da criança sendo afogada ou salva por alguém (para ambas as situações a psicanálise teria explicações) – mostrando sua fragilidade epistemológica. Tudo isso o leva a formular uma das teses centrais de seu livro:

“É uma tese central deste ensaio que o método clínico psicanalítico e as inferências causais (etiológicas) baseadas nele são fundamentalmente falhos, sob o ponto de vista epistemológico, por razões outras que não a sua não-falseabilidade.” (p.124)

Antes de entrarmos nas outras razões de Grünbaum, julgamos conveniente examinar a situação que toma como modelo para demonstrar a falseabilidade da teoria psicanalítica, a fim de não acumularmos tantas questões como as que surgirão quando de nossa avaliação da proposta epistemológica da tradição popperiana.

Vamos listar concordâncias, discordâncias e, sobretudo, questionamentos acerca de pontos que achamos indecidíveis:

A - Concordamos com Grünbaum que a teoria psicanalítica, tal como foi formulada por Freud, se propõe a ser testada nos moldes tradicionais, ou seja: por indução e por refutação, de forma categórica. Considerar o método freudiano como indutivismo hipotético-dedutivo, tudo indica corresponder a uma posição pessoal de Freud. Isto não impede que ela seja tratada de outros ângulos e que o próprio Freud tenha utilizado, por exemplo, o método de conjecturas e refutações. Um bom exemplo deste último procedimento é o famoso Caso Schreber, onde Freud – após a exposição do livro de memórias do Dr. Schreber – conjectura interpretações, à luz da psicanálise, do relato de Schreber e salta para uma teoria explicativa da paranóia. Neste exemplo, a indução não desempenhou papel algum e temos uma teoria, que se não se oferece a teste, se oferece à análise crítica.

B - Por outro lado, discordamos de Grünbaum no que diz respeito ao seu entendimento da teoria psicanalítica da paranóia. No texto que é tomado como modelo há comentários de Freud que podem esclarecer-nos quanto à complexidade do fenômeno e a impossibilidade de reduzi-lo tão simplesmente ao esquema: P (fator patogênico: amor homossexual reprimido) ® N (paranóia). Vejamos o que diz Freud:

“ ... A literatura psicanalítica já havia colocado o ponto de vista de que pacientes sofrendo de paranóia estão em luta contra a intensificação de suas tendências homossexuais – um fato indicativo de uma escolha de objeto narcísica. E mais uma outra interpretação havia sido feita: que o perseguido é no fundo alguém a quem ama ou amou no passado. [nota de rodapé do editor: Ver Parte III da análise de Freud de Schreber (1911c)] Uma síntese das duas proposições conduziria-nos à necessária conclusão que o perseguido deveria ser do mesmo sexo da pessoa perseguida. Nós não mantínhamos, é verdade, como sem exceção e universalmente válida a tese que a paranóia é determinada pela homossexualidade; mas isto era somente porque nossas observações não eram suficientemente numerosas; a tese era uma daquelas que em vista de certas considerações somente se torna importante quando pode reivindicar aplicação universal. Na literatura psiquiátrica não há certamente falta de casos em que o paciente se imagina perseguido por uma pessoa do sexo oposto. Contudo, uma coisa é ler tais casos, e outra completamente diferente é vir a ter contato pessoal com um desses pacientes. Minha própria observação e análises, assim como aquelas de amigos tinham até então confirmado a relação entre paranóia e homossexualidade sem qualquer dificuldade.” (Freud, S.E. XIV:265)

Esta citação, tão na linha da compreensão de Grünbaum, precisa ser vista à luz desta que se segue:

“O perseguidor original (itálico de Freud) – a agência de cuja influência o paciente deseja escapar – é aqui, mais uma vez, não um homem mas uma mulher. A chefe sabia acerca do caso amoroso da jovem, desaprovava-o, e mostrava sua desaprovação através de misteriosos indícios. A fixação da paciente a seu próprio sexo opunha-se a suas tentativas de adotar uma pessoa do outro sexo como um objeto amoroso. Seu amor por sua mãe tinha se tornado o porta-voz de todas aquelas tendências que, representando a parte de uma ‘consciência’, procuram deter um primeiro passo da jovem no sentido do novo caminho para a satisfação sexual normal – em muitos aspectos um caminho perigoso; e realmente ela (‘consciência’) foi bem sucedida em perturbar a relação da jovem com os homens.” (Freud, S.E. XIV:267)

Quando Freud fala de escolha objetal narcísica, refere-se a uma forma de eleição do objeto ao qual a libido vai dirigir-se que, de alguma forma, representa o próprio paciente – como ele é, como ele foi ou como ele gostaria de ser. Não se trataria necessariamente de uma ligação homossexual (no sentido coloquial da expressão), o que importa é o caráter indicativo de uma regressão ao narcisismo, noção que Freud desenvolveu após formular sua teoria acerca da paranóia. A rigor, em seu estudo de um caso de paranóia, o já mencionado Caso Schreber, em 1911, já surge o embrião do conceito que vai ser desenvolvido em 1914 (Uma Introdução ao Narcisismo). Importante frisar a noção de conflito mental que a citação acima evidencia. Tal conflito ocorre na intimidade do indivíduo, inconscientemente, e independe de fatores externos, como os tabus sociais. De nada adiantaria, no caso estudado, que houvesse uma aceitação social de suas tendências homossexuais, pois, quem não as aceitava era a própria paciente! Isto, por um lado, invalidaria a proposta de teste feita por Grünbaum e reforçaria a suposição de Popper, quanto a não-testabilidade da teoria psicanalítica. Este é um dos motivos de termos, no capítulo anterior, sugerido a análise situacional como melhor método de avaliação da teoria psicanalítica, dentro dos parâmetros popperianos.

C – O comentário anterior nos leva a algumas considerações sobre a proposta epistemológica de Grünbaum que nos parece instanciar o que Lakatos denominou de “falseacionismo dogmático”. Sua tentativa de isolar uma hipótese para testar toda a teoria mostra-se inviável. Apesar de no próximo capítulo retomarmos este ponto, gostaríamos de fazer alguns comentários sobre a paranóia que é um quadro mental muito propício à discussão dos limites da razão, do uso de padrões de racionalidade e temas afins que interessam à pesquisa da qual esta dissertação faz parte.

D - Restringindo-nos ao campo da psicanálise e, em particular, às formulações de Freud, concordamos com Laplanche e Pontalis (1970) no sentido de que ele usa o termo tal como a tradição kraepeliniana. Ou seja: paranóia seria um delírio sistematizado que se organizaria numa personalidade que permanece conservada, não apresentando portanto deterioração (por exemplo: uma pseudo-demência, como ocorre no caso das esquizofrenias), assim como distúrbios da senso-percepção (alucinações). Por este motivo, os verdadeiros casos de paranóia são de difícil diagnóstico e, raramente, são encontrados em pacientes que procuram tratamento, psiquiátrico ou psicanalítico. Em geral, vamos encontrar paranóicos no forum (eternos reivindicadores de heranças, de indenizações, ou outras questões sempre obscuras quanto a seus fundamentos), nos movimentos místicos, políticos, ou, em casos policiais (principalmente, em crimes passionais, por delírio de ciúmes). Lembremos que o caso a que Grünbaum se refere, é um caso em que Freud foi chamado a entrevistar a cliente de um advogado. Não se tratava de alguém que procurou tratamento, devido a um sofrimento mental, mas uma jovem que desejava resguardar sua honra, através da justiça. Julgamos oportuno este breve registro por considerar que qualquer que seja a teoria – psicanalítica ou psiquiátrica – que se proponha a dar conta do fenômeno da paranóia será de problemática testabilidade empírica e deverá explicitar o padrão de racionalidade empregado.

Grünbaum continua sua crítica filosófica aos fundamentos da psicanálise, examinando a validade da investigação clínica proposta por Freud e a teoria da repressão. Discutiremos estes dois pontos de forma um tanto sucinta, uma vez que, como já dissemos, mereceriam uma resposta tão extensa quanto o trabalho do autor, que é bastante minucioso. Nosso interesse, contudo, é mais geral: explicitar a racionalidade de sua crítica, no âmbito da tradição popperiana.

O Argumento de Correspondência (“Tally Argument”) – Esta é uma expressão criada por Grünbaum, a partir de sua leitura de Freud, para caracterizar os pressupostos de Freud para validar epistemológicamente o método psicanalítico de investigação clínica. Tais pressupostos seriam:

A – Negação de contaminação epistêmica irremediável dos dados clínicos, pela sugestão.

B – Distinção fundamental entre o tratamento psicanalítico e as terapias rivais que trabalham essencialmente por sugestão.

C – Afirmação da validade dos principais fundamentos do método psicanalítico – como a etiologia específica sexual das diversas psiconeuroses – por métodos retrospectivos, ou seja, reconstituições das origens da enfermidade.

D – Possibilidade de garantia, independente de controle estatístico, de resultados favoráveis da intervenção psicanalítica.

E – Reconhecimento de que o paciente, uma vez livre de conflitos reprimidos, está credenciado a dar informações fidedignas por auto-observação introspectiva acerca de suas motivações.

Grünbaum vai procurar demonstrar que tais pressupostos são falhos, fundamentalmente, pelo papel decisivo da sugestão. Admite que Freud está atento a tal objeção, quando afirma: “Afinal, seus conflitos (do paciente) somente serão satisfatoriamente resolvidos e suas resistências superadas se as idéias antecipatórias que lhe são dadas correspondam com o que é real nele. Tudo aquilo que nas conjecturas do médico é inadequado desaparece no curso da análise ... deve ser retirado e substituído por algo mais correto.” (Freud, S.E. 1917, 16: 452) (grifo nosso).

É a partir dessa citação que surge a idéia de “argumento de correspondência”, pois, a mera sugestão não daria conta da remissão do quadro patológico, o qual teria suas raízes na atividade inconsciente. Precisa haver uma “correspondência”, entre a interpretação e o real conflito inconsciente. Grünbaum vai tirar daí também outras exigências epistemológicas, como a que chamou:

Tese da Condição Necessária (NCT – Necessary Condition Thesis) – Acredita Grünbaum, a partir principalmente das leituras de duas conferências de Freud (“Sobre a Transferência” e “A Terapia Analítica”), poder afirmar que segundo Freud:

“1) somente o método psicanalítico de interpretação e tratamento pode permitir ou mediar ao paciente o insight correto dos fatores patogênicos inconscientes de sua psiconeurose;

2) o correto insight da etiologia de seu sofrimento e da dinâmica inconsciente de seu caráter é, por sua vez, causalmente necessário para a conquista terapêutica de sua neurose. Eu me referirei à conjunção destas duas reivindicações freudianas com sua “Tese da Condição Necessária” ou, por brevidade, ‘NCT’.” (p. 140)

Julga Grünbaum que Freud, com o correr de sua obra, abandonou estes princípios epistemológicos (“Tese da Condição Necessária”), tornando seu projeto muito frágil em relação a outras terapias e mesmo à remissão espontânea de sintomas. As críticas se dirigem a dois pontos: subestimação do papel da sugestão na terapia analítica e aceitação da substituição de sintomas. Tal substituição, ou mesmo manutenção de sintomas (como resquícios de repressões), comprometeria as exigências epistemológicas de validação da teoria e técnica psicanalíticas, propostas pelo próprio Freud.

Grünbaum dedica toda a segunda parte de seu livro a questionar a teoria da repressão, uma vez que para Freud: “A teoria da repressão é a pedra fundamental em que repousa toda a estrutura da psicanálise. É a sua parte mais essencial.” (Freud, S.E. 1914, XIV:16) Segundo tal teoria, conteúdos ideativos não aceitos pelo ego consciente, seriam recalcados para o inconsciente, ou, a rigor, não alcançariam a consciência, permanecendo inconscientes, enquanto os afetos a eles ligados se manifestariam de formas variadas: ligar-se-iam aos sintomas, somáticos (como no caso das histerias), ou, a outras idéias muito afastadas das originais recalcadas (como no caso das obsessões). Deste modo, os sintomas satisfariam de alguma forma a necessidade de expressão daquilo que foi recalcado. Tal mecanismo estaria na base também dos sonhos (cujos conteúdos de que temos lembrança – conteúdo manifesto – representam de forma quase alegórica, conteúdos, ou desejos, a que não podemos ter acesso direto – o conteúdo latente), nos lapsos de linguagem ou atos falhos.

Como Freud propõe que a “associação livre” – o falar livremente do analisando, sem preocupação de articulação consciente de temas ou restrições de qualquer ordem – a interpretação dos sonhos, dos lapsos de linguagem e das parapraxias seriam o meio, por excelência, de atingirmos os tais conteúdos inconscientes, vai Grünbaum questionar a validade de tal metodologia. Não acredita encontrar nexo causal no processo de associação de idéias, o qual além de estar contaminado pela sugestão do analista, inclusive a oriunda das interpretações (que propiciariam certa linha de associação), incidiria no erro lógico do post hoc ergo propter hoc (depois disso, logo por causa disso), da confusão do antecedente com causa. Considera Grünbaum que as teorias rivais – como as de base psicolingüisticas – ofereceriam explicações melhores para os lapsos, prescindindo das obscuras noções de conteúdos inconscientes.

Uma vez que foge aos interesses da presente dissertação discutir especificamente o exame de Grünbaum, mas apenas tomá-lo como um modelo de teoria epistemológica que refuta a teoria psicanalítica, pensamos poder deter-nos aqui, acrescentando somente os comentários que faz sobre as teorias pós-freudianas da psicanálise. A rigor, Grünbaum não as examina, pois considera que:

“ ... uma vez que estas teorias neo-revisionistas pós-freudianas são, em realidade, psicanalíticas, elas abraçam alguma versão etiológica da teoria da repressão. Mais ainda, elas se baseiam epistemicamente na livre associação para a investigação clínica por fatores patogênicos propostos e outros determinantes inconscientes do comportamento, e a suspensão das repressões como um meio de efetuar a terapia ... minha crítica epistêmica das hipóteses originais de Freud aplica-se com igual força às bases etiológicas, desenvolvimentistas e terapêuticas destes sucessores.” (p.246-7)

Grünbaum reitera tal posição em outros textos (1983), o que nos parece devido a duas ordens de fatores: o restrito contato que teve com a teoria de relações de objeto, principalmente a chamada “escola inglesa” (Melanie Klein, Money-Kyrle, W.R.Bion, por exemplo), e o caráter fortemente prescritivo de sua proposta epistemológica, que o impede de observar outras possibilidades de racionalidade e, sobretudo, como realmente os cientistas trabalham. Lembremos neste último caso os questionamentos de Lakatos e Feyerabend a Popper.

Melvin Lansky (1997)[30] faz uma esclarecedora síntese sobre a “crise filosófica da psicanálise” produzida a partir das contribuições de Melanie Klein (teoria das relações de objeto)[31]. Estas contribuições, embora se mantenham dentro do paradigma freudiano, levantam novas questões para a epistemologia da psicanálise, tais como: as origens das fantasias inconscientes, o processo de formação de símbolos, o papel da experiência, entre outras, que vêm ao encontro de questões da tradição filosófica. Considera Lansky que esses temas, no entanto, não foram tratados filosoficamente por Melanie Klein, mas por alguns de seus seguidores, como Money Kyrle (a partir de uma perspectiva humeana) e, em especial, por W. R. Bion (com forte influência kantiana). Como voltaremos a este ponto em nossas Considerações Finais, deixamos apenas o registro no sentido de assinalar a equivocada avaliação de Grünbaum, quanto aos desenvolvimentos da teoria psicanalítica.

2.2 – A TEORIA MODELÍSTICA DE GREGORIO KLIMOVSKY

Gregorio Klimovsky, epistemólogo argentino, matemático de formação, acerca de trinta anos vem participando de um grupo de estudos, com psicanalistas de vasta experiência e respeitabilidade, sobre epistemologia e psicanálise. Klimovsky se dedica à história da filosofia da ciência, tendo publicado: Las Desventuras del Conocimiento Científico – Una introducción a la epistemología (Buenos Aires: A-Z editora, 1994) e, mais recentemente, em colaboração com Cecilia Hidalgo, antropóloga que trabalha em epistemologia das ciências sociais, La Inexplicable Sociedad – Cuestiones de epistemología de las ciencias sociales (Buenos Aires: A-Z editora, 1998). Ambos os livros são de orientação popperiana. Contudo, é em seu ensaio “Aspectos Epistemológicos da Interpretação Psicanalítica” (in, Fundamentos da Técnica Psicanalítica, cap. 34, de Horácio Etchegoyen), que vai expor mais detalhadamente sua proposta epistemológica para a psicanálise:

“... cremos que a psicanálise é mais exatamente uma teoria modelística: proporciona um modelo de funcionamento do aparato psíquico do qual se desprendem certas conseqüências sobre a conduta manifesta dos seres humanos e, em particular, dos pacientes. Nesse sentido, parece que em psicanálise é mais freqüente, ainda que não obrigatório, que operem leis do tipo que estamos agora estudando; se ocorre internamente algo do tipo B, é que se vai observar algo do tipo A. Na classe de casos que nos está preocupando, portanto, interpretar será propor uma hipótese e ver como dela sai, dedutivamente, com o auxílio de leis, o que queríamos explicar.” (op. cit., p. 275)

Julgamos que uma melhor compreensão da proposta de Klimovsky, exige que esclareçamos sua posição mais ampla em relação à epistemologia e aos problemas que se colocam à filosofia da ciência, dentro da tradição anglo-saxã a que nos restringimos. Klimovsky defende a adoção do método hipotético-dedutivo em sua versão complexa – esta é a terminologia que emprega – quer para as ciências naturais, quer para as humanas. Em sua obra maior (Klimovsky, 1994), a psicanálise é freqüentemente citada como um dos empreendimentos científicos que levanta questões ao emprego do método hipotético-dedutivo em sua versão simples. Tal distinção corresponde, em grande parte, a que Lakatos faz entre o falseacionismo dogmático ou ingênuo (método hipotético-dedutivo em sua versão simples) e o falseacionismo sofisticado (método hipotético-dedutivo em sua versão complexa), o qual seria “uma espécie de desenvolvimento natural do pensamento popperiano.” (Klimovsky, 1994:217) Embora Klimovsky encampe tal posição de Lakatos, não se identifica necessariamente com o restante da proposta lakatosiana, mantendo-se mais fiel à linha de pensamento de Popper.

As razões que levaram Klimovsky a postular uma nova versão para o método hipotético-dedutivo são semelhantes às de Lakatos e prendem-se às insuperáveis dificuldades que cercam as experiências cruciais. Estas são examinadas em detalhes, tanto no plano teórico como através da discussão de exemplos históricos.

Do ponto de vista teórico, o esquema abaixo mostra a complexidade do problema e, a conseqüente, questionabilidade da refutação dogmática (ingênua ou naturalista, na terminologia de Lakatos):


Hipóteses e Teorias Pressupostas – Constituem o marco teórico que envolve a Teoria específica que está sendo testada. Nesta última surgem sempre termos que provêm de outras teorias dadas como aceitas. Exemplifica, mostrando que uma teoria química que fale de ‘átomos’ e ‘valências’, não poderá deixar de utilizar termos como ‘massa’ e ‘força’ que provêm da mecânica newtoniana. Esta, por sua vez, emprega noções geométricas baseadas na geometria euclidiana. Estaríamos, assim, sempre pressupondo várias teorias, prévias à específica.

Hipóteses Colaterais – Abarcaria as hipóteses vinculadas ao material de trabalho escolhido para o teste. Compreenderiam as já suficientemente corroboradas e aceitas (Hipóteses Subsidiárias) e as que aceitamos provisória e transitoriamente a fim de que a investigação possa ser realizada (Hipóteses Auxiliares). Klimovsky chama a atenção para esta distinção – entre as hipóteses subsidiárias e as auxiliares – uma vez que nem sempre os epistemólogos (como Hempel, in Filosofia da Ciência Natural) o fazem, tornando-as inquestionáveis. Contudo, lembra que as Hipóteses Subsidiárias apontam para o nosso conhecimento do material empregado, enquanto as Hipóteses Auxiliares revelam nossa ignorância do mesmo, não tendo sido, previamente, contrastadas com outras.

Dados Observacionais – Seriam as “condições iniciais, as condições de contorno e outros enunciados singulares de primeiro nível que informam acerca da base empírica e, portanto, do contexto particular no qual se organiza a investigação.” (p. 213)

Conseqüências Observacionais – Seriam os dados observacionais que poderiam ser deduzidos de todas as hipóteses acima listadas, incluindo as que constituem a Teoria Específica, além dos Dados Observacionais. A verdade ou falsidade das Conseqüências Observacionais determinaria, no falseacionismo ingênuo, a corroboração ou refutação da Teoria Específica; por outro lado, como o esquema abaixo mostra, tal afirmação está muito distante das reais possibilidades da investigação que, para os defensores do holismo, o que estaria em jogo seria todo, ou, pelo menos, uma boa parte do conhecimento humano.


Klimovsky apresenta exemplos históricos em que o enunciado observacional era, em realidade, falso ou não pertinente.[32] Entretanto, julgamos mais significativa a discussão que o autor faz do caráter hipotético dos enunciados de primeiro nível, quando afirma ser esta também a posição de Popper. Isto o leva a dizer que:

“Se o que estamos dizendo é certo, toda afirmação acerca da base empírica tem natureza hipotética e é, portanto, revisável ... Se isto é assim, o que resta da ambição da ciência de dispor de uma série de conhecimentos indiscutíveis a partir dos quais se possam contrastar hipóteses e teorias ? Desde o ponto de vista filosófico, a resposta é que tal conhecimento indiscutível não existe.” (p.223)

Entretanto, Klimovsky ao mesmo tempo que concorda com o falibilismo popperiano sustenta, na mesma linha de Popper, o aspecto racional, objetivo e progressista do empreendimento científico. Isto fica explicitado no epílogo de sua obra, o qual denomina: “A ciência no banco dos réus”, quando diz:

“Admitimos, portanto, sem disfarces, que perante à posição cética de certos pensadores ‘inovadores’ ... que preferimos sustentar a tese ‘reacionária’ daqueles que pensam que na história da ciência se observa uma marcha zigzagueante porém progressiva em direção a resultados cognitivos e práticos cada vez mais confiáveis, de importância crucial para a compreensão da realidade natural, humana e social, e também para a formulação de estratégias destinadas a atuar sobre elas em benefício de nossa espécie. ... a experiência não é arbitrária: permite-nos adotar uma base empírica, que logo se verá se é adequada, ou, não.” (p. 399)

Klimovsky radica a racionalidade científica em sua metodologia, na medida em que considera que esta garante a objetividade científica. Neste sentido, valoriza a experiência e o papel da observação, por razões metodológicas.

Uma vez feita esta breve resenha da posição epistemológica esposada por Gregório Klimovsky, pensamos poder apresentar com maior clareza sua específica discussão sobre a teoria psicanalítica para, em seguida, contrastá-la com a de Grünbaum.

Como já foi mencionado, é no exame dos fundamentos epistemológicos da interpretação psicanalítica que vamos encontrar sua avaliação da psicanálise. Registra a pequena ocorrência do termo “interpretação” na obra de Freud, em que pese sua obra mais famosa ser A Interpretação dos Sonhos (Freud, 1900; S.E. IV e V), mas aí “ ‘interpretação’ quer dizer algo assim como uma chave explicativa do que está ocorrendo na psique ou na conduta do sujeito e não outra coisa.” (p. 269) Entretanto, interpretação vai aparecer com vários outros sentidos, que vai agrupar segundo os seguintes aspectos:

Epistemológico: “ ... se relaciona com o tipo de conhecimento que a interpretação oferece. Uma interpretação é uma espécie de teoria em miniatura a respeito do que há por trás de um fenômeno manifesto. Desse modo, interpretar implica produzir um modelo ou uma hipótese de modo semelhante ao que faria um físico, quando quer destacar o que há por trás de um efeito. A isso poderíamos chamar de a vertente gnosiológica da interpretação, que coloca problema epistemológicos típicos.” (p.270)

Semântico: “ ... tem a ver com significações. O que aqui se faz é algo parecido com a captação de significados que o material ao qual a interpretação se refere está oferecendo. Aqui o trabalho se parece ao de um lingüista ou de um semiótico, e é de uma ordem diferente da gnosiológica, apesar de que não se pode deixar de reconhecer que há aspectos comuns.” (p. 270)

Instrumental: “ ... é, talvez, em certo sentido, terapêutico, onde a interpretação psicanalítica é uma ação: o que interpreta está fazendo algo com o fim de produzir uma modificação ou um determinado efeito no paciente.” (p. 270)

Klimovsky vai deter-se, fundamentalmente, no aspecto epistemológico. Distingue o material observável do não-observável. No caso da psicanálise, o material manifesto seria o empírico, o observável; o discurso, a conduta do paciente, por exemplo. O material não-observável corresponderia ao material latente, inconsciente. Este material latente da psicanálise corresponderia ao que, na epistemologia anglo-saxônica, se denomina “objetos teóricos”: aqueles que se conjecturam com auxílio da teoria, mas que não são diretamente observáveis. Na medida em que o inconsciente é o “objeto teórico”, por excelência, da psicanálise, a questão para o psicanalista é a de sustentar o que disser a respeito do inconsciente. Se chamarmos A o material observável (manifesto) e B , o inobservável (latente), a interpretação é o que vincula A com B.

O autor distingue dois tipos básicos de interpretação: a interpretação-leitura e a interpretação-explicação.

No caso da interpretação-leitura, A é condição suficiente para B, enquanto B é condição necessária para A. Dá um exemplo, que considera ingênuo mas esclarecedor, baseado nas teorias de Freud sobre a inibição que o superego exerceria sobre o ego:

“Na realidade, do ponto de vista epistemológico, o superego e a ação inibitória não são material manifesto, material empírico. Para uma fundamentação epistemológica da psicanálise, o superego não é dado, sim, é que se deixou de fazer uma ação que a situação favorecia e que havia interesse manifesto por parte do agente em faze-la: está o rapaz, está a moça nas circunstâncias apropriadas, ela desejosa e com o maior beneplácito, ele gosta da moça, mas sem saber o que ocorreu, de imediato ele toma um livro e se põe a ler. Esses são os dados, não o superego e sua ação inibitória.” (p. 272)

O exemplo pode, de fato, ser ingênuo mas o registramos uma vez que o autor não o vê muito diferente de quando um biólogo olha por um microscópio e vê uma célula. Um leigo, sem acesso á teoria psicanalítica, veria simplesmente a conduta acima descrita, como intrigante, incompreensível. Contudo, este não é o caso típico da interpretação psicanalítica, mas sim a interpretação-explicação.

No caso da interpretação-explicação a relação entre A e B é de condição necessária; sendo por outro lado B (material latente) condição suficiente para A (material manifesto). O autor dá um exemplo, no qual poderiam ocorrer outras causas (como C, no material latente) para o surgimento de A. Contudo, o psicanalista pode insistir em que seja somente B, por considerar que este constitui um modelo mais adequado para a situação a ser interpretada. “Quando faz isso, o psicanalista não leu o material latente, o que realmente fez foi formular uma hipótese; a hipótese, muito útil, de supor que o material latente é assim.” (p. 274) Neste sentido é que Klimovsky considera a psicanálise uma teoria modelística. O psicanalista estaria sempre escolhendo modelos explicativos para formular sua interpretação e testando tais modelos que funcionam como hipóteses.

Klimovsky faz referência também a um tipo misto: interpretação-explicação-leitura. Seriam aquelas em que a relação A e B constituiria uma conexão necessária e suficiente. Dá como exemplo as manifestações de narcisismo (Freud, S.E. XIV):

“Por exemplo, arma de leitura (utiliza Freud), quando vê um indivíduo muito interessado em si mesmo, com grande superestima e preocupação por si mesmo, ele entende que a libido deve estar investindo o ego: a libido desse homem está posta em seu ego, porque esse homem se está superestimando. Essa é a parte de leitura: vendo o que o sujeito está fazendo, damo-nos conta onde está a libido.

Em algumas circunstâncias, sobretudo em relação à conduta narcisística, é o contrário: se supomos que a libido é narcisista, poderemos deduzir que esse indivíduo tende a superestimar-se. Estaríamos explicando sua conduta.” (p. 276)

Sob o ponto de vista epistemológico, julgamos que a que mais nos interessa é a interpretação-explicação, por ser a melhor candidata a testes. A este respeito duas objeções podem ser levantadas: a questão das hipóteses autopreditivas (“profecias autocumpridas” ou “hipóteses suicidas”) e o problema da sugestão. Klimovsky reconhece serem dificuldades comuns nas ciências sociais, também. Entretanto, não as julga insuperáveis.

Quanto à crítica a um possível aspecto autopreditivo, que seria inerente às interpretações psicanalíticas (Nagel), o autor busca no próprio exemplo que Nagel utiliza em seu livro – A Estrutura da Ciência – a superação do obstáculo epistemológico. O exemplo a que se refere, baseado num fato real, é o da notícia divulgada por um periódico novaiorquino das dificuldades financeiras de um banco e sua provável falência. A própria notícia provocou uma corrida dos depositantes ao banco e sua conseqüente falência. Klimovsky vai criticar tal exemplo em três pontos: a) A hipótese da insolvência do banco não foi na realidade contrastada, pois, a divulgação da notícia, em realidade, testou outra lei: a do efeito da propagação de rumores; b) Qualquer hipótese científica só pode ser testada em ausência de perturbações que tumultuem a regência da lei científica a que se liga. A rigor, a hipótese não foi sequer testada; c) No caso da interpretação psicanalítica, este obstáculo pode ser evitado, simplesmente, pela não formulação da interpretação. A interpretação pode ser retida pelo analista que observaria a reação do paciente, testando sua hipótese “in pectore”, por meio de uma conduta futura.

No que tange ao fenômeno da sugestão, lembra os comentários de Freud em Construções em Psicanálise (Freud, S.E. XXIII), onde insiste em que o sim e o não do paciente, em resposta a uma interpretação, não podem ser confundidos com corroboração e refutação. Não acredita, Klimovsky, tratar-se de um problema insuperável, lembrando que a conduta adaptativa do paciente é bastante estreita, limitando-se ao material verbal manifesto, havendo muitos outros canais de comunicação com o paciente – verbais e não-verbais, conduísticos – capazes de fornecer elementos de avaliação. Lembra também a proposta de Wisdom (1976). Esta, em resumo, consistiria em testar a interpretação a partir do tipo de defesa que o paciente utiliza, ou seja: “a defesa (com que o paciente reagiria à interpretação) deve ser abordada com a mesma teoria com que se formulou a primeira hipótese interpretativa, de modo que o analista não poderia utilizar o material associativo (e defensivo) para formular uma interpretação alheia à teoria que originou a primeira.” (p. 278)

Os aspectos semânticos e instrumentais da interpretação são tratados de forma rápida. Contudo, há certos comentários de Klimovsky que merecem ser registrados por dizerem respeito diretamente ao tema desta dissertação. Referimo-nos, em especial, ao desenvolvimento que faz do comentário de Freud quanto aos efeitos de pequena monta que uma interpretação equivocada acarreta, em contraposição ao tipo de mudança ou reação que produz a interpretação acertada. Vê aí o autor os limites da ideologia do paciente – “uso a palavra ‘ideologia’ em um sentido metafórico e geral, como tudo que o paciente crê ... assim como suas defesas e suas sugestionabilidades” (p. 281) – chamando a atenção dos epistemólogos para a importância deste ponto. Resume como vê a questão epistemológica da teoria psicanalítica, tomada a partir da interpretação, no que se segue:

“ Cremos que o que foi dito basta para mostrar as três zonas em que se move a epistemologia da psicanálise: o problema da teoria (explicação e leitura), o problema da ação racional (com a teoria que a respalda) e o imenso problema de como notamos a qualidade simbólica (convencional ou natural) que leva do material manifesto ao latente. Esses são os três problemas típicos, mas de distinta ordem, com os quais se vê o epistemólogo frente a essa espinhosa questão.” (p. 281)

Há ainda duas questões que Klimovsky registra: a) Não vê maior diferença, exceto no método, da teoria psicanalítica para outras teorias científicas, uma vez que a seu ver muitas utilizam modelos teóricos que se oferecem a testes; b) Indaga se não haverá algo “ ... no modo psicanalítico de pensar que influa na própria visão que o epistemólogo tem da marcha da ciência ? “ (p. 282) Considera que da mesma forma que a física e a matemática deram contribuições à epistemologia, o mesmo poderia ocorrer com a psicanálise. Cita os psicanalistas ingleses: Money-Kyrle (de orientação humeana) e W. R. Bion (de orientação kantiana) como autores que tentaram avançar neste caminho.

Seguindo a sistemática que propomos, caberia agora examinar criticamente a proposta de Klimovsky. Entretanto, julgamos mais útil fazê-lo, contrastando-a com a de Grünbaum, principalmente, porque muitas das restrições que teríamos a fazer prendem-se mais à própria epistemologia popperiana, o que será objeto de seção do próximo capítulo. Reconhecemos, no entanto, que Klimovsky supera o marco popperiano, em especial, no que diz respeito às ciências humanas e à psicanálise, em particular.

Listamos os seguintes pontos de contato e conflito das duas avaliações:

A – Grünbaum e Klimovsky consideram a teoria psicanalítica passível de testabilidade.

B – Grünbaum utiliza, como metodologia para os testes, o que chama de indutivismo hipotético-dedutivo.

Klimovsky sugere que os testes se façam a partir de conseqüências deduzidas dos modelos psicanalíticos apresentados.

C – Grünbaum considera que as observações clínicas não se prestam a testes, dada a contaminação epistêmica da sugestão e do caráter de hipóteses autopreditivas das interpretações psicanalíticas.

Klimovsky considera que a experiência clínica é passível de teste, sendo superáveis as dificuldades que envolvem o problema da sugestão e do possível caráter autopreditivo das interpretações psicanalíticas.

D – Grünbaum julga que, até o momento, a teoria psicanalítica foi refutada nos testes a que se ofereceu.

Klimovsky considera que a teoria psicanalítica se sai tão bem nos testes a que pode ser submetida como qualquer outra ciência humana.

E – Grünbaum não diferencia a teoria freudiana dos desenvolvimentos de seus continuadores – como as contribuições da teoria de relações de objeto – quanto aos problemas epistemológicos que levantam.

Klimovsky assinala a importância de que os testes dos modelos psicanalíticos sejam realizados levando-se em conta a teoria da corrente psicanalítica que está em jogo. Propõe que se investigue a contribuição que a teoria psicanalítica possa dar à epistemologia.

F – Grünbaum exemplifica, por sua proposta, o que Lakatos denomina: falseacionismo dogmático (ingênuo ou naturalista), dentro do marco popperiano.

Klimovsky exemplifica, se ainda utilizarmos a terminologia de Lakatos, o falseacionismo sofisticado, desenvolvimento natural, segundo este autor, do pensamento popperiano.

Evidentemente, a lista acima é fruto de nossa particular avaliação de ambos os autores. Julgamos que a divergência básica se origina do item F. Reconhecemos também a influência de outros fatores, dos quais destacamos: o fato de Klimovsky ter trabalhado durante muitos anos com psicanalistas de grande experiência e respeitabilidade científica, em Buenos Aires, onde a psicanálise teve um peculiar desenvolvimento, florescendo as mais diversas correntes do pensamento psicanalítico. Desta forma, pôde o autor, a nosso ver, observar como realmente os psicanalistas trabalham. Frisamos este ponto, pois, é uma constante nas críticas de Lakatos, Kuhn e Feyerabend à tradição popperiana que, dado o seu já assinalado caráter fortemente prescritivo, perde a possibilidade de avaliar certas características do empreendimento científico, principalmente, na área das ciências humanas. No campo de interesse desta dissertação, damos como exemplo a compreensão equivocada que Grünbaum tem da teoria da repressão – atribuindo a fatores externos um papel que, consensualmente, não é reconhecido pelos psicanalistas (daí certas propostas de testes que seriam inviáveis, como a da diminuição da paranóia em virtude da perda da força dos preconceitos anti-homossexuais) – assim como sua não percepção de inovações marcantes no desenvolvimento da psicanálise, com conseqüências epistemológicas, como já assinalamos ao referirmo-nos ao trabalho de Melvin Lansky.

Uma discussão mais aprofundada deste ponto nos levaria além de nossos imediatos propósitos, pois, tocaria na própria questão do papel e validade da chamada filosofia da ciência. Sem entrar nesta complexa questão, adiantamos o ponto de vista, segundo o qual consideramos que as imprecisões de Grünbaum não invalidam o cerne de sua crítica filosófica. Lembraríamos que o próprio Popper foi desaconselhado, por Peter Medawar, a publicar sua conferência sobre a teoria da evolução de Darwin, apresentada na Conferência Herbert Spencer, em 1961, daí o motivo de somente uma década depois, embora sem maiores correções, ter sido publicada em Conhecimento Objetivo. É o que nos conta Jonh Watkins (Watkins, “Popper e o Darwinismo”, in Karl Popper – Filosofia e Problemas, org. Anthony O´Hear). Por outro lado, as incorreções que por ventura os biólogos constataram, não impedem que usufruamos das estimulantes conjecturas de Popper. Acrescentaríamos ainda, remetendo o leitor à Introdução, que não vemos quem poderia fazer a avaliação epistemológica de qualquer empreendimento científico, ou, metafísico (no sentido que Popper dá à expressão) que não um filósofo, portador que é de um instrumental crítico que não é familiar ao cientista.

CAPÍTULO III: A TEORIA PSICANALÍTICA COMO UMA TRADIÇÃO DE PESQUISA, NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN.

Após termos feito uma panorâmica resenha da questão da psicanálise na epistemologia popperiana e apresentado duas avaliações antagônicas, mas de extração epistemológica afins, pensamos ser o momento de apresentarmos nossa avaliação e uma proposta de possível superação dos impasses que encontramos pelo caminho. Dividimos este capítulo em duas partes: na primeira, procuraremos sumariar as insuficiências da proposta de Popper quando aplicada à teoria psicanalítica, assim como as possibilidades que a própria proposta apresenta para lidar com o problema, quer da cientificidade, quer da racionalidade da teoria psicanalítica; na segunda, apresentaremos a proposta epistemológica de Larry Laudan que nos parece oferecer, no âmbito do debate anglo-saxão, uma alternativa mais ampla de forma a abrigar a teoria psicanalítica no campo de teorias científicas e empreendimentos racionais.

3.1 – INSUFICIÊNCIAS DA EPISTEMOLOGIA POPPERIANA QUANDO APLICADA À PSICANÁLISE

Observamos, restringindo-nos aos textos do próprio Popper, duas ordens de problemas para tratar uma teoria como a que a psicanálise oferece:

A – Incapacidade da epistemologia popperiana de lidar com as questões interessantes que são levantadas pela teoria psicanalítica.

B – Falta à epistemologia popperiana um padrão de racionalidade compatível com a abrangência do sistema em que se tornou a obra de Popper.

É freqüente, em Popper (como registramos na p.37), a referência a que a ciência busca mais do que a simples verdade, mas a uma verdade interessante, difícil de ser descoberta, com alto grau de capacidade explicativa, improvável e, portanto, com um alto grau de refutabilidade. Em outros momentos vai dizer que uma teoria é melhor que outra, entre outros fatores, por sua maior capacidade explicativa: um maior número de fatos passam a ser explicados e, mais ainda, que explique além de novos fatos ou das anomalias de sua rival, todo aquele domínio de sua antecessora. Nessas referências, maior conteúdo é sinônimo de maior conteúdo empírico. Mesmo que tomemos como empírico tudo aquilo que seja passível de teste – conceituação popperiana, com a qual concordamos - sentimos a falta da dimensão conceitual. Isto evidencia-se quando utiliza a sua proposta de “análise ou lógica situacional”, como no exemplo que dá das motivações de Carlos Magno (ver p.51). Sua compreensão objetiva – hipostasiando uma carta reveladora das intenções do personagem – apega-se a um possível dado empírico que, provavelmente, seria desinteressante para quem desejasse compreender o que move um personagem histórico de tal envergadura. Curioso contrastar o exemplo de Carlos Magno com o de Galileu – a respeito de sua malograda teoria das marés – em que Popper é muito mais feliz. É mais feliz no sentido de reconstituir o problema com que se defrontava Galileu – o de formular uma teoria sobre as marés que, ao mesmo tempo, corroborasse a de Copérnico e evitasse a introdução de influências interplanetárias que lhe desagradavam, por uma possível aproximação com a astrologia; mas, ao afastar qualquer motivação psicológica, que concordamos poder ser irrelevante naquele contexto da história da ciência, afasta também o problema de Galileu. Em suma, a “análise situacional”, tal como exemplifica Popper, empobrece a situação-problema em sua insistência em reduzir questões psicológicas a sociais. Pensamos termos sido mais generosos com sua proposta ao submetermos à “análise situacional” a teoria psicanalítica sobre os grupos humanos (ver Capítulo I, seção 1.2), a qual expande o conteúdo explicativo, tanto empírica como conceitualmente.

Algo semelhante poderíamos dizer a respeito do tema da liberdade. Popper o afasta sem maiores questionamentos, o mesmo ocorrendo – como já registramos – com Grünbaum ao criticar von Wright. Entretanto, é nas ciências humanas e, em especial, na teoria psicanalítica que é o nosso objeto de investigação, onde tal questão não pode ser evitada, como acertadamente nos lembra Lacan (1998): “... O ser do homem não apenas não pode ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.” Observamos aqui uma aproximação loucura e liberdade, que são temas que não podem faltar a uma epistemologia que se pretenda útil a teorias como a psicanalítica. Quando questionamos a crítica de Grünbaum a von Wright, fizemo-lo pensando que este último oferece um espaço em sua proposta para a liberdade. Ou seja: o agente pode recusar a ação prevista, embora tenha todas as condições a seu dispor, e estejam delineados seus alvos e objetivos. É o caso que ele denomina: “matar o tirano”. Tal contra-exemplo refutaria qualquer proposta epistemológica que exija previsões – arriscadas ou triviais – para ciências que pedem lugar para o imprevisível, pela própria natureza do problema com que lidam. Julgamos que Fernandes[33] coloca questão análoga:

“ ... só existe ciência daquilo que no homem é natureza, da natureza no homem. Essa natureza não é só a parte física e biológica ... É o simbólico quando se comporta como natureza ! quer dizer, como a alteridade que nos aliena, aquilo que é inconsciente e me determina sem passar pela minha razão ou pela minha liberdade. É isso a natureza. Tanto quanto a tempestade e o ritmo dos dias. Eu posso ser vítima da natureza, no sentido vulgar, como posso ser vítima da ideologia, da linguagem e de tudo que está embutido nela, da minha mãe, do Nome do Pai, etc.”

A aceitação do problema tal como está exposto, na citação acima, implica delimitarmos o campo da ciência ao que lhe é pertinente. De outra forma, pensamos ser este o equívoco em que incide Popper, limitamos nosso mundo conceitual. Isto pode ser observado no, aparentemente ingênuo, exemplo hipotético que Popper oferece em crítica à psicanálise. Referimo-nos à situação que imagina em que um homem pode salvar uma criança de afogamento ou pode afogá-la e, em ambos os casos, a psicanálise oferecerá uma explicação; o que tornaria a psicanálise irrefutável. (Popper, 1972: 65) Grünbaum faz uma longa crítica deste exemplo, defendendo como já vimos a refutabilidade da psicanálise, o que faz parte de sua estratégia de realmente refutá-la. (Günbaum, 1984) Nossa crítica, quanto à insuficiência da epistemologia popperiana, seguiria outro caminho. Pois, vemos no hipotético caso, uma preocupação de Popper em alcançar uma teoria psicológica que não diferenciasse dois homens, ou o mesmo homem em situações diversas, fazendo previsões, de preferência proibitivas, para qualquer homem. A singularidade, quer da situação, quer do indivíduo, desapareceria por completo. A rigor, qualquer psicanalista, a começar por Freud, recusar-se-ia a fazer previsão alguma, dado o necessário reconhecimento da dimensão de liberdade no homem. Isto não exclui que, a posteriori, úteis conjecturas pudessem ser feitas para uma significação, ou resignificação, do ocorrido. Em suma, o que desejamos sublinhar é que o caráter fortemente prescritivo da epistemologia popperiana não só não corresponde à prática real da atividade científica, como já foi por muitos mencionado, mas exige uma ciência que seria incompatível com o fenômeno humano ! Paradoxalmente, esta não é a postura de Popper, quando tenta reconstruir o problema de Galileu. Neste caso, aceita de bom grado a hipótese que oferece, por apresentar uma base empírica, sendo que por empírico aqui entendemos em seu uso mais tradicional, não popperiano, ou seja, algo em que há uma referência ao sensório. Colocando a questão em outros termos: o que Popper pede de uma teoria psicológica sobre o comportamento humano é que ela seja refutável tal como uma teoria que se refere às chamadas ciências naturais, as quais são tomadas como modelo de racionalidade científica. Não haveria lugar para a singularidade, em sua expressão mais ampla, embora, Popper afirme o contrário:

“ ... há nas ciências naturais aquela consciência do malogro final de todas as nossas tentativas para compreender, que tem sido muito discutido por estudiosos das humanidades e que se tem atribuído à ‘diversidade’ das outras pessoas, à impossibilidade de qualquer auto-compreensão real e à inevitabilidade de supersimplificação, que é inerente a qualquer tentativa para compreender qualquer coisa singular e real. (Podemos agora acrescentar que parece importar pouco que tal realidade seja cósmica ou microcósmica.).” (Popper, 1975:175-176)

Esta citação está num contexto de discussão da possível diferença de metodologia nas ciências naturais e nas ciências humanas, o que Popper não vai aceitar, dizendo mais adiante do trecho citado: “Elaborar a diferença entre a ciência e as humanidades tem estado em moda desde muito e tornou-se enfadonho. O método de resolver problemas, o método da conjectura e refutação, é praticado por ambas. É praticado na reconstrução de um texto danificado bem como na construção de uma teoria da radioatividade.” (Popper, 1975:176) Apesar de tais afirmações, não vemos Popper aplicar o método a problemas psicológicos que, como vimos, procura reduzir a problemas sociológicos, descaracterizando-os. Tal descaracterização causa, por vezes, perplexidade ao leitor. Referimo-nos ao momento em que propõe a investigação lógica da economia como um modelo para as ciências sociais, dada a sua objetividade (Popper, 1978:31-32). Ora, é conhecida a dificuldade com que os economistas se defrontam ao lidar com conceitos como o de “utilidade”, ou, de “opções de aplicação de recursos”, em que os fatores psicológicos se mostram irredutíveis. Klimovsky (1999:315) levanta a mesma objeção, referindo-se a “lei das utilidades decrescentes”, formulada em termos vagos e em linguagem ordinária, no famoso tratado de economia de Samuelson. Laudan, por sua vez, faz uma interessante consideração histórica a respeito dos conflitos que viveu Adam Smith, a respeito dessas questões:

“Viner ... oferece um argumento convincente que um dos problemas conceituais centrais para a teoria econômica de Adam Smith era sua incompatibilidade com a tese newtoniana de um equilíbrio de forças na natureza. A questão era particularmente aguda uma vez que a teoria econômica de Smith se baseava num geral (newtoniano) equilíbrio de forças da natureza e, contudo, postulava forças de motivação econômica (por exemplo: auto-interesse) que eram aparentemente incompatíveis com um tal sistema de equilíbrio. Tem sido alegado que Adam Smith escreveu seu tratado de filosofia moral com a finalidade de resolver esta tensão.” (Laudan, 1977:230)

Acreditamos que a proposta de Klimovsky, de tomar a teoria psicanalítica como uma teoria modelística, é uma forma criativa de utilização do método de conjecturas e refutações. É intrigante a atitude ambivalente de Popper em relação à psicanálise, tal como já foi assinalado (p.p.38-39), que resulta muitas vezes no reconhecimento das contribuições da psicanálise, mas não em sua utilização.

Uma vez que a obra de Popper foi tornando-se cada vez mais abrangente, uma necessária ampliação de seus padrões de racionalidade se fez presente. Na primeira seção do Capítulo I, fizemos uma breve resenha deste trajeto. Não esconde Popper tal pretensão de abrangência:

“ Pode ser interessante e frutuoso investigar até onde podemos aplicar análises situacionais (a idéia de solucionar problemas) à arte, à música, à poesia, e se isso pode ajudar nossa compreensão nesses campos. Não duvido de que, em alguns casos, possa ajudar. Os cadernos de notas de Beethoven para o último movimento da Nona Sinfonia mostram que a introdução deste movimento conta a história das tentativas do compositor para resolver um problema – o problema de romper em palavras. Ver isto auxilia nossa compreensão da música e do músico. Se esta compreensão ajuda nosso gozo da música é coisa diferente.” (Popper, 1975:174)

Comentários mais desenvolvidos vamos encontrar em sua Autobiografia Intelectual (Popper, 1977:60-79). Observamos aí como transporta para a estética as mesmas dificuldades que mostra ao tratar da psicologia, isto é: utiliza de forma muito restrita seu próprio método de “análise situacional”. No caso, o sacrificado é o expressionismo, não ficando claro se como teoria, ou manifestação estética, ou ambas. Não gostaríamos de ser injustos com o autor que faz inúmeras ressalvas quanto ao ponto de vista que vai expor, num texto reconhecidamente intimista – uma autobiografia – onde se permite comentários sem o seu usual rigor. Contudo, não podemos deixar de utilizar este material, pois, o próprio Popper reconhece sua importância, uma vez que foi a partir de suas especulações estéticas que formulou a teoria dos 3 mundos:

“Meu interesse por música levou-me ao que eu então supus ser uma descoberta intelectual de menor importância ... Posteriormente, essa descoberta muito influenciou meu pensamento filosófico e, em última análise, me levou à distinção que estabeleci entre mundo 2 e mundo 3, distinção que desempenha importante papel na filosofia desenvolvida na minha idade madura.” (Popper, 1977: 67)

A conjectura que Popper desenvolve é entre uma “música objetiva” e uma “música subjetiva”, através da análise das produções de Bach e de Beethoven, respectivamente. É bom lembrar que sua posição não é “grosseira”, no sentido de estereotipar a genialidade de ambos compositores: “... Procurei dar uma idéia razoavelmente clara da diferença entre essas duas teorias concernentes à música ... a de Bach e a de Beethoven – que, na época, me pareciam muito diversas, embora eu apreciasse ambas.” (Popper, 1977:73) Por outro lado, sua posição nos parece bastante estreita caso seja estendida à necessidade do artista de expressar suas emoções. Pois, neste caso, o que está em jogo não são as emoções daquele artista em particular, mas uma forma, talvez a mais adequada, de expressão estética para tratar aquela determinada situação-problema.

Sublinhamos este ponto porque especialmente nos interessa, uma vez que a teoria psicanalítica procura lidar, exatamente, com aquilo que a tradição relegou ao “incompreensível”, ao “irracional”, como se com tais denominações banisse de nossa ontologia o que, prima facie, de fato, não compreendemos. Entretanto, o fenômeno psicótico se caracteriza, fundamentalmente, por não ser, pelo menos prima facie, “compreensível”. Afastá-lo de nosso mundo, é cair numa forma de falácia epistêmica – o que não “conhecemos”, não existe, ou, o que é pior, é desinteressante. As conseqüências de tal atitude são historicamente conhecidas, empobrecendo a psiquiatria e a psicologia, assim como tendo implicações éticas das mais graves. A este respeito basta lembrar o tratamento que foi dado ao psicótico: exclusão e punição. Há uma vasta literatura sobre o tema, abordando também a forma pela qual foi o “incompreensível”, o “irracional”, absorvido na história da ciência médica, trazendo novas questões tanto de ordem ética como epistemológica.

A questão da estética, tal como é tratada por Popper, leva-nos também ao ponto central de nossa crítica quanto à insuficiência de sua proposta epistemológica: as questões que mais nos intrigam, são afastadas como “subjetivistas”, restando, contudo, questões desinteressantes. Ou seja, questões que dizem respeito à natureza dos problemas com que lida a teoria psicanalítica são afastadas. Há um empobrecimento do mundo. Mais uma vez, repetimos: não vemos isto como uma implicação necessária da proposta epistemológica popperiana, mas de um uso inadequado da mesma. Reconhecemos que a “análise situacional” é um instrumento suficientemente poderoso para lidar com as questões dos programas de pesquisa metafísica (nos quais incluímos a teoria psicanalítica), utilizando a terminologia de Popper. Inexplicavelmente, Popper insiste em utilizá-lo de forma tímida. Levantaríamos algumas hipóteses a respeito e uma interrogação:

Pensamos que Popper nunca se libertou de um cientificismo que marca sua primeira fase: o critério de demarcação entre ciência empírica e não-empírica é, também, um critério de demarcação entre o racional e o irracional. Cientificidade se confunde com racionalidade.

A segunda possibilidade se prende à preocupação de Popper em afastar de sua teoria qualquer forma de transcendentalismo e de ignorar a relevância do papel da linguagem. Sua polêmica leitura de Kant ocorre tanto na que faz da Crítica da Razão Pura, como nos textos referentes à razão prática, onde o papel da liberdade, em Kant, é por ele subestimado. Acrescentaríamos a ausência de referência à Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, que não somente contém temas de interesse comum – a questão dos juízos estéticos – como, segundo alguns comentadores, é fundamental para a compreensão das anteriores. Ao mesmo tempo, sua atitude em relação à filosofia da linguagem impede-o de examinar mais detidamente as diferenças entre as afirmações na primeira e na terceira pessoa, assim como os diferentes modos de avaliação de tais proposições.

Quanto à interrogação a que nos referíamos, esta se prende ao fato de Popper demonstrar um estranho desconhecimento da teoria freudiana, embora a mesma seja uma preocupação sua desde a juventude (17 anos), conforme revela a citação com que abrimos o Capítulo I.

Tal interrogante se torna mais forte quando constatamos que Popper foi contemporâneo de Freud, vivendo ambos na mesma Viena e, mais tarde, radicou-se num país – Inglaterra – onde suas idéias foram muito bem aceitas pelo vigoroso movimento psicanalítico lá existente, tendo desempenhado importante papel no desenvolvimento das teorias de W. R. Bion, conforme registramos na Introdução.

Todos esses questionamentos nos levam a buscar, no âmbito do debate epistemológico anglo-saxão, outras propostas que possam oferecer à teoria psicanalítica um instrumental de crítica e avaliação mais adequado.

3.2 – A PROPOSTA EPISTEMOLÓGICA DE LARRY LAUDAN

A epistemologia de Larry Laudan surge do debate em que estão envolvidos: Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend, como os principais protagonistas das disputas entre: internalistas e externalistas; positivistas e relativistas, ou, racionalistas e irracionalistas. Em realidade, sua proposta é uma permanente tentativa de superar os impasses que as diversas correntes apresentam para dar conta de questões básicas, tais como: a racionalidade do empreendimento científico, da escolha entre teorias, bem como a noção de progresso. É uma proposta de filiação declaradamente pragmatista e que tem pretensões de abrangência semelhantes às que encontramos em Popper. Suas principais teses estão em sua obra maior: Progress and its Problems – Towards a Theory of Scientific Growth (Laudan, 1977), que nos servirá de referência.

Laudan parte da crise desencadeada pelo desenvolvimento das pesquisas epistemológicas na primeira metade do século XX, que entre outros questionamentos levantou:

“Durante muito tempo, muitos têm tomado a racionalidade e o progresso da ciência como um fato óbvio ou uma conclusão sem problemas, e alguns leitores provavelmente ainda pensarão como bizarro acreditar que exista algum importante problema a ser aqui resolvido. Ainda que esta confiante atitude tenha sido quase inevitável, dados os preconceitos culturais em favor da ciência na cultura moderna, houve um grande número de recentes contribuições que trouxeram sérias questões a respeito:

1 – Filósofos da ciência, cujo objetivo primário é definir o que é racionalidade, têm geralmente descoberto que seus modelos de racionalidade encontram poucos, se é que algum, exemplos no real processo de atividade científica. Se aceitamos a reivindicação feita em nome desses modelos como o que define a própria racionalidade, então parecemos forçados a virtualmente ver toda a ciência como irracional.

2 – Tentativas de mostrar que os métodos da ciência garantem conhecimento verdadeiro, provável, progressista ou altamente confirmado – tentativas que têm uma ascendência quase contínua desde Aristóteles aos nossos tempos – têm geralmente fracassado, levantando uma diferente suposição de que as teorias científicas não são nem verdadeiras, nem prováveis, nem progressistas, nem altamente confirmáveis.

3 – Sociólogos da ciência têm podido indicar vários episódios, no passado recente (e remoto) da ciência, que parecem revelar muitos fatores, decisivamente envolvidos nas decisões científicas, não racionais ou irracionais.

4 – Alguns historiadores e filósofos da ciência (p. ex.: Kuhn e Feyerabend) têm questionado, não meramente que certas decisões entre teorias, em ciência, têm sido irracionais, mas que as escolhas entre teorias científicas competidoras, por sua própria natureza, devam ser irracionais. Eles (especialmente Kuhn) têm também sugerido que todo ganho em nosso conhecimento é acompanhado por concomitantes perdas, de modo que é impossível afirmar quando, ou mesmo se, estamos progredindo.

O ceticismo a que tais conclusões apontam tem sido reforçado pelos argumentos do relativismo cultural em relação à consequência de que a ciência é apenas um conjunto de crenças entre muitas possíveis, e que nós no Ocidente veneramos a ciência, não porque ela seja mais racional do que suas alternativas, mas simplesmente porque somos produtos de uma cultura que tem tradicionalmente muito se estabelecido através da ciência. Todos os sistemas de crença, a ciência inclusive, são vistos como dogmas e ideologias entre as quais a preferência objetiva e racional é impossível.” (pp.2-3)

Observamos que Laudan parte da questão da racionalidade, precisamente o ponto que consideramos frágil na epistemologia popperiana. Utiliza a noção de progresso para aproximar-se da de racionalidade. Dadas as várias implicações de tal correlação, julgamos melhor listar os pontos básicos da proposta de Laudan, discutindo-os passo a passo. Tal exame se faz necessário também em virtude da forma de articulação dos argumentos de Laudan que estão sempre estreitamente interligados. Só, assim, poderemos vir a avaliar se sua noção de racionalidade supera as dificuldades que observamos em Popper.

1 – Inverte a tradicional subordinação do progresso à racionalidade científica. Argumenta Laudan que progresso é necessariamente um conceito temporal, enquanto racionalidade é, em geral, vista como atemporal. Continua, lembrando que a maioria dos autores vê “o progresso nada mais do que uma projeção temporal de uma série de escolhas individuais racionais”.[34] A dificuldade de sustentar tal posição – contraditada, sobretudo, pelo desenvolvimento dos estudos sobre história da ciência – levou muitos autores (refere-se especificamente a Kuhn e Feyerabend) a afirmar a necessária irracionalidade das escolhas científicas. Este seria um dos fundamentos do relativismo, o qual Laudan quer evitar, dados os inúmeros problemas que traz.

2 – A racionalidade científica se revela pela escolha da teoria mais progressista. Esta afirmação, embora uma óbvia decorrência da anterior, traz inúmeras implicações. A opção pela referida inversão, segundo Laudan, prende-se ao fato de que o progresso é um conceito muito mais fácil de ser apreendido do que o de racionalidade. O fato da noção de progresso ser mais facilmente apreendida, não implica em que a mesma não ofereça uma gama de questões que o autor reconhece evitar, na medida em que pretende apenas discutir aspectos cognitivos do progresso. Tal posição está, evidentemente, subordinada à sua concepção de ciência. A redução a apenas aspectos cognitivos vai tornar-se, por sua vez, um dos pontos frágeis da epistemologia de Laudan, o que nos parece ser uma característica da epistemologia anglo-saxã.

3 –“A ciência é essencialmente uma atividade de resolver problemas”. Através desta tese, Laudan procurará escapar dos impasses tanto do racionalismo como do relativismo. Pensamos que este é o seu argumento forte. Consideramo-lo forte porque será o ponto que o distinguirá dos demais filósofos da ciência de sua tradição, uma vez que ao falar de problemas, refere-se tanto a problemas empíricos, como a problemas conceituais. Laudan não nega outras finalidades à ciência:

“A abordagem feita aqui não pretende implicar que a ciência seja “nada mais” que uma atividade de resolver problemas. A ciência tem uma variedade de objetivos tão ampla quanto a gama de motivações que cada cientista tem: a ciência objetiva explicar e controlar o mundo natural; os cientistas buscam (entre outras coisas) verdade, influência, utilidade social, e prestígio. Cada um destes objetivos poderia ser (e tem sido) usado para fornecer uma moldura dentro da qual se poderia tentar explicar o desenvolvimento e natureza da ciência. Minha abordagem, contudo, sustenta que uma visão da ciência como um sistema de resolver problemas mantém maior esperança de capturar o que é mais característico da ciência do que qualquer outra moldura alternativa permite.” (p.12)

Dada a importância central que a noção de problema desempenha nesta proposta epistemológica, devemos deter-nos mais na discussão da natureza e tipos de problemas a que Laudan se refere.

4 – Natureza e tipos de problemas científicos – Laudan considera que os problemas científicos não diferem fundamentalmente de qualquer outro tipo de problema. Vê os problemas como as questões da ciência, enquanto as teorias seriam as suas respostas. Propõe-se a defender duas teses:

“Tese 1: O primeiro e essencial teste forte (acid test) para qualquer teoria é se ela fornece respostas aceitáveis para questões interessantes: se, em outras palavras, ela fornece soluções satisfatórias para problemas importantes.

Tese 2: Na avaliação dos méritos de teorias, é mais importante perguntar se elas constituem adequadas soluções para problemas significativos do que perguntar se são ´verdadeiras´, ´corroboradas´, ´bem-confirmadas´ ou de alguma forma justificáveis dentro do quadro da epistemologia contemporânea.” (pp.13-14)

Distingue problemas de fatos: “... problemas reconhecidos como tais em um determinado tempo podem, por motivos perfeitamente racionais, deixar de ser problemas em tempos posteriores. Fatos nunca sofrem tal tipo de transformação.” (p.17) Acrescenta a respeito: “Enquanto insistirmos que as teorias são somente destinadas a explicar “fatos” (isto é, afirmações verdadeiras acerca do mundo), nos encontraremos impossibilitados de explicar a maior parte da atividade teórica que ocorreu na ciência.” (p.16) Cita vários exemplos históricos de problemas empíricos que se mostraram contrafactuais, mas que exigiram tratamento como fatos, uma vez que foram “pensados” como tais, pela comunidade científica. Tais como: as discussões na Royal Society of London sobre as propriedades e comportamento das serpentes marinhas, descritas nos relatos de marinheiros; e, mais recentemente, a preocupação da medicina em explicar o “fato” das sangrias promoverem a cura de certas doenças.[35] Indica, ainda, muitos fatos acerca do mundo que não despertam problemas empíricos, simplesmente, porque são desconhecidos. Exemplifica através do fato de, provavelmente, o sol ser composto principalmente de hidrogênio, mas até este fato ter sido descoberto ou inventado (sic), não se constituia num problema. Frisa este ponto, para destacar que os fatos que interessam são os fatos conhecidos. Contudo, tal propriedade – ser conhecido – não basta, um problema empírico deve trazer com a sua solução um prêmio. Daí a dimensão histórica dos problemas empíricos: em certas épocas, certos fatos seriam interessantes, ao passo que, em outras, o mesmo fato não o seria.

Classifica os problemas como empíricos e conceituais. Os empíricos – ou de primeira ordem – pretendem falar sobre o mundo e surgem no contexto de investigação de uma teoria. Ressalva o reconhecimento de que os problemas empíricos estão sempre “carregados de teoria”, todavia, considera-os de primeira ordem, substantivos, uma vez que são “ ... tratados como se fossem problemas sobre o mundo.” (p. 15) São de três tipos:

Problemas não resolvidos – aqueles que não foram ainda adequadamente resolvidos por qualquer teoria.

Problemas resolvidos – aqueles que foram resolvidos adequadamente por uma teoria, pelo menos.

Problemas anômalos – aqueles que uma determinada teoria não resolveu mas que outra, ou mais, competidora, resolveu.

“Evidentemente, problemas resolvidos contam em favor de uma teoria, os anômalos constituem evidência contra uma teoria, e os não-resolvidos simplesmente indicam as linhas para uma futura investigação teórica. Usando esta terminologia, podemos argumentar que uma das principais marcas do progresso científico é a transformação de problemas empíricos anômalos e não-resolvidos em problemas resolvidos. De toda e qualquer teoria devemos perguntar quantos problemas ela resolveu e com quantas anomalias ela se confronta. Esta questão, de uma forma um pouco mais complexa, torna-se uma das ferramentas primárias para a avaliação comparativa de teorias científicas.” (p. 18)

Aquilo que, na citação acima, chama de “uma forma um pouco mais complexa” entendemos ser a sua originalidade e, a rigor, um reconhecimento da complexidade do problema da avaliação de teorias. Pois, vai introduzir a questão – em geral, omitida neste debate – dos problemas conceituais. Antes de passarmos à discussão de Laudan sobre esta última classe de problemas, é importante registrar algumas de suas considerações que são esclarecedoras, quando confrontadas com os inúmeros exemplos históricos que fornece. Pensamos, sobretudo, no peculiar estatuto dos problemas não-resolvidos, que Laudan considera importantes somente quando se tornam resolvidos, por alguma teoria. De outra forma, ficam apenas como potenciais. Parece-nos uma observação aguda, uma vez que esclarece, ainda que parcialmente, como veremos ao discutir a dimensão conceitual, o surgimento de um problema científico, assim como o fato de certas questões não se constituírem num problema em que pese sua insolubilidade, numa determinada época,[36] Se o peso dos problemas não-resolvidos não é comprometedor para invalidar uma teoria, já que não podemos saber de antemão se poderão vir a ser resolvidos por esta teoria, o progresso empírico se faz, dentre outras formas, pela transformação de problemas não-resolvidos em resolvidos. Estes têm uma natureza diversa. Uma vez que Laudan faz uma opção fundamentalmente pragmatista, defende o ponto de vista que:

“Uma teoria pode resolve um problema na medida que ela implica mesmo que uma afirmação aproximada do problema; ao determinar que uma teoria resolve um problema, é irrelevante se a teoria é verdadeira ou falsa, bem ou fracamente confirmada; o que conta como uma solução de um problema num determinado momento não o será para sempre.” (pp. 22-23)

Laudan sempre trabalha com comparação entre teorias. Deste modo, o caráter aproximativo dos resultados na solução de um problema científico não invalida a teoria, apenas pode enfraquecê-la em comparação com uma competidora. Tanto a teoria de Newton (caso do movimento dos planetas), como a de Einstein (observações telescópicas de Eddington) forneciam resultados aproximados. Os motivos podem ser vários: desde a previsão sob condições ideais até a insuficiências das técnicas laboratoriais ou instrumentais em relação à teoria. O ponto que julgamos importante é a distinção que faz entre as exigências de exatidão do modelo explicativo clássico e o caráter aproximativo que requer os propósitos de solução de um problema científico. Laudan vai mais longe ao lembrar a irrelevância histórica da verdade ou falsidade na solução de problemas (a teoria ondulatória de Young, verdadeira ou falsa, resolvia o problema da dispersão da luz), da mesma forma que a não-permanência das soluções.

“Na história de muitas disciplinas, tanto humanistas como científicas, pode-se perceber um gradual estreitamento e fortalecimento do limiar que será permitido a uma teoria para que seja uma solução ao problema relevante. A menos que reconheçamos que os critérios de aceitabilidade de soluções de problemas evoluíram através do tempo, a história do pensamento parecerá ser realmente enigmática.” (p. 26)

Os problemas anômalos, nesta proposta, desempenham um especial papel. Aceita a tese Duhem-Quine, quanto à impossibilidade de teste de teorias isoladas, sem que o conjunto em que estão inseridas seja também testado, daí resultar a dificuldade de encontrarmos a “teoria culpada”. Entretanto, chama atenção para o peculiar papel que as anomalias desempenham, ou seja: sua importância só se torna significativa quando outra teoria a resolve. Assim, revaloriza as anomalias, não por, talvez, se mostrarem inconsistentes com a teoria em exame, mas quando apontam para uma maior capacidade de solução de problemas por uma teoria competidora.

Laudan discute o peso dos problemas empíricos,os quais não têm um valor absoluto: variam de importância, segundo muitas circunstâncias. Além da influência de fatores sociais, de natureza da mais diversa e conjuntural, examina mais detidamente aqueles aspectos que se referem ao peso racional cognitivo. Com isto pretende questionar, por exemplo, o caráter absoluto das “experiências cruciais” (Popper), da mesma forma que o caráter impreciso das anomalias que provocam a mudança de paradigma (Kuhn)[37]. Enfatiza sempre que o peso dos problemas empíricos deve ser visto na comparação entre teorias. Considera também que sua proposta de colocar a ênfase epistemológica na solução de problemas é imune à crítica de Duhem, pois, uma teoria (ou um complexo de teorias) – independente de ser verdadeira ou falsa – pode ser avaliada se é ou não eficaz na resolução de um determinado problema.

Quanto aos problemas conceituais, define-os por exclusão: são não-empíricos. Chama atenção para o papel relevante que desempenham na escolha entre teorias. Dá, entre outros exemplos, a oposição à teoria de Newton, por parte de pensadores eminentes (como: Locke, Berkeley, Huygens e Leibniz), por questões conceituais.[38] Critica os filósofos da ciência, de Popper a Feyerabend, passando por Lakatos, Kuhn, Carnap e Reichenbah, de ignorarem o papel dos problemas conceituais na avaliação racional das teorias científicas. Freqüentemente, as questões conceituais aparecem nestes filósofos como demonstrações da irracionalidade da ciência, tal como é realmente praticada.

“Seria um enorme erro, contudo, imaginar que o progresso e a racionalidade cientifica consistem inteiramente na solução de problemas empíricos. Há um segundo tipo de atividade de solução de problemas que tem sido pelo menos tão importante no desenvolvimento da ciência quanto a de solução de problemas empíricos. Este tipo de problema, que eu chamo problema conceitual, tem sido amplamente ignorado pelos historiadores e filósofos da ciência (embora raramente pelos cientistas), presumivelmente porque ele não se ajusta bem naquelas epistemologias empiristas da ciência que têm ditado a moda por mais de um século.” (p. 45)

Os problemas conceituais podem ser:

Problemas conceituais internos – quando uma teoria T apresenta inconsistências ou suas categorias básicas são vagas e pouco claras.

Problemas conceituais externos – quando uma teoria T está em conflito com outra – T’ – que reconhece ser racionalmente bem fundamentada.

Os problemas conceituais internos podem surgir quando uma teoria é autocontraditória, ambígua ou circular. Há inúmeros exemplos na história da ciência, como a inicial teoria de Faraday que, contudo, não foi abandonada mas evoluiu da noção de partículas contíguas para a teoria do campo. Este aspecto evolutivo, que permite que a teoria não seja abandonada uma vez constatada sua inconsistência, tem sido comum na história e constitui-se numa das fontes, cita Whewell, de progresso, através da “clarificação de conceitos”.[39]

Os problemas conceituais externos – fruto de alguma forma de conflito entre teorias – surgem a partir da particular relação que as teorias guardam entre si. Estas relações podem ser de:

A – Implicação: T implica T1

B – Reforço: T fornece uma “rationale” para T1.

C – Compatibilidade: T nada implica para T1.

D – Implausibilidade: T implica que T1 é improvável, no todo, ou, em parte.

E – Inconsistência: T nega T1, no todo, ou, em parte.

Observa Laudan que tais relações muitas vezes passam despercebidas, mas estão sempre presentes na avaliação de teorias. Por exemplo, a compatibilidade pode representar um conflito oculto, quando se espera que uma teoria que surge, reforce outra e não ocorre o caso. Comenta que: “Os vários domínios e disciplinas científicos nunca são completamente independentes entre si. Numa dada época, há sistemas hierárquicos de interconexão entre as várias ciências que condicionam as expectativas racionais que os cientistas guardam quando avaliam teorias.” (p. 53) É o caso de uma teoria da hereditariedade que fosse compatível com a química mas não utilizasse seus atuais recursos e fosse vista, então, com desconfiança. Na relação acima poderíamos dizer que, com exceção de A, existe uma ordem crescente, de B a E, de graus de ameaça cognitiva.

Laudan chama a atenção para o caráter não-arbitrário de tais conflitos, pois: “... poderíamos criar um problema para a moderna teoria quântica, indicando sua irrelevância em relação ao Zen Budismo !”. (p. 55) Em outros termos: há fontes para os problemas conceituais. Classifica-as em:

A – Dificuldades intra-científicas. Casos em que duas teorias científicas de diferentes domínios estão em tensão. Um exemplo histórico seria o conflito do sistema astronômico de Copérnico - que não consistia numa teoria física, somente se tornando articulada, sob o ponto de vista da física, com Galileu – e a física aristotélica predominante na época.

B – Dificuldades normativas. A força das normas, da metodologia que se espera da atividade científica, tem sido uma fonte importante de conflitos conceituais. Via de regra, uma teoria em conflito com a metodologia predominante, transforma-se de modo a ajustar-se ao que se espera como método científico. Lembra, a título de exceção, o conflito da física newtoniana, que teorizava sobre entidades não observáveis, como um caso em que a teoria impôs uma mudança na metodologia científica. Considera que a insistência de uma corrente de newtonianos, que não quiseram adaptar-se aos métodos da época, é responsável pela produção da metodologia hipotético-dedutiva que é dominante até hoje. Este grupo de newtonianos insistiu contra o indutivismo prevalecente de Bacon, Locke e do próprio Newton. En passant, faz uma referência à psicanálise considerando que o núcleo das críticas que lhe são feitas, refere-se a questões metodológicas.[40] Registra que nesses casos os historiadores e filósofos da ciência, por subestimar o papel dos problemas conceituais, ficam com dificuldade em encontrar uma rationale para a avaliação das teorias concorrentes.

C – Dificuldades de “visão do mundo”. Dá como um dos maiores exemplos históricos de conflito entre uma teoria científica e a “visão de mundo” dominante, a enorme repercussão que teve a teoria de Newton. Uma nova ontologia se fez necessária, lembrando a sua influência no desenvolvimento da obra de Kant e, segundo alguns autores (como Buchdahl), foi um dos pontos centrais que desencadearam o iluminismo. Foram levantadas questões quanto à nossa possibilidade de conhecer o mundo, assim como uma nova inteligibilidade da ação à distância. Como exemplo mais recente, cita o famoso caso Lysenko, ou seja: o forte apoio que este autor recebeu, por parte do estado soviético, para sustentar uma teoria contra a biologia evolucionária, tanto o darwinismo como o mendelismo, pelo fato de sua teoria vir ao encontro da visão de mundo – a interpretação stalinista do marxismo – dominante em seu ambiente cultural.[41] Laudan esclarece que, segundo sua proposta epistemológica, o conflito em discussão – teoria científica vs. “visão de mundo” – pede uma solução para ambas e não há possibilidade de previsão nestes casos, o resultado dependerá da capacidade de resolver problemas (quer da teoria, quer da “visão de mundo”).

A exemplo do que fez em relação aos problemas empíricos discute o peso dos problemas conceituais. Considera-os mais sérios do que uma anomalia empírica. Recordemos que a oposição à mecânica newtoniana foi mais por conta da metafísica da época do que por sua imprecisa previsão do movimento da lua. Sugere quatro circunstâncias que influenciam o peso dos problemas conceituais: a) O grau de tensão lógico entre duas teorias; b) Quando no conflito entre T1 e T2, a importância, na solução de problemas empíricos, de T2 é muito grande para que a teoria seja abandonada. Neste caso, a incompatibilidade conceitual não pesará tanto; c) Quando os problemas conceituais ocorrem em ambas as teorias em competição, seu peso diminuirá; d) A duração do problema conceitual. Quanto mais recente o problema, maior o otimismo de que seja superado.

Resume sua posição a respeito da seguinte maneira:

“ ... O que afirmo ... é que nenhuma das principais filosofias da ciência contemporâneas fornece espaço para o significativo papel que os problemas conceituais têm desempenhado na história da ciência. Mesmo aqueles filósofos que reivindicam tomar a real evolução da ciência seriamente (por exemplo: Lakatos, Kuhn, Feyerabend e Hanson) não fizeram sérias concessões às dimensões não-empíricas do debate científico. Agora, conhecemos o suficiente acerca da importância desses fatores não-empíricos dentro da evolução da ciência para dizer com alguma confiança que qualquer teoria acerca da natureza da ciência que não encontre lugar para problemas conceituais fracassa em reivindicar ser uma teoria acerca de como realmente a ciência tem evoluído.” (p. 66)

Como observamos, Laudan está introduzindo uma das noções que será fundamental em sua epistemologia: a noção de progresso, a qual servirá de suporte para a sua compreensão da racionalidade. Antes de entrarmos na discussão desses temas, que nos interessam de perto, é necessário esclarecermos outro dos pilares da epistemologia de Laudan: a noção de Tradição de Pesquisa.

5 – Tradição de Pesquisa – Trata-se de uma contribuição original de Laudan, fruto da sua tentativa de superar os impasses que o debate epistemológico, em que está envolvido, apresenta. Nasce, também, da insatisfação e insuficiência que o conceito de teoria científica desperta, quando queremos dar conta do desenvolvimento histórico do empreendimento científico. Seus principais interlocutores, neste momento, são: Kuhn e Lakatos, pois, ambos os autores se preocuparam com a mesma questão. Kuhn sugere a noção de paradigma, enquanto Lakatos, a de programas de pesquisa. Em ambos os casos, a preocupação é a de identificar unidades maiores – conjuntos de teorias – que simples teorias isoladas, para explicar os movimentos – progressivos ou regressivos – da ciência. Embora Laudan partilhe da mesma inquietação, vai criticar as soluções apresentadas, oferecendo sua alternativa. È, neste sentido, coerente com sua concepção que qualquer teoria – inclusive as epistemológicas – só pode ser avaliada comparativamente.

Parte o autor da distinção de duas acepções do termo teoria científica. Na primeira: “... o termo ‘teoria’ denota um conjunto muito específico de doutrinas relacionadas (comumente chamadas ‘hipóteses’, ou, ‘axiomas’, ou, ‘princípios’) que podem ser utilizados para fazer predições específicas experimentais e para dar explicações detalhadas dos fenômenos naturais.” (p. 71) Dá como exemplos: a teoria do eletromagnetismo, de Maxwell; a teoria do valor, de Marx; e a teoria do complexo de édipo, de Freud, entre outras. Por outro lado, a segunda acepção se refere a conjuntos de doutrinas e suposições, muito mais gerais e menos testáveis, como: a “teoria atômica”, “teoria da evolução”, ou, “a teoria cinética dos gases”. Feita tal distinção, afirma:

“... As diferenças entre os dois tipos de teorias ... são vastas: não somente há contrastes de generalidade e especificidade entre elas, mas os modos de julgamento e avaliação que lhe são apropriados são radicalmente diferentes. ... só quando nos tornamos plenamente cientes das diferenças cognitivas e de avaliação entre esses dois tipos de teorias, será possível ter uma teoria do progresso científico que seja historicamente fundada e filosoficamente adequada.” (p. 72)

Laudan, antes de apresentar as características de sua concepção de Tradição

de Pesquisa, faz uma breve descrição crítica das propostas de Kuhn e de Lakatos, procurando registrar em que diferem da sua.

Vê os paradigmas como “ ... ‘modos de ver o mundo’; amplos insights quasi-metafísicos ou suposições acerca de como os fenômenos em algum domínio devem ser explicados. Incluídas sob o guarda-chuva de qualquer bem desenvolvido paradigma estará um número específico de teorias, cada qual pressupõe um ou mais elementos do paradigma.” (p. 73) Como é conhecido, para Kuhn, uma vez aceito pela comunidade científica um paradigma, esta comunidade se comportará dentro do que denomina: “ciência normal”, o que é próprio das “ciências maduras”. Ou seja: todos os problemas que se apresentem serão resolvidos dentro do paradigma dominante, até que se acumulem anomalias, de tal monta, que provoquem o descrédito do paradigma, estabelecendo-se a crise paradigmática, que será resolvida pela revolução científica, com a adoção de um novo paradigma. As ciências imaturas seriam aquelas que não teriam atingido a fase paradigmática[42], sendo característica das mesmas um constante questionamento de seus fundamentos. O progresso ocorreria, portanto, através das revoluções, não tendo caráter cumulativo, ou seja, é um “novo mundo” que se instala, incomensurável com o anterior, o mundo do velho paradigma.

Embora, como já foi dito, Laudan concorde com muito da contribuição de Kuhn, diverge nos seguintes pontos:

A – Alinha-se às críticas de outros autores, como Lakatos e Feyerabend, quanto à dificuldade de Kuhn em esclarecer certos pontos obscuros, ou, sem maior fundamentação histórica, tais como: quando uma anomalia ameaça o paradigma ? ou seria o número de anomalias ? neste caso, qual o critério ? Não haveria, na história, períodos longos de “ciência normal” como quer Kuhn, assim como há registro de constantes disputas de paradigmas.

B – Propõe outras críticas: a falha de Kuhn em não ver o papel dos problemas conceituais; questiona a idéia kuhniana de que os paradigmas (ou “matrizes disciplinares”) são sempre implícitas e nunca amplamente articuladas (na história as discussões científicas, via de regra, são sobre questões explícitas); a rigidez que Kuhn atribui aos paradigmas – sua imunidade às críticas – não daria conta da evolução das teorias abrangentes; a idéia de que os cientistas utilizariam “exemplares” do mesmo paradigma parece não ocorrer, sendo freqüente o uso do mesmo “exemplar” (“basicamente uma aplicação arquetípica de uma formulação matemática a um problema experimental”) com pontos de vista radicalmente diferentes, quanto à ontologia e metodologia científica.

Quanto aos programas de pesquisa de Lakatos, considera-os tanto uma resposta como um avanço em relação a Kuhn. Avanço na medida que, a proposta lakatosiana, admite a co-existência de programas de pesquisa alternativos, sua possibilidade de comparação racional (comensurabilidade) e, mais do que Kuhn, tenta lidar com a difícil questão da relação entre a super-teoria e suas mini-teorias componentes. Assim resume a epistemologia dos programas de pesquisa:

“ ... têm três elementos: 1) um ‘núcleo duro’ (ou ‘heurística negativa’) de suposições fundamentais que não podem ser abandonadas ou modificadas sem o repúdio do programa de pesquisa; 2) a ‘heurística positiva’, que contém ‘um conjunto parcialmente articulado de sugestões ou indicações de como mudar ... modificar, sofisticar (sic)’ nossas teorias específicas sempre que desejemos melhora-las, e 3) ‘séries de teorias, T1, T2, T3, ...’ onde cada teoria subseqüente ‘resulta do acréscimo de cláusulas auxiliares a ... teoria prévia’. Tais teorias são os exemplos específicos do programa de pesquisa geral. Os programas de pesquisa podem ser progressivos ou regressivos de várias formas: mas, progresso para Lakatos, mais mesmo do que para Kuhn, é exclusivamente uma função do crescimento empírico de uma tradição. É a posse de um maior ‘conteúdo empírico’ , ou de um maior ‘grau de corroboração empírica’ que faz uma teoria superior, ou mais progressista, em relação a outra.” (p. 76)

As críticas de Laudan se dirigem aos seguintes pontos: a) da mesma forma que Kuhn, Lakatos concebe o progresso exclusivamente em termos empíricos; b) as excessivas restrições que faz ao surgimento de novas mini-teorias – “duas teorias só podem estar num mesmo programa de pesquisa se um das duas implica a outra” (p. 77) – o que é muito raro na história da ciência; c) a dependência de Lakatos das noções de Tarski-Popper de “conteúdo empírico e lógico”, o que coloca o progresso como fruto da comparação de conteúdos empíricos, o que por sua vez foi contestado, por autores como Grünbaum, como não-factível; d) a falta de relação entre uma teoria sobre o progresso e uma teoria sobre a aceitabilidade, uma vez que Lakatos, idiossincraticamente (sic), se recusa a admitir racionalidade na escolha entre teorias; e) a negação do peso das anomalias na avaliação de um programa de pesquisa; f) a rigidez, que também ocorre com Kuhn, quanto ao núcleo do programa de pesquisa admitir mudanças básicas.

Realizada a crítica aos autores, que reconhece terem tido um relevante papel pioneiro, passa Laudan a expor sua alternativa: a noção de Tradição de Pesquisa. Dá exemplos, em vários domínios, de Tradições de Pesquisa: Darwinismo, Teoria Quântica, Teoria Eletromagnética da Luz, Empirismo e Nominalismo, Voluntarismo e Necessitarismo, Behaviorismo e Freudismo; portanto, da biologia à psicologia, passando pela física, filosofia e teologia, encontra conjuntos – Tradições de Pesquisa - que entende ter características em comum. Estas seriam:

A – Contêm um número de teorias específicas que as exemplificam e, parcialmente, as constituem.

B – Têm compromissos metafísicos e metodológicos que as caracterizam e distinguem das demais.

C – São amplas formulações, às vezes, contraditórias, com longa duração no tempo, diferentemente das teorias que, muitas vezes, são fugazes.

As tradições de pesquisa, na medida em que fornecem grandes linhas para o desenvolvimento de teorias, fazem com que as teorias específicas tenham a função – dentro de uma tradição de pesquisa – “de explicar todos os problemas empíricos no domínio, ‘reduzindo-os’ à ontologia da tradição de pesquisa.” (p.79) Mais ainda, determinam o modo como as entidades que consideram legítimas devem relacionar-se. Dá dois exemplos esclarecedores:

Se a tradição física em estudo é cartesiana, só reconhece mentes e matéria como o que existe, estando excluídas outras substâncias, ou, formas mistas. As partículas cartesianas devem interagir por contato, não por ação à distância.

Se a tradição é marxista, suas entidades unicamente podem interagir em virtude de forças econômicas que as influenciam.

Laudan fornece, neste momento, uma definição operativa de Tradições de Pesquisa:

“... uma tradição de pesquisa é um conjunto de suposições gerais acerca de entidades e processos num domínio de estudo, e acerca dos métodos apropriados a serem usados para a investigação de problemas e construção de teorias neste domínio ... (as tradições de pesquisa) não são nem explanatórias, nem preditivas, nem diretamente testáveis.” (p. 81)

Observamos, pela citação acima, que há marcantes diferenças entre teorias e tradição de pesquisa. Neste sentido, uma tradição de pesquisa pode conter teorias rivais, o que freqüentemente ocorre, uma vez que teorias surgem em competição com antecessoras, geralmente, oferecendo-se a testes empíricos, pois, pretendem fazer previsões num determinado domínio. Apesar de tais diferenças, são as tradições de pesquisa que nos oferecem os instrumentos que necessitamos para resolver problemas – empíricos e conceituais – assim como determinam o que é problema em seu domínio, e que importância têm. Ainda no marco das diferenças entre teorias e tradições de pesquisa, esclarece:

“ ... uma bem sucedida tradição de pesquisa é aquela que conduz, via suas teorias componentes, à solução adequada de uma crescente gama de problemas empíricos e conceituais. Determinar que uma tradição é bem sucedida neste sentido não significa, evidentemente, que a tradição foi ‘confirmada’ ou ‘refutada’. Nem pode tal avaliação dizer-nos qualquer coisa acerca da verdade ou falsidade da tradição. Uma tradição de pesquisa pode ser enormemente bem sucedida em gerar teorias profícuas e, contudo, ser falha em sua ontologia ou metodologia. Da mesma forma podemos conceber que uma tradição de pesquisa possa ser verdadeira e, contudo, (talvez, pela falta de imaginação de seus proponentes) ser mal sucedida em gerar teorias que sejam efetivos solucionadores de problemas. Daí, abandonar ou rejeitar uma tradição de pesquisa não é (ou não deveria ser) julgar que a tradição é falsa.” (pp. 82-83)

As teorias e as tradições de pesquisa guardam entre si relações complexas. Importante destacar que não existe uma relação de implicação entre ambas, assim: “ ... há inúmeras teorias mutuamente inconsistentes que reivindicam lealdade à mesma tradição de pesquisa, como há inúmeras diferentes tradições de pesquisa que podem, em princípio, fornecer uma base para uma dada teoria.” (p.85) Para melhor compreendermos tais relações, devemos levar em conta que elas se dão sob dois pontos de vista: o histórico e o conceitual.

As tradições de pesquisa influenciam fortemente – embora não totalmente – o âmbito e o peso dos problemas empíricos com os quais suas teorias componentes devem trabalhar, da mesma forma que determinam seu domínio conceitual. Em conseqüência, delimitam o domínio de aplicação das teorias específicas, assim como podem gerar problemas conceituais para as teorias. Em suma: têm as tradições de pesquisa um papel constrangedor em relação às suas teorias componentes. Pensemos, a título de exemplo, em “cartesianos” como Huygens e Leibniz – comprometidos com uma ontologia de corpos em ação por contato – viam a teoria da mecânica celeste de Newton como supérflua.

Por outro lado, as tradições de pesquisa exercem um papel heurístico em relação às teorias, oferecendo-lhes dados iniciais para a sua construção. Isto não significa, evidentemente, que podemos deduzir teorias das tradições de pesquisa, mas que estas indicam linhas de pesquisa. Por exemplo: quando Descartes desenvolveu sua teoria sobre a luz e as cores, já tinha inaugurado uma tradição, na qual as únicas propriedades que os corpos poderiam ter seriam as de tamanho, forma, posição e movimento. Tais propriedades serviam, assim, como parâmetros para qualquer teoria física a ser construída. Desta forma, sabia Descartes, de antemão, que sua teoria ótica deveria seguir linhas compatíveis com tais propriedades dos corpos e assim o fez.

Um segundo, e importante, papel heurístico das tradições em relação às teorias já havia sido assinalado por Lakatos: o de indicar, em linhas gerais, como as teorias devem ser modificadas para aumentar sua capacidade de resolver problemas. Como exemplo histórico, pode ser citada a modificação que a teoria cinética dos gases sofreu – para dar conta do insucesso inicial de suas predições – dentro de uma flexível tradição de pesquisa que permitia a criação de novas hipóteses explicativas.

Uma das mais importantes funções das tradições de pesquisa em relação às teorias é a de racionalizá-las, ou, justificá-las. Usualmente, as teorias fazem muitas suposições sobre a natureza, as quais não podem ser justificadas, quer no interior da teoria, quer por dados que confirmem a teoria. Contudo, a tradição a que a teoria está ligada, fornece-lhe uma rationale que, pelo menos, garante ao cientista uma “primeira audiência” – por parte de seus pares, que também partilham da mesma tradição – embora, outros (de tradições diversas) possam questioná-la.

Laudan, assim, resume o exame que faz da relação teoria/tradição de pesquisa:

“ ... as tradições de pesquisa podem justificar muitas das afirmações que suas teorias fazem; podem servir para marcar certas teorias como inadmissíveis porque são incompatíveis com a tradição de pesquisa; podem influenciar o reconhecimento e o peso de problemas empíricos e conceituais para suas teorias componentes, e podem fornecer linhas gerais heurísticas para a geração ou modificação de teorias específicas.” (p. 93)

Laudan faz uma aguda observação sobre a possibilidade de uma teoria se destacar de sua originária tradição de pesquisa, o que registramos, uma vez que nos será muito útil em nossas Considerações Finais. Diz que uma teoria se afasta de sua tradição original, em geral, quando é absorvida por uma tradição alternativa, totalmente ou com pequenas modificações. Isto ocorre porque, via de regra, as teorias não têm vida própria e sua própria existência, em geral, tem curta duração. Lembra que as teorias não têm a capacidade de autenticarem-se, pois, fazem afirmações sobre o mundo para as quais não oferecem uma rationale. Esta – a rationale – como já vimos, seria uma contribuição da tradição de pesquisa. Dá, como exemplos históricos, as primeiras doutrinas da termodinâmica que se iniciaram numa tradição calórica (teorias substancialistas do calor) e foram absorvidas pela tradição cinética; assim como Newton foi capaz de mostrar que sua teoria poderia absorver a teoria do impacto de Huygens, a qual era de tradição cartesiana. É importante frisar que estamos sempre lidando com tradições em competição.

Uma vez sendo criaturas históricas (sic), as tradições de pesquisa florescem, crescem, desaparecem mas, também, evoluem. Este último aspecto é o de mais difícil elucidação. Laudan lembra as dificuldades de Lakatos e Kuhn para dar conta de uma evolução, quer dos programas de pesquisa, quer dos paradigmas, tendo esses autores optado por ser um acontecimento, uma ocorrência histórica, inexplicável racionalmente, o mecanismo íntimo de sua substituição, não deram conta, sobretudo, da possibilidade de evolução. Laudan crê numa evolução das tradições de pesquisa e fornece, convincentes exemplos históricos: mudanças no aristotelismo (certos aristotélicos abandonaram a idéia da impossibilidade do movimento no vazio), no cartesianismo (certos cartesianos repudiaram a identificação de matéria e extensão), ou, na psicologia freudiana[43]. Diz, a respeito:

“ ... estes aparentes ‘renegados’ não estavam mais trabalhando dentro de uma tradição, a qual eles honestamente reivindicavam subscrever ? Tomás de Aquino deixa de ser um aristotélico porque rejeita partes da análise de Aristóteles do movimento ? Huygens se torna não-cartesiano porque admite a possibilidade de espaços vazios ?” (p. 97)

As mudanças das teorias componentes seria um dos elementos de evolução das tradições de pesquisa. Contudo, o ponto mais problemático, refere-se ao núcleo, quais seriam os elementos que não poderiam ser alterados, sob pena de não estarmos mais falando de uma mesma tradição de pesquisa ? A solução de Lakatos é que, nessas maxi-teorias (programas de pesquisa, paradigmas ou tradições de pesquisa), o núcleo é intocável. A posição de Laudan é muito mais flexível, pois, questiona o que seja o núcleo, ou melhor, julga que os elementos nucleares se alteram com o tempo: “O que constituía a essência do tradição de pesquisa marxista no final do século XIX é substancialmente diferente da ‘essência’ do marxismo cinqüenta anos mais tarde.” (p. 99) Reconhece Laudan não ter uma resposta satisfatória para o que seria “não-rejeitável” numa tradição de pesquisa, mas acredita que relativizando a questão aproxima-se mais de como os cientistas realmente trabalham, ou, utilizam uma tradição. Acredita também que, através da evolução de uma tradição ativa, se aprende mais sobre o seu “núcleo não-rejeitável”.

Uma rica discussão é apenas mencionada, na obra central de Laudan, que estamos discutindo, e refere-se às relações entre tradição de pesquisa e visão de mundo. É uma inter-relação, a nosso ver, embora Laudan veja mais numa direção: tradição de pesquisa ® visão de mundo. Mostra como, nem sempre uma bem sucedida tradição de pesquisa altera a visão de mundo (“certos sistemas mais amplos de crenças dentro de uma dada cultura”), como ocorreu com as tradições inauguradas por Galileu, Descartes ou Newton. Menciona também os reajustes que as pessoas reflexivas tiveram que fazer ante o impacto do darwinismo ou do marxismo. Mostra, contudo, que tal resistência não tem – como muitos pensam – um caráter necessariamente conservador, pois, muitas vezes as novas tradições foram rapidamente aceitas, por corresponderem a expectativas da época. Voltaremos a este ponto em nossas críticas à proposta de Laudan. No momento, gostaríamos de registrar também a noção de pessoas reflexivas – ou comunidade de pensadores – que desempenha um importante papel na proposta de Laudan.

O autor chama a atenção para o fato de que os cientistas trabalham, freqüentemente, com mais de uma tradição de pesquisa. Deseja salientar que não vê as tradições de pesquisa como estando, necessariamente, em competição. O que ocorre é um movimento permanente, mais de integração do que de supressão de uma tradição sobre as demais. Cita o exemplo do marxismo que retirou elementos do idealismo de Hegel, do materialismo de Feuerbach e do “capitalismo” de Adam Smith e seus seguidores.

Reconhece o autor o caráter incipiente de sua proposta, a qual merece mais pesquisa para futuros esclarecimentos, como é o caso: da questão das tradições de pesquisa não-standards, ou seja, “ ... aquelas unidades que são demasiado estreitas para serem plenas tradições de pesquisa, mas bastante globais para serem consideradas como meras teorias.” (p. 106) Um dos exemplos que dá, diz-nos diretamente a respeito, é o da psicometria, do início do século XX, que sustentava a idéia de um possível representação matemática de fenômenos mentais. São casos em que os cientistas têm uma mesma metodologia e ontologias diferentes, ou, vice-versa.

A avaliação das tradições de pesquisa nos leva, inevitavelmente, para a ampla questão do crescimento científico, ou, em outros termos: para a noção de progresso, o que implica a concomitante discussão de racionalidade, segundo o ponto de vista de Laudan.

6 – Progresso e Racionalidade – Como sublinhamos, desde o início da discussão da epistemologia de Larry Laudan, a noção de progresso exerce, nesta, um papel central por vários motivos, dentre os quais destacamos que é, através dela, que podemos aproximarmo-nos da noção de racionalidade. A rigor, esta última interessa-nos mais, dados os propósitos desta dissertação. Entretanto, gostaríamos de assinalar que a questão do progresso tem um valor em si, constituindo-se num desafio para qualquer epistemologia. Quer seja o de explicar como é possível o progresso ou o crescimento do conhecimento científico, quer seja o de esclarecer em que consiste tal noção que é, por muitos, relativizada (Kuhn), ou, até negada (em certa medida, Feyerabend). Sugerimos a retomada da discussão do processo de avaliação das tradições de pesquisa como a melhor forma de compreendermos o que significa progresso, pelo menos, do ponto de vista da proposta em discussão.

Propõe Laudan dois critérios para a avaliação: adequação e progressividade. Por adequação entende a capacidade das teorias mais recentes da tradição em resolver problemas. Enquanto que, por progressividade, entende a determinação se uma tradição, no curso do tempo, ou aumentou ou diminuiu sua eficácia. A progressividade implica em duas ordens de medidas:

A – O progresso geral de uma tradição de pesquisa. Determinado pela comparação da eficácia entre as antigas e as mais recentes teorias componentes.

B – A taxa de progresso de uma tradição de pesquisa. Determinada pelas variações, num determinado período de tempo, da eficácia da tradição.

A distinção entre esses dois índices é importante uma vez que não andam, necessariamente, passo a passo. Uma tradição pode representar um elevado progresso geral, mas vir apresentando uma baixa taxa de progresso, ou, ao contrário, uma tradição pode estar apresentando uma elevada taxa de progresso, mas seu progresso geral ser reduzido. O que está em jogo é um aspecto temporal. Vai sofisticar mais ainda o processo de avaliação, distinguindo duas modalidades: o contexto da aceitabilidade e o contexto da busca. Argumenta que a falta desta distinção – dos contextos em que as teorias (ou conjunto de teorias) são avaliadas – tem levado a equívocos, como o de considerar escolhas históricas, entre teorias, como irracionais. Esquece-se que nos dois diferentes contextos, são também diferentes os objetivos e critérios em jogo.

A – Contexto da Aceitabilidade – Aceitar uma teoria é “ ... tratá-la como se fosse verdadeira”. (p. 108) Os critérios, então, podem ser os mais diversos: desde o maior grau de confirmação (para os indutivistas), até o de escolher qualquer uma por não haver escolha racional (Kuhn), passando pelo de maior grau de falseabilidade (para os falsificacionistas, à la Popper). Sugere o seu próprio: “ ... escolha a teoria (ou tradição de pesquisa) de maior eficácia em resolver problemas”, esclarecendo:

“Sob este ângulo, a rationale para aceitar ou rejeitar qualquer teoria é, então, fundamentalmente baseada na idéia de progresso em resolver problemas. Se uma tradição de pesquisa resolveu mais importantes problemas do que suas rivais, então aceitar esta tradição é racional, precisamente no grau em que estamos almejando o ‘progresso’, isto é, maximizar o escopo de problemas resolvidos. Em outras palavras, a escolha de uma tradição sobre as suas rivais é uma escolha progressiva (e assim uma escolha racional) precisamente na medida em que a tradição escolhida é uma melhor solucionadora de problemas do que suas rivais.” (p. 109)

B – O Contexto da Busca - Somente a aceitabilidade não dá conta da escolha que os cientistas fazem das teorias a serem investigadas, daí a idéia de muitos da não racionalidade da escolha entre teorias. Contudo, Laudan considera racional uma escolha de uma teoria, mesmo que seja a menos aceitável. Argumenta que não se pode saber de antemão o futuro sucesso de uma teoria: “ ... é sempre racional buscar alguma tradição de pesquisa que tenha uma maior taxa de progresso do que suas rivais (mesmo se ela tenha uma eficácia menor em solucionar problemas)”. (p.111) O que está em jogo, nesses casos, é a “promessa”, ou, a “fecundidade” da teoria. O exemplo mais marcante que oferece é a tradição de pesquisa galileana, a qual inicialmente não oferecia mais soluções do que o aristotelismo, mas prometia a curto prazo oferecer soluções. O mesmo ocorreu com o atomismo de Dalton, que era inferior à tradição, então dominante, das afinidades eletivas. A respeito deste último exemplo diz:

“Aquela tradição química (química das afinidades eletivas) tinha sido enormemente bem sucedida em correlacionar e predizer como as diferentes substâncias químicas se combinavam. A doutrina atômica inicial de Dalton nada podia reivindicar ante o sucesso em resolver problemas da química das afinidades eletivas ... o sistema de Dalton confrontava-se com numerosas e sérias anomalias. O que Dalton era capaz de fazer, contudo, era predizer – como nenhum outro sistema havia feito antes – que as substâncias químicas se combinariam em certas definidas proporções e múltiplos, não importando quanto dos vários reagentes estivesse presente. ... Ainda que a maioria dos cientistas se recusasse a aceitar a proposta daltoniana, muitos contudo estavam preparados para tomá-la seriamente, alegando que a capacidade de fazer descobertas do sistema daltoniano o fazia, ao menos, suficientemente promissor para ser valioso para futuro desenvolvimento e refinamento.” (p.113)

Laudan acredita que a introdução do contexto de busca possa ser uma solução intermediária, mais saudável (sic), para a insistência de Kuhn em que nunca é racional a busca de alternativas ao paradigma dominante (exceto nos momentos de crise) e, por outro lado, a posição anarquista de Feyerabend e, no caso, de Lakatos que consideram a busca de qualquer tradição de pesquisa – não importando se regressiva ou não – como sendo sempre racional. A rigor, a nosso ver, são posições idênticas (Kuhn, Feyerabend e Lakatos), pois, a noção de racionalidade desaparece.

Vejamos como apresenta a questão do progresso e racionalidade:

“Uma das mais espinhosas questões da filosofia do século XX diz respeito a natureza da racionalidade. Alguns filósofos sugerem que a racionalidade consiste em agir para maximizar utilidades pessoais; outros sugerem que a racionalidade consiste em acreditar em, e agir segundo, somente aquelas proposições das quais temos boa base para crer serem verdadeiras (ou ao menos serem mais prováveis que não); outros apontam que a racionalidade é uma função da análise custo-benefício; ainda outros reivindicam que racionalidade leva a não mais do que colocar afirmações que possam ser refutadas. Muito foi escrito sobre estas, assim como outras, noções de crença e ação racionais. Mas, ignorando o fato de que nenhuma dessas explicações de racionalidade se mostrou livre de dificuldades lógicas e filosóficas, nunca foi mostrado que qualquer delas é suficientemente rica para se ajustar às nossas intuições acerca da racionalidade inerente em muito da história do pensamento científico. Pelo contrário, é relativamente fácil mostrar que há numerosos casos na história da ciência – casos em que quase todos concordariam intuitivamente que a análise racional estava ocorrendo – que vão contra a cada um dos modelos de racionalidade acima mencionados.” (p.p.21-22)

Ao fazer uma crítica tão ampla – a praticamente todas as correntes epistemológicas – considera o autor que a única forma de aproximação ao tema da racionalidade, seria o de colocá-lo como parasítico (sic) ao de progresso e, ambos, subordinados ao seu modelo de solução de problemas. Sustenta a radicalidade de sua posição através de exemplos históricos e aprofunda-a, chegando a defender que pode ser racional a objeção, por motivos filosóficos ou religiosos, levantada a alguma teoria ou tradição de pesquisa científica. Isto fica menos impactante, caso lembremos que uma teoria ou tradição de pesquisa é avaliada segundo os problemas empíricos e conceituais que resolve e as anomalias que gera. Sua preocupação é identificar a escolha racional como a progressista, com aquela que aumenta a eficácia das teorias que aceita. Está pressupondo, pois, “ ... uma teoria da racionalidade sem pressupor qualquer coisa acerca da veracidade ou verissimilitude das teorias que julgamos ser racionais ou irracionais”. (p. 125)

Laudan admite que pode ser mal interpretado, tanto no sentido de negar que as teorias científicas sejam verdadeiras, como no de ser confundido com um partidário da epistemologia “vale tudo” (“anything goes”), à la Feyerabend. Rebate tais possíveis críticas, frisando que seu modelo não nega uma interpretação “realista” do empreendimento científico – apenas não vê como possamos afirmar que a ciência é verdadeira, provável ou aproxima-se da verdade – da mesma forma que tal modelo exige altos padrões de comportamento racional. Quanto a este último ponto, desenvolve mais longamente sua contra-argumentação, uma vez que muitos filósofos da ciência pretenderam reivindicar que nossos padrões de avaliação racional podem ter permanecido constantes durante o tempo, enquanto outros (como Popper e Lakatos) admitem que tais padrões evoluíram mas que podemos reconstruir a racionalidade de um momento histórico, segundo nossos atuais padrões. O autor julga que os historiadores da ciência recusam ambas pretensões. Lembra que cientistas do passado tiveram que fazer suas opções em relação às teorias apresentadas, segundo seus critérios e não os nossos. Questiona também a arrogância de imaginarmos serem nossas teorias de racionalidade melhores que as deles – o que pode ser verdade – e com isto não enxergarmos o que foi operativo naquele determinado caso histórico. Reconhece que a racionalidade tem características transtemporais e transculturais, embora tais características não possam excluir a participação – não ocasional, mas constante – de fatores extra-científicos; a noção de eficácia seria uma dessas características. En passant, faz um comentário que julgamos digno de ser registrado, pois, utilizaremo-lo mais adiante. Referimo-nos ao fato de pressupor que seu modelo se aplica àquelas culturas que têm uma tradição de discussão crítica, “ ... sem a qual nenhuma cultura pode reivindicar racionalidade”.

Retornando ao tema das escolhas históricas aparentemente irracionais, ou seja, aquelas em que motivos políticos ou religiosos predominaram, vale a pena mencionar os parâmetros que Laudan sugere para a avaliação histórica do processo de escolha entre teorias ou tradições de pesquisa:

“A racionalidade ou irracionalidade de qualquer episódio onde fatores ‘não-científicos’, mas intelectuais, desempenham um papel deve ser avaliada segundo caso por caso. Todavia princípios norteadores poderiam ser: 1) no caso de tradições de pesquisa competidoras, se uma daquelas tradições é compatível com a mais progressista ‘visão de mundo’ disponível, e a outra não, então há fortes bases para preferir a primeira; 2) se ambas as tradições podem ser legitimadas com referência a mesma ‘visão de mundo’ , então a decisão racional entre elas pode ser feita sob bases inteiramente ‘científicas’; 3) se nenhuma tradição é compatível com uma progressista ‘visão de mundo’, seus proponentes devem ou articular uma nova ‘visão de mundo’, que as justifique, ou desenvolver uma nova tradição de pesquisa que possa ser compatível com a mais progressista ‘visão de mundo’ existente.” (pp. 132-133)

Como entendemos que as principais críticas à proposta de Laudan, neste ponto, possam vir daqueles que ficaram conhecidos como “externalistas” – defensores de uma história da ciência escrita a partir, fundamentalmente, de fatores sócio-econômicos – em oposição aos “internalistas” – defensores de uma história da ciência escrita a partir do próprio interior do empreendimento científico – acrescentamos a esta dissertação um apêndice (Apêndice II), no qual resumimos a discussão de Laudan a respeito.

Laudan julga que sua proposta pode dar melhor conta da questão do processo de crescimento do conhecimento científico – cumulativo ou não-cumulativo – do que as atuais alternativas, principalmente, a de Kuhn (crescimento por “revoluções científicas”). Vai criticar tanto as teorias cumulativas (Popper e Lakatos), como as não-cumulativas (Kuhn), baseando-se mais uma vez em dados da história da ciência. Nesta linha, observa que as “revoluções científicas” não foram tão revolucionárias como, à primeira vista, parecem. Faz tal afirmação ao negar que a chamada “ciência normal” (Kuhn), que pressupõe um paradigma dominante, seja o comum na história. Sempre ocorreram disputas entre tradições de pesquisa e questionamentos sobre os fundamentos da ciência (o que, segundo Kuhn, não ocorreria nos períodos de “ciência normal”), não sendo tais questionamentos próprios, ou exclusivos, quer de situações de crise, quer das chamadas “ciências imaturas”. Da mesma forma, não vê a adoção de um novo paradigma, ou de uma nova tradição de pesquisa, como um acolhimento por parte da maioria dos cientistas. Pelo contrário, observa que as inovações são recebidas e defendidas por um número reduzido de cientistas. A idéia de Kuhn – e também de Lakatos – de que a atividade científica durante o período em que o paradigma ou o programa de pesquisa atinge a maturidade, está imune a influências externas, também não encontraria respaldo na história. Da mesma forma, as exigências de Popper, assim como de Lakatos, de que a nova teoria deve resolver os mesmos problemas que a anterior e novos, ou aqueles até então não resolvidos, aumentando o conteúdo empírico, seria pobre em exemplos históricos.

Continuando sua crítica às epistemologias correntes, em especial aos relativistas, questiona os fundamentos da incomensurabilidade de paradigmas. Considera que o critério de solução de problemas permite uma certa independência para a avaliação, mesmo histórica, das diversas alternativas, portanto, da escolha racional entre teorias. Sua argumentação se baseia na suposição de que a maior parte dos problemas empíricos pode ser formulada em linguagem, mesmo que teórica, comum às diversas tradições em competição. Ao mesmo tempo, os problemas que são próprios de uma tradição podem ser avaliados dentro da mesma, por critérios de consistência, simplicidade, refutabilidade ou precisão nas previsões. De certa forma, Laudan concorda com Kuhn quanto ao progresso representar “ganhos e perdas”. Entretanto, coloca a questão em outros termos: a eficácia na solução de problemas pode relegar a um segundo plano questões que seriam problemas – mesmo que “problemas resolvidos” – para a tradição anterior (recordemos que a “química das afinidades eletivas” resolvia problemas que a química de Dalton não dava conta. Neste caso o que houve foi uma mudança do peso dos problemas).

Laudan estende a aplicação de seu modelo de progresso às humanidades, num instigante capítulo – História das Idéias – onde defende como possível e apropriado (sic) falar de progresso nas não-ciências, considerando simplista a identificação de racionalidade científica com controle e precisão quantitativa. Sugere que o tema seja melhor pesquisado:

“ Se há alguma verdade na afirmação (positivista) acerca das diferenças entre as ciências e não-ciências, e eu suspeito que haja alguma verdade nisto, tais diferenças serão encontradas, não na exclusiva exibição de progresso pelas ciências, mas mais ainda na maior taxa de progresso por elas exibida. Todavia, mesmo esta afirmação é ainda uma matéria de vaga intuição, e assim permanecerá até que historiadores das idéias não-científicas comecem a re-escrever a história com uma visão voltada para a avaliação do progresso relativo e da racionalidade das tradições de pesquisa em competição, nas humanidades.” (p. 192)

7 – A Comunidade de Pensadores – Laudan faz recorrentes referências a “comunidade de pensadores”, “pessoas reflexivas”, ou, simplesmente, “pensadores” como os agentes da escolha entre teorias ou tradições de pesquisa. A rigor, a racionalidade estaria localizada nestes agentes, ou seja: a escolha realizada pelo agente é que seria racional, não a teoria ou a tradição de pesquisa. É um ponto que não desenvolve em sua obra maior e, ao que pudemos constatar, em suas outras, posteriores.

A partir desses pontos básicos que procuramos resenhar, Laudan discute os principais temas que dominam o debate epistemológico anglo-saxão contemporâneo. Discute também questões ligadas à história das idéias e ao papel da ciência. Ambas as questões estão relacionadas com o nosso tema, ao qual devemos agora retornar. Pois, apresentamos a proposta de Laudan no contexto de crítica às insuficiências da epistemologia popperiana para lidar com o problema da racionalidade da teoria psicanalítica. Cabe fundamentar nossa suposição de ser melhor a proposta de Laudan do que a de Popper. Antes, seguindo a metodologia que adotamos em relação aos demais autores discutidos, devemos alinhar nossas críticas. Estas seriam de duas ordens, fundamentalmente:

A – Relega Laudan a um segundo plano, como seus demais interlocutores (Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend), o problema da linguagem. Indagamos se seria possível, principalmente, na discussão da psicologia e, em particular, da teoria psicanalítica, reduzir tão rapidamente – sem maior questionamento – as proposições na primeira pessoa em proposições na terceira pessoa.

B – Sentimos falta de uma maior discussão de temas das chamadas ciências humanas, o que é também uma constante, na tradição em que está inserido. O autor, no Prólogo da obra que tomamos como referência, faz a ressalva de que tratará exclusivamente do que entende por “progresso cognitivo”, ou seja: “... progresso em relação às aspirações intelectuais da ciência.” Em seu entendimento, o progresso cognitivo não implica , nem é fruto, de progresso material, social, ou, espiritual. Embora reconheça que não seja possível desconectar, completamente, tais noções, não se propõe ao exame de suas relações.

C – Não discute o papel da “comunidade de pensadores” que, em nossa leitura, é extremamente relevante no processo decisório de escolha entre tradições de pesquisa.

Malgrado essas restrições, consideramos a proposta de Larry Laudan capaz – no marco do conjunto de epistemologias que servem de pano de fundo deste trabalho – de superar muitas das insuficiências que encontramos na epistemologia popperiana, quando aplicada à teoria psicanalítica, pelos motivos que listamos a seguir:

A – Faz uma melhor formulação do problema da racionalidade – Como foi visto, se a racionalidade, por um lado, como quer o autor, fica sendo uma noção parasítica da de progresso, por outro, liberta-a de uma submissão à de cientificidade. A crítica que poderia ser feita, seria a de que fica borrada a distinção entre cientificidade e racionalidade; porém, num sentido muito diverso do de Popper, o que permite um amplo espaço de discussão para empreendimentos racionais, como julgamos ser a teoria psicanalítica. Recordemos que esta é uma das hipóteses de partida da pesquisa, à qual esta dissertação está subordinada.

B – Melhor tratamento dos problemas conceituais – Talvez, esta seja a contribuição mais original de Laudan: colocar os problemas conceituais como constitutivos do empreendimento científico e de seu processo decisório. Distancia-se, assim, do “positivismo”, em sua acepção pejorativa. O mundo de Laudan é bem mais rico que o de Popper.

C – Melhor aproximação da questão do progresso – Como observamos em vários momentos, em nossa crítica à proposta popperiana, esta colidia, ora com a real forma de trabalho dos cientistas, ora com os registros históricos das vicissitudes da trajetória das teorias científicas. O caráter fortemente prescritivo da epistemologia de Popper não dá lugar para a compreensão dos movimentos progressivos ou regressivos da ciência. Paradoxalmente, a epistemologia popperiana justifica uma leitura irracionalista da história da ciência, pois, ao contrário de Laudan, não nos dá elementos para pensar de forma mais ampla a intimidade do processo de crescimento científico, tal como historicamente se dá.

D – Permite um espaço de reflexão para as relações entre “visão de mundo” e ciência – A introdução dos problemas conceituais, frisamos, como constitutivos do empreendimento científico, permite a Laudan dar o devido valor à mútua relação entre “visão de mundo”, teorias científicas, aceitabilidade científica, interesses científicos (vide seus comentários sobre o contexto de busca). Apesar de pretendermos deixar para o próximo capítulo nossas considerações a respeito deste tema, adiantamos ter sido uma preocupação de Freud que a psicanálise não se tornasse uma weltanschauung , tendo escrito um pequeno texto sobre a questão (Freud, 1933, S. E. XXII), o qual relemos agora como uma preocupação de não fazer colidir a psicanálise com “visões de mundo” que poderiam tomá-la como competidora. Independente das intenções e cautelas do criador da psicanálise, esta foi recebida, ora com repúdio, ora com um excessivo entusiasmo que mal escondeu o movimento de sua absorção, desvitalização e banalização.

E – Fornece instrumentos para uma investigação epistemológica mais rica da teoria psicanalítica – Curiosamente, os instrumentos a que nos referimos já estavam contidos na proposta popperiana, embora não utilizados por Popper. Estamos falando, no caso de Laudan, da visão da ciência como um método de solucionar problemas. Em Popper, o método proposto para a crítica de programas de pesquisa metafísica – a “análise situacional” – é, exatamente, um método de avaliação da melhor forma de solucionar situações-problema. Laudan, ao aprofundar sua noção de problema e de seu papel na ciência, propicia-nos uma nova forma de pensar as questões epistemológicas que interessam à teoria psicanalítica. Colocando a questão em outros termos: ao enfatizar a centralidade da eficácia na solução de problemas para a avaliação das propostas científicas, abre espaço para a teoria psicanalítica apresentar sua proposta em competição com outras, deslocando para segundo plano uma questionável discussão de seus fundamentos, como o de qualquer outra teoria do mesmo domínio. Observamos aí uma inversão da crítica tradicional que, com freqüência, se esteriliza na busca de fundamentos.

F – A Teoria Psicanalítica como uma Tradição de Pesquisa – A proposta de Larry Laudan nos permite pensar a teoria psicanalítica, com suas peculiaridades, desde sua ontologia até sua específica metodologia, como mais uma tradição de pesquisa. O aspecto amplo e, em grande medida, vago da noção de tradição de pesquisa, antes de ser um defeito, é a nosso ver uma virtude, uma vez que não pretende como a de paradigma (Kuhn) – com quem partilha da mesma imprecisão – ser uma noção rígida. Em nosso entendimento da leitura de Laudan, os aspectos ontológicos e metodológicos seriam os fundamentais para que diversas teorias – como é o caso da teoria psicanalítica – compartilhassem da mesma tradição. A isenção da responsabilidade por critérios de refutabilidade ou previsibilidade dão também a liberdade de substituirmos teorias que se mostraram inadequadas, sem abandonarmos a tradição. Como já comentamos, em outro momento, concordamos que, pelo menos, boa parte das teorias que compõem a teoria psicanalítica – ou a tradição freudiana (na terminologia de Laudan, embora, preferíssemos: tradição psicanalítica, a fim de incluir as novas contribuições) – não se saem bem ante testes de refutabilidade e previsibilidade. Entretanto, como também já comentamos, a metodologia que fundamenta tais testes não é adequada à psicanálise, ou seja: a tradição psicanalítica pede outros métodos. Exemplificamos esta afirmação ao dar como modelo a teoria psicanalítica sobre os grupos humanos que, como procuramos demonstrar, se sai bastante bem, quase exemplar, quando avaliada pelo método da “análise situacional” (Popper). É possível que a “análise situacional” seja uma boa candidata a método de avaliação de grande parte, pelo menos, de teorias componentes da tradição psicanalítica, enriquecida pela noção de problema, segundo Laudan. Outra vantagem de tomarmos a teoria psicanalítica como uma tradição de pesquisa seria um melhor entendimento de sua evolução, como observamos ao fazer referência ao trabalho de Melvin Lansky (Lansky, 1997) acerca das repercussões epistemológicas dos desenvolvimentos da psicanálise. Entendemos que formulação semelhante – a necessidade da psicanálise encontrar um modelo próprio – foi a que fez Klimovsky:

“ ... se a psicanálise se desenvolver como ciência madura, terminará por achar que os modelos que a levaram ao êxito são os que lhes são próprios e não os que saíram por analogia das outras disciplinas e, então, assim como a biologia tem seus modelos homeostáticos e a sociologia seus modelos estruturais, a psicanálise terá seus modelos psicanalíticos. Em tal sentido, diremos que, em última instância e como nas outras ciências, a peculiaridade do material psicanalítico não muda a estrutura lógica profunda do problema da validade das teorias, mas sim muda o tipo de imaginação, o ato criativo do investigador para propor suas hipóteses, para formar seus teoremas, suas teorias. Aqui é onde nos encontramos com algo sui generis da psicanálise, e quem não tenha trabalhado em psicanálise e não entenda bem sua metodologia não se dá conta de como se produzem seus modelos, nem se fará a par das dificuldades inerentes ao problema com que a psicanálise trata.” (Klimovsky, 1987: 282)

A noção de tradição de pesquisa levanta outra questão que diz respeito mais diretamente a esta dissertação: a possibilidade de uma maxi-teoria, como a psicanálise, pertencer a mais de uma tradição, pelo menos, parcialmente. Com isto queremos dizer que suspeitamos que a tradição psicanalítica permite a absorção de teorias epistemológicas diversas que a fundamentem, ou, reinterpretem-na com maior ou menor êxito. Este processo de integração de tradições de pesquisa, como já foi assinalado, é uma possibilidade histórica que Laudan registra. Deste modo, a racionalidade do empreendimento psicanalítico pode receber fundamentação de fontes diversas, guardar tensões com tradições diversas – como nos parece ser o caso de sua relação com a tradição popperiana – sem que o seu núcleo seja afetado. Nesta linha de pensamento poderíamos supor a teoria psicanalítica como uma teoria componente da tradição popperiana – haja vista a manifesta ambivalência de Popper em relação à psicanálise – como um de seus programas de pesquisa metafísica guardando com a mesma (tradição popperiana) uma relação de tensão, como um problema conceitual interno. Tal especulação não é tão extravagante como, à primeira vista reconhecemos ser, pois, quando aproxima o pensamento neurótico do pensamento dogmático, citando uma concordância com a psicanálise, como já mencionamos, está Popper admitindo um dos pontos centrais da teoria do pensar de W. R. Bion e de sua compreensão do fenômeno psicótico.

Finalizando esta breve comparação das duas propostas epistemológicas – de Popper e Laudan – em relação à teoria psicanalítica, mencionaríamos a questão das verdades interessantes (Popper) e dos problemas interessantes (Laudan). Esta foi uma das restrições que fizemos a Popper, uma vez que o interessante, para esta autor, referia-se a questões meramente empíricas. Julgamos que Laudan supera esta limitação ao introduzir a importância, o peso, dos problemas conceituais em qualquer empreendimento científico. Deste modo, grande parte daquilo que é objeto de investigação psicanalítica – afetos, relações inter-pessoais, sonhos, lapsos significativos – encontram um espaço que é muito restrito na tradição popperiana. Lembremos como Grünbaum, num certo afã em refutar a teoria dos lapsos, de Freud, cita estudos de psicolingüística que, independente de seu rigor metodológico, são desinteressantes do ponto de vista psicológico, ou seja: pouco ou nada esclarecem acerca das motivações do agente, principalmente, naqueles casos em que o lapso tem um peso psicológico peculiar. Em suma: as questões que são interessantes para a teoria psicanalítica, ou, para a psiquiatria e a psicologia, não encontram necessariamente o suporte empírico que a metodologia proposta exige; para esta tornam-se desinteressantes.

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Realizada esta sumária resenha da discussão da racionalidade da teoria psicanalítica, a partir da obra de Karl Popper até as recentes contribuições de Larry Laudan, dentro do âmbito do debate epistemológico anglo-saxão, entendemos ser tão importante quanto articular nossas próprias avaliações, levantar também novos questionamentos e novas perspectivas. Esperamos ter transmitido, durante todo o trabalho, uma postura muito próxima à proposta por Popper de colocar nossas hipóteses mais caras em escrutínio, dispostos a abandoná-las, caso se mostrem insuficientes para nossos objetivos últimos. Embora concordemos com Lakatos (1979) que esta não é a atitude usual, nem mesmo recomendável, quer de profissionais de ciências naturais, e, acrescentaríamos, quer de humanas e, de psicanalistas, em particular; a seriedade e importância que damos ao tema de nossa pesquisa – uma aproximação filosófica e psicanalítica do problema da psicose – não nos permite outra atitude, senão a de extrema humildade, sob o risco de um inevitável insucesso em qualquer tentativa de avançarmos na compreensão de algo que, por definição, resiste à abordagem racional. Como de outra forma já dissemos, esta foi a grande contribuição da psicanálise – e ainda é sua peculiar promessa (no sentido que Laudan dá ao termo): permitir o diálogo entre o racional e o irracional. Ao examinarmos as críticas ao estatuto científico da psicanálise, não pretendemos afastar sequer aquelas que, desde os seus primórdios, a consideraram como ‘mais um conto de fadas’[44]; tema a que retornaremos, ao final destas considerações. Lembramos ainda que nossa questão central se refere, sobretudo, à racionalidade da teoria psicanalítica e, secundariamente, à sua possível cientificidade.

4.1 – AVALIAÇÕES

No que diz respeito às nossas próprias avaliações, tentaremos evitar repetições listando-as, acrescidas de breves comentários, seguindo a ordem dos autores estudados:

1 – Karl Popper - Não vemos, dentro da epistemologia popperiana, lugar para a teoria psicanalítica como tendo o estatuto de uma ciência empírica. A simples tentativa de fazer previsões, ousadas ou triviais, próprias da ciência empírica segundo Popper, aproximaria equivocadamente a psicanálise da astrologia, por exemplo, violando um de seus pressupostos de tratar o homem como um ser livre, apesar de ter a “loucura” como o limite de sua liberdade.[45] Uma vez que ambas – “loucura” (alienação mental, automatismo mental, como foi por vezes designada) e liberdade – coexistem, a nosso ver, constitutivamente; qualquer previsão seria mero exercício de charlatanismo ou ingenuidade científica. Não excluímos com isto outras possibilidades de teste, mas uma tão radical imprevisibilidade, se formos fiéis à letra e ao espírito dos textos popperianos, afastaria a teoria psicanalítica de qualquer pretensão a ser uma ciência empírica, da mesma forma que Popper entendeu o darwinismo. Em conseqüência, julgamos que a teoria psicanalítica está mais próxima do darwinismo, partilhando com ele do estatuto de programa de pesquisa metafísica, do que das ciências naturais, ou, de pseudociências como a astrologia[46], no sistema popperiano. O método que Popper propõe para este tipo de empreendimento seria a “análise, ou lógica, situacional”. Como procuramos demonstrar, através do exame da teoria psicanalítica dos grupos humanos, a teoria psicanalítica se ajusta exemplarmente à “análise, ou lógica, situacional” de Popper, ficando em aberto a questão do por quê Popper não teria utilizado melhor seu próprio instrumental; da mesma forma que deixamos interrogada a compreensão da atitude sempre ambivalente de Popper em relação à psicanálise, o que, em certa medida, explica as duas avaliações que expusemos (Grünbaum e Klimovsky), tão antagônicas, apesar de oriundas da mesma tradição popperiana.

2 – Adolf Grünbaum – Embora consideremos que o autor exemplifica o que Lakatos denominou de falseacionismo dogmático, não desejaríamos desprezar sua exaustiva crítica filosófica dos fundamentos da psicanálise e ignorar o que ela nos ensina. Quando em nosso texto concordamos com o autor no que diz respeito a Freud ter pretendido utilizar uma metodologia, em certos momentos, claramente compatível com o indutivismo hipotético-dedutivo (sic), isto não significa que concordemos com sua crítica ao abandono, não declarado, de tal metodologia, por parte de Freud. O que Grünbaum – dentro de sua perspectiva epistemológica estritamente prescritiva – vê como uma falha, vemos como uma virtude. Freud nunca se recusou a abandonar, ou modificar, suas mais cultivadas teorias – como a da sedução, a da ansiedade, ou, a primeira teoria pulsional – quando as via insuficientes para dar conta de sua experiência clínica. Da mesma forma, o método do indutivismo hipotético-dedutivo sofreu as suas vicissitudes. Tal intolerância por parte de Grünbaum não pode deixar de levá-lo ao pessimismo quanto à cientificidade da psicanálise, no que talvez acerte, por razões falsas. Outras fragilidades da crítica de Grünbaum já assinalamos – como a avaliação equivocada que faz do papel da sugestão, assim como dos desenvolvimentos da teoria psicanalítica (atitude que mantém em trabalho muito recente: “Um século de psicanálise – Retrospectiva crítica e perspectivas”, in Freud – Conflito e Cultura, org. Michael Roth, 2000) – o que nos leva à discussão do papel do filósofo da ciência, que se defronta com dificuldades semelhantes às do historiador da ciência.[47] Julgamos que o trabalho em conjunto – no caso, de filósofos e psicanalistas – poderia superar certos mal-entendidos. Evidentemente, no caso em questão, a crítica poderia tornar-se até mais aguda, mas também, mais pertinente.

3 – Gregorio Klimovsky – No outro extremo do espectro da tradição popperiana encontramos Klimovsky que sugere a busca de um modelo psicanalítico. Sua proposta, que identificamos com o falseacionismo sofisticado (ou, em sua terminologia: método hipotético-dedutivo em sua versão complexa), parece-nos muito mais promissora como instrumento de investigação da racionalidade da teoria psicanalítica. Alguns autores psicanalíticos, como W. R. Bion (Bion, !977), elaboraram modelos extremamente sofisticados de avaliação epistemológica do trabalho psicanalítico. A discussão de tais modelos não é o objetivo desta dissertação, assim, apenas os mencionamos, reconhecendo que os mesmos mereceriam um exame por parte de filósofos da ciência, nos moldes que Wisdom (1976) tem realizado. A respeito deste último autor, citado por Klimovsky (1987), entendemos que sua proposta encontra sérias dificuldades técnicas. Propõe Wisdom um método de avaliação de uma interpretação psicanalítica, no correr de uma sessão de psicanálise, oferecendo um exemplo. Concordaríamos com Wisdom, desde que tal avaliação não interferisse no próprio trabalho psicanalítico e fosse realizada a posteriori. Como assinala Klimovsky, a interpretação psicanalítica tem um caráter instrumental, em certo sentido terapêutico (sic). Tal dificuldade não nos parece insuperável[48], pois, embora a psicanálise não se deva propor a previsões, isto não a impede de ser avaliada de forma peculiar como outras ciências – caso desejemos tomá-la como tal, e esta parece ser a posição de Klimovsky – que lidam com ações, com atos intencionais. No Capítulo II mencionamos a sugestão de Klimovsky que, da mesma forma que a física e a matemática deram contribuições à epistemologia, seria esperado que o mesmo ocorresse com a psicanálise, citando então os trabalhos de Money-Kyrle (1978) e a obra de Bion, como campo de investigação neste sentido. Não só concordamos com a sugestão de Klimovsky, mas lembramos que um dos objetivos de nossa pesquisa é, precisamente, o de investigar se a psicanálise – ou seu objeto de estudo, ou, as situações-problema que ela discute – pode oferecer alguma contribuição ao tema da razão e suas vicissitudes. Não nos sentimos em condições de oferecer, no momento, informações consistentes para fundamentar tal hipótese, mas assinalaríamos algumas questões que nos apresentam, desde já. Adiantamo-nos a uma possível e justa crítica: não visamos qualquer forma de naturalização da razão, mas uma melhor compreensão de seu uso, ou, impedimentos. Pensamos que o usual afastamento de fatores emocionais, ou afetivos, no escrutínio da ação ou das escolhas racionais, é uma fonte de impasses, os quais tradicionalmente se tenta superar, ora por precipitadas reivindicações de irracionalidade, ora por explicações sociológicas, que falham por insuficiência e uma certa artificialidade, na medida em que um mundo significativo é ignorado. Por outro lado, nossa herança cartesiana da busca da certeza, de idéias claras e distintas, encontra em nosso campo de estudo realização mais em sistemas delirantes do que no pensamento crítico – como bem percebeu Popper – que é eivado de dúvidas, incertezas e imprecisões.

4 – Larry Laudan – A proposta de Laudan, principalmente pela forma como introduz os problemas conceituais na investigação espistemológica, pareceu-nos a mais rica para tratar dos temas com que a teoria psicanalítica se defronta. Entendemos que sua proposta nasce do debate que serviu como um dos cenários desta dissertação. O impacto da epistemologia de Kuhn – talvez hegemônica atualmente no mundo anglo-saxão – e as agudas críticas do anarquismo epistemológico de Feyerabend, estão nas fontes da tentativa de superação, por parte de Laudan, do impasse que causaram no referido debate. Nossa avaliação encontra suporte no texto de Laudan: Science and Relativism – Some Key Controversies in the Philosophy of Science, onde um imaginário encontro reúne pragmatistas, relativistas, positivistas e realistas. A noção de Tradição de Pesquisa, que o próprio autor reconhece ser ainda incipiente, necessita ser testada em sua eficácia. O autor fez tal tentativa, principalmente, no controverso campo da história da ciência e da história das idéias, reabilitando esta última, especialmente, ao sugerir complexos mais amplos – como o são as Tradições de Pesquisa – para servir de unidades de estudo, em lugar de conceitos ou teorias isoladas. Agrada-nos, em particular, a forma como a questão do crescimento do conhecimento científico, ou, o progresso, é tratada. Utilizaremos esta contribuição para fazer nossa avaliação mais global deste cenário e tecer breves comentários sobre a outra cena que emoldura, e motiva nossa pesquisa, conforme mencionamos na Introdução. Referimo-nos à chamada “crise da psicanálise”.

5 – Tentativa de uma avaliação global – Durante todo o nosso trabalho tivemos uma dupla preocupação: examinar as críticas à racionalidade da teoria psicanalítica (dentro do domínio escolhido) e procurar identificar as propostas que poderiam melhor se candidatar a instrumento de investigação epistemológica da psicanálise. Não nos preocupa a teoria psicanalítica enquanto conjunto de teorias explicativas de uma vasta gama de fenômenos psicológicos e culturais, mas sim sua dimensão de instrumento de pesquisa de tais fenômenos. Esta distinção se faz importante, uma vez que a fragilidade das teorias que compõem a psicanálise é inversamente proporcional aos problemas que a tradição psicanalítica pôs em relevo. Pensamos em questões, como: a inteligibilidade dos distúrbios mentais, a sexualidade infantil, o novo peso da sexualidade e da agressividade como motores da ação, a dinâmica dos grupos humanos e tantos outros que, embora alguns já reconhecidos por nossa tradição cultural, não desempenhavam o papel que, após o surgimento da psicanálise, passaram a ter.

Nos últimos vinte ou trinta anos, outras tradições competidoras têm oferecido soluções, algumas promissoras, outra degenerativas, ou seja: há propostas de elaboração dos problemas citados, como há propostas de simplesmente abandoná-los, como pseudoproblemas ou como desinteressantes. Neste torvelinho de teorias, ou tradições, que se oferecem, observamos também o ressurgimento de antigas, que se pensava terem sido definitivamente superadas. Neste último caso, referimo-nos aos fundamentalismos religiosos, por exemplo, que se oferecem como respostas a muitas das questões levantadas, tendo crescente aceitabilidade. Importante registrar a pertinência da proposta de Laudan que aponta para o ressurgimento de tradições e oferece uma inteligibilidade maior para um fenômeno que, de outra forma, seria descartado com o epíteto de irracional. Seguindo sua linha de pensamento, a racionalidade estaria sempre radicada no agente da escolha entre tradições, progressistas ou regressivas. Como já registramos, não deixa claro quem seria tal agente – a comunidade de pensadores, as pessoas reflexivas – responsável pelo destino das tradições em competição. Este é outro ponto que deixamos em aberto.

No momento, e dentro do contexto desta dissertação, gostaríamos de mencionar concordâncias e divergências nos epílogos das duas obras maiores, de dois dos autores estudados de filiações diversas: Klimovsky e Laudan. Suas conclusões podem ajudar-nos nesta tentativa de avaliação global.

Klimovsky conclui sua minuciosa e erudita introdução à epistemologia, com um texto que denomina: “A ciência no banco dos réus”. Neste, como o próprio título já sugere, faz uma forte defesa do empreendimento científico ante as críticas que são representadas pelo segundo Feyerabend:

“ No panorama cultural e no próprio campo da epistemologia se advertem na atualidade teses adversas à ciência e suas aplicações, quer a partir do ponto de vista político e sociológico, quer do ponto de vista filosófico, sendo que neste último se pretende por vezes negar os valores que tradicionalmente foram adjudicados à ciência, quanto à sua objetividade, sua racionalidade ou sua pertinência para a construção do conhecimento.” (Klimovsky, 1999:399)

Argumenta que a racionalidade científica provém de sua particular metodologia, a qual considera insubstituível como meio de se alcançar a objetividade que dá, por sua vez, racionalidade ao empreendimento científico. Em sua defesa do método hipotético-dedutivo em sua versão complexa, julga que: “ ... as teorias científicas podem ser avaliadas desde dois pontos de vista um tanto independentes: a) o de suas conexões com aspectos éticos e valorativos, e b) o de seu valor epistemológico como constituintes de conhecimento.” (p. 403) Inclui a psicanálise nessa possibilidade, uma vez que julga que possa evoluir para uma formulação menos vaga e polissêmica, introduzindo termos teóricos com poder semântico mais adequado do que o da linguagem ordinária.

Laudan, em seu epílogo – “Além de Veritas e Praxis” – reconhece, como Klimovsky, a crise de credibilidade por que passa a ciência mas, ao contrário do autor argentino, não deposita tantas esperanças no empreendimento científico: “A preocupação dos clássicos filósofos da ciência tem sido mostrar que os métodos da ciência são instrumentos eficientes para produzir verdade, alta probabilidade, ou mesmo maior aproximação da verdade. Neste empreendimento, eles falharam lamentavelmente.” (Laudan, 1977: 223) Após questionar se os métodos da ciência são o melhor meio de solucionar problemas, vai identificar na curiosidade humana o maior motor do empreendimento científico, haja vista os insucessos em respostas utilitárias para tão grande dispêndio de recursos e energia. Conclui seu arrazoado nos seguintes termos:

“Reconhecendo que a resolução de um problema intelectual é um requisito tão fundamental para a vida como beber e comer, podemos abandonar a perigosa pretensão de que a ciência é legítima somente na medida em que contribui para nosso bem estar material ou nosso estoque de verdades perenes. Visto por esta luz, o repúdio da investigação teórica científica é equivalente à negação daquilo que pode ser nosso mais característico traço humano.

Dizer tal coisa não sugere que o gasto de recursos em problemas teóricos na ciência esteja justificado tout court. Demasiada pesquisa científica hoje em dia é dedicada a problemas que são cognitivamente triviais, como socialmente irrelevantes. Se o cientista ‘puro’ merece o generoso apoio que presentemente lhe é concedido, ele deve ser capaz de mostrar que seus problemas são genuinamente significativos e que seu programa de pesquisa é suficientemente progressista para ser digno de nele lançarmos nossos preciosos e limitados recursos.” (p. 225)

Em que pese discordâncias tão clamorosas entre os autores, há uma preocupação comum, da qual também partilhamos: a baixa credibilidade da ciência em lidar com problemas humanos. Não se trata, evidentemente, de um dado novo, mas seu peso é crescente na mesma proporção em que o espetacular avanço tecnológico das últimas décadas contrasta com o lento e, muitas vezes regressivo, desenvolvimento das ciências humanas. Neste contexto é que situamos a “crise da psicanálise”, talvez, fruto do desencanto de suas promessas, da mesma forma que começam a manifestar-se os sintomas de desencanto com a psicofarmacologia – uma tradição não incompatível com a psicanalítica[49] mas que foi oferecida como uma alternativa à psicanálise pela comunidade científica. Lembremos aqui a ênfase que Laudan dá ao papel de taxa de progresso e promessa de soluções no processo de aceitabilidade de uma tradição nova de pesquisa. Retomando nosso campo específico de trabalho, o estudo das psicoses, sob o ponto de vista filosófico e, mais restritamente ainda, epistemológico, consideramos que as propostas estudadas podem servir-nos – nas linhas que já descrevemos – mas mostram certas insuficiências próprias da tradição a que se filiam, por maiores que sejam suas diferenças.

Um sentimento de artificialidade nos desperta a indistinção, ontológica e metodológica, que esta tradição faz entre as ciências naturais e as humanas. Acreditamos que se trata de um problema conceitual interno, que autores como Klimovsky e Laudan procuram enfrentar. Encontramos dificuldade em lidar, com o instrumental oferecido, com um mundo significativo, onde haja lugar para se pensar a singularidade. Este ponto não escapou também a Popper, embora sua solução – “a análise situacional” – nos pareça insuficiente, pelo menos, até sua atual elaboração.

Neste sentido, pensamos em continuar nossa investigação através de duas novas linhas de trabalho: a filosofia da linguagem e a estética.

4.2 – DESDOBRAMENTOS

4.2.1 – A QUESTÃO DA LINGUAGEM

Por várias vezes mencionamos a forma rápida e secundária com que a questão da linguagem era tratada pelos diversos autores. Entretanto, na abordagem psicanalítica ocupa a linguagem um lugar de relevo. Não nos referimos, somente, à forma privilegiada de comunicação, mas ao seu papel como construtora de um mundo significativo. Na mesma ordem de importância colocamos o problema da primeira pessoa, a questão do “eu”, problema praticamente ignorado na tradição que acabamos de estudar. Não julgamos que as proposições na primeira pessoa sejam passíveis de serem reduzidas a proposições de terceira pessoa, ou eliminadas, como não significativas (no sentido de que tais proposições seriam meramente expressivas, sem valor epistêmico). Muito pelo contrário, julgamos que exigem um exame mais cuidadoso. Apenas ilustrando um novo caminho de pesquisa, citaríamos as contribuições de Wittgenstein a respeito da impossibilidade de construção de uma linguagem privada – o conhecido “argumento da linguagem privada” (Wittgenstein, 1968) – que consideramos um precioso instrumento de pesquisa para a compreensão da base da atividade delirante a qual pretende ser, fundamentalmente, privada, ou melhor, conter um conhecimento privado[50], não passível de comunicação.

A certa altura de nosso trabalho, comentamos a crítica de Zahar à noção de base empírica, em Popper. Sua crítica se volta à solução que Popper oferece para a questão dos enunciados autopsicológicos – que para Zahar seriam todos aqueles referidos à primeira pessoa, não importando tratar-se de percepções, sensações, ou, sentimentos – que Popper tenta resolver através de um peculiar convencionalismo, como já discutimos, ou seja: as proposições perceptuais seriam válidas, por convenção, podendo ser reavaliadas, ficando a ênfase quanto ao aspecto empírico, na testabilidade. Quanto às proposições não passíveis deste método de decisão convencional – as estritamente autopsicológicas – Popper vai de certa forma eliminá-las, utilizando o método de “análise situacional”, no qual o que importa é o problema a que se referem. Fizemos esta breve recapitulação para apresentar uma outra linha de pesquisa que, tanto diferentemente de Popper, como de Zahar (que busca na fenomenologia uma solução), pretende lidar com as proposições na primeira pessoa através de uma análise lingüística, a partir de contribuições de Wittgenstein, como é o caso da proposta de Tugendhat . Julgamos que é preocupação constante em Tugendhat dar conta da validade das proposições eu-sinto (eu-f) e ele-sente (ele-f) sem recorrer à tradicional teoria analógica – entre as minhas experiências e as de outros – que, em última instância, pressuporia um conhecimento privado, por base. Por outro lado, basear as proposições “eu-f” nas “ele-f”, sendo estas validadas a partir de comportamentos observáveis, levaria a um mero behaviorismo, solução que tanto Wittgenstein como Tugendhat rejeitam. Este último procura enfrentar todas as conseqüências deste dilema – conhecimento privado/behaviorismo.

“A analogia entre a fundamentação criterial da justificação das proposições ‘ele-f’ e a fundamentação criterial da justificação das proposições sobre objetos perceptíveis tem contudo suas limitações. Em primeiro lugar, devemos nos confrontar com o seguinte problema: se examinarmos mais de perto, mostra-se que aquelas proposições que atuam como critérios para a verdade das proposições sobre objetos perceptíveis são uma espécie de proposições-f; pois são de fato proposições ‘subjetivas’, nas quais se diz de uma pessoa que ela vê, sente, etc. alguma coisa. Assim, produz-se a situação curiosa em que, no caso das proposições sobre objetos perceptíveis, proposições-f atuam como critérios e, no caso das proposições-f, ocorre exatamente o contrário: proposições sobre objetos perceptíveis atuam como critérios. Por isso, poder-se-ia pensar que um círculo deveria se produzir aqui ..” (Tugendhat, 1992: 253)

O círculo vicioso previsto não ocorre, pois, lembra Tugendhat certos comentários de Wittgenstein no sentido de que “no caso das proposições sobre objetos perceptíveis, o entendimento da proposição simples precede necessariamente o entendimento da proposição modificada subjetivamente”. (1992: 253) Uma criança não aprende o jogo de linguagem: “isso parece-me vermelho ...” sem antes aprender: “isso é vermelho ...” Se se supor um aprendizado em ordem inversa, o “parece-me ...”, ou, “provavelmente ...” (por exemplo: “isso provavelmente é uma cadeira ...”), se tornaria supérfluo. Este ponto nos parece de grande importância, uma vez que envolve a discussão da base empírica da ciência, como assinala Tugendhat:

“Essa reflexão implica uma inversão radical de toda a teoria do conhecimento moderna que, por ter deixado de lado a problemática semântica, pensou o conhecimento dos objetos de tal modo que o processo do conhecimento deveria partir como um todo das sensações dos sentidos – em termos lingüísticos: deveria partir de proposições como ‘parece-me que ...’. Somente quando o jogo de linguagem recebe a ‘nova articulação’ das proposições subjetivas é que as proposições originalmente não modalizadas ganham um sentido ‘objetivo’ específico, que se expressa no fato de que cada proposição simples ‘p’ sobre objetos perceptíveis é equivalente a ‘realmente p’. Desse modo, é agora integrado a ‘p’ o contraste ‘parece(me) que p’ e só nesse nível pertence à ‘gramática’ das proposições sobre objetos perceptíveis a conexão criterial com essas proposições subjetivas, a sua possibilidade de fundamentação por meio dessas.” (1992: 254)

Tudo isso nos leva de volta à questão das proposições na primeira pessoa, do tipo eu-f. Tugendhat fornece uma contribuição própria que permite superar certas dificuldades que, à primeira vista, poderiam afastar das proposições eu-f qualquer função de conhecimento. Seria um saber imediato, não comportando erro nem, conseqüentemente, dúvida. Entretanto, Tugendhat vai localizar no uso correto da proposição ‘eu-f’ a noção de verdade pertinente a este tipo de proposição que não comporta a utilização de conceitos como “percepção”, “observação” e “verificação”. (p.257) Não vai negar o caráter expressivo ou exclamativo de tais proposições, mas procura preservar a possibilidade de seu caráter assertórico:

“A assimilação de Wittgenstein das proposições eu-f às exclamações está essencialmente correta. ... Wittgenstein tendeu a negar o caráter assertórico dessas expressões, porque julgava ser essa a única maneira de estabelecer seu caráter expressivo. Mas esses caracteres não se excluem e, se se quisesse negar que se pode empregar as palavras ‘verdadeiro’ e ‘falso’ em conexão com as proposições ‘eu-f’, estar-se-ia contradizendo nosso uso linguístico real. Uma tal concepção estaria negando, em particular, um aspecto comunicativo essencial de nossa linguagem, que é dado pela simetria verídica das proposições-f em primeira e terceira pessoa.” (1992: 263)

Mais adiante, Tugendhat vai questionar que o caráter não cognitivo de tais proposições não lhes retira o caráter de saber. “Saber e conhecer, porém, não são os mesmos e nem todo saber precisa apoiar-se em um ato de conhecimento.” (1992: 264)

O saber no caso das proposições ‘eu-f’ não repousa na verificação, mas na correta aplicação da regra. Neste sentido, não ocorrendo mentira ou dissimulação, trata-se de um saber direto, porém mediato na medida em que se funda em alguma coisa (aplicação de uma regra). Tugendhat comenta que tal afirmação pode parecer paradoxal por estarmos “... tão fortemente orientados pelo modelo da percepção que supomos não poder haver um saber empírico não indutivo que não se funde em uma percepção ou algo análogo.” (1992: 265)

Estes comentários visam, apenas, apontar uma outra tradição – com diferentes ontologia e metodologia – que se oferece como um desdobramento possível para nossa pesquisa. Tal movimento é coerente, também, com nossa principal referência psicanalítica – a obra de W. R. Bion – a qual se encaminhou na direção de uma maior ênfase e investigação do papel do significado e da linguagem, assim como da estética, outro campo propício à discussão da racionalidade psicanalítica.

4.2.2 – A QUESTÃO ESTÉTICA

São conhecidas as várias incursões de Freud neste terreno, cabendo lembrar que o famoso “complexo de Édipo” é referido não às diversas versões do mito de Édipo, mas à peça de Sófocles: Édipo Rei. É uma hipótese de trabalho que a produção estética é um meio possível de organização de elementos que, de outra forma, não teriam veículo adequado de articulação e expressão. Tal configuração permitiria o exame crítico da situação-problema. Em certa medida, o que estamos sugerindo não difere da proposta de Popper, quando este se aproximou da música. Difere, contudo, no sentido de não pretendermos afastar os elementos emocionais e afetivos que participam do significado da obra. Uma das críticas que fizemos à proposta popperiana foi exatamente a de tentar afastar fatores subjetivos, emocionais e afetivos, o que – no caso de ser bem sucedido – deixava-o, usando “Popper contra Popper”, com verdades desinteressantes, quando a situação-problema dizia respeito a questões psicológicas.

Quando no início dessas considerações finais, mencionamos a que, talvez, tenha sido a primeira crítica pública à cientificidade da psicanálise – “ ... mais um conto de fadas” – pensávamos no grão de verdade que ela possa conter. Pois, da mesma forma que ocorre com os contos de fadas, chamou a atenção de Freud a não-arbitrariedade dos sintomas neuróticos, oferecendo sua teoria uma inteligibilidade para os mesmos, até então negada. Se tal inteligibilidade repousa numa racionalidade científica ou não dependerá, como já vimos, da concepção quer de ciência, quer de racionalidade, que adotemos. Qualquer que seja a opção feita, acreditamos não ser possível excluir da investigação filosófica um campo tão vasto de problemas que, a exemplo da estética, desafiam nossa capacidade de reflexão. É neste sentido que entendemos a necessidade que teve Kant em formular a noção de juízos reflexivos e escrever sua última crítica, Crítica da Faculdade de Julgar. Esta poderia ser um ponto de partida para uma busca da racionalidade da teoria psicanalítica, pelo viés da discussão da estética, onde questões comuns também à psicanálise são, seguindo certos comentadores (como Philonenko), seus pontos de origem: a singularidade, a possibilidade de comunicação, a intersubjetividade

“ ... É somente sobre o fundo desta experiência original da intersubjetividade humana, que Kant analisa na Crítica da faculdade de julgar estética, que se podem desenvolver as modalidades indiretas da comunicação. No parag. 22 examinando os requisitos do julgamento de gosto e apresentando a idéia de um senso comum, Kant não se contenta em dizer que ele constitui a condição do julgamento de gosto; trata-se da ‘condição necessária da comunicação universal de nosso conhecimento, que deve ser presumida em toda lógica e em todo princípio de conhecimento ...’ Por outro lado, Kant insiste – como na Antropologia - nas relações entre o pensamento estético e o pensamento moral e sublinha como o primeiro é símbolo que, concretamente, conduz o homem ao segundo.

Vê-se daí aparecer o sentido da Crítica da faculdade de julgar e sua relação com as duas outras Críticas. A Crítica da faculdade de julgar funda e completa a Crítica da Razão pura e a Crítica da Razão prática ao desenvolver a experiência original pressuposta em ambas como reflexões sobre o pensamento humano ... A Crítica da faculdade de julgar preenche esta tarefa sistemática, constituindo-se como uma lógica da intersubjetividade, ou seja, como uma lógica da significação.” (Philonenko, in Kant, Critique de la Faculté de Juger, 1989: 11-12)

Uma vez que a questão do singular, da individualidade, permeia toda a discussão do julgamento de gosto, o parentesco da estética com a psicanálise, que lida fundamentalmente com singularidades, se torna muito próximo. Alguns autores, como Charles Taylor, enfatizam tal relação:

“O trabalho de Freud é uma magnífica tentativa de resgatar nossa liberdade e autocontrole, a dignidade do sujeito desprendido, diante das profundezas interiores. Isso não quer dizer que o projeto de Freud não apresentasse nenhuma coincidência com o dos artistas pós-schopenhauerianos. Os próprios termos da ciência freudiana e a linguagem de suas análises requerem uma articulação das profundezas interiores. E Freud por certo tinha idéia do grande poder da capacidade simbólica do homem, ainda que aprisionada, como está na maioria dos casos, no gigantesco conflito dos instintos, e distorcida como é pelas condensações e deslocamentos. Pode ser que o projeto de Freud, uma espécie de ciência natural da mente, seja impossível nos termos restritivos em que ele o concebeu. A exploração pode estar mais próxima da arte e da literatura do que ele estaria disposto a admitir.” (Taylor, 1986: 571).

Da mesma forma, autores psicanalíticos procuraram na manifestação estética uma forma privilegiada de comunicação da experiência analítica[51]. Bion conclui, o que talvez tenha sido seu último seminário público (Paris, 10/07/1978), afirmando:

“É muito importante estar ciente de que você pode nunca ficar satisfeito com sua atividade analítica se você sente que está restrito ao que é estreitamente chamado de uma abordagem ‘científica’. Você terá que ser capaz de ter a chance de sentir que a interpretação que você dá é bela, ou que você obteve uma bela resposta do paciente. Este elemento estético de beleza torna uma situação muito difícil tolerável. É tão importante ousar pensar ou sentir seja lá o que você pense ou sinta, nunca se preocupando quão não-científico isto seja.” (Bion, 1999)

Todos esses motivos credenciam a estética como outro campo de investigação para pensarmos a racionalidade da teoria psicanalítica.


APÊNDICE I

A RAZÃO E AS “razões” DE PAUL FEYERABEND
Ney Marinho
O presente texto procurará discutir a crítica que Feyerabend faz à razão, a partir da leitura de Contra o Método (1975), assim como “as razões” que apresenta para tal crítica. Utilizaremos outras produções suas, como: “Consolando o Especialista” (in, A Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento, org. Musgrave, ª e Lakatos, I.), Adeus à Razão (1991) e sal auto-biografia, Matando o Tempo (1996). Pretendemos restringir-nos aos argumentos do autor, desprezando a crítica de seus comentadores, a fim de tentar encontrar uma possível racionalidade para seu “anarquismo epistemológico” a partir de sua própria argumentação. Nossa escolha metodológica visa evitar o círculo vicioso em que poderíamos cair caso utilizássemos, através de seus críticos, pressupostos que são exatamente os questionados por Feyerabend.

1 – EM CONTRA O MÉTODO

Feyerabend afirma na Introdução sua tese central:

“A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teorético é mais humanitário e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas representadas por ordem e lei.” (p.18)

Coloca-nos assim perante uma noção – anarquismo – que considera capaz de elucidar o enigma dos assombrosos êxitos científicos e o aparente progresso da ciência, termo este (“progresso”) freqüentemente utilizado durante sua exposição, ao mesmo tempo que relativizado.

Na citação acima já encontramos dois pontos importantes da linha de pensamento de Feyerabend, pois, por um lado, vai ele através de detalhada pesquisa histórica demonstrar a falta de racionalidade no processo de desenvolvimento científico (ausência de critérios racionais na escolha entre teorias conflitantes); falta de fundamentação na aceitação de novas teorias; inconsistências entre teorias e fatos e assim por diante, ao mesmo tempo que preconiza uma postura: o anarquismo epistemológico, por parte dos cientistas, filósofos e pensadores em geral, que vise um desenvolvimento maior da consciência individual e a ampliação do exercício da liberdade pessoal, o que vem a caracterizar sua concepção de humanismo. Esta seria a única finalidade válida do empreendimento científico, uma vez descartada qualquer veleidade de aproximação da verdade, superação de formas primitivas de pensar ou qualquer outro tipo de proposta usualmente encontrada em projetos de educação científica. O papel que o humanismo joga na aproximação de Feyerabend da epistemologia das ciências – naturais ou humanas – tem ainda outras dimensões. O correr de sua obra revela que privilegia esta dimensão humanista, ética, não só por uma opção pessoal mas por xonsiderar que a educação científica forma uma ideologia própria, autoritária e simplificadora da ciência que vai contra, citando J. S. Mill: “o cultivo da humanidade, único procedimento que produz ou pode produzir seres humanos bem desenvolvidos”.

Neste ponto – o humanismo – merece que nos detenhamos mais por representar, a nosso ver, um dos “princípios” que fundamentam o pensamento de Feyerabend, dando-lhe uma forte racionalidade.

Como foi dito, a opção humanista é pessoal, atendendo às inclinações do autor, certamente fruto de sua história pessoal (tema que abordaremos posteriormente), mas também como uma reação à atividade anti-humanista que a ciência tradicional, assim como sua epistemologia, desenvolve. Curiosamente, diríamos que este é um segundo “princípio” que norteia a investigação de Feyerabend. Esclarecemos: acredita o autor que a ciência está sempre criando novas cosmologias, novas concepções de mundo, procurando dar uma coerência a seus novos achados. Esta referência se encontra no capítulo XIII, onde diz a respeito da a ceitação da argumentação de Galileu em favor de Copérnico:

“De começo, tudo o que se exige é consonância, pelo menos parcial, com a cosmologia. A consonância mostra que aquelas ciências (refere-se às novas ciências ainda não suficientemente desenvolvidas para dar conta de novas teorias) são, no mínimo relevantes e que, possivelmente, produzirão, algum dia, evidência completa e positiva. Assim, a idéia de que o telescópio mostra o mundo tal como ele realmente é defronta-se com muitos obstáculos. Mas o apoio que dá a Copérnico e dele recebe constitui indicação de que talvez estejamos a mover-nos em direção correta.” (p. 242)

Esta mesma atitude – a necessidade de “consonância” – vai exigir Feyerabend dele próprio em sua coerente defesa do humanismo como único valor capaz de dar significado à investigação epistemológica. Neste sentido é que pensamos tratar-se de um segundo “princípio” , a exigência de consonância, de um autor que nega os princípios.

Embora tenhamos procurado deter-nos na Introdução e na análise da tese central que ali é exposta, é muito difícil, dado o estilo do autor, um exame passo a passo de sua argumentação. Enquanto sua leitura é fácil e atraente, como ele mesmo propõe para os textos filosóficos e científicos, a quantidade de afirmações e citações torna extremamente complexa a tarefa de acompanha-lo em todos os seus atalhos. Contudo, como estamos apenas tentando detectar os “princípios”, as razões, a racionalidade que o move, pensamos que a fim de não tornar exaustiva e desinteressante esta pesquisa já podemos sugerir que o primado da ética – o humanismo peculiar que defende – e da coerência – a não contradição interna em seu “sistema” – como candidatos a “princípios” de seu “projeto filosófico”. Evidentemente nos cabe dar as nossas “razões” para tal afirmação que, talvez, não fossem aceitas pelo autor que não pretende oferecer qualquer “projeto filosófico” e muito menos um “sistema” regido por “princípios”. Por sinal é exatamente neste ponto que vai discordar dos anarquistas militantes e qualificar seu anarquismo como uma “dadaísmo” (ver “Introdução”, nota 12).

Esta breve apresentação da tese inicial do autor se, por um lado, poderia ser suficiente para explorar conceitos chaves de sua epistemologia, por outro, seria injusta por restringirmos o exame de sua bombástica afirmação sem ouvir suas “razões”. Estas constituem uma vigorosa crítica à racionalidade científica e à razão em geral.

Uma vez que não é nosso objetivo resenhar o texto, apenas nos limitaremos a uma listagem de seus argumentos contra qualquer tentativa de dar racionalidade ao desenvolvimento do pensamento científico, à aceitação de novas teorias e ao propalado progresso que tal atividade traz. Tomaremos a revolução copernicana como paradigma, obedecendo o percurso do autor.

Vejamos algumas afirmações de Feyerabend:

“O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale.”

“Cabe, por exemplo, recorrer a hipóteses que contradizem teorias confirmadas e/ou resultados experimentais bem estabelecidos. É possível fazer avançar a ciência, procedendo contra-indutivamente.”

“Qualquer idéia, embora antiga e absurda, é capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento.”

“Nenhuma teoria está em concordância com todos os fatos de seu domínio, circunstância nem sempre imputável à teoria.”

Tais afirmações introduzem os capítulos iniciais do livro. Neles procura fundamenta-las. A revolução copernicana é tomada como um exemplo paradigmático de irracionalidade do desenvolvimento científico. Vale a pena sublinharmos algumas de suas conclusões do exame da defesa de Galileu da teoria copernicana, pois, de outra forma poderia Feyerabend ser tomado apenas como um sociólogo da ciência, ou mesmo, um mero panfletário de um anarquismo utópico. Contudo, sua argumentação é mais poderosa. Procura demonstrar que:

A – A substituição do paradigma aristotélico ocorreu através de uma nova concepção de movimento, experiência, de interpretação natural e mesmo de evidência.

B – A modificação das noções acima não foi devida à argumentação racional, mas à utilização de técnicas de propaganda e persuasão, por parte de Galileu, entre elas o uso do italiano em lugar de latim, como meio de mais facilmente promover suas idéias.

C – Para demonstrar as afirmações acima, toma como exemplo o “argumento da torre” e o uso do telescópio. Em ambos os casos o paradigma aristotélico foi afastado sem que a argumentação contrária fosse convincente, sendo até contraditória, por exemplo, no que dizia respeito a previsões.

Em resumo, mostra Feyerabend que o que ocorreu foi uma mudança de cosmologia. Passou-se a ver o mundo de outra forma. O primado das sensações corporais, como prova de evidência, foi substituído pelo uso de instrumentos. Estes, por sinal, não estavam sequer em condições de garantir uma melhor performance do que os órgãos dos sentidos.

A implicação de tal linha de pensamento leva o autor à indistinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação. Este talvez seja o ponto principal de sua argumentação que tem como interlocutor privilegiado Karl Popper. É contra qualquer tentativa de fornecer racionalidade ao desenvolvimento científico, assim como à sua crítica, inclusive a dele próprio. Alega que usa argumentos racionais apenas para utilizar os mesmos instrumentos de seus oponentes.

Pensamos que podemos deter-nos neste ponto, uma vez que em Contra o Método é este o principal ataque à razão. Ou seja, segundo o autor, a racionalidade científica não resiste a um exame mais acurado de como historicamente a ciência se desenvolveu. Pelo contrário:

“Ora, admitindo que a teoria copernicana é uma Boa Coisa, teremos de admitir também que sua sobrevivência é uma Boa Coisa. E tendo em conta as condições de tal sobrevivência, teremos de admitir, ainda, que foi uma Boa Coisa a razão haver sido posta em segundo plano durante os séculos XVI, XVII e mesmo XVIII. ... Convém, conseqüentemente, permitir que, em quaisquer circunstâncias, as inclinações se contraponham à razão, pois isso pode beneficiar a ciência.”

Feyerabend conduz seu pensamento até a noção de incomensurabilidade – duas teorias não poderiam ser racionalmente comparáveis – estendendo-a, inclusive, ao que Popper denominaria pseudociência, ou seja, os mitos. Diz na apresentação do capítulo XV:

“Enfim, a exposição feita nos capítulos VI-XIII atesta que a versão do pluralismo de Mill, dada por Popper, não está em concordância com a prática científica e destruiria a ciência, tal como a conhecemos. Existindo a ciência, a razão não pode reinar universalmente, nem a sem-razão pode ver-se excluída. Este traço da ciência pede uma epistemologia anárquica. A compreensão de que a ciência não é sacrossanta e de que o debate entre ciência e mito se encerrou sem a vitória para qualquer dos lados empresta maior força ao anarquismo.”

Em sua defesa da incomensurabilidade, Feyerabend introduz a noção de ilusão epistemológica. Esta é uma área de “fatos” da antiga teoria “... que foram distorcidos de maneira a se acomodarem às novas linhas dominantes. Essa ilusão é a responsável por teimosamente persistir a exigência de conteúdo maior”. Defende que, a rigor, as novas teorias criam novas ontologias. Em sua argumentação a favor da incomensurabilidade que, por sinal, perpassa todo seu livro, chamaríamos a atenção para dois momentos preciosos:

Na nota 1 do capítulo IX, lembra, citando Zilboorg, como “... ao término da Idade Média, a ciência viu-se forçada a apartar-se da psicologia humana, de forma que até mesmo o grande esforço de Erasmo e de seu amigo Vives, os mais altos representantes do humanismo, não bastou para provocar uma reaproximação e a psicopatologia teve de acompanhar de longe, durante séculos as tendências desenvolvimentistas da medicina e da cirurgia”. Portanto, o que de fato ocorreu foi que as novas teorias, substitutas da bruxaria, simplesmente afastaram os fenômenos que esta estudava. Mais adiante cita o depoimento do próprio Augusto Comte criticando o positivismo “nascente e incompleto” que afastou de seu campo de interesse os fenômenos estudados pela astrologia.

No capítulo XVII utiliza como exemplo de incomensurabilidade no domínio da percepção a impossibilidade de percebermos simultaneamente duas figuras, a partir de um único desenho, devido à utilização de diferentes perspectivas. Esta brilhante analogia com a comparação de diferentes teorias, denuncia também os limites de seu relativismo, pois, apesar de tal impossibilidade, somos constrangidos a ver somente aquelas duas determinadas figuras. Introduz-se assim um importante elemento de não-arbitrariedade para alguns dados de realidade, fundamento das epistemologias racionalistas e realistas. Feyerabend vai responder a este possível questionamento falando de um comum aparelho de percepção para todos os seres humanos. O questionamento poderia seguir outro caminho como o da discussão dos limites de nosso esquema conceitual, como Davidson coloca em “The very Idea of a conceptual framework”.

Pensamos que ao mencionar o tema do relativismo já podemos passar para outros textos, onde a questão será mais explorada.

2 – EM OUTROS TEXTOS

Em sua crítica à Razão, Feyerabend vai progressivamente enfatizar seu radical relativismo que atinge seu clímax em Adeus à Razão. Falamos em “radical relativismo” pelo fato de não poupar outro autores, como Thomas Kuhn e Imre Lakatos, nos quais vê concessões à racionalidade científica que enfraqueceriam seus argumentos. Vejamos como leva este processo de progressiva radicalidade.

2.1 – EM “CONSOLANDO O ESPECIALISTA”

Neste texto, no último tópico – “O Papel da Razão na Ciência” – a pretexto de “... defender Kuhn contra Lakatos” faz uma intensa crítica a qualquer forma de dar racionalidade ao desenvolvimento científico, incluindo ambos os autores citados. Seus 15 parágrafos de crítica, a rigor, baseiam-se na defesa da incomensurabilidade das teorias científicas. Embora seu alvo principal seja Popper, critica Lakatos por permitir um “período de hesitação” até que um programa de pesquisa, que para Feyerabend é sinônimo de teoria, seja abandonado. Considera que este período que Lakatos concede é arbitrário e que os seus “padrões críticos” não diferem muito dos propostos por Popper, quanto ao caráter permanente dos mesmos, pois, ao dar à teoria mais tempo não põe em discussão a validade da crítica. Retorna a Popper, lembrando que este sugeriu que a crítica fosse flexível, de acordo com as exigências do momento, podendo ela mesma ser criticada a posteriori. Feyerabend aproxima neste ponto Kuhn e Popper, cobrando do primeiro não ter questionado os limites da razão. Este vai ser, talvez, o ponto mais forte de sua argumentação. Pois, supondo uma argumentação popperiana de que a disputa entre duas teorias – T e T1 – seria decidida se a classe de conseqüências verdadeira de T1 fosse maior do que a de T, sem aumento do conteúdo de falsidade, questiona a possibilidade de comparação de tais classes. Dá como exemplo a mecânica celeste clássica e a teoria especial da relatividade, na medida em que utilizam conceitos de forma muito distinta. Afirma que a comensurabilidade usualmente é fruto da utilização por parte de um realista de uma linguagem que força a unificação de termos observacionais das teorias em questão.

Sua argumentação aproxima-se, a nosso ver, da de Wittgenstein, quando este prioriza os “jogos de linguagem” e define aprender uma língua como participar de uma nova forma de vida. Vejamos como esta aproximação aparece em Feyerabend numa de suas críticas ao círculo de Viena:

“... De acordo com Carnap, Fiegl, Nagel e outros, os termos de uma teoria recebem sua interpretação, de modo indireto, por estarem relacionados com um sistema conceitual diferente, que é uma teoria mais antiga ou uma linguagem de observação. Não se adotam as teorias mais antigas ou as linguagens de observação em virtude de sua excelência teórica (não seria possível que o fossem: as teorias mais antigas são geralmente refutadas). Adotam-se porque (cita literalmente Carnap) ‘são usadas por uma certa comunidade de linguagem como meio de comunicação’.”

O texto prossegue antevendo certos tópicos que serão desenvolvidos em Contra o Método, já expostos, ou em Adeus à Razão.

2.2 – EM ADEUS Á RAZÃO

Neste livro se propõe basicamente a criticar duas noções: objetividade e razão. Pretende fazê-lo através da defesa de um relativismo racional e humano. Vejamos em suas próprias palavras (muitas vezes difíceis de ser resenhadas dado o seu estilo coerentemente persuasivo e propagandístico):

“Dizer que um ponto de vista é objetivo (-amente verdadeiro) é afirmar a sua validade independentemente das expectativas, idéias, atitudes e desejos humanos. Trata-se de uma das reivindicações fundamentais que os atuais cientistas e intelectuais apresentam a respeito do seu trabalho. A noção de objetividade, porém, é bastante anterior à ciência e afasta-se dela. Surgiu sempre que uma nação ou uma tribo ou uma civilização identificaram o seu modo de vida com as leis (físicas ou morais) do universo, e evidenciou-se quando se confrontaram diferentes culturas com diferentes perspectivas.”

Sobre a razão, diz:

“Uma segunda idéia que desempenha um papel importante na defesa da civilização ocidental é a noção de Razão (com maiúscula) ou racionalidade. À semelhança da noção de objetividade, esta idéia possui uma variante material e uma formal. Ser racional, na acepção material, significa rejeitar certas opiniões e aceitar outras ... Ser racional no sentido formal implica, mais uma vez, adotar um determinado procedimento ... As noções são ambíguas e nunca explicadas com clareza ...”

Em 11 teses vai criticar os fundamentos de ambos os conceitos, questionando tanto o aspecto material da racionalidade quanto o seu aspecto formal, argumentativo. Tudo isso em nome de uma alternativa: o relativismo, o qual pretende mostrar que é: “... racional, humano, e se encontra mais generalizado do que vulgarmente se supõe.” Estas teses contêm constatações – fruto de suas pesquisas históricas – e prescrições, não sendo sempre fácil a distinção. Contudo, tal ambigüidade pode ser-nos útil para identificarmos a racionalidade de Feyerabend.

3 – CONSIDERAÇÕES FINAIS ou “MATANDO O TEMPO”

Nossa proposta foi a de apresentar os principais pontos da crítica de Feyerabend à Razão, assim como as suas “razões”. Entendemos que há uma racionalidade na argumentação de Feyerabend que prescinde de aspas ou de minúsculas, uma vez que encontramos um princípio que rege sua obra e lhe dá coerência. Por sinal, a sua radicalidade é um fruto necessário de sua exigência de auto-coerência. Quando critica Kuhn e Lakatos, o faz por julga-los não tanto pouco radicais mas, sobretudo, incoerentes em suas críticas ao racionalismo popperiano. Isto procuramos registrar no item acima. Além da coerência há, em todos os textos estudados, uma preocupação ética que se transforma em princípio na medida que é um freqüente argumento contra a tradicional racionalidade científica. Colocando nosso ponto de vista em outros termos: uma vez demonstrada a impossibilidade de comparação lógica entre teorias, ou seja, afirmada de forma quase radical – abrindo espaço somente para o método antropológico como possibilidade de diálogo entre culturas (ou teorias, ou padrões, ou, em última instância, entre linguagens) – a tese da incomensurabilidade, só resta como critério decisório opções éticas, escolhas entre cosmologias, entre formas de vida. Vemos, assim, que para Feyerabend o primado de um princípio ético é mais do que uma prescrição mas, como a certa altura afirma acerca de seu relativismo, um achado de sua pesquisa. Esta, como se depreende de sua auto-biografia, é por sua vez movida pela curiosidade pelo humano.

Ao resumir o último capítulo de Adeus à Razão, nos diz:

“O capítulo deixa claro que a minha preocupação não é nem a racionalidade, nem a ciência, nem a liberdade – abstrações dessa natureza revelam-se mais prejudiciais do que benéficas – mas a qualidade da vida dos indivíduos.”

A citação acima mostra sua obstinação em evitar qualquer princípio aprisionante, empreendimento em que, em nosso entender, fracassa. Pois, há uma forte coerência em torno de princípios éticos que norteiam seu texto.

A publicação de sua auto-biografia faz parte desta mesma postura ética, uma vez que generosamente expõe sua intimidade – desde sua relação com a mãe, passando pela participação na guerra, até sua vida sexual – e a oferece, a pretexto de “matar o tempo”, como sua principal razão. Apesar da autorização do autor – uma vez que torna pública sua intimidade – pensamos que não nos cabe fazer conjecturas ou interpretações que inevitavelmente devassariam mais uma vida que merece respeito e admiração, podendo ser mal utilizadas por críticos que não fossem “amigos”. Lembramos que mais de uma vez nos fala Feyerabend da importância de assuntos tão sérios quanto ciência ou progresso serem discutidos entre amigos próximos, o que dizer então de dramas de uma vida. Talvez este seja um importante ponto da “nova racionalidade” que Feyerabend propõe: uma razão que leve em conta e extraia seu sentido de verdadeiras relações afetivas, em lugar de meras abstrações. Talvez também, por sua confessada teimosia, não desejasse usar termos tais como: razão, racionalidade, mas pensamos que nossa hipótese se fundamenta nas usa últimas palavras em Adeus à Razão :

“É possível ajudar as pessoas escrevendo livros. Fiquei surpreendido e deveras sensibilizado quando vi que pessoas de diferentes culturas, cujas ações eu respeitava, tinham lido algumas das minhas obras, e com uma franca aceitação. Deste modo, resolvi pôr de lado o meu cinismo e escrever um último livro bom, para Grazia, porque a conhecia e porque escrevo melhor tendo um rosto sorridente diante de mim (lembrem-se que escrevi AM – Against Method – tendo Imre Lakatos em mente) e, através dela, pra todos aqueles que não obstante a fome, a opressão, as guerras tentam sobreviver e alcançar um pouco de dignidade e felicidade. Claro que, para escrever um tal livro, terei de cortar os últimos cordões que me ligam à abordagem abstrata, ou retomando a minha habitual maneira irresponsável de falar, terei de dizer

ADEUS À RAZÃO.”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Feyerabend, P. (1965). “Consolando o Especialista”. In A Crítica e o Desenvolvimento do

Conhecimento, org. Imre Lakatos e Alan Musgrave. São Paulo, Cultrix, 1979.

____________(1975). Contra o Método. Rio, Liv. Francisco Alves, 1989.

____________ (1985). Adeus à Razão. Lisboa, Edições 70, 1991.

____________ ((1994). Matando o Tempo. São Paulo, UNESP, 1996.

APÊNDICE II


A CRÍTICA AO EXTERNALISMO
À LUZ DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN

Ney Marinho

1 – A QUESTÃO E ALGUMAS DE SUAS IMPLICAÇÕES

Utilizaremos as palavras de Georges Canguilhem (1970) para introduzir o tema:

“O externalismo é uma forma de escrever a história das ciências condicionando um certo número de acontecimentos –que se continua a chamar de científicos mais por tradição do que por análise crítica – através de suas relações com interesses econômicos e sociais, com exigências e práticas técnicas, com ideologias religiosas ou políticas. É, em suma, um marxismo mitigado ou, melhor, empobrecido que tem curso nas sociedades ricas. O internalismo – tomado pelos primeiros por idealismo – consiste em pensar que não há história das ciências, se não se coloca no próprio interior da obra científica para aí analisar os procedimentos pelos quais ela procura satisfazer às normas específicas que permitam defini-la como ciência e não como técnica ou ideologia.” (p.15)

Consideramos que Canguilhem resume com felicidade as posições em debate, cujas implicações são várias. Estas podem ser vistas em outras disputas como a dos relativistas vs. racionalistas, ou, nas diversas concepções de progresso científico e de objetivos do empreendimento científico e, a rigor, na própria concepção de ciência, ou ainda, de racionalidade. Uma implicação mais singela, nem por isso menos importante, residiria nos próprios critérios de aceitação ou rejeição de teorias. Os externalistas tenderiam a recusar qualquer racionalidade nas opções por teorias em competição, ao passo que os internalistas procurariam prescrever e identificar tais critérios.

Embora tais termos – internalismo e externalismo – sejam característicos do debate anglo-saxão, podemos alinhar nestas duas posições autores dos mais diversos. Assim, estão alinhados com o internalismo: Koyré, Bachelard, Popper; enquanto seriam externalistas: Kuhn e Feyerabend. O peso dos autores citados já demonstra a magnitude do problema que, de fato, nos parece cardinal por suas implicações, próximas e remotas. Implicações éticas, epistemológicas e ontológicas se levarmos o problema colocado às suas últimas conseqüências. Seria uma espécie de divisor de águas. Seria também um ponto de discussão privilegiado para o ângulo filosófico, uma vez que nem a história, nem a atividade científica podem dar conta de seus próprios fundamentos que, em última instância, é o que está em questão. Como diz Canguilhem, ao terminar seu texto citado:

”... A história das ciências não é uma ciência e seu objeto não é um objeto científico. Fazer uma história das ciências, no sentido mais operativo do termo, é uma das funções, não das mais fáceis, da epistemologia filosófica.”(p.23)

Uma vez reconhecida a amplitude do tema, como esperamos ter deixado claro, nos restringiremos ao exame da posição de Larry Laudan, particularmente em relação ao externalismo, cuja proposta epistemológica é o objeto de nosso estudo.

2 – A CRÍTICA DE LAUDAN AO EXTERNALISMO

Laudan vai situar o problema na discussão da sociologia do conhecimento. Engloba neste termo o estudo do papel tanto de fatores sociológicos como psicológicos no desenvolvimento do pensamento científico. Inicialmente, procura distinguir duas espécies de sociologias do conhecimento científico:

Sociologia não-cognitiva da ciência, interessada em explicar os modos de organização dos cientistas, sem preocupar-se com a origem ou fatores determinantes de suas crenças.

Sociologia cognitiva da ciência, interessada em explicar por que certas teorias foram formuladas, aceitas ou rejeitadas; investigando os fatores sociológicos determinantes.

Somente esta segunda modalidade de sociologia do conhecimento científico entra no debate de internalistas e externalistas, que de acordo com a visão de Laudan mantêm posições incomensuráveis.

Na medida em que as “crenças” são, por excelência, os problemas empíricos da sociologia cognitiva do conhecimento científico, é importante delimitar seu domínio. Isto não é tarefa tão simples como muitas vezes se julga. Deste modo, há posições que vão desde de tornar este domínio co-extensivo com o da história do pensamento humano às de recusar qualquer relação entre situação social e racionalidade científica. Dois exemplos mostram a necessidade de tal delimitação do domínio da sociologia do conhecimento:

Se, por um lado, 2 mais 2 é igual a 4 é uma proposição reconhecidamente a-histórica; a existência de teorias de supremacia racial em sociedades escravagistas é obviamente histórica, ou, num exemplo mais interessante que dá: a adesão dos operários ao socialismo se prenderia mais a condições sociais do que a sofisticadas opções racionais entre teorias concorrentes. Tudo isso nos leva a discutir: que crenças são passíveis de avaliação sociológica? Quais não? Quais os legítimos problemas empíricos da sociologia do conhecimento? Tais indagações se impõem devido ao risco dos sociólogos do conhecimento poderem ser questionados quanto à contingência de suas próprias crenças. Laudan vai identificar três princípios que acredita ter encontrado na argumentação daqueles que advogam um papel privilegiado para a sociologia do conhecimento. Tais princípios nem sempre são compatíveis e boa parte da epistemologia de Laudan colide com os mesmos. Seriam eles:

1 – Suposição de Arracionalidade (Arationality) – A partir da obra de Karl Manheim, é comum distinguir-se dois tipos de idéias:

Idéias Imanentes – Seriam, segundo esses sociólogos, conceitos, proposições ou crenças que poderiam ser demonstradas como ligadas natural e racionalmente a outros aos quais o agente adere. Um exemplo típico seriam os teoremas da geometria euclidiana. Aquele que aceita seus axiomas estará comprometido a aceitar suas implicações.

Idéias Não-imanentes – Seriam aqueles conceitos, proposições ou crenças que não trazem consigo credenciais de racionalidade, ou seja, o agente pode aceitá-los ou não, podendo optar por idéias alternativas, uma vez que aquelas que não são intrinsicamente mais racionais para ele. Estas seriam, por excelência, o objeto de explicação sociológica.

Laudan vai considerar tal princípio como um critério de demarcação e denominá-lo e defini-lo como Suposição de Arracionalidade, o qual “...leva à implicação de que a sociologia do conhecimento pode tomar parte na explicação de crenças se e somente se aquelas crenças não possam ser explicadas em termos de seus próprios méritos racionais.”(1977:202) Ressalta que se trata de um princípio metodológico e não metafísico, uma vez que “...não afirma que sempre que uma crença pode ser explicada por razões adequadas então não pode ter sido socialmente causada.”(p.202/3) Imaginando um hipotético debate entre um racionalista e um radical adepto da sociologia do conhecimento, mostra o inevitável impasse que tal princípio leva, ao conduzir o sociólogo a defender, em última instância, suas crenças como “situacionalmente transcendentes”, única possibilidade de continuar crítico da crença em exame.[52] Laudan propõe uma solução para este impasse que discutiremos no próximo tópico. Continuando sua crítica vai reivindicar da sociologia cognitiva do c