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DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
A PARTIR DA EPISTEMOLOGIA DE KARL POPPER
AVALIAÇÕES – IMPASSES –
ALTERNATIVAS
(DISSERTAÇÃO DE MESTRADO)
NEY COUTO MARINHO
Dissertação apresentada ao Departamento
De Filosofia da PUC/RJ como parte dos requisitos para a obtenção
do título de Mestre em Filosofia
Orientador: Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos
Abril de 2001
A todos aqueles – psicanalistas, pacientes, filósofos,
pensadores – que com coragem e esperança mantêm
vivo o generoso legado freudiano.
AGRADECIMENTOS
Esta dissertação pretende ser o início de
uma longa reflexão, há muito almejada, e que somente
neste momento se tornou possível graças a várias
circunstâncias e a muitas pessoas, as quais não posso
nomear todas mas, para todas, desejo registrar meu profundo agradecimento.
Como qualquer produção humana significativa (pelo
menos para seu autor), suas origens se confundem com a própria
história pessoal.
Agradeço a meus pais – Maria Luiza e Paulo Marinho
– que, desde muito cedo, me apresentaram ao mundo, com toda
a sua diversidade e complexidade, às boas e más coisas
que o povoam, sempre com humildade, ternura e esperança.
Agradeço aos meus colegas, pacientes e amigos que partilham
comigo das mesmas inquietações.
Agradeço a Rosa Beatriz Pontes de Miranda Ferreira que
me introduziu ao pensamento de W. R. Bion, a uma psicanálise
reflexiva e ao mesmo tempo profundamente humana e, sobretudo, que
me apresentou a mim mesmo.
Agradeço aos meus filhos – Mariana, Helena e Bruno
– pelo estímulo e paciência em ouvir intermináveis
diálogos dos pais, muitas vezes, sobre os mesmos assuntos
e os mesmos desconhecidos personagens.
Agradeço ao meu neto – Antonio – por me despertar
a alegria e a esperança, de que João Cabral fala,
de um “caderno novo”.
Agradeço ao Departamento de Filosofia da PUC/RJ que, há
muitos anos, me vem proporcionando as condições e
o ambiente – de competência, seriedade e onsideração
– sem o qual seria impensável realizar um projeto como
este. Qualquer que seja o valor de minha produção,
espero que a mesma seja recebida como a melhor manifestação
que encontrei para externar minha gratidão por tudo que tenho
recebido.
Agradeço, em especial, ao meu orientador – Prof.
Carlos Alberto Gomes dos Santos – pela paciência, tolerância
e extrema competência com que me guiou por meio deste verdadeiro
“duelo de titãs” em que se converteu o apaixonado
debate epistemológico anglo-saxão. Sem a sua serena
e carinhosa ajuda não teria conseguido, quer ver as árvores,
quer ver a floresta e, sobretudo ambas, assim como compreender que
os principais impasses da filosofia da ciência. apontam para
as básicas questões ilosóficas.
Finalmente, agradeço à Fernanda por todos esses
anos de companhia, sem a qual nada seria possível, ou, o
que é mais importante, nada faria qualquer sentido.
RESUMO
O trabalho pressupõe que o desenvolvimento da teoria psicanalítica
pede uma reflexão sobre seus fundamentos epistemológicos,
sua cientificidade ou racionalidade. Parte neste sentido da discussão
da epistemologia de Karl Popper, tendo como pano de fundo o debate
epistemológico anglo-saxão contemporâneo, envolvendo
principalmente as contribuições de Lakatos, Kuhn e
Feyerabend. Outro cenário em que se desenvolve a investigação
é o da “crise da psicanálise”, a qual
é vista como um dos elementos da crise da modernidade. São
discutidas duas avaliações da teoria psicanalítica,
antagônicas, mas que têm como principal referência
a epistemologia popperiana: as avaliações de Adolf
Grünbaum e Gregório Klimovsky. É examinada, criticamente,
a insuficiência da epistemologia popperiana para tratar de
questões como aquelas com que a psicanálise lida e,
dentro do contexto do debate anglo-saxão, é apresentada
a proposta epistemológica de Larry Laudan como uma possível
alternativa. O trabalho sugere a busca de novas linhas de investigação
para fundamentar uma racionalidade para a teoria psicanalítica,
indicando: a moderna filosofia da linguagem (principalmente as contribuições
de Wittgenstein) e a estética (a partir da Crítica
da Faculdade de Julgar, de Kant).
O trabalho pretende ser a fase inicial de uma pesquisa sobre o
papel da razão na teoria psicanalítica, assim como
sobre a investigação das possíveis contribuições
da psicanálise ao estudo da razão e suas vicissitudes.
Neste último aspecto, aponta para o estudo do fenômeno
da “loucura”, dado o seu caráter heurístico
peculiar.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...
1
1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”...
1
2 – A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
... 7
1 – CAPÍTULO I: A “QUESTÃO DA PSICANÁLISE”
NA OBRA DE KARL POPPER ....
12
1.1 – CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER .
12
1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA ...
13
1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO .
29
1.1.3 – A EPISTEMOLOGIA EVOLUCIONÁRIA .... 39
1.2 – POPPER E A PSICANÁLISE ...
45
2 – CAPÍTULO II: DUAS AVALIAÇÕES DA
TEORIA PSICANALÍTICA, NA TRADIÇÃO POPPERIANA
.
60
2.1 – A CRÍTICA FILOSÓFICA DE ADOLF GRÜNBAUM
.... 61
2.2 – A TEORIA MODELÍSTICA DE GREGORIO KLIMOVSKY....
74
3 – CAPÍTULO III: A TEORIA PSICANALÍTICA COMO
UMA TRADIÇÃO DE PESQUISA, NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA
DE LARRY LAUDAN.. 87
3.1 – INSUFICIÊNCIAS DA EPISTEMOLOGIA POPPERIANA QUANDO
APLICADA À PSICANÁLISE
87
3.2 – A PROPOSTA EPISTEMOLÓGICA DE LARRY LAUDAN ....
95
4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS ..
130
4.1 – AVALIAÇÕES .
131
4.2 – DESDOBRAMENTOS ...
139
4.2.1 – A QUESTÃO DA LINGUAGEM ..
139
4.2.2 – A QUESTÃO ESTÉTICA ....
143
APÊNDICE I: A RAZÃO E AS “razões”
DE PAUL FEYERABEND .. 146
APÊNDICE II: A CRÍTICA AO EXTERNALISMO – À
LUZ DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN ....
158
APÊNDICE III: “LE DIEU TROMPEUR” – NOTAS
SOBRE O ‘CONHECIMENTO PRIVADO’ EM DESCARTES, WITTGENSTEIN
E BORGES . 169
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...183
Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, “Se não
puder dobrar os deuses celestiais, comoverei o Aqueronte”
(Vírgilio, Eneida, Livro VII 312)*
(*Epígrafe escolhida por Freud para a Interpretação)
(Nota do editor: a notas de pé-de-página estão
ao final do texto, após a bibliografia)
INTRODUÇÃO
“... minha primeira tese é de que os problemas filosóficos
genuínos têm sempre raízes em problemas urgentes
fora do campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.”
(Popper, 1972:100)
“... o ser do homem não apenas não pode ser
compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem
se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.”
(Lacan, 1998:581)
1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”
O ponto de partida da pesquisa – “Razão e Psicanálise”
- da qual esta dissertação faz parte, foi um problema
extra-filosófico: o estudo e trabalho continuado com o sofrimento
mental e, em particular, com a experiência da “loucura”.
Talvez, caso fosse possível alguma forma de mensuração,
não houvesse maior manifestação de sofrimento
humano do que na experiência da loucura. Qualquer descrição
que a relativize, ou, tente reduzi-la a um determinante extra-psíquico,
padece de artificialidade se suprime suas dimensões de sofrimento
mental e perda da razão[1]. No cotidiano de nosso trabalho,
defrontamo-nos com a dramaticidade de um sofrimento que, prima facie,
necessariamente não compreendemos. A psicanálise surgiu
exatamente da tentativa de dar conta, explicar ou compreender tais
manifestações em que a ciência tradicional fracassava.
Entretanto, a prática como psicanalistas, leva-nos inevitavelmente,
à certa altura da experiência, a questionarmos os fundamentos
de nossa atividade. Isto ocorre, quer seja, pelas limitações
dos resultados, quer seja, pelo desafio que o insólito nos
desperta.
A identificação, ou “diagnóstico”,
de “loucura” - optamos por manter uma designação
coloquial, vaga e abrangente[2] - baseia-se em última instância
em algum padrão de racionalidade. Por este motivo é
que escolhemos o ponto de vista filosófico para nele desenvolvermos
nossa pesquisa. Pois, caso tentássemos estipular um critério
psicológico, psiquiátrico ou psicanalítico
para tal padrão, seu questionamento se tornaria impossível,
uma vez que é a própria noção de racionalidade
que está em exame. Neste sentido a pesquisa pretende seguir
uma linha de mão dupla: investigar a racionalidade da psicanálise
e, ao mesmo tempo, indagar se a psicanálise tem alguma contribuição
a dar ao estudo da razão e suas vicissitudes.
Partimos de duas hipóteses iniciais:
1 – A Teoria Psicanalítica é um empreendimento
racional, ou seja, constitui-se num conjunto de hipóteses
que, quer sejam ou não passíveis de testabilidade
segundo critérios como os popperianos, permitem a discussão
crítica de suas proposições e implicações.
2 – A razão, ou algum padrão de racionalidade,
se constitui em um “elemento da psicanálise”
– para utilizar a denominação e sugestão
do psicanalista inglês W. R. Bion[3] - sendo o seu exame,
assim como o das paixões e dos mitos, um dos objetos da psicanálise.
A pesquisa a que nos propomos está dividida em duas fases,
sendo que apenas a parte inicial da primeira será objeto
desta dissertação. São elas:
A – A pesquisa da racionalidade da Teoria Psicanalítica.
Neste primeiro momento ficaremos limitados à discussão
da racionalidade científica da teoria psicanalítica
dentro do debate epistemológico anglo-saxão contemporâneo,
procurando avaliar de que forma a psicanálise, como qualquer
outra ciência humana, nele se insere, como responde às
suas exigências e que questões, por sua vez, traz ao
debate. Pretendemos investigar, nesta fase inicial da pesquisa,
duas linhas de discussão: uma ligada à epistemologia
de Karl Popper e autores que partem de seu referencial (Adolf Grünbaum
e Gregorio Klimovsky) e a outra inspirada na filosofia analítica,
especialmente nas contribuições de Wittgenstein e
Donald Davidson.[4] A dissertação ficará restrita
à discussão dos autores da tradição
popperiana.
B – A pesquisa da razão como elemento da psicanálise.
Pretendemos num segundo momento, seguindo a mencionada sugestão
de W. R. Bion, investigar a razão como elemento constitutivo
da teoria psicanalítica, da mesma forma que as paixões.
Investigaremos se os distúrbios de pensamento - um dos objetos
da investigação psicanalítica – podem
oferecer-nos informações maiores sobre a racionalidade
e seus desvios. Esta segunda fase é dependente da anterior
na medida em que naquela procuraremos identificar o “tipo
de racionalidade” que a psicanálise utiliza, ou, para
sermos mais precisos, o padrão de racionalidade que consideramos
mais apropriado para desenvolver e dar atualidade ao legado freudiano.
Uma vez já existir uma vasta literatura a respeito da fundamentação
epistemológica da psicanálise[5], tivemos que fazer
uma opção que melhor circunscrevesse nosso campo de
trabalho. Optamos por iniciar com o exame das contribuições
de Popper – por motivos que esclareceremos adiante –
assim como utilizar as formulações de Larry Laudan,
sobre Tradições de Pesquisa, como instrumento para
avaliação das diferentes teorias que povoam, implícita
ou explicitamente, o debate em que se insere a epistemologia popperiana.
Embora a pesquisa tenha a origem inicialmente exposta –
nosso especial interesse no problema da psicose[6] - um outro fator
veio acrescentar-se às nossas motivações. Gostaríamos
de apenas mencioná-lo, sem pretendermos incluí-lo
em nossos planos de estudo, apesar de acompanhar-nos como um dado
conjuntural relevante. Referimo-nos à chamada “crise
da psicanálise”, fenômeno cultural complexo que
surgiu no início dos anos 80, caracterizando-se pela crescente
queda na procura por parte de postulantes aos Institutos de Psicanálise
(Instituições de ensino organizadas para formar psicanalistas)
–quer na América do Norte, Europa ou América
Latina – pela diminuição da demanda por tratamentos
psicanalíticos, concomitante ao progressivo desenvolvimento
de tratamentos psicofarmacológicos, com o lançamento
das mais diversas drogas psicotrópicas, assim como a multiplicação
e penetração de terapias alternativas, sobretudo,
de caráter místico. Este fenômeno paralelo ao
desenvolvimento dos fundamentalismos religiosos, levou alguns autores
– como Sérgio Paulo Rouanet[7] - a conjecturar sobre
uma possível crise de nosso projeto civilizatório
e, conseqüentemente, da razão iluminista e, neste vácuo,
de qualquer forma de racionalidade, incluindo a psicanálise
neste contexto de discussão. Não pretendemos entrar
no debate deste ponto, apenas assinalar que é mais um fator
a instigar-nos a investigar os fundamentos de nossos padrões
de racionalidade, a partir do próprio questionamento da psicanálise.
Há também uma dimensão prática, imediata,
neste debate que a crise despertou, que se refere a uma ampla discussão
em curso sobre o que privilegiar num programa de pesquisa sobre
distúrbios mentais, quer em psicanálise quer em psiquiatria:
a pesquisa empírica ou a clínica. Por pesquisa empírica,
em geral, refere-se a dados mensuráveis, passíveis
de avaliação estatística, enquanto que por
pesquisa clínica, a tradicional reflexão teórica
a partir da experiência clínica[8]. A magnitude do
problema pode ser avaliada pela questão da droga, que atualmente
se constitui num problema de dimensões muito superiores ao
da histeria no início do século ou ao da loucura,
em todos os séculos. Embora, pretendamos evitar dispersar-nos
nestas questões, elas estarão de certa forma sempre
presentes, uma vez que faz necessariamente parte do pano de fundo
de nosso trabalho o debate da epistemologia anglo-saxã contemporânea,
tendo como interlocutores principais, além do próprio
Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend. Reaparecerão as mencionadas
questões (pelo menos indiretamente), por exemplo, quando
mencionarmos as críticas à proposta popperiana de
racionalidade científica, em especial, as de Feyerabend.
Como é conhecido, ao não aceitar a distinção
entre contexto de descoberta e contexto de justificação,
um dos fundamentos da proposta metodológica de Popper, Feyerabend
ligará indissoluvelmente nossos padrões de racionalidade
ao contexto histórico-social. Sabemos dos impasses relativistas
a que tal crítica leva, por mais pertinente que seja. Adotaremos,
em caráter provisório, as formulações
de Larry Laudan sobre “Tradições de Pesquisa”
para lidar com tais questões, por considerá-las mais
abrangentes e úteis para a discussão que pretendemos
desenvolver. Dada a subordinação que fizemos do tema
da dissertação ao plano geral da pesquisa, procuraremos
dar uma ênfase particular à questão dos padrões
de racionalidade empregados no debate epistemológico da psicanálise.
Como pretendemos manter a dissertação no âmbito
estritamente filosófico, gostaríamos de registrar
como a tradição tem afastado precocemente a insanidade
quando investiga a racionalidade. Citamos, como exemplo histórico,
as reflexões de Descartes no parágrafo 4 da “Primeira
Meditação”.
“... E como poderia eu negar que estas mãos e este
corpo sejam meus? A não ser talvez que eu me compare a esses
insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado
e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram
que são reis quando são muito pobres; que estão
vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente
nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas
quê? São loucos e eu não seria menos extravagante
se me guiasse por seus exemplos.”
Em trabalho apresentado numa disciplina deste mestrado[9] discutimos
a inconveniência desta exclusão prematura da insanidade,
uma vez que esta nos ilumina, indicando os limites do padrão
de racionalidade que está sendo proposto. Pensamos que em
filosofia da ciência tal questão – racional/irracional
– adquire proporções significativas. Este ponto
não escapou tanto a Freud, quanto a Bion – os dois
representantes do pensamento psicanalítico que tomaremos
como interlocutores permanentes – que assim a formularam:
“Fica para o futuro decidir se há mais delírio
em minha teoria do que eu gostaria de admitir, ou, se há
mais verdade no delírio de Schreber do que outras pessoas
estão preparadas para acreditar.” (Freud, S.E. XII:79)[10]
“A leitura deste capítulo (refere-se ao capítulo
II de O Futuro de uma Ilusão, de Freud) parece mostrar o
quanto o avanço da psicanálise torna obsoleta sua
própria formulação. Freud tem como alicerce
de sua discussão, como sua realização, suas
próprias conjecturas sobre a natureza da civilização.
A partir daí ele tem teorias sobre as conjecturas. As conjecturas
merecem atenção, pois são conjecturas de um
homem genial. Mas não há reconhecimento do status
de conjecturas ou do status de teorias sobre conjecturas. Em psicanálise
presume-se que uma teoria é falsa se ela não parece
estar a serviço do ‘bem’ da maioria da humanidade.
E, como idéia de “bem”, é uma platitude.
A idéia toda de “cura”, de atividade terapêutica,
permanece sem escrutínio. Ela é amplamente determinada
pelas expectativas do paciente, embora isso seja questionado em
uma boa análise (como eu a conheço). Mas em física
uma teoria é boa se ela ajuda a construção
de uma bomba que destrói Hiroshima. Muitíssimo do
pensamento sobre psicanálise impede a possibilidade de considerar
como boa uma teoria que poderia destruir o indivíduo ou o
grupo. Ainda assim, nunca haverá um escrutínio científico
de teorias analíticas até que essa investigação
inclua a apreciação crítica de uma teoria que,
por sua própria consistência, poderia levar à
destruição da estabilidade mental; por exemplo, uma
teoria que incrementasse memória e desejo a um ponto que
eles impossibilitassem a sanidade.” (Bion, 2000:389)[11]
Enfatizamos nosso interesse em subordinar a investigação
dos fundamentos epistemológicos da psicanálise à
busca de um padrão de racionalidade que a sustente como instrumento
de pesquisa para o fenômeno da loucura, supondo que o exame
do mesmo poderá ser filosoficamente útil para um escrutínio
da razão e da racionalidade científica, em particular.
O estudo da loucura tem, a nosso ver, um papel heurístico
peculiar.
2– A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
Iniciamos a discussão da racionalidade da teoria psicanalítica
a partir da epistemologia de Karl Popper, pelos seguintes motivos:
1 – A importância da contribuição popperiana,
principalmente, na Lógica da Pesquisa Científica,
através de seu critério de demarcação
entre ciência empírica e não-empírica,
baliza qualquer debate a respeito. Como desejamos manter, em nosso
cenário, as alternativas de Lakatos, Kuhn, Feyerabend e Larry
Laudan, a referência central a Popper facilita, sobremaneira,
a discussão sobre a natureza dos problemas empíricos
e conceituais, sobre o alcance da noção de refutabilidade,
a divergência entre racionalistas e relativistas, realistas
e pragmatistas e, sobretudo, a viabilidade de um programa para um
padrão de racionalidade. Na discussão da epistemologia
popperiana, teremos também como referência, seus comentadores
brasileiros: Sérgio Fernandes e Wilson Mendonça.
2 – A influência das idéias de Popper na formulação
de uma teoria sobre o pensar, de W. R. Bion, autor que tomaremos
como principal referência na última parte da pesquisa,
uma vez tratar-se do psicanalista que mais trabalhou e escreveu
sobre o fenômeno psicótico. Embora reconheçamos
essa influência de Popper, como na noção de
“pré-concepção” de Bion, que muito
se aproxima da de “expectativas inatas” (Popper), são
trajetos distintos. Bion se mantém mais solidário
a uma leitura kantiana, assim como no correr de sua obra vai preocupar-se,
cada vez mais, com questões ligadas à “construção
do significado”[12], tema que reiteradamente é relegado
a um segundo plano na obra de Karl Popper.
3 – Está, também, ligada a Popper, a crítica
mais minuciosa e consistente à teoria psicanalítica,
de que temos conhecimento. Referimo-nos à obra de Adolf Grünbaum,
The Foundations of Psychoanalysis – A Philosophical Critique
(Berkeley: University of California Press, 1985). Grünbaum
utiliza o referencial popperiano, para um minucioso exame da cientificidade
da teoria psicanalítica, embora de forma bastante crítica
em relação às insuficiências dos comentários
de Popper sobre a psicanálise.
4 – A Popper se liga também o trabalho que Gregorio
Klimovsky – epistemólogo argentino de orientação
popperiana – desenvolve há mais de trinta anos com
importantes nomes da psicanálise internacional, em grupo
de estudos sobre epistemologia e psicanálise, a partir de
experiências clínicas. Pretendemos assim contrapor
duas visões dentro da tradição popperiana:
as de Grünbaum e Klimovsky.
Como dentre nossos objetivos se encontra a preocupação
com os padrões de racionalidade que estejam em jogo, nos
diversos momentos da discussão da psicanálise, adotaremos,
em caráter operativo, o padrão proposto por Larry
Laudan (in, Progress and its Problems: Towards a Theory of Scientific
Growth. Laudan, 1977), como referencial. Fizemos a ressalva quanto
ao caráter operativo de tal adoção, pois, entendemos
que a própria pesquisa propõe-se a ser uma discussão,
em última instância, do que consistiria um padrão
de racionalidade. Conforme já registramos, não é
possível falar de psicose ou loucura sem que esteja implícita
alguma contrapartida de racionalidade. Como no momento não
podemos adiantar-nos quanto a um possível padrão,
uma vez que esperamos que o decorrer do próprio trabalho
vá selecionando seus possíveis candidatos, escolhemos
a proposta de racionalidade, de Larry Laudan, como uma ferramenta
provisória. É uma decisão que consideramos
inescapável, uma vez que mesmo nesta fase inicial se faz
necessário algum referencial que dê sentido ao debate
epistemológico em que Popper – assim como os dois outros
autores a serem estudados: Grünbaum e Klimovsky, estão
inseridos.
No primeiro capítulo discutimos a “questão da
psicanálise” na obra de Karl Popper, dividindo-o em
duas partes: a primeira, uma descrição do trajeto
de Popper desde sua primeira preocupação em distinguir
ciência e pseudociência até sua proposta mais
abrangente de discussão de programas de pesquisa metafísica.
Desejamos acompanhá-lo em sua elaboração das
noções de ciência e racionalidade; e, numa segunda
parte, discutimos a relação direta de Popper com o
tema da psicanálise, que foi sempre uma “questão”
para ele, a nosso ver, não bem resolvida, guardando a respeito
da teoria freudiana uma posição ambivalente: reconhecimento
de suas contribuições e recusa de sua cientificidade
e mesmo racionalidade.
No segundo capítulo examinamos duas avaliações
da teoria psicanalítica, surgidas na esteira da epistemologia
popperiana: a persistente crítica de Adolf Grünbaum
aos fundamentos da psicanálise e a tentativa de Gregório
Klimovsky de encontrar – nos termos do modelo hipotético-dedutivo
– uma apreciação científica para o empreendimento
psicanalítico. São avaliações antagônicas,
quanto a seus resultados e expectativas.
No terceiro capítulo apresentamos nossa própria
avaliação das insuficiências da aplicação
da epistemologia popperiana à teoria psicanalítica
e, dentro da tradição epistemológica anglo-saxã,
sugerimos a utilização da proposta epistemológica
de Larry Laudan, como a mais bem sucedida para o exame de uma teoria
que envolva problemas empíricos e conceituais, como é
o caso da psicanálise. É então feita uma breve
resenha dos principais pontos da epistemologia pragmatista de Laudan.
No quarto capítulo procuramos fazer uma avaliação
dos autores estudados, da mesma forma que da tradição
a que se filiam, apontando o que nos parece ser seus impasses e
suas propostas de superação. Acrescentamos, para finalizar,
dois possíveis desdobramentos desta fase de nossa pesquisa:
um estudo da filosofia analítica, principalmente a partir
das contribuições de Wittgenstein; e uma investigação
das relações entre estética e psicanálise,
tomando como ponto de partida a Crítica da Faculdade de Julgar
(Kant), para exame do problema da singularidade.
Os três Apêndices – sobre Feyerabend, sobre
os “externalistas”, e o que trata do “conhecimento
privado” – visam dar subsídios ao debate que
nos parece mais relevante, nesta tradição, entre racionalistas
e relativistas; assim como adiantar algumas suposições
sobre o entendimento do problema da psicose a partir da filosofia
da linguagem.
As traduções de textos citados, quando a bibliografia
não é referida em português, é de nossa
responsabilidade. Quando julgamos conveniente assinalar a data da
primeira edição de alguma obra citada, a mesma é
colocada entre parênteses e a data da edição
utilizada a seguir, ambas entre colchetes, por exemplo: Popper,
K. Lógica da Pesquisa Científica [(1934) 1974]. Os
textos de Freud utilizados são da tradução
inglesa – Standard Edition (S.E.). London, Hogarth Press,
1974 – e serão sempre mencionados pela abreviatura:
S.E. seguida do volume em que se encontram.
CAPÍTULO I: A QUESTÃO DA PSICANÁLISE NA OBRA
DE KARL POPPER
“... Após o colapso do Império Austríaco,
a Áustria havia passado por uma revolução:
a atmosfera estava carregada de slogans e idéias revolucionárias;
circulavam teorias novas e freqüentemente extravagantes. Dentre
as que me interessavam, a teoria da relatividade de Einstein era
sem dúvida a mais importante; outras três eram a teoria
da história de Marx, a psicanálise de Freud e a “psicologia
individual” de Alfred Adler.
... Durante o verão de 1919, comecei a me sentir cada vez
mais insatisfeito com essas três teorias ... passei a ter
dúvidas sobre seu status científico. Meu problema
assumiu, primeiramente, uma forma simples: “O que estará
de errado com o marxismo, a psicanálise e a psicologia individual?
Por que serão tão diferentes da teoria de Newton e
especialmente da teoria da relatividade?” (Popper, 1972: 64)
Para compreendermos a insatisfação de Popper quanto
ao status científico da psicanálise é necessário
que esclareçamos, inicialmente, sua noção de
ciência e de racionalidade. Estas sofreram desenvolvimentos
no correr de sua obra, uma vez que a mesma se foi tornando um sistema
cada vez mais abrangente, alcançando até a estética.
1.1 - CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER
O trajeto que propomos para o exame da evolução
das concepções popperianas de ciência e racionalidade
atende, fundamentalmente, a nosso campo de interesse – discussão
da racionalidade da teoria psicanalítica – o que significa
que deixaremos à margem uma série de questões
que o programa popperiano levanta. Contudo, pensamos que as fases
em que dividimos a obra de Popper correspondem às que seus
comentadores estabelecem.
Assinalamos três momentos básicos para o nosso exame.
A cada um corresponde uma obra maior do autor, ou seja:
1 – A Racionalidade Científica. A crítica à
lógica indutiva. O critério de demarcação
entre ciência e pseudociência. A noção
de refutabilidade. A Lógica da Pesquisa Científica
[(1934) 1974].
2 – O Racionalismo Crítico. O método de conjecturas
e refutações. Introdução da noção
de “lógica situacional”. Conjecturas e Refutações
[(1963) 1972].
3 – A Epistemologia Evolucionária. A objetividade
do conhecimento: A Teoria dos Três Mundos. Os Programas de
Pesquisa Metafísica. Conhecimento Objetivo [(1973) 1975].
Neste trajeto, observamos que as noções de cientificidade
e de racionalidade se vão sofisticando e, em certa medida,
adquirindo uma independência, de modo a incluir também
os problemas metafísicos como passíveis de crítica
e desenvolvimento. Vejamos os passos de Popper neste sentido.
1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA
Popper parte da crítica ao tradicional problema da indução
para formular sua proposta para uma epistemologia ou lógica
ou teoria do método científico, não fazendo
qualquer distinção entre tais noções
– epistemologia, lógica e método – no
que diz respeito à avaliação do empreendimento
científico (Popper,1974:51). Sua preocupação,
neste momento, é a de estabelecer uma clara distinção
entre ciência e pseudociência.
“A tarefa da lógica da pesquisa científica,
ou da lógica do conhecimento, é, segundo penso, proporcionar
uma análise lógica desse procedimento, ou seja, analisar
o método das ciências empíricas.” (Popper,1974:27)
Tomando uma atitude prescritiva, afasta do método das ciências
empíricas qualquer tentativa de baseá-lo, em sua origem,
na experiência. Esta só pode fornecer-nos enunciados
singulares e a passagem destes para enunciados universais –
hipóteses ou teorias – exigiria um princípio
de indução que não se justificaria pela experiência.
Qualquer tentativa de justificá-lo, a partir de novas observações,
levaria a uma regressão infinita. Até este ponto não
se afasta, ou faz qualquer acréscimo, aos argumentos de Hume.
Contudo, sua originalidade reside no radical exame e relevância
que empresta à crítica humeana à indução,
mas procurando recuperar o caráter racional, lógico,
da atividade científica. Reafirma a inutilidade do método
indutivo para a pesquisa científica, utilizando argumentos
estritamente lógicos. Através da aplicação
do Modus Tollens, mostra que se uma teoria T implica a ocorrência
de a, e se tal não ocorre, ou seja: -a; poderíamos
deduzir: -T. Esta formulação, extremamente simples,
vai constituir-se na pedra angular de sua proposta do critério
de refutabilidade como sendo o único sustentável para
a avaliação das teorias científicas. Em outros
termos: se a falsidade da conclusão se transmite às
premissas, a uma delas pelo menos, a verdade do conseqüente
não implica na verdade das premissas, o que seria uma conhecida
falácia, a da afirmação do conseqüente.
Insistimos neste ponto, pois, Popper será fiel durante toda
a sua obra a esta formulação lógica, afastando
qualquer argumentação psicológica para lidar
com o problema da indução. A mesma atitude se mantém
quando discute o questionamento humano da conexão causal:
não aceita o hábito como elemento explicativo da crença
em regularidades, desenvolvendo a noção de expectativa;
noção que procurará fundamentar em termos não
psicológicos, na última fase de sua obra, atribuindo-lhe
um caráter inato. Popper separa o problema da indução
do problema da causalidade (Popper,1974). Seguiremos sua sugestão,
deixando para outro momento discutir sua solução para
a causalidade. Sua solução para a indução
se, por um lado, parece-nos definitiva em relação
aos verificacionistas, seus principais interlocutores naquele momento,
por outro, levanta uma série de questões, algumas
das quais examinaremos com maior cuidado.
Uma vez afastada a lógica indutiva, fica questionado o
papel da observação ou da experiência perceptual,
como fontes de evidência imediata. Isto leva Popper a formular
novos, ou repensar antigos temas da epistemologia. Selecionamos
alguns que vão ser úteis em nossa futura discussão
do alcance e validade de sua proposta. São eles:
Contexto da descoberta e contexto da justificação.
Enunciados básicos.
Base empírica.
Refutabilidade.
Critério de demarcação.
Experiências cruciais.
A todos esses tópicos, Popper oferecerá um tratamento
que pretende ser puramente lógico, assim como prescindir
da discussão lingüística ou transcendental. Limitar-nos-emos
a descrever a proposta popperiana, deixando para outro momento a
discussão dos impasses que a mesma traz.
Contexto da descoberta e contexto da justificação
– Popper, visando afastar o psicologismo de sua epistemologia,
vai distinguir dois momentos na formulação de uma
teoria. O primeiro – contexto da descoberta – seria
de caráter subjetivo, o ato de conceber ou inventar uma teoria,
não necessário, nem passível de uma análise
lógica, não sendo objeto da epistemologia. “A
questão de saber como uma idéia nova ocorre ao homem
– trate-se de um tema musical, de um conflito dramático
ou de uma teoria científica – pode revestir-se de grande
interesse para a psicologia empírica, mas não interessa
à análise lógica do conhecimento científico.”
(p.31) A lógica da pesquisa científica não
estaria interessada em questões de fato (quid facti? de Kant)
mas em questões de justificação (quid juris?
de Kant). Este segundo momento – o contexto da justificação
– seria o domínio por excelência da epistemologia.
Nele estariam as questões fundamentais da lógica da
pesquisa científica, ou seja: uma vez formulada uma teoria,
caberiam as indagações: seus enunciados podem ser
justificados? Em caso afirmativo, como? São suscetíveis
de prova? Dependem de outros, ou, contradizem-nos? A rigor, estas
são as questões básicas para Popper. Delas
podemos deduzir as demais, como: qual o enunciado, ou enunciados,
que seriam fundamentais para testar uma teoria? Que características
deveriam ter tais enunciados? Frisa que enunciados só podem
ser comparados por outros enunciados.
Enunciados básicos – Para Popper, enunciado básico,
ou proposição básica, é “um enunciado
que pode atuar como premissa numa falsificação empírica;
em suma, o enunciado de um fato singular”. (p.45) Nesse momento,
preocupa-se Popper em afastar qualquer conotação psicológica
ou positivista de sua noção de enunciado básico,
dado o relevante papel que ele desempenhará em sua teoria.
Vai da mesma forma negar a possibilidade de verificação
de enunciados e a concepção de que nossas experiências
subjetivas ou nosso sentimento de convicção possam
justificar qualquer enunciado. Baseia-se em Kant para distinguir
o “objetivo” do “subjetivo”. Objetivo seria
o conhecimento científico capaz de ser justificável,
independente de capricho pessoal, sendo sua justificação
objetiva, na medida em que pode ser submetida à prova e compreendida
por todos.[13] Subjetivo seria qualquer conhecimento que se baseasse
em nossos sentimentos de convicção. Na medida em que
os enunciados básicos vão desempenhar relevante papel
na proposta popperiana, está ela comprometida em dar conta
de seu estatuto e, conseqüentemente, enfrentar novas questões
que ultrapassam os critérios até então exclusivamente
metodológicos. Referimo-nos, especificamente, à discussão
do caráter empírico de tais enunciados, questões
que se encontram em pleno campo da teoria do conhecimento.
A base empírica – Ciente deste problema, Popper parte
do reconhecimento da questão colocada por Fries – conhecida
como o trilema de Fries (dogmatismo vs. regressão infinita
vs. psicologismo) - relativa ao impasse que traz repousar a justificação
do conhecimento científico nas experiências sensoriais.
Reconhece o problema, mas não aceita a solução
de Fries (psicológica), apresentando sua alternativa. Assim
coloca a questão:
“Poucos pensadores se perturbaram tão profundamente
com o problema da base da experiência quanto Fries.[14] Ensinou
ele que , se não cabe aceitar dogmaticamente os enunciados
da Ciência, devemos ter como justificá-los. Se exigirmos
justificação através de argumento que desenvolva
razões, no sentido lógico, seremos levados à
concepção segundo a qual enunciados só podem
ser justificados por enunciados. A exigência de que todos
os enunciados devam ser logicamente justificados (a que Fries se
refere falando em ‘predileção por demonstrações’)
tende, portanto, a conduzir a uma regressão infinita. Ora,
se quisermos evitar o perigo do dogmatismo, ao mesmo tempo que a
regressão infinita, aparentemente não restará
outro recurso que não o psicologismo, isto é, a doutrina
de acordo com a qual enunciados podem encontrar justificação
não apenas em enunciados, mas também na experiência
perceptual.” (p.p.99-100)
Popper critica a opção tradicional pelo psicologismo,
ou seja, pela concepção de que a experiência
sensorial nos fornece um “conhecimento imediato”, cuja
representação será mediatizada pelo simbolismo
de alguma linguagem, nos enunciados da ciência. Tal caráter
de evidência imediata do conhecimento pelo sensório
nos daria um sentimento de convicção, segundo o verificacionismo.
Contrapõe-se a este ponto de vista, considerando-o baseado
na indução e em universais. Dá como exemplo
a afirmação: “aqui está um copo com água”.
Esta trivial descrição perceptual – como todo
enunciado singular, contém termos universais que transcendem
a experiência - não admite verificação,
uma vez que supõe universais (“copo”, “água”)
que não se prestam a correlação com qualquer
experiência sensorial específica, que é única,
ocorrendo apenas uma vez. Continuando sua crítica, vai agora
voltá-la para a solução de Carnap e Neurath
das sentenças protocolares. Tais autores admitem que a ciência
não discute percepções nem experiências
mas sentenças. “Diz ele (Carnap) que as sentenças
da Ciência são submetidas à prova ‘através
do auxílio de sentenças protocolares’”.
(p.102) Tais sentenças protocolares forneceriam os dados
mais simples de serem suscetíveis de conhecimento, os conteúdos
da experiência imediata, os fenômenos. Sentenças
protocolares são registros ou protocolos de observações
imediatas ou de percepções. Os defensores de tal formulação
admitem que as sentenças protocolares sejam suscetíveis
de reavaliação. Apesar dessa reavaliação
crítica, que Popper considera um notável avanço
em relação à solução de Fries,
descarta as sentenças protocolares, por considerá-las
uma tradução formal do antigo psicologismo e, ao evitar
o dogmatismo, abrir espaço para a arbitrariedade, pois, qualquer
sistema poderia tornar-se defensável, bastando rever as sentenças
que lhe seriam incompatíveis. Em suma: “Como Neurath
não tenta solucionar o problema da demarcação,
sua idéia de sentenças protocolares parece mero resíduo
– lembrança remanescente da concepção
tradicional, defensora de que a Ciência se origina da percepção.”
(p.104) Toda sua argumentação conduz à busca
de uma objetividade para a ciência e, em particular, para
sua base empírica. Nesta procura parte da distinção
entre “Ciência objetiva, de um lado, e ‘nosso
conhecimento’, de outro” (p.104) Tal distinção
tem importantes conseqüências para a epistemologia popperiana,
pois, vai deslocar a tradicional preocupação com as
fontes do conhecimento para a avaliação de seus produtos.
Entregando o estudo das fontes do conhecimento à psicologia,
sociologia ou outros campos, passa a detalhar o que entende por
um enunciado básico, elemento fundamental para sua proposta
metodológica de basear a ciência na avaliação
dos produtos das teorias, na testabilidade. Resume suas exigências
em relação aos enunciados básicos na regra:
“enunciados básicos têm a forma de enunciados
existenciais singulares.” (p.109) Continua, mais adiante:
“Tais são os requisitos formais dos enunciados básicos;
vêem-se eles satisfeitos por todos os enunciados existenciais
singulares. Além desses requisitos, um enunciado básico
deve satisfazer, ainda, um requisito de cunho material – requisito
concernente ao evento que, tal como expressa o enunciado básico,
está ocorrendo no lugar k. Deve tratar-se de um evento “observável”,
ou seja, os enunciados básicos hão de ser suscetíveis
de teste, intersubjetivamente, com base em ‘observação’.
Como se trata de enunciados singulares, esse requisito, naturalmente,
só se pode referir a observadores adequadamente colocados
no espaço e no tempo – ponto que não aprofundarei.”
(p.110)
Popper procura defender-se de ter reintroduzido, sub-repticiamente,
o psicologismo através do termo “observável”.
Alega que o introduz como um termo não definido, um conceito
primitivo, que se tornaria preciso com o uso.
Sua preocupação em caracterizar o enunciado básico
está voltada para a resolução do trilema de
Fries. “Toda prova de uma teoria, resulte em sua corroboração
ou em seu falseamento, há de deter-se em algum enunciado
básico que decidimos aceitar.” (p. 111) Mais adiante
apresenta sua solução para o trilema de Fries:
“Qual a nossa posição agora, com respeito ao
trilema de Fries, escolha entre dogmatismo, regressão infinita
ou psicologismo ? Os enunciados básicos em que nos detemos,
que decidimos aceitar como satisfatórios e como suficientemente
aprovados pelas provas, têm, reconhecidamente, o caráter
de dogmas, mas apenas na medida em que desistirmos de justificá-los
por argumentos outros (ou por outras provas). Essa espécie
de dogmatismo é, todavia, inócua, pois que, surgida
a necessidade, os enunciados podem ser facilmente submetidos a provas
complementares. Admito, em princípio, que isso torna infinita
a cadeia de deduções. Contudo, essa espécie
de regressão infinita é também inócua,
uma vez que, em nossa teoria, não se coloca empenho em tentar
provar, por meio dela, qualquer enunciado. Finalmente, no que concerne
ao psicologismo, admito que a decisão de aceitar um enunciado
básico e dá-lo por satisfatório está
causalmente relacionada com nossas experiências – em
especial, a nossas experiências perceptuais. Não tentamos,
porém, justificar enunciados básicos através
do recurso a essas experiências. As experiências podem
motivar uma decisão e, conseqüentemente, a aceitação
ou rejeição de um enunciado, mas um enunciado básico
não pode ver-se justificado por elas – não mais
do que por um murro na mesa.” (pp. 112-113)
Popper assume que os enunciados básicos são aceitos
“como resultado ou concordância ... são convenções”.
(p.113) Entretanto, não se considera um convencionalista,
pois, ao contrário deste, sua proposta em relação
ao método empírico não implica numa aceitação
de enunciados universais, por convenção ou decisão,
mas sim de enunciados singulares, ou seja, de enunciados básicos.
Para o convencionalista a escolha de enunciados universais se daria
pelo princípio da simplicidade, escolhendo o mais simples
dos sistemas. Popper frisa que, diferentemente, propõe a
escolha a partir do rigor das provas. Reconhece, contudo, que da
mesma forma que o convencionalista considera a escolha de qualquer
teoria particular como um ato, uma questão prática.
Com o correr do trabalho veremos como vai procurar, com êxito
ou não, afastar-se o mais possível do convencionalismo.
Por enquanto julgamos mais importante registrar o próximo
passo de Popper: a refutabilidade como critério de demarcação
entre ciência (ciência empírica) e pseudociência.
Refutabilidade como critério de demarcação
– Popper considera que uma vez afastada a lógica indutiva
da metodologia científica se faz necessário encontrar
um critério de demarcação entre ciência
empírica e metafísica, assim como da lógica
e matemática. Antes de apresentar sua proposta faz uma crítica
aos positivistas que tentariam apresentar um critério que,
fundamentalmente, não difere da lógica indutiva. Pois,
ao atribuírem significado somente aos enunciados referentes
à experiência, desqualificando qualquer enunciado que
não seja redutível a enunciados elementares, ou “atômicos”,
a “juízos de percepção”, ou “sentenças
protocolares”, caem no mesmo erro de atribuir um papel à
experiência que ela não pode suportar. Vê nesta
posição mais um desejo de eliminar a metafísica,
como “sofistaria e ilusão” (citando Hume), do
que em estabelecer uma demarcação. Agrega à
sua argumentação que nenhuma lei científica
pode ser reduzida a enunciados elementares da experiência.
Acredita que a única possibilidade de um critério
de demarcação consistente seria fruto de uma convenção.
Daí sua ênfase na noção de “enunciados
básicos”, que detalhamos anteriormente, e que desempenharão
um importante papel em sua proposta. Uma vez ser impossível
a verificação pela experiência, propõe:
“... só reconhecerei um sistema como empírico
ou científico se ele for passível de comprovação[15]
pela experiência. Essas considerações sugerem
que deve ser tomado como critério de demarcação,
não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema.
Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico
seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez
por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua
forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo
através do recurso a provas empíricas, em sentido
negativo: deve ser possível refutar, pela experiência,
um sistema científico empírico.” (p.42)
Popper se antecipa a possíveis críticas –
cujas respostas constituirão boa parte de sua obra - mencionando:
1 – que a ciência, de quem se espera informações
positivas, nada perde ao ser definida por uma negatividade, a sua
refutabilidade. Pois, as informações sobre o mundo
são tanto maiores quanto mais conflitos gerem com possíveis
enunciados singulares. “Não é por acaso que
chamamos ‘leis’ às leis da natureza: quanto mais
proíbem, mais dizem.” (p.43)
2 – que podem alegar, contra sua proposta, os mesmos argumentos
que usa, ou seja: que a falseabilidade estaria sujeita às
mesmas restrições que a verificabilidade. Defende-se,
lembrando a assimetria que existe entre ambas, oriunda da forma
lógica dos enunciados universais. Estes nunca podem ser derivados
de enunciados singulares, ao passo que estes últimos podem
contraditar os enunciados universais (com o emprego do modus tollens).
3 – que seria sempre possível a introdução
de hipóteses auxiliares – ad hoc – para evitar
que um sistema seja refutado, sem incoerência lógica.
Alega que não é assim que os cientistas agem e prescreve,
como principal característica de um verdadeiro método
científico empírico: “... sua maneira de expor
à falsificação, de todos os modos concebíveis,
o sistema a ser submetido a prova. Seu objetivo não é
o de salvar a vida de sistemas insustentáveis, mas, pelo
contrário, o de selecionar o que se revele, comparativamente,
o melhor, expondo-os todos à mais violenta luta pela sobrevivência.”
(p.44)
Em sua apologia do critério de demarcação
proposto, acrescenta um ponto que será de suma importância
em sua futura posição fortemente realista. Ou seja:
pensa que sua proposta resolve a questão levantada por Hume
quanto à validade das leis naturais. Considera que Hume estava
correto em sua argumentação, no que diz respeito à
impossibilidade do uso de argumentos indutivos, o que implicaria
na denúncia da tese fundamental do empirismo (“só
a experiência pode decidir acerca da verdade ou falsidade
de um enunciado científico”). Entretanto, julga Popper
que esta contradição do empirismo fica superada se
admitirmos que os enunciados decisíveis são apenas
os falseáveis, passíveis de refutação.
Tal posição levará Popper a uma radical postura
em relação aos fundamentos do empreendimento científico:
“A base empírica da ciência objetiva nada tem,
portanto, de ‘absoluto’. A ciência não
repousa em pedra firme. A estrutura de suas teorias levanta-se,
por assim dizer, num pântano. Semelha-se a um edifício
construído sobre pilares. Os pilares são enterrados
no pântano, mas não em qualquer base natural ou dada.
Se deixamos de enterrar mais profundamente esses pilares, não
o fazemos por termos alcançado terreno firme. Simplesmente
nos detemos quando achamos que os pilares estão suficientemente
assentados para sustentar a estrutura – pelo menos por algum
tempo.” (p.119)
Experiências cruciais – Uma vez estabelecido o critério
de demarcação, baseado na refutabilidade, surge a
questão de estabelecer os procedimentos necessários
para as experiências refutadoras. Tais procedimentos constituem
as experiências cruciais. Teriam elas a responsabilidade de
descartar ou corroborar, pelo menos temporariamente, as teorias
em teste. Acautela-se Popper do que denomina “estratagemas
convencionalistas”, ou seja, diversas reformulações
da teoria em questão que a tornassem irrefutável,
resistente às experiências cruciais. Popper admite
que não possa dirimir seu conflito com os convencionalistas
através de uma discussão teórica. Enumera alguns
dos argumentos convencionalistas que seriam indiscutíveis:
a introdução de hipóteses ad hoc; a modificação
das definições ostensivas da teoria; a atitude cética
no que se refere à confiabilidade do experimentador; assim
como à sua perspicácia. Interessante registrar que
aqui faz uma de suas primeiras menções à psicanálise:
“Caberá ao investigador, especialmente nos campos da
Sociologia e da Psicologia (o físico dificilmente necessitaria
de tal advertência) prevenir-se constantemente contra a tentação
de empregar novos estratagemas convencionalistas – tentação
a que os psicanalistas, por exemplo, sucumbem com freqüência.”
(p.87)
Popper resolve, neste momento, seu conflito com os convencionalistas
utilizando suas próprias armas: “O único meio
de evitar o convencionalismo é ‘tomar uma decisão:
a decisão de não aplicar-lhe o método. Decidimos
que, se nosso sistema sofrer ameaça, nunca procuraremos preservá-lo
recorrendo a qualquer espécie de estratagema convencionalista.”
(p. 86) Em conseqüência vai tratar, por exemplo, as hipóteses
auxiliares ad hoc – que poderiam proliferar, salvando o sistema
em teste – com rigor. “Com respeito às hipóteses
auxiliares, propomos assentar a regra de que somente serão
aceitáveis aquelas cuja introdução não
reduza o grau de falseabilidade ou testabilidade do sistema em causa,
mas ao contrário, o eleve.” (p.87) Continuando suas
exigências para garantir as experiências cruciais, vai
concluir:
“... uma teoria será chamada de ‘empírica’
ou ‘falseável’ sempre que, sem ambigüidade,
dividir a classe de todos os possíveis enunciados básicos
nas seguintes duas subclasses não vazias:
primeiro, a classe de todos os enunciados básicos com os
quais é incompatível (ou que rejeita, ou proíbe):
- a essa classe chamamos de classe dos falseadores potenciais da
teoria; e segundo, a classe de enunciados básicos que ela
não contradiz (ou que ela ‘permite’).
... Mais resumidamente, poderíamos apresentar o ponto dizendo:
uma teoria é falseável se não estiver vazia
a classe de seus falseadores potenciais.” (pp. 90-91)
Embora neste momento esteja Popper interessado em testar uma teoria
isoladamente, a noção de experiência crucial
tem o outro aspecto de decidir entre duas teorias rivais. Deste
tipo de experiência, uma teoria sai refutada e a outra corroborada.
Poderíamos dizer que este seria o critério popperiano
para a complexa questão da escolha de teorias.
Julgamos ter apresentado de maneira extremamente sucinta, e acreditamos
fidedigna, as idéias centrais da epistemologia popperiana
neste primeiro momento de sua vasta obra. Do relatado, ressaltamos
que sua noção de racionalidade se confunde com a de
cientificidade. Esta, por sua vez, está restrita às
ciências empíricas, as quais encontram seu fundamento
nos enunciados básicos. Entendemos que tal noção
– enunciado básico – é uma contribuição
original de Popper de grande relevância, não só
para a compreensão de sua epistemologia, mas para nortear
todo o debate que se seguiu.
Procuramos no sucinto relato ater-nos à Lógica da
Pesquisa Científica, como texto de referência, evitando
inclusive certas notas que o autor acrescentou posteriormente, já
em resposta a seus críticos. Tomamos tal precaução
para acompanharmos o mais possível o desdobramento cronológico
do pensamento de Popper. Cabe agora a menção, mesmo
que superficial, às principais críticas que lhe foram
feitas. Muitos dos pontos essenciais da crítica à
epistemologia popperiana estão expressos na clássica
coletânea, organizada por Imre Lakatos e Alan Musgrave, A
Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento. A importância
das contribuições de Popper podem ser avaliadas, precisamente,
pela grande quantidade de questionamentos que suscitou, em especial,
no mundo anglo-saxão; forçando-o a acrescentar inúmeras
notas de rodapé, apêndices, pós-escritos à
sua Lógica. Isto nos faz lembrar o comentário de Thomas
Kuhn que quando tal ocorre é sinal de crise do paradigma.
Pensamos que, de fato, o paradigma proposto por Popper para a epistemologia
se mostrou insuficiente para lidar com inúmeras questões,
embora representasse um espetacular avanço em relação
ao verificacionismo e indutivismo, até então reinante.
Por outro lado, a percepção de tais dificuldades levou
Popper a uma segunda fase de sua obra, que discutiremos a seguir,
representada pela publicação de Conjecturas e Refutações.
A fim de não acumular excessivamente questões, mencionaremos
conforme o prometido algumas das críticas aos pontos fundamentais
que listamos anteriormente, não obedecendo no caso uma ordem
cronológica.
A noção de contexto de descoberta e contexto de
justificação foi duramente criticada por Feyerabend
– brilhante discípulo dissidente – em Contra
o Método. O capítulo XIV do referido texto, em que
trata especificamente do tema, apresenta-o da seguinte forma:
“Os resultados até agora conseguidos trazem em seu
bojo a sugestão de abolir a distinção entre
contexto da descoberta e contexto da justificação
e de pôr de parte a distinção correlata entre
termos observacionais e termos teoréticos. Nenhuma dessas
distinções tem papel a desempenhar na prática
científica. Tentativas de dar-lhes força trariam conseqüências
desastrosas.” (p.257)
Sua argumentação apóia-se na história
da ciência, questionando a possibilidade de distinção
dos domínios da descoberta e da justificação
uma vez que o último só pode ocorrer após o
primeiro, ou melhor, que estão implicados. Admite que as
atividades que pertencem ao contexto da descoberta são não
apenas diferentes mas, sobretudo, conflitantes com as do contexto
de justificação. E uma vez que a ciência se
desenvolve a partir da descoberta, restaria saber a qual contexto
se deveria dar tratamento preferencial. Em capítulos anteriores
já havia discutido os experimentos de Galileu, procurando
demonstrar que a vitória da física deste sobre a de
Aristóteles obedeceu a razões de ordem muito diferente
que as propostas por uma metodologia justificacionista. Ou seja:
mudança do critério de evidência (do valor das
impressões sensoriais para o dos dados fornecidos pelos instrumentos),
da concepção de movimento, de experiência e
de interpretação natural. Por outro lado, nada a favor
de tais modificações obedeceu a uma argumentação
racional, sendo inclusive mal sucedidas suas previsões. Em
suma: defende que a distinção – descoberta e
justificação – é artificial, arbitrária,
ocultando o fato de ocorrer, na realidade, uma mudança de
cosmologias, a criação de novas ontologias, afetando
tanto os processos de descoberta como os critérios de teste.
Na mesma linha vai considerar como definitivamente perdida a distinção
entre termos observacionais e termos teoréticos:
“Enfim, descobrimos que o aprendizado não se desenvolve
da observação para a teoria, mas sempre envolve ambos
esses elementos. A experiência aparece acompanhada de pressupostos
teóricos e não antes deles; e a experiência
sem teoria é tão incompreensível quanto (supostamente)
a teoria sem experiência: eliminemos parte do conhecimento
teorético de um ser senciente e teremos pessoa completamente
desorientada e incapaz de realizar a mais simples das ações.
Eliminemos maior porção de conhecimento e o mundo
sensorial dessa pessoa (sua “linguagem de observação”)
começará a desintegrar-se, desaparecerão a
sensação de cor e outras sensações simples,
até que a pessoa venha a achar-se em estágio mais
primitivo que o de um bebê.” (p.263)
A crítica de Feyerabend é bem mais abrangente do
que está aqui relatado, desta forma remetemos o leitor a
um anexo onde expomos nossa compreensão da mesma (Anexo I:
A Razão e as “razões” de Paul Feyerabend).
Para os nossos propósitos imediatos, vamos deter-nos aqui,
apesar de registrar que tal crítica acompanhará, sob
certo aspecto, todo o nosso texto.
Os enunciados básicos e a base empírica da ciência
propostos por Popper foram também objeto de várias
contestações, o que necessariamente não implica
num não reconhecimento de seu valor e utilidade. Zahar num
instigante texto (“O Problema da Base Empírica”,
in Karl Popper – Filosofia e Problemas, org. Anthony O´Hear)
vai rediscutir a proposta popperiana, partindo entre outros pontos
do mesmo problema levantado por Feyerabend quanto à natureza
da linguagem observacional. Zahar propõe a tese, que reconhece
como ousada, “ ... de que uma abordagem fenomenológica
da base empírica constitui um complemento necessário
ao falseacionismo de Popper.” (p.57) Sustenta que “...em
epistemologia, a única distinção legítima
parece ser a que separa relatos de nível zero do resto, ou
seja, de todas as proposições transcendentes.”
(p.66) O alvo principal de sua crítica é a rapidez
convencionalista com que Popper aceita enunciados básicos
“não problemáticos”. A respeito faz a
seguinte citação de Popper: “O conhecimento
é possível, portanto, porque existem enunciados básicos
“não problemáticos” (análogos às
proposições intuitivamente certas sobre os dados dos
sentidos), isto é, enunciados básicos que não
precisam mais ser testados, e que não devem ser questionados
depois que o acordo intersubjetivo tiver sido alcançado.”
(in, Die beinden Grundprobleme, p.123) Vai discordar de John Watkins
que sustentava que enunciados de nível um – dados sensoriais
– constituiriam a base da física e que as proposições
de nível zero, autopsicológicas, na primeira pessoa,
seriam assunto exclusivo da psicologia e da psicobiologia. Para
Zahar: “... somente relatos autopsicológicos deveriam
ser considerados enunciados científicos básicos.”
(p.60)[16]
Crítica mais ampla, mantendo os parâmetros popperianos,
partiu de Imre Lakatos e resultou numa nova proposta epistemológica:
“A Metodologia de Programas de Pesquisa Científica”.
Em seu conhecido ensaio: “O Falseamento e a Metodologia dos
Programas de Pesquisa Científica”, na antologia já
citada que organizou com Alan Musgrave, expõe sua crítica
e proposta. A primeira – a crítica - parte dos inúmeros
problemas que acarretam a noção de falseacionismo.
Entendemos que como pano de fundo desta crítica está
a tese Duhem-Quine que afirma a impossibilidade de refutação
de uma teoria isolada, sem que todo o conjunto de que faz parte
não o seja. Lakatos que, num Adendo, vai tentar superar este
dilema, assim formula a referida tese:
“De acordo com a ‘tese Duhem-Quine’, em havendo
imaginação suficiente, qualquer teoria (quer consista
numa proposição, quer consista numa conjunção
finita de muitas proposições) pode ser salva permanentemente
da ‘refutação’ por algum ajustamento adequado
no conhecimento de fundo em que está incluída. Como
diz ‘aconteça o que acontecer, qualquer pronunciamento
pode ser considerado verdadeiro, se fizermos ajustamentos suficientemente
drásticos em outros pontos do sistema ... Inversamente, nenhum
enunciado é imune à revisão’ (citação
de Quine, in From a Logical Point of View, 1953, cap. II) De mais
a mais, o ‘sistema’ é nada menos que o ‘conjunto
da ciência’. ‘Uma experiência recalcitrante
pode ser acomodada por uma de várias reavaliações
alternativas em vários pontos alternativos do sistema total
[incluindo a possibilidade de reavaliar a própria experiência
recalcitrante]’.” (Lakatos e Musgrave, 1979:229)[17]
Atento à fragilidade a que a tese Duhem-Quine expõe
o falseacionismo popperiano, Lakatos vai examiná-lo detidamente,
tentando uma correção de reforço. Em primeiro
lugar, divide as posições falseacionistas em duas:
o falseacionismo dogmático, naturalista ou ingênuo,
que daria ao enunciado singular refutador a força de condenar
uma teoria científica irreversivelmente; e o falseacionismo
sofisticado, ou metodológico, que utilizaria a noção
de refutabilidade não para uma teoria isolada mas para uma
série de teorias, sempre em comparação com
uma concorrente que a superaria na medida em que apresentasse maior
capacidade explicativa e maior conteúdo empírico.
Neste caso, a refutação teria caráter provisório
e comparativo. Considera Lakatos que o falseacionismo dogmático
é insustentável por basear-se em duas suposições
falsas:[18]
“A primeira suposição é que há
uma fronteira natural, psicológica, entre as proposições
teóricas ou especulativas de um lado e as proposições
factuais ou observacionais (ou básicas) de outro. Isto, naturalmente,
faz parte do ‘enfoque naturalista’ do método
científico.
A segunda suposição é que se uma proposição
satisfaz ao critério psicológico de ser factual ou
observacional (ou básica), ela é verdadeira; é
possível afirmar que foi demonstrada a partir dos fatos.
Chamarei a esta a doutrina da prova observacional (ou experimental).”
(p.118)
A essas suposições, que considera refutadas (a primeira,
pela psicologia; a segunda, pela lógica), acrescenta outra
base – também insustentável – que seria
um critério demasiado rigoroso de demarcação
entre o científico e o não-científico. A respeito
deste último ponto diz: “são exatamente as teorias
científicas mais admiradas que simplesmente falham em proibir
qualquer estado observável de coisas.” (p.121) Formula
um exemplo imaginário que refutaria a teoria newtoniana e
como o mesmo poderia ser afastado pelos cientistas, tal como usualmente
o fazem. Numa nota de rodapé há um breve referência
à psicanálise: “Popper pergunta: ‘Que
espécie de respostas clínicas refutaria, para satisfação
do analista, não só um diagnóstico particular
mas a própria psicanálise?’ ... Mas que espécie
de observação refutaria, para satisfação
dos newtonianos, não só determinada versão
mas também a própria teoria newtoniana ?” (p.122)
Em sua proposta de uma Metodologia de Programas de Pesquisa, Lakatos
vai defender a idéia de que os cientistas trabalham com conjuntos
de teorias, os quais têm um núcleo inquestionável,
que se torna irrefutável por estar protegido por um cinturão
de teorias particulares que explicariam as anomalias e se ofereceriam
a testes, não permitindo a aplicação do Modus
Tollens ao núcleo. Dá como exemplo histórico
de um programa de pesquisa bem-sucedido a teoria gravitacional de
Newton. O “oceano de anomalias”(sic) em que tal teoria
estava mergulhada foi afastado pela criação de modelos,
teóricos, que procurariam dar conta das mesmas, deixando
para um futuro a corroboração empírica. Assim,
segundo Lakatos, caminhariam os grandes programas de pesquisa, não
se deixando refutar com facilidade, transferindo problemas para
o cinturão protetor, sempre à espera de confirmações
futuras retrospectivas da teoria básica. Caso o programa
mostre progresso empírico, em competição com
outros, é dado como progressivo, em caso contrário,
como degenerativo. Observa-se que há nesta proposta uma preocupação
em harmonizar a epistemologia com a prática concreta dos
cientistas e com a história do desenvolvimento da ciência.
Neste debate já se faz sentir a presença de Kuhn
e suas noções de revoluções científicas,
paradigma, ciência normal, e outras, contra as quais quer
Lakatos apresentar uma alternativa, uma vez que a proposta original
de Popper não se harmonizaria com as descrições
históricas do real desenvolvimento e prática científicas,
por ser uma proposta fortemente prescritiva.
Dado que nosso objetivo é discutir especificamente a questão
da racionalidade da teoria psicanalítica não nos deteremos
mais neste debate que rascunhamos apenas para ilustrar os temas
que estavam em discussão, aos quais de certa forma retornaremos
no capítulo dedicado à proposta epistemológica
de Larry Laudan. Por enquanto, julgamos mais objetivo passar para
a segunda fase de Popper, na qual tentará dar conta da racionalidade
de teorias metafísicas. Pois, como vimos, até este
momento, racionalidade e cientificidade se confundem e, a segunda,
se refere fundamentalmente às ciências empíricas.
Deve ser registrada a ausência de exame de exemplos das ciências
humanas, talvez por escaparem da estreita noção de
racionalidade utilizada.
1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO
Popper, nesta segunda fase de sua obra, vai preocupar-se com o
desenvolvimento do que chamou “o método de conjecturas
e refutações.” Observamos que nesse momento
seu interesse está voltado para abarcar a metafísica
– designação que emprega de modo vago, abrangendo
tudo aquilo que escaparia à ciência empírica
– em seu projeto epistemológico. Anteriormente, rascunhamos
algumas das principais críticas que lhe foram feitas e que
embora rebatidas por Popper, tiveram também eco em seu empreendimento
filosófico e, a nosso ver, motivaram esta investida no terreno
da metafísica, exigindo-lhe o desenvolvimento de novas propostas
metodológicas. Cremos que tal interpretação
é correta, pois, logo no primeiro capítulo de sua
principal obra desta fase – Conjecturas e Refutações
(O Progresso do Conhecimento Científico) – vemos o
autor retomar o tema da demarcação, agora, com novos
argumentos, tentando salvar a racionalidade daquelas teorias que
não se enquadravam em seu estreito critério de demarcação.
Por outro lado, como se pode observar no sub-título de sua
principal obra deste período (O Progresso do Conhecimento
Científico), é evidente sua preocupação
em dar conta de um dos pontos mais questionados de sua proposta:
a insuficiência para explicar o progresso científico
que, segundo todas as pesquisas históricas, não obedece
critérios de racionalidade tão rigorosos e acanhados
como os propostos por Popper. Verificamos, então, que sua
noção de racionalidade vai afastar-se dos constrangimentos
da cientificidade e vai aproximar-se da noção de pensamento
crítico. Esta fase consolida o que veio a ficar conhecido
como o seu racionalismo crítico.
Seguindo a mesma linha do item anterior, apresentamos de forma
sucinta os principais passos da argumentação popperiana
e, em seguida, as críticas que suscitou. Podemos dividir
sua exposição em dois grandes temas: As Origens do
Conhecimento e da Ignorância e o Método de Conjecturas
e Refutações.
As Origens do Conhecimento e da Ignorância – Este
é o título da conferência introdutória
de sua obra citada, na qual resume a idéia central que irá
desenvolver na série de ensaios subseqüentes. Seu ponto
de partida é a crítica à noção
de verdade evidente(sic), a cujo acesso estaríamos impedidos
pela “ação de uma força sinistra, origem
de influências impuras e maléficas que pervertem nossa
mente e nos impõem o hábito de resistir ao conhecimento
(teoria da conspiração).” (p.31) Embora cite
o marxismo como uma teoria típica do conjunto de teorias
da conspiração, a rigor seu alvo mais amplo é
toda epistemologia que pretenda fundamentar o conhecimento numa
origem. Nesta empreitada crítica, corrente alguma será
poupada, como textualmente diz:
“Nesta conferência, procurarei demonstrar que as diferenças
entre as escolas empirista e racionalista são em verdade
bem menos expressivas do que as semelhanças, e que ambas
estão erradas. Sustento que estejam erradas embora eu mesmo
seja um empirista e um racionalista. Mas acredito que, embora tanto
a razão como a observação desempenhem funções
importantes, essas funções pouco se assemelham às
que seus defensores clássicos lhes atribuíam. Mais
precisamente, procurarei demonstrar que nem a observação
nem a razão podem ser descritas como fontes do conhecimento,
no sentido em que até hoje têm sido definidas.”
(p.32)
Opõe-se tanto ao que denomina epistemologias otimistas
(Bacon e Descartes) quanto às que designa como pessimistas
(as diversas formas de irracionalismo ou de ceticismo e, sobretudo,
as correntes relativistas que começavam a ganhar terreno).
Considera que ambas as tendências falham por buscarem as fontes
do conhecimento, com esperança ou desespero. Pensa que o
erro fundamental de tais empreendimentos está em não
distinguir com suficiente clareza a origem da validade do conhecimento.
A autoridade dos sentidos, o primado da observação,
a veracitas naturae, de Bacon, ou, a autoridade do intelecto, o
primado das idéias claras e distintas, a veracitas Dei, de
Descartes, não aboliram o papel da autoridade na epistemologia.
Teriam feito apenas substituições, em lugar de Aristóteles
ou a Bíblia, estariam os sentidos ou o intelecto (sic). A
crítica que faz dessas epistemologias otimistas é
que em ambas há o objetivo de propor um método para
alcançar verdades evidentes, seguras. A “leitura do
livro da natureza”, proposta por Bacon, pretendia levar ao
conhecimento ou episteme, não a conjecturas. O mesmo intento
é o da crítica de Bacon ao “preconceito da mente
que prejulga erroneamente a natureza, e possivelmente a julga mal”,
levando à doxa, às opiniões e leituras impróprias
do livro da natureza.[19] Popper reafirma que sua proposta epistemológica
caminha em sentido oposto, isto é, todo conhecimento depende
de um conhecimento prévio, ousado, não sendo passível
de ser justificado, quer por novas observações (estas
teriam papel significativo somente no contexto da testabilidade,
uma vez já formulada a nova teoria), o que levaria a um regresso
infinito, quer pela razão; um conhecimento que só
pode ser avaliado pelos seus produtos. Quanto a tentativa de fundamentação
pela razão, lembra que: “a física de Descartes,
embora admirável sob muitos aspectos, estava errada; contudo,
ela se baseava em idéias reputadas claras e distintas –
que, portanto, deveria ser verdadeiras.” (p.45) Após
reiterar com novos argumentos sua crítica à busca
das fontes do conhecimento, assim como rejeitar a atribuição
das fontes de nossa ignorância aos obstáculos que colocamos
(negligência, obstinação ou preconceitos) à
contemplação da verdade evidente, faz sua proposta:
“Podemos ter a esperança de detectar e eliminar o
erro criticando as teorias e opiniões alheias e – se
treinarmos para isso – as nossas próprias”. (este
último ponto é sem dúvida altamente desejável,
mas desnecessário: se não pudermos criticar nossas
próprias teorias e opiniões, haverá quem o
faça por nós). Essa resposta sintetiza a visão
do que sugiro chamarmos de “racionalismo crítico”:
um ponto de vista, uma atitude e uma tradição que
devemos aos gregos. É muito diferente do “racionalismo”
e do “intelectualismo”, da escola de Descartes e também
muito diferente da epistemologia de Kant. Contudo, é uma
posição que, no campo da ética e do conhecimento
moral, foi abordada por Kant com o seu princípio da autonomia.
Este princípio expressa a percepção do filósofo
de que não devemos aceitar o comando de uma autoridade –
por mais sublime que seja – como base da ética. Sempre
que defrontamos um comando dado por uma autoridade devemos julgar,
criticamente, se obedecê-lo será um ato moral ou imoral.
A autoridade poderá ter o poder de obrigar-nos a obedecer-lhe;
porém, como temos a capacidade de escolher, a responsabilidade
última pela ação nos pertence. Obedecer ou
não uma ordem é uma decisão crítica
que tomamos – como também o é a submissão
a qualquer autoridade.” (p.54)
No momento da citação acima, Popper expõe
não somente sua proposta – o racionalismo crítico
– mas o background ético e, segundo alguns comentadores[20],
político, de sua epistemologia que desempenhará um
relevante papel em sua proposta filosófica.
Popper resume sua posição a respeito das origens
do conhecimento e da ignorância em dez teses. Nestas, reafirma
que não há “fontes últimas” do
conhecimento; “a verdadeira questão epistemológica
não tem a ver com fontes: perguntamos se a afirmativa é
verdadeira – isto é, se concorda com os fatos”;
afirma não haver conhecimento sem conhecimento prévio
– tradição e conhecimento inato – sendo
que ambos devem oferecer-se à crítica; o progresso
do conhecimento científico estaria na modificação
das teorias precedentes; volta a contestar tanto as epistemologias
“otimistas” quanto as “pessimistas”, uma
vez que recusa critérios de verdade, ao mesmo tempo que admite
critérios de reconhecimento do erro e da falsidade; rejeita
a autoridade quer da observação quer da razão,
assim como relativiza a importância da precisão ou
da exatidão que só interessam para a conveniência
do problema em questão; sugere que toda solução
de um problema levanta outros, especialmente, quando é uma
solução corajosa. No que diz respeito ao papel da
linguagem, diz textualmente:
“A precisão da linguagem é um fantasma; os
problemas relativos ao significado e à definição
das palavras na verdade não têm importância ...
As palavras só têm utilidade como instrumentos para
a formulação de teorias; os problemas verbais devem
ser evitados a todo custo.” (p.57)
O Método das Conjecturas e Refutações –
É neste primeiro capítulo do livro que tomamos como
referência desta segunda fase de Popper, que vamos encontrar
sua proposta para o método científico. É também
neste momento que faz sua mais extensa crítica à cientificidade
da psicanálise, a qual deixaremos para um tópico específico.
Mais interessante, no momento, é caracterizar os passos que
dá para firmar sua noção de racionalidade.
Sua argumentação vai basear-se num novo exame da solução
de Hume para a questão da indução e da causalidade.
Embora tais problemas já tenham sido tratados na Lógica
da Pesquisa Científica, são agora abordados com outra
ênfase e nova linguagem, isto é, há uma visível
preocupação em retomar o problema de Hume com o fito
de encontrar uma racionalidade mais ampla do que meramente a de
demarcação entre ciência e pseudociência.
Desta forma,
vai Popper criticar a solução psicológica
de Hume, ou seja, não seria o costume ou o hábito
que dariam um falso suporte à indução. Considera
Popper a psicologia de Hume como popular e baseada no senso comum,
pois, observa que:
A – O resultado típico da repetição
não é a crença numa lei, mas a formação
de um comportamento ou uma expectativa que se tornam inconscientes,
“fisiológicos” (como o andar de bicicleta e suas
regras) e só são percebidos quando algo sai errado
(“não percebemos as batidas de um relógio, mas
notaremos o silêncio, se o relógio parar”).
B – Hábitos e costumes, via de regra, não
se originam na repetição. Dá como exemplo o
andar, falar ou o comer em horas determinadas, comportamentos que
antecedem a repetição.
C – A crença numa lei não corresponde precisamente
ao comportamento que revela a expectativa de uma sucessão
de eventos aparentemente baseados numa lei. “Como admite Hume,
uma única observação pode ser suficiente para
criar uma expectativa ou uma crença – fato que ele
procurava explicar como resultado de um hábito indutivo,
formado por inúmeras longas seqüências repetitivas
que experimentamos em período anterior da nossa vida.”
(p.73)
Discorda do uso não critico da idéia central de
Hume de que a repetição seja baseada na similaridade.
Popper assinala que a similaridade já é fruto de uma
interpretação. Interpretamos como semelhantes eventos
que, então, passamos a tomar como repetições.
Defende que em realidade a idéia de repetição
é fruto de nossa inclinação a esperar regularidades.
“Tratava-se (referindo-se a teoria que ele, Popper, havia
já defendido) de uma teoria baseada em processo de tentativas
– de conjecturas e refutações. Um processo que
permitia compreender por que nossas tentativas de impor interpretações
ao mundo vinham, logicamente, antes da observação
de similaridades. Como havia razões lógicas para agir
assim, pensei que esse procedimento poderia ser aplicado também
ao campo científico; que as teorias científicas não
eram uma composição de observações mas
sim invenções – conjecturas apresentadas ousadamente,
para serem eliminadas no caso de não se ajustarem às
observações (as quais raramente eram acidentais, sendo
coligidas, de modo geral, com o propósito definido de testar
uma teoria procurando, se possível, refutá-la).”
(p.76)
Embora rejeite, com veemência, a teoria das idéias
inatas, advoga que “... todos os organismos têm reações
ou respostas inatas – entre elas, respostas adaptadas a acontecimentos
iminentes. Podemos descrever essas respostas como “expectativas”
sem implicar que tais “expectativas” sejam iminentes.”
(p.77) Ressalta que tais “expectativas inatas” não
devem ser confundidas com um conhecimento válido a priori,
pois, podem equivocar-se. Assim, um bebê nasce com a expectativa
de ser alimentado mas pode ser abandonado e morrer de fome; este
é o seu exemplo.
Com a introdução de “expectativas inatas”
procura não só contrapor-se à solução
de Hume, quanto ao papel do hábito, mas fundamentar seu método,
entendendo que todo cientista trabalha também com um “horizonte
de expectativas”, que são seus interesses teóricos,
seu problema, suas conjecturas e antecipações, as
teorias que aceita como seu pano de fundo e quadro de referências.
A noção de “expectativas inatas” assumirá
um papel cada vez mais relevante na proposta popperiana, principalmente,
em sua última fase, a da “epistemologia evolucionária”.
No momento em discussão ela equivale mais a uma fundamentação
das conjecturas, como ponto de origem de qualquer conhecimento.
Popper aproxima sua proposta de solução ao “problema
de Hume” – a justificação da indução
e da causalidade – à solução kantiana.
Porém, faz então um reparo a Kant – fruto de
uma polêmica leitura da Crítica da Razão Pura
, como discutiremos adiante – ao considerar que Kant estava
certo ao dizer que “nosso intelecto não deriva suas
leis da natureza, mas impõe suas leis à natureza”,
mas errado ao admitir que a dinâmica de Newton fosse válida
a priori. Continua Popper, a partir desta leitura de Kant, a criticá-lo
por propor uma epistemologia que teria sempre êxito, ou seja,
que a natureza aceitaria nossas leis.
O método das conjecturas e refutações tem
também um caráter prescritivo , a ciência deve
progredir assim. É conhecida a afirmação de
Popper que: “da ameba a Einstein é um passo.”
Frisa que a ameba também utiliza o método de ensaio
e erro, porém o cientista “procura eliminar (erros),
consciente e cuidadosamente, na tentativa de refutar suas teorias
com argumentos penetrantes – inclusive o apelo aos testes
experimentais mais severos que suas teorias e engenho lhe permitem
preparar.” (p.81) Faz parte também do anedotário
sua reação, quando questionado por historiadores da
ciência quanto à validade histórica de tais
normas para o progresso científico, que teria sido de retrucar:
“Então ... pior para a ciência.”
Uma vez que nosso objetivo imediato é mostrar como evoluiu
a noção de racionalidade em Popper, cabe assinalar
três pontos que caracterizariam o método racional que
apresenta, após questionar a razoabilidade da crença
de que “o futuro repetirá o passado” mesmo quando
com a alegação de que “as leis naturais não
se alterarão”, contudo, estas só são
naturais ante o fracasso das tentativas, até então,
feitas para refutá-las, retruca Popper. Os pontos mencionados
estão no seguinte parágrafo:
“... Precisamos com efeito rejeitar o ponto de vista de que
a crença na ciência é tão irracional
quanto a crença nas práticas mágicas primitivas
– que os dois tipos de crença implicam a mesma aceitação
de uma ‘ideologia total’ – tradição
ou convenção baseada na fé. Mas precisamos
ter todo o cuidado se formulamos nosso problema, como Hume, em termos
de razoabilidade das nossas crenças. Na verdade, deveríamos
dividir o problema em três partes – o conhecido problema
da demarcação (como distinguir a ciência da
mágica primitiva); o problema da racionalidade do procedimento
crítico ou científico (e o papel exercido pela observação);
finalmente, o problema da racionalidade da nossa aceitação
das teorias, para fins práticos e científicos ...”
(p.87)
A abrangência do racionalismo crítico para o âmbito
dos problemas filosóficos é formulada no capítulo
seguinte – “A Natureza dos Problemas Filosóficos
e suas Raízes Científicas” – quando vai
afirmar que: “os problemas filosóficos genuínos
têm sempre suas raízes em problemas urgentes fora do
campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.”
(p.100) A discussão racional estaria então norteada
pela solução dos problemas em questão, esses
podem ser filosóficos ou não. Entendemos que Popper
está dando passos, metodológicos, para a formulação
de sua proposta de “lógica (ou análise) situacional”,
formulação que discutiremos no próximo tópico.
Há, como já assinalamos, uma crescente preocupação
de Popper em dar conta do progresso científico, da expansão
do conhecimento, de critérios racionais para a escolha entre
teorias. É patente sua tentativa de afastar o irracionalismo,
evitar o transcendentalismo e afirmar a irrelevância do papel
da linguagem nas questões epistemológicas. Assim lemos
o capítulo 10 de Conjecturas e Refutações (“Verdade,
Racionalidade e a Expansão do Conhecimento”). Em outro
momento vamos discutir o êxito deste empreendimento, por ora,
apenas sintetizamos sua formulação:
Considera que a ciência tem necessidade de crescer, seu
crescimento é que a torna racional e empírica. Se
as teorias saltam de qualquer teoria precedente, não importa
se de mitos ou práticas mágicas, para se oferecerem
como explicações de problemas, sujeitas a testes,
isto não daria um caráter irracional à seleção
da melhor delas. Advoga que temos critérios para a escolha
da melhor teoria, do que seja mesmo uma “boa teoria”.
Estes seriam: maior conteúdo informativo (empírico);
maior força lógica; maior capacidade explanatória
e poder de previsão, o que resultaria numa também
maior possibilidade de ser rigorosamente testada do que suas rivais.
Popper não atribui a “sede de progresso” da
ciência à importância prática ou social
desse progresso, mas à sua significação intelectual.
Defende mesmo uma aproximação à verdade –
verdade como correspondência – assumindo uma posição
realista que se acentuará no correr do restante de sua obra.
Por outro lado, não é qualquer verdade que busca a
ciência, mas verdades interessantes:
“Aceitamos, portanto, a idéia de que a função
da ciência é a busca da verdade, ou seja, de teorias
verdadeira (embora, como observou Xenófanes, podemos nunca
alcançá-las ou mesmo não reconhecer sua veracidade).
Enfatizamos, porém, o fato de que a verdade não é
o único objetivo da ciência. Procuramos mais do que
a simples verdade: buscamos uma verdade interessante – difícil
de ser descoberta. Nas ciências naturais (em oposição
à matemática), procuramos a verdade com alto grau
de capacidade explicativa, no sentido de logicamente improvável.”
(p.255)
Uma vez feito este sumário dos principais argumentos do
racionalismo crítico popperiano, cabe, como nos propomos,
fazer o contraponto, registrando alguns dos questionamentos que
lhe foram feitos. Limitando-nos ao escopo deste trabalho, privilegiamos
a crítica da leitura que Popper faz de Kant.
Wilson Mendonça em Conhecimento e Ação: Uma
Leitura de Popper , rebate no tópico – “Kant
Mal Compreendido” – as reiteradas afirmações
de Popper de que Kant pretenderia deduzir aprioristicamente as leis
Newton, as quais – segundo a leitura de Popper – seriam
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