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DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
A PARTIR DA EPISTEMOLOGIA DE KARL POPPER
AVALIAÇÕES – IMPASSES –
ALTERNATIVAS
(DISSERTAÇÃO DE MESTRADO)
NEY COUTO MARINHO
Dissertação apresentada ao Departamento
De Filosofia da PUC/RJ como parte dos requisitos para a obtenção
do título de Mestre em Filosofia
Orientador: Prof. Carlos Alberto Gomes dos Santos
Abril de 2001
A todos aqueles – psicanalistas, pacientes, filósofos,
pensadores – que com coragem e esperança mantêm
vivo o generoso legado freudiano.
AGRADECIMENTOS
Esta dissertação pretende ser o início de
uma longa reflexão, há muito almejada, e que somente
neste momento se tornou possível graças a várias
circunstâncias e a muitas pessoas, as quais não posso
nomear todas mas, para todas, desejo registrar meu profundo agradecimento.
Como qualquer produção humana significativa (pelo
menos para seu autor), suas origens se confundem com a própria
história pessoal.
Agradeço a meus pais – Maria Luiza e Paulo Marinho
– que, desde muito cedo, me apresentaram ao mundo, com toda
a sua diversidade e complexidade, às boas e más coisas
que o povoam, sempre com humildade, ternura e esperança.
Agradeço aos meus colegas, pacientes e amigos que partilham
comigo das mesmas inquietações.
Agradeço a Rosa Beatriz Pontes de Miranda Ferreira que
me introduziu ao pensamento de W. R. Bion, a uma psicanálise
reflexiva e ao mesmo tempo profundamente humana e, sobretudo, que
me apresentou a mim mesmo.
Agradeço aos meus filhos – Mariana, Helena e Bruno
– pelo estímulo e paciência em ouvir intermináveis
diálogos dos pais, muitas vezes, sobre os mesmos assuntos
e os mesmos desconhecidos personagens.
Agradeço ao meu neto – Antonio – por me despertar
a alegria e a esperança, de que João Cabral fala,
de um “caderno novo”.
Agradeço ao Departamento de Filosofia da PUC/RJ que, há
muitos anos, me vem proporcionando as condições e
o ambiente – de competência, seriedade e onsideração
– sem o qual seria impensável realizar um projeto como
este. Qualquer que seja o valor de minha produção,
espero que a mesma seja recebida como a melhor manifestação
que encontrei para externar minha gratidão por tudo que tenho
recebido.
Agradeço, em especial, ao meu orientador – Prof.
Carlos Alberto Gomes dos Santos – pela paciência, tolerância
e extrema competência com que me guiou por meio deste verdadeiro
“duelo de titãs” em que se converteu o apaixonado
debate epistemológico anglo-saxão. Sem a sua serena
e carinhosa ajuda não teria conseguido, quer ver as árvores,
quer ver a floresta e, sobretudo ambas, assim como compreender que
os principais impasses da filosofia da ciência. apontam para
as básicas questões ilosóficas.
Finalmente, agradeço à Fernanda por todos esses
anos de companhia, sem a qual nada seria possível, ou, o
que é mais importante, nada faria qualquer sentido.
RESUMO
O trabalho pressupõe que o desenvolvimento da teoria psicanalítica
pede uma reflexão sobre seus fundamentos epistemológicos,
sua cientificidade ou racionalidade. Parte neste sentido da discussão
da epistemologia de Karl Popper, tendo como pano de fundo o debate
epistemológico anglo-saxão contemporâneo, envolvendo
principalmente as contribuições de Lakatos, Kuhn e
Feyerabend. Outro cenário em que se desenvolve a investigação
é o da “crise da psicanálise”, a qual
é vista como um dos elementos da crise da modernidade. São
discutidas duas avaliações da teoria psicanalítica,
antagônicas, mas que têm como principal referência
a epistemologia popperiana: as avaliações de Adolf
Grünbaum e Gregório Klimovsky. É examinada, criticamente,
a insuficiência da epistemologia popperiana para tratar de
questões como aquelas com que a psicanálise lida e,
dentro do contexto do debate anglo-saxão, é apresentada
a proposta epistemológica de Larry Laudan como uma possível
alternativa. O trabalho sugere a busca de novas linhas de investigação
para fundamentar uma racionalidade para a teoria psicanalítica,
indicando: a moderna filosofia da linguagem (principalmente as contribuições
de Wittgenstein) e a estética (a partir da Crítica
da Faculdade de Julgar, de Kant).
O trabalho pretende ser a fase inicial de uma pesquisa sobre o
papel da razão na teoria psicanalítica, assim como
sobre a investigação das possíveis contribuições
da psicanálise ao estudo da razão e suas vicissitudes.
Neste último aspecto, aponta para o estudo do fenômeno
da “loucura”, dado o seu caráter heurístico
peculiar.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...
1
1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”...
1
2 – A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
... 7
1 – CAPÍTULO I: A “QUESTÃO DA PSICANÁLISE”
NA OBRA DE KARL POPPER ....
12
1.1 – CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER .
12
1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA ...
13
1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO .
29
1.1.3 – A EPISTEMOLOGIA EVOLUCIONÁRIA .... 39
1.2 – POPPER E A PSICANÁLISE ...
45
2 – CAPÍTULO II: DUAS AVALIAÇÕES DA
TEORIA PSICANALÍTICA, NA TRADIÇÃO POPPERIANA
.
60
2.1 – A CRÍTICA FILOSÓFICA DE ADOLF GRÜNBAUM
.... 61
2.2 – A TEORIA MODELÍSTICA DE GREGORIO KLIMOVSKY....
74
3 – CAPÍTULO III: A TEORIA PSICANALÍTICA COMO
UMA TRADIÇÃO DE PESQUISA, NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA
DE LARRY LAUDAN.. 87
3.1 – INSUFICIÊNCIAS DA EPISTEMOLOGIA POPPERIANA QUANDO
APLICADA À PSICANÁLISE
87
3.2 – A PROPOSTA EPISTEMOLÓGICA DE LARRY LAUDAN ....
95
4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS ..
130
4.1 – AVALIAÇÕES .
131
4.2 – DESDOBRAMENTOS ...
139
4.2.1 – A QUESTÃO DA LINGUAGEM ..
139
4.2.2 – A QUESTÃO ESTÉTICA ....
143
APÊNDICE I: A RAZÃO E AS “razões”
DE PAUL FEYERABEND .. 146
APÊNDICE II: A CRÍTICA AO EXTERNALISMO – À
LUZ DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN ....
158
APÊNDICE III: “LE DIEU TROMPEUR” – NOTAS
SOBRE O ‘CONHECIMENTO PRIVADO’ EM DESCARTES, WITTGENSTEIN
E BORGES . 169
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...183
Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, “Se não
puder dobrar os deuses celestiais, comoverei o Aqueronte”
(Vírgilio, Eneida, Livro VII 312)*
(*Epígrafe escolhida por Freud para a Interpretação)
(Nota do editor: a notas de pé-de-página estão
ao final do texto, após a bibliografia)
INTRODUÇÃO
“... minha primeira tese é de que os problemas filosóficos
genuínos têm sempre raízes em problemas urgentes
fora do campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.”
(Popper, 1972:100)
“... o ser do homem não apenas não pode ser
compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem
se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.”
(Lacan, 1998:581)
1 – A PESQUISA “RAZÃO E PSICANÁLISE”
O ponto de partida da pesquisa – “Razão e Psicanálise”
- da qual esta dissertação faz parte, foi um problema
extra-filosófico: o estudo e trabalho continuado com o sofrimento
mental e, em particular, com a experiência da “loucura”.
Talvez, caso fosse possível alguma forma de mensuração,
não houvesse maior manifestação de sofrimento
humano do que na experiência da loucura. Qualquer descrição
que a relativize, ou, tente reduzi-la a um determinante extra-psíquico,
padece de artificialidade se suprime suas dimensões de sofrimento
mental e perda da razão[1]. No cotidiano de nosso trabalho,
defrontamo-nos com a dramaticidade de um sofrimento que, prima facie,
necessariamente não compreendemos. A psicanálise surgiu
exatamente da tentativa de dar conta, explicar ou compreender tais
manifestações em que a ciência tradicional fracassava.
Entretanto, a prática como psicanalistas, leva-nos inevitavelmente,
à certa altura da experiência, a questionarmos os fundamentos
de nossa atividade. Isto ocorre, quer seja, pelas limitações
dos resultados, quer seja, pelo desafio que o insólito nos
desperta.
A identificação, ou “diagnóstico”,
de “loucura” - optamos por manter uma designação
coloquial, vaga e abrangente[2] - baseia-se em última instância
em algum padrão de racionalidade. Por este motivo é
que escolhemos o ponto de vista filosófico para nele desenvolvermos
nossa pesquisa. Pois, caso tentássemos estipular um critério
psicológico, psiquiátrico ou psicanalítico
para tal padrão, seu questionamento se tornaria impossível,
uma vez que é a própria noção de racionalidade
que está em exame. Neste sentido a pesquisa pretende seguir
uma linha de mão dupla: investigar a racionalidade da psicanálise
e, ao mesmo tempo, indagar se a psicanálise tem alguma contribuição
a dar ao estudo da razão e suas vicissitudes.
Partimos de duas hipóteses iniciais:
1 – A Teoria Psicanalítica é um empreendimento
racional, ou seja, constitui-se num conjunto de hipóteses
que, quer sejam ou não passíveis de testabilidade
segundo critérios como os popperianos, permitem a discussão
crítica de suas proposições e implicações.
2 – A razão, ou algum padrão de racionalidade,
se constitui em um “elemento da psicanálise”
– para utilizar a denominação e sugestão
do psicanalista inglês W. R. Bion[3] - sendo o seu exame,
assim como o das paixões e dos mitos, um dos objetos da psicanálise.
A pesquisa a que nos propomos está dividida em duas fases,
sendo que apenas a parte inicial da primeira será objeto
desta dissertação. São elas:
A – A pesquisa da racionalidade da Teoria Psicanalítica.
Neste primeiro momento ficaremos limitados à discussão
da racionalidade científica da teoria psicanalítica
dentro do debate epistemológico anglo-saxão contemporâneo,
procurando avaliar de que forma a psicanálise, como qualquer
outra ciência humana, nele se insere, como responde às
suas exigências e que questões, por sua vez, traz ao
debate. Pretendemos investigar, nesta fase inicial da pesquisa,
duas linhas de discussão: uma ligada à epistemologia
de Karl Popper e autores que partem de seu referencial (Adolf Grünbaum
e Gregorio Klimovsky) e a outra inspirada na filosofia analítica,
especialmente nas contribuições de Wittgenstein e
Donald Davidson.[4] A dissertação ficará restrita
à discussão dos autores da tradição
popperiana.
B – A pesquisa da razão como elemento da psicanálise.
Pretendemos num segundo momento, seguindo a mencionada sugestão
de W. R. Bion, investigar a razão como elemento constitutivo
da teoria psicanalítica, da mesma forma que as paixões.
Investigaremos se os distúrbios de pensamento - um dos objetos
da investigação psicanalítica – podem
oferecer-nos informações maiores sobre a racionalidade
e seus desvios. Esta segunda fase é dependente da anterior
na medida em que naquela procuraremos identificar o “tipo
de racionalidade” que a psicanálise utiliza, ou, para
sermos mais precisos, o padrão de racionalidade que consideramos
mais apropriado para desenvolver e dar atualidade ao legado freudiano.
Uma vez já existir uma vasta literatura a respeito da fundamentação
epistemológica da psicanálise[5], tivemos que fazer
uma opção que melhor circunscrevesse nosso campo de
trabalho. Optamos por iniciar com o exame das contribuições
de Popper – por motivos que esclareceremos adiante –
assim como utilizar as formulações de Larry Laudan,
sobre Tradições de Pesquisa, como instrumento para
avaliação das diferentes teorias que povoam, implícita
ou explicitamente, o debate em que se insere a epistemologia popperiana.
Embora a pesquisa tenha a origem inicialmente exposta –
nosso especial interesse no problema da psicose[6] - um outro fator
veio acrescentar-se às nossas motivações. Gostaríamos
de apenas mencioná-lo, sem pretendermos incluí-lo
em nossos planos de estudo, apesar de acompanhar-nos como um dado
conjuntural relevante. Referimo-nos à chamada “crise
da psicanálise”, fenômeno cultural complexo que
surgiu no início dos anos 80, caracterizando-se pela crescente
queda na procura por parte de postulantes aos Institutos de Psicanálise
(Instituições de ensino organizadas para formar psicanalistas)
–quer na América do Norte, Europa ou América
Latina – pela diminuição da demanda por tratamentos
psicanalíticos, concomitante ao progressivo desenvolvimento
de tratamentos psicofarmacológicos, com o lançamento
das mais diversas drogas psicotrópicas, assim como a multiplicação
e penetração de terapias alternativas, sobretudo,
de caráter místico. Este fenômeno paralelo ao
desenvolvimento dos fundamentalismos religiosos, levou alguns autores
– como Sérgio Paulo Rouanet[7] - a conjecturar sobre
uma possível crise de nosso projeto civilizatório
e, conseqüentemente, da razão iluminista e, neste vácuo,
de qualquer forma de racionalidade, incluindo a psicanálise
neste contexto de discussão. Não pretendemos entrar
no debate deste ponto, apenas assinalar que é mais um fator
a instigar-nos a investigar os fundamentos de nossos padrões
de racionalidade, a partir do próprio questionamento da psicanálise.
Há também uma dimensão prática, imediata,
neste debate que a crise despertou, que se refere a uma ampla discussão
em curso sobre o que privilegiar num programa de pesquisa sobre
distúrbios mentais, quer em psicanálise quer em psiquiatria:
a pesquisa empírica ou a clínica. Por pesquisa empírica,
em geral, refere-se a dados mensuráveis, passíveis
de avaliação estatística, enquanto que por
pesquisa clínica, a tradicional reflexão teórica
a partir da experiência clínica[8]. A magnitude do
problema pode ser avaliada pela questão da droga, que atualmente
se constitui num problema de dimensões muito superiores ao
da histeria no início do século ou ao da loucura,
em todos os séculos. Embora, pretendamos evitar dispersar-nos
nestas questões, elas estarão de certa forma sempre
presentes, uma vez que faz necessariamente parte do pano de fundo
de nosso trabalho o debate da epistemologia anglo-saxã contemporânea,
tendo como interlocutores principais, além do próprio
Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend. Reaparecerão as mencionadas
questões (pelo menos indiretamente), por exemplo, quando
mencionarmos as críticas à proposta popperiana de
racionalidade científica, em especial, as de Feyerabend.
Como é conhecido, ao não aceitar a distinção
entre contexto de descoberta e contexto de justificação,
um dos fundamentos da proposta metodológica de Popper, Feyerabend
ligará indissoluvelmente nossos padrões de racionalidade
ao contexto histórico-social. Sabemos dos impasses relativistas
a que tal crítica leva, por mais pertinente que seja. Adotaremos,
em caráter provisório, as formulações
de Larry Laudan sobre “Tradições de Pesquisa”
para lidar com tais questões, por considerá-las mais
abrangentes e úteis para a discussão que pretendemos
desenvolver. Dada a subordinação que fizemos do tema
da dissertação ao plano geral da pesquisa, procuraremos
dar uma ênfase particular à questão dos padrões
de racionalidade empregados no debate epistemológico da psicanálise.
Como pretendemos manter a dissertação no âmbito
estritamente filosófico, gostaríamos de registrar
como a tradição tem afastado precocemente a insanidade
quando investiga a racionalidade. Citamos, como exemplo histórico,
as reflexões de Descartes no parágrafo 4 da “Primeira
Meditação”.
“... E como poderia eu negar que estas mãos e este
corpo sejam meus? A não ser talvez que eu me compare a esses
insensatos, cujo cérebro está de tal modo perturbado
e ofuscado pelos negros vapores da bile que constantemente asseguram
que são reis quando são muito pobres; que estão
vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente
nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas
quê? São loucos e eu não seria menos extravagante
se me guiasse por seus exemplos.”
Em trabalho apresentado numa disciplina deste mestrado[9] discutimos
a inconveniência desta exclusão prematura da insanidade,
uma vez que esta nos ilumina, indicando os limites do padrão
de racionalidade que está sendo proposto. Pensamos que em
filosofia da ciência tal questão – racional/irracional
– adquire proporções significativas. Este ponto
não escapou tanto a Freud, quanto a Bion – os dois
representantes do pensamento psicanalítico que tomaremos
como interlocutores permanentes – que assim a formularam:
“Fica para o futuro decidir se há mais delírio
em minha teoria do que eu gostaria de admitir, ou, se há
mais verdade no delírio de Schreber do que outras pessoas
estão preparadas para acreditar.” (Freud, S.E. XII:79)[10]
“A leitura deste capítulo (refere-se ao capítulo
II de O Futuro de uma Ilusão, de Freud) parece mostrar o
quanto o avanço da psicanálise torna obsoleta sua
própria formulação. Freud tem como alicerce
de sua discussão, como sua realização, suas
próprias conjecturas sobre a natureza da civilização.
A partir daí ele tem teorias sobre as conjecturas. As conjecturas
merecem atenção, pois são conjecturas de um
homem genial. Mas não há reconhecimento do status
de conjecturas ou do status de teorias sobre conjecturas. Em psicanálise
presume-se que uma teoria é falsa se ela não parece
estar a serviço do ‘bem’ da maioria da humanidade.
E, como idéia de “bem”, é uma platitude.
A idéia toda de “cura”, de atividade terapêutica,
permanece sem escrutínio. Ela é amplamente determinada
pelas expectativas do paciente, embora isso seja questionado em
uma boa análise (como eu a conheço). Mas em física
uma teoria é boa se ela ajuda a construção
de uma bomba que destrói Hiroshima. Muitíssimo do
pensamento sobre psicanálise impede a possibilidade de considerar
como boa uma teoria que poderia destruir o indivíduo ou o
grupo. Ainda assim, nunca haverá um escrutínio científico
de teorias analíticas até que essa investigação
inclua a apreciação crítica de uma teoria que,
por sua própria consistência, poderia levar à
destruição da estabilidade mental; por exemplo, uma
teoria que incrementasse memória e desejo a um ponto que
eles impossibilitassem a sanidade.” (Bion, 2000:389)[11]
Enfatizamos nosso interesse em subordinar a investigação
dos fundamentos epistemológicos da psicanálise à
busca de um padrão de racionalidade que a sustente como instrumento
de pesquisa para o fenômeno da loucura, supondo que o exame
do mesmo poderá ser filosoficamente útil para um escrutínio
da razão e da racionalidade científica, em particular.
O estudo da loucura tem, a nosso ver, um papel heurístico
peculiar.
2– A DISCUSSÃO DA RACIONALIDADE DA TEORIA PSICANALÍTICA
Iniciamos a discussão da racionalidade da teoria psicanalítica
a partir da epistemologia de Karl Popper, pelos seguintes motivos:
1 – A importância da contribuição popperiana,
principalmente, na Lógica da Pesquisa Científica,
através de seu critério de demarcação
entre ciência empírica e não-empírica,
baliza qualquer debate a respeito. Como desejamos manter, em nosso
cenário, as alternativas de Lakatos, Kuhn, Feyerabend e Larry
Laudan, a referência central a Popper facilita, sobremaneira,
a discussão sobre a natureza dos problemas empíricos
e conceituais, sobre o alcance da noção de refutabilidade,
a divergência entre racionalistas e relativistas, realistas
e pragmatistas e, sobretudo, a viabilidade de um programa para um
padrão de racionalidade. Na discussão da epistemologia
popperiana, teremos também como referência, seus comentadores
brasileiros: Sérgio Fernandes e Wilson Mendonça.
2 – A influência das idéias de Popper na formulação
de uma teoria sobre o pensar, de W. R. Bion, autor que tomaremos
como principal referência na última parte da pesquisa,
uma vez tratar-se do psicanalista que mais trabalhou e escreveu
sobre o fenômeno psicótico. Embora reconheçamos
essa influência de Popper, como na noção de
“pré-concepção” de Bion, que muito
se aproxima da de “expectativas inatas” (Popper), são
trajetos distintos. Bion se mantém mais solidário
a uma leitura kantiana, assim como no correr de sua obra vai preocupar-se,
cada vez mais, com questões ligadas à “construção
do significado”[12], tema que reiteradamente é relegado
a um segundo plano na obra de Karl Popper.
3 – Está, também, ligada a Popper, a crítica
mais minuciosa e consistente à teoria psicanalítica,
de que temos conhecimento. Referimo-nos à obra de Adolf Grünbaum,
The Foundations of Psychoanalysis – A Philosophical Critique
(Berkeley: University of California Press, 1985). Grünbaum
utiliza o referencial popperiano, para um minucioso exame da cientificidade
da teoria psicanalítica, embora de forma bastante crítica
em relação às insuficiências dos comentários
de Popper sobre a psicanálise.
4 – A Popper se liga também o trabalho que Gregorio
Klimovsky – epistemólogo argentino de orientação
popperiana – desenvolve há mais de trinta anos com
importantes nomes da psicanálise internacional, em grupo
de estudos sobre epistemologia e psicanálise, a partir de
experiências clínicas. Pretendemos assim contrapor
duas visões dentro da tradição popperiana:
as de Grünbaum e Klimovsky.
Como dentre nossos objetivos se encontra a preocupação
com os padrões de racionalidade que estejam em jogo, nos
diversos momentos da discussão da psicanálise, adotaremos,
em caráter operativo, o padrão proposto por Larry
Laudan (in, Progress and its Problems: Towards a Theory of Scientific
Growth. Laudan, 1977), como referencial. Fizemos a ressalva quanto
ao caráter operativo de tal adoção, pois, entendemos
que a própria pesquisa propõe-se a ser uma discussão,
em última instância, do que consistiria um padrão
de racionalidade. Conforme já registramos, não é
possível falar de psicose ou loucura sem que esteja implícita
alguma contrapartida de racionalidade. Como no momento não
podemos adiantar-nos quanto a um possível padrão,
uma vez que esperamos que o decorrer do próprio trabalho
vá selecionando seus possíveis candidatos, escolhemos
a proposta de racionalidade, de Larry Laudan, como uma ferramenta
provisória. É uma decisão que consideramos
inescapável, uma vez que mesmo nesta fase inicial se faz
necessário algum referencial que dê sentido ao debate
epistemológico em que Popper – assim como os dois outros
autores a serem estudados: Grünbaum e Klimovsky, estão
inseridos.
No primeiro capítulo discutimos a “questão da
psicanálise” na obra de Karl Popper, dividindo-o em
duas partes: a primeira, uma descrição do trajeto
de Popper desde sua primeira preocupação em distinguir
ciência e pseudociência até sua proposta mais
abrangente de discussão de programas de pesquisa metafísica.
Desejamos acompanhá-lo em sua elaboração das
noções de ciência e racionalidade; e, numa segunda
parte, discutimos a relação direta de Popper com o
tema da psicanálise, que foi sempre uma “questão”
para ele, a nosso ver, não bem resolvida, guardando a respeito
da teoria freudiana uma posição ambivalente: reconhecimento
de suas contribuições e recusa de sua cientificidade
e mesmo racionalidade.
No segundo capítulo examinamos duas avaliações
da teoria psicanalítica, surgidas na esteira da epistemologia
popperiana: a persistente crítica de Adolf Grünbaum
aos fundamentos da psicanálise e a tentativa de Gregório
Klimovsky de encontrar – nos termos do modelo hipotético-dedutivo
– uma apreciação científica para o empreendimento
psicanalítico. São avaliações antagônicas,
quanto a seus resultados e expectativas.
No terceiro capítulo apresentamos nossa própria
avaliação das insuficiências da aplicação
da epistemologia popperiana à teoria psicanalítica
e, dentro da tradição epistemológica anglo-saxã,
sugerimos a utilização da proposta epistemológica
de Larry Laudan, como a mais bem sucedida para o exame de uma teoria
que envolva problemas empíricos e conceituais, como é
o caso da psicanálise. É então feita uma breve
resenha dos principais pontos da epistemologia pragmatista de Laudan.
No quarto capítulo procuramos fazer uma avaliação
dos autores estudados, da mesma forma que da tradição
a que se filiam, apontando o que nos parece ser seus impasses e
suas propostas de superação. Acrescentamos, para finalizar,
dois possíveis desdobramentos desta fase de nossa pesquisa:
um estudo da filosofia analítica, principalmente a partir
das contribuições de Wittgenstein; e uma investigação
das relações entre estética e psicanálise,
tomando como ponto de partida a Crítica da Faculdade de Julgar
(Kant), para exame do problema da singularidade.
Os três Apêndices – sobre Feyerabend, sobre
os “externalistas”, e o que trata do “conhecimento
privado” – visam dar subsídios ao debate que
nos parece mais relevante, nesta tradição, entre racionalistas
e relativistas; assim como adiantar algumas suposições
sobre o entendimento do problema da psicose a partir da filosofia
da linguagem.
As traduções de textos citados, quando a bibliografia
não é referida em português, é de nossa
responsabilidade. Quando julgamos conveniente assinalar a data da
primeira edição de alguma obra citada, a mesma é
colocada entre parênteses e a data da edição
utilizada a seguir, ambas entre colchetes, por exemplo: Popper,
K. Lógica da Pesquisa Científica [(1934) 1974]. Os
textos de Freud utilizados são da tradução
inglesa – Standard Edition (S.E.). London, Hogarth Press,
1974 – e serão sempre mencionados pela abreviatura:
S.E. seguida do volume em que se encontram.
CAPÍTULO I: A QUESTÃO DA PSICANÁLISE NA OBRA
DE KARL POPPER
“... Após o colapso do Império Austríaco,
a Áustria havia passado por uma revolução:
a atmosfera estava carregada de slogans e idéias revolucionárias;
circulavam teorias novas e freqüentemente extravagantes. Dentre
as que me interessavam, a teoria da relatividade de Einstein era
sem dúvida a mais importante; outras três eram a teoria
da história de Marx, a psicanálise de Freud e a “psicologia
individual” de Alfred Adler.
... Durante o verão de 1919, comecei a me sentir cada vez
mais insatisfeito com essas três teorias ... passei a ter
dúvidas sobre seu status científico. Meu problema
assumiu, primeiramente, uma forma simples: “O que estará
de errado com o marxismo, a psicanálise e a psicologia individual?
Por que serão tão diferentes da teoria de Newton e
especialmente da teoria da relatividade?” (Popper, 1972: 64)
Para compreendermos a insatisfação de Popper quanto
ao status científico da psicanálise é necessário
que esclareçamos, inicialmente, sua noção de
ciência e de racionalidade. Estas sofreram desenvolvimentos
no correr de sua obra, uma vez que a mesma se foi tornando um sistema
cada vez mais abrangente, alcançando até a estética.
1.1 - CIÊNCIA E RACIONALIDADE EM POPPER
O trajeto que propomos para o exame da evolução
das concepções popperianas de ciência e racionalidade
atende, fundamentalmente, a nosso campo de interesse – discussão
da racionalidade da teoria psicanalítica – o que significa
que deixaremos à margem uma série de questões
que o programa popperiano levanta. Contudo, pensamos que as fases
em que dividimos a obra de Popper correspondem às que seus
comentadores estabelecem.
Assinalamos três momentos básicos para o nosso exame.
A cada um corresponde uma obra maior do autor, ou seja:
1 – A Racionalidade Científica. A crítica à
lógica indutiva. O critério de demarcação
entre ciência e pseudociência. A noção
de refutabilidade. A Lógica da Pesquisa Científica
[(1934) 1974].
2 – O Racionalismo Crítico. O método de conjecturas
e refutações. Introdução da noção
de “lógica situacional”. Conjecturas e Refutações
[(1963) 1972].
3 – A Epistemologia Evolucionária. A objetividade
do conhecimento: A Teoria dos Três Mundos. Os Programas de
Pesquisa Metafísica. Conhecimento Objetivo [(1973) 1975].
Neste trajeto, observamos que as noções de cientificidade
e de racionalidade se vão sofisticando e, em certa medida,
adquirindo uma independência, de modo a incluir também
os problemas metafísicos como passíveis de crítica
e desenvolvimento. Vejamos os passos de Popper neste sentido.
1.1.1 – A RACIONALIDADE CIENTÍFICA
Popper parte da crítica ao tradicional problema da indução
para formular sua proposta para uma epistemologia ou lógica
ou teoria do método científico, não fazendo
qualquer distinção entre tais noções
– epistemologia, lógica e método – no
que diz respeito à avaliação do empreendimento
científico (Popper,1974:51). Sua preocupação,
neste momento, é a de estabelecer uma clara distinção
entre ciência e pseudociência.
“A tarefa da lógica da pesquisa científica,
ou da lógica do conhecimento, é, segundo penso, proporcionar
uma análise lógica desse procedimento, ou seja, analisar
o método das ciências empíricas.” (Popper,1974:27)
Tomando uma atitude prescritiva, afasta do método das ciências
empíricas qualquer tentativa de baseá-lo, em sua origem,
na experiência. Esta só pode fornecer-nos enunciados
singulares e a passagem destes para enunciados universais –
hipóteses ou teorias – exigiria um princípio
de indução que não se justificaria pela experiência.
Qualquer tentativa de justificá-lo, a partir de novas observações,
levaria a uma regressão infinita. Até este ponto não
se afasta, ou faz qualquer acréscimo, aos argumentos de Hume.
Contudo, sua originalidade reside no radical exame e relevância
que empresta à crítica humeana à indução,
mas procurando recuperar o caráter racional, lógico,
da atividade científica. Reafirma a inutilidade do método
indutivo para a pesquisa científica, utilizando argumentos
estritamente lógicos. Através da aplicação
do Modus Tollens, mostra que se uma teoria T implica a ocorrência
de a, e se tal não ocorre, ou seja: -a; poderíamos
deduzir: -T. Esta formulação, extremamente simples,
vai constituir-se na pedra angular de sua proposta do critério
de refutabilidade como sendo o único sustentável para
a avaliação das teorias científicas. Em outros
termos: se a falsidade da conclusão se transmite às
premissas, a uma delas pelo menos, a verdade do conseqüente
não implica na verdade das premissas, o que seria uma conhecida
falácia, a da afirmação do conseqüente.
Insistimos neste ponto, pois, Popper será fiel durante toda
a sua obra a esta formulação lógica, afastando
qualquer argumentação psicológica para lidar
com o problema da indução. A mesma atitude se mantém
quando discute o questionamento humano da conexão causal:
não aceita o hábito como elemento explicativo da crença
em regularidades, desenvolvendo a noção de expectativa;
noção que procurará fundamentar em termos não
psicológicos, na última fase de sua obra, atribuindo-lhe
um caráter inato. Popper separa o problema da indução
do problema da causalidade (Popper,1974). Seguiremos sua sugestão,
deixando para outro momento discutir sua solução para
a causalidade. Sua solução para a indução
se, por um lado, parece-nos definitiva em relação
aos verificacionistas, seus principais interlocutores naquele momento,
por outro, levanta uma série de questões, algumas
das quais examinaremos com maior cuidado.
Uma vez afastada a lógica indutiva, fica questionado o
papel da observação ou da experiência perceptual,
como fontes de evidência imediata. Isto leva Popper a formular
novos, ou repensar antigos temas da epistemologia. Selecionamos
alguns que vão ser úteis em nossa futura discussão
do alcance e validade de sua proposta. São eles:
Contexto da descoberta e contexto da justificação.
Enunciados básicos.
Base empírica.
Refutabilidade.
Critério de demarcação.
Experiências cruciais.
A todos esses tópicos, Popper oferecerá um tratamento
que pretende ser puramente lógico, assim como prescindir
da discussão lingüística ou transcendental. Limitar-nos-emos
a descrever a proposta popperiana, deixando para outro momento a
discussão dos impasses que a mesma traz.
Contexto da descoberta e contexto da justificação
– Popper, visando afastar o psicologismo de sua epistemologia,
vai distinguir dois momentos na formulação de uma
teoria. O primeiro – contexto da descoberta – seria
de caráter subjetivo, o ato de conceber ou inventar uma teoria,
não necessário, nem passível de uma análise
lógica, não sendo objeto da epistemologia. “A
questão de saber como uma idéia nova ocorre ao homem
– trate-se de um tema musical, de um conflito dramático
ou de uma teoria científica – pode revestir-se de grande
interesse para a psicologia empírica, mas não interessa
à análise lógica do conhecimento científico.”
(p.31) A lógica da pesquisa científica não
estaria interessada em questões de fato (quid facti? de Kant)
mas em questões de justificação (quid juris?
de Kant). Este segundo momento – o contexto da justificação
– seria o domínio por excelência da epistemologia.
Nele estariam as questões fundamentais da lógica da
pesquisa científica, ou seja: uma vez formulada uma teoria,
caberiam as indagações: seus enunciados podem ser
justificados? Em caso afirmativo, como? São suscetíveis
de prova? Dependem de outros, ou, contradizem-nos? A rigor, estas
são as questões básicas para Popper. Delas
podemos deduzir as demais, como: qual o enunciado, ou enunciados,
que seriam fundamentais para testar uma teoria? Que características
deveriam ter tais enunciados? Frisa que enunciados só podem
ser comparados por outros enunciados.
Enunciados básicos – Para Popper, enunciado básico,
ou proposição básica, é “um enunciado
que pode atuar como premissa numa falsificação empírica;
em suma, o enunciado de um fato singular”. (p.45) Nesse momento,
preocupa-se Popper em afastar qualquer conotação psicológica
ou positivista de sua noção de enunciado básico,
dado o relevante papel que ele desempenhará em sua teoria.
Vai da mesma forma negar a possibilidade de verificação
de enunciados e a concepção de que nossas experiências
subjetivas ou nosso sentimento de convicção possam
justificar qualquer enunciado. Baseia-se em Kant para distinguir
o “objetivo” do “subjetivo”. Objetivo seria
o conhecimento científico capaz de ser justificável,
independente de capricho pessoal, sendo sua justificação
objetiva, na medida em que pode ser submetida à prova e compreendida
por todos.[13] Subjetivo seria qualquer conhecimento que se baseasse
em nossos sentimentos de convicção. Na medida em que
os enunciados básicos vão desempenhar relevante papel
na proposta popperiana, está ela comprometida em dar conta
de seu estatuto e, conseqüentemente, enfrentar novas questões
que ultrapassam os critérios até então exclusivamente
metodológicos. Referimo-nos, especificamente, à discussão
do caráter empírico de tais enunciados, questões
que se encontram em pleno campo da teoria do conhecimento.
A base empírica – Ciente deste problema, Popper parte
do reconhecimento da questão colocada por Fries – conhecida
como o trilema de Fries (dogmatismo vs. regressão infinita
vs. psicologismo) - relativa ao impasse que traz repousar a justificação
do conhecimento científico nas experiências sensoriais.
Reconhece o problema, mas não aceita a solução
de Fries (psicológica), apresentando sua alternativa. Assim
coloca a questão:
“Poucos pensadores se perturbaram tão profundamente
com o problema da base da experiência quanto Fries.[14] Ensinou
ele que , se não cabe aceitar dogmaticamente os enunciados
da Ciência, devemos ter como justificá-los. Se exigirmos
justificação através de argumento que desenvolva
razões, no sentido lógico, seremos levados à
concepção segundo a qual enunciados só podem
ser justificados por enunciados. A exigência de que todos
os enunciados devam ser logicamente justificados (a que Fries se
refere falando em ‘predileção por demonstrações’)
tende, portanto, a conduzir a uma regressão infinita. Ora,
se quisermos evitar o perigo do dogmatismo, ao mesmo tempo que a
regressão infinita, aparentemente não restará
outro recurso que não o psicologismo, isto é, a doutrina
de acordo com a qual enunciados podem encontrar justificação
não apenas em enunciados, mas também na experiência
perceptual.” (p.p.99-100)
Popper critica a opção tradicional pelo psicologismo,
ou seja, pela concepção de que a experiência
sensorial nos fornece um “conhecimento imediato”, cuja
representação será mediatizada pelo simbolismo
de alguma linguagem, nos enunciados da ciência. Tal caráter
de evidência imediata do conhecimento pelo sensório
nos daria um sentimento de convicção, segundo o verificacionismo.
Contrapõe-se a este ponto de vista, considerando-o baseado
na indução e em universais. Dá como exemplo
a afirmação: “aqui está um copo com água”.
Esta trivial descrição perceptual – como todo
enunciado singular, contém termos universais que transcendem
a experiência - não admite verificação,
uma vez que supõe universais (“copo”, “água”)
que não se prestam a correlação com qualquer
experiência sensorial específica, que é única,
ocorrendo apenas uma vez. Continuando sua crítica, vai agora
voltá-la para a solução de Carnap e Neurath
das sentenças protocolares. Tais autores admitem que a ciência
não discute percepções nem experiências
mas sentenças. “Diz ele (Carnap) que as sentenças
da Ciência são submetidas à prova ‘através
do auxílio de sentenças protocolares’”.
(p.102) Tais sentenças protocolares forneceriam os dados
mais simples de serem suscetíveis de conhecimento, os conteúdos
da experiência imediata, os fenômenos. Sentenças
protocolares são registros ou protocolos de observações
imediatas ou de percepções. Os defensores de tal formulação
admitem que as sentenças protocolares sejam suscetíveis
de reavaliação. Apesar dessa reavaliação
crítica, que Popper considera um notável avanço
em relação à solução de Fries,
descarta as sentenças protocolares, por considerá-las
uma tradução formal do antigo psicologismo e, ao evitar
o dogmatismo, abrir espaço para a arbitrariedade, pois, qualquer
sistema poderia tornar-se defensável, bastando rever as sentenças
que lhe seriam incompatíveis. Em suma: “Como Neurath
não tenta solucionar o problema da demarcação,
sua idéia de sentenças protocolares parece mero resíduo
– lembrança remanescente da concepção
tradicional, defensora de que a Ciência se origina da percepção.”
(p.104) Toda sua argumentação conduz à busca
de uma objetividade para a ciência e, em particular, para
sua base empírica. Nesta procura parte da distinção
entre “Ciência objetiva, de um lado, e ‘nosso
conhecimento’, de outro” (p.104) Tal distinção
tem importantes conseqüências para a epistemologia popperiana,
pois, vai deslocar a tradicional preocupação com as
fontes do conhecimento para a avaliação de seus produtos.
Entregando o estudo das fontes do conhecimento à psicologia,
sociologia ou outros campos, passa a detalhar o que entende por
um enunciado básico, elemento fundamental para sua proposta
metodológica de basear a ciência na avaliação
dos produtos das teorias, na testabilidade. Resume suas exigências
em relação aos enunciados básicos na regra:
“enunciados básicos têm a forma de enunciados
existenciais singulares.” (p.109) Continua, mais adiante:
“Tais são os requisitos formais dos enunciados básicos;
vêem-se eles satisfeitos por todos os enunciados existenciais
singulares. Além desses requisitos, um enunciado básico
deve satisfazer, ainda, um requisito de cunho material – requisito
concernente ao evento que, tal como expressa o enunciado básico,
está ocorrendo no lugar k. Deve tratar-se de um evento “observável”,
ou seja, os enunciados básicos hão de ser suscetíveis
de teste, intersubjetivamente, com base em ‘observação’.
Como se trata de enunciados singulares, esse requisito, naturalmente,
só se pode referir a observadores adequadamente colocados
no espaço e no tempo – ponto que não aprofundarei.”
(p.110)
Popper procura defender-se de ter reintroduzido, sub-repticiamente,
o psicologismo através do termo “observável”.
Alega que o introduz como um termo não definido, um conceito
primitivo, que se tornaria preciso com o uso.
Sua preocupação em caracterizar o enunciado básico
está voltada para a resolução do trilema de
Fries. “Toda prova de uma teoria, resulte em sua corroboração
ou em seu falseamento, há de deter-se em algum enunciado
básico que decidimos aceitar.” (p. 111) Mais adiante
apresenta sua solução para o trilema de Fries:
“Qual a nossa posição agora, com respeito ao
trilema de Fries, escolha entre dogmatismo, regressão infinita
ou psicologismo ? Os enunciados básicos em que nos detemos,
que decidimos aceitar como satisfatórios e como suficientemente
aprovados pelas provas, têm, reconhecidamente, o caráter
de dogmas, mas apenas na medida em que desistirmos de justificá-los
por argumentos outros (ou por outras provas). Essa espécie
de dogmatismo é, todavia, inócua, pois que, surgida
a necessidade, os enunciados podem ser facilmente submetidos a provas
complementares. Admito, em princípio, que isso torna infinita
a cadeia de deduções. Contudo, essa espécie
de regressão infinita é também inócua,
uma vez que, em nossa teoria, não se coloca empenho em tentar
provar, por meio dela, qualquer enunciado. Finalmente, no que concerne
ao psicologismo, admito que a decisão de aceitar um enunciado
básico e dá-lo por satisfatório está
causalmente relacionada com nossas experiências – em
especial, a nossas experiências perceptuais. Não tentamos,
porém, justificar enunciados básicos através
do recurso a essas experiências. As experiências podem
motivar uma decisão e, conseqüentemente, a aceitação
ou rejeição de um enunciado, mas um enunciado básico
não pode ver-se justificado por elas – não mais
do que por um murro na mesa.” (pp. 112-113)
Popper assume que os enunciados básicos são aceitos
“como resultado ou concordância ... são convenções”.
(p.113) Entretanto, não se considera um convencionalista,
pois, ao contrário deste, sua proposta em relação
ao método empírico não implica numa aceitação
de enunciados universais, por convenção ou decisão,
mas sim de enunciados singulares, ou seja, de enunciados básicos.
Para o convencionalista a escolha de enunciados universais se daria
pelo princípio da simplicidade, escolhendo o mais simples
dos sistemas. Popper frisa que, diferentemente, propõe a
escolha a partir do rigor das provas. Reconhece, contudo, que da
mesma forma que o convencionalista considera a escolha de qualquer
teoria particular como um ato, uma questão prática.
Com o correr do trabalho veremos como vai procurar, com êxito
ou não, afastar-se o mais possível do convencionalismo.
Por enquanto julgamos mais importante registrar o próximo
passo de Popper: a refutabilidade como critério de demarcação
entre ciência (ciência empírica) e pseudociência.
Refutabilidade como critério de demarcação
– Popper considera que uma vez afastada a lógica indutiva
da metodologia científica se faz necessário encontrar
um critério de demarcação entre ciência
empírica e metafísica, assim como da lógica
e matemática. Antes de apresentar sua proposta faz uma crítica
aos positivistas que tentariam apresentar um critério que,
fundamentalmente, não difere da lógica indutiva. Pois,
ao atribuírem significado somente aos enunciados referentes
à experiência, desqualificando qualquer enunciado que
não seja redutível a enunciados elementares, ou “atômicos”,
a “juízos de percepção”, ou “sentenças
protocolares”, caem no mesmo erro de atribuir um papel à
experiência que ela não pode suportar. Vê nesta
posição mais um desejo de eliminar a metafísica,
como “sofistaria e ilusão” (citando Hume), do
que em estabelecer uma demarcação. Agrega à
sua argumentação que nenhuma lei científica
pode ser reduzida a enunciados elementares da experiência.
Acredita que a única possibilidade de um critério
de demarcação consistente seria fruto de uma convenção.
Daí sua ênfase na noção de “enunciados
básicos”, que detalhamos anteriormente, e que desempenharão
um importante papel em sua proposta. Uma vez ser impossível
a verificação pela experiência, propõe:
“... só reconhecerei um sistema como empírico
ou científico se ele for passível de comprovação[15]
pela experiência. Essas considerações sugerem
que deve ser tomado como critério de demarcação,
não a verificabilidade, mas a falseabilidade de um sistema.
Em outras palavras, não exigirei que um sistema científico
seja suscetível de ser dado como válido, de uma vez
por todas, em sentido positivo; exigirei, porém, que sua
forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo
através do recurso a provas empíricas, em sentido
negativo: deve ser possível refutar, pela experiência,
um sistema científico empírico.” (p.42)
Popper se antecipa a possíveis críticas –
cujas respostas constituirão boa parte de sua obra - mencionando:
1 – que a ciência, de quem se espera informações
positivas, nada perde ao ser definida por uma negatividade, a sua
refutabilidade. Pois, as informações sobre o mundo
são tanto maiores quanto mais conflitos gerem com possíveis
enunciados singulares. “Não é por acaso que
chamamos ‘leis’ às leis da natureza: quanto mais
proíbem, mais dizem.” (p.43)
2 – que podem alegar, contra sua proposta, os mesmos argumentos
que usa, ou seja: que a falseabilidade estaria sujeita às
mesmas restrições que a verificabilidade. Defende-se,
lembrando a assimetria que existe entre ambas, oriunda da forma
lógica dos enunciados universais. Estes nunca podem ser derivados
de enunciados singulares, ao passo que estes últimos podem
contraditar os enunciados universais (com o emprego do modus tollens).
3 – que seria sempre possível a introdução
de hipóteses auxiliares – ad hoc – para evitar
que um sistema seja refutado, sem incoerência lógica.
Alega que não é assim que os cientistas agem e prescreve,
como principal característica de um verdadeiro método
científico empírico: “... sua maneira de expor
à falsificação, de todos os modos concebíveis,
o sistema a ser submetido a prova. Seu objetivo não é
o de salvar a vida de sistemas insustentáveis, mas, pelo
contrário, o de selecionar o que se revele, comparativamente,
o melhor, expondo-os todos à mais violenta luta pela sobrevivência.”
(p.44)
Em sua apologia do critério de demarcação
proposto, acrescenta um ponto que será de suma importância
em sua futura posição fortemente realista. Ou seja:
pensa que sua proposta resolve a questão levantada por Hume
quanto à validade das leis naturais. Considera que Hume estava
correto em sua argumentação, no que diz respeito à
impossibilidade do uso de argumentos indutivos, o que implicaria
na denúncia da tese fundamental do empirismo (“só
a experiência pode decidir acerca da verdade ou falsidade
de um enunciado científico”). Entretanto, julga Popper
que esta contradição do empirismo fica superada se
admitirmos que os enunciados decisíveis são apenas
os falseáveis, passíveis de refutação.
Tal posição levará Popper a uma radical postura
em relação aos fundamentos do empreendimento científico:
“A base empírica da ciência objetiva nada tem,
portanto, de ‘absoluto’. A ciência não
repousa em pedra firme. A estrutura de suas teorias levanta-se,
por assim dizer, num pântano. Semelha-se a um edifício
construído sobre pilares. Os pilares são enterrados
no pântano, mas não em qualquer base natural ou dada.
Se deixamos de enterrar mais profundamente esses pilares, não
o fazemos por termos alcançado terreno firme. Simplesmente
nos detemos quando achamos que os pilares estão suficientemente
assentados para sustentar a estrutura – pelo menos por algum
tempo.” (p.119)
Experiências cruciais – Uma vez estabelecido o critério
de demarcação, baseado na refutabilidade, surge a
questão de estabelecer os procedimentos necessários
para as experiências refutadoras. Tais procedimentos constituem
as experiências cruciais. Teriam elas a responsabilidade de
descartar ou corroborar, pelo menos temporariamente, as teorias
em teste. Acautela-se Popper do que denomina “estratagemas
convencionalistas”, ou seja, diversas reformulações
da teoria em questão que a tornassem irrefutável,
resistente às experiências cruciais. Popper admite
que não possa dirimir seu conflito com os convencionalistas
através de uma discussão teórica. Enumera alguns
dos argumentos convencionalistas que seriam indiscutíveis:
a introdução de hipóteses ad hoc; a modificação
das definições ostensivas da teoria; a atitude cética
no que se refere à confiabilidade do experimentador; assim
como à sua perspicácia. Interessante registrar que
aqui faz uma de suas primeiras menções à psicanálise:
“Caberá ao investigador, especialmente nos campos da
Sociologia e da Psicologia (o físico dificilmente necessitaria
de tal advertência) prevenir-se constantemente contra a tentação
de empregar novos estratagemas convencionalistas – tentação
a que os psicanalistas, por exemplo, sucumbem com freqüência.”
(p.87)
Popper resolve, neste momento, seu conflito com os convencionalistas
utilizando suas próprias armas: “O único meio
de evitar o convencionalismo é ‘tomar uma decisão:
a decisão de não aplicar-lhe o método. Decidimos
que, se nosso sistema sofrer ameaça, nunca procuraremos preservá-lo
recorrendo a qualquer espécie de estratagema convencionalista.”
(p. 86) Em conseqüência vai tratar, por exemplo, as hipóteses
auxiliares ad hoc – que poderiam proliferar, salvando o sistema
em teste – com rigor. “Com respeito às hipóteses
auxiliares, propomos assentar a regra de que somente serão
aceitáveis aquelas cuja introdução não
reduza o grau de falseabilidade ou testabilidade do sistema em causa,
mas ao contrário, o eleve.” (p.87) Continuando suas
exigências para garantir as experiências cruciais, vai
concluir:
“... uma teoria será chamada de ‘empírica’
ou ‘falseável’ sempre que, sem ambigüidade,
dividir a classe de todos os possíveis enunciados básicos
nas seguintes duas subclasses não vazias:
primeiro, a classe de todos os enunciados básicos com os
quais é incompatível (ou que rejeita, ou proíbe):
- a essa classe chamamos de classe dos falseadores potenciais da
teoria; e segundo, a classe de enunciados básicos que ela
não contradiz (ou que ela ‘permite’).
... Mais resumidamente, poderíamos apresentar o ponto dizendo:
uma teoria é falseável se não estiver vazia
a classe de seus falseadores potenciais.” (pp. 90-91)
Embora neste momento esteja Popper interessado em testar uma teoria
isoladamente, a noção de experiência crucial
tem o outro aspecto de decidir entre duas teorias rivais. Deste
tipo de experiência, uma teoria sai refutada e a outra corroborada.
Poderíamos dizer que este seria o critério popperiano
para a complexa questão da escolha de teorias.
Julgamos ter apresentado de maneira extremamente sucinta, e acreditamos
fidedigna, as idéias centrais da epistemologia popperiana
neste primeiro momento de sua vasta obra. Do relatado, ressaltamos
que sua noção de racionalidade se confunde com a de
cientificidade. Esta, por sua vez, está restrita às
ciências empíricas, as quais encontram seu fundamento
nos enunciados básicos. Entendemos que tal noção
– enunciado básico – é uma contribuição
original de Popper de grande relevância, não só
para a compreensão de sua epistemologia, mas para nortear
todo o debate que se seguiu.
Procuramos no sucinto relato ater-nos à Lógica da
Pesquisa Científica, como texto de referência, evitando
inclusive certas notas que o autor acrescentou posteriormente, já
em resposta a seus críticos. Tomamos tal precaução
para acompanharmos o mais possível o desdobramento cronológico
do pensamento de Popper. Cabe agora a menção, mesmo
que superficial, às principais críticas que lhe foram
feitas. Muitos dos pontos essenciais da crítica à
epistemologia popperiana estão expressos na clássica
coletânea, organizada por Imre Lakatos e Alan Musgrave, A
Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento. A importância
das contribuições de Popper podem ser avaliadas, precisamente,
pela grande quantidade de questionamentos que suscitou, em especial,
no mundo anglo-saxão; forçando-o a acrescentar inúmeras
notas de rodapé, apêndices, pós-escritos à
sua Lógica. Isto nos faz lembrar o comentário de Thomas
Kuhn que quando tal ocorre é sinal de crise do paradigma.
Pensamos que, de fato, o paradigma proposto por Popper para a epistemologia
se mostrou insuficiente para lidar com inúmeras questões,
embora representasse um espetacular avanço em relação
ao verificacionismo e indutivismo, até então reinante.
Por outro lado, a percepção de tais dificuldades levou
Popper a uma segunda fase de sua obra, que discutiremos a seguir,
representada pela publicação de Conjecturas e Refutações.
A fim de não acumular excessivamente questões, mencionaremos
conforme o prometido algumas das críticas aos pontos fundamentais
que listamos anteriormente, não obedecendo no caso uma ordem
cronológica.
A noção de contexto de descoberta e contexto de
justificação foi duramente criticada por Feyerabend
– brilhante discípulo dissidente – em Contra
o Método. O capítulo XIV do referido texto, em que
trata especificamente do tema, apresenta-o da seguinte forma:
“Os resultados até agora conseguidos trazem em seu
bojo a sugestão de abolir a distinção entre
contexto da descoberta e contexto da justificação
e de pôr de parte a distinção correlata entre
termos observacionais e termos teoréticos. Nenhuma dessas
distinções tem papel a desempenhar na prática
científica. Tentativas de dar-lhes força trariam conseqüências
desastrosas.” (p.257)
Sua argumentação apóia-se na história
da ciência, questionando a possibilidade de distinção
dos domínios da descoberta e da justificação
uma vez que o último só pode ocorrer após o
primeiro, ou melhor, que estão implicados. Admite que as
atividades que pertencem ao contexto da descoberta são não
apenas diferentes mas, sobretudo, conflitantes com as do contexto
de justificação. E uma vez que a ciência se
desenvolve a partir da descoberta, restaria saber a qual contexto
se deveria dar tratamento preferencial. Em capítulos anteriores
já havia discutido os experimentos de Galileu, procurando
demonstrar que a vitória da física deste sobre a de
Aristóteles obedeceu a razões de ordem muito diferente
que as propostas por uma metodologia justificacionista. Ou seja:
mudança do critério de evidência (do valor das
impressões sensoriais para o dos dados fornecidos pelos instrumentos),
da concepção de movimento, de experiência e
de interpretação natural. Por outro lado, nada a favor
de tais modificações obedeceu a uma argumentação
racional, sendo inclusive mal sucedidas suas previsões. Em
suma: defende que a distinção – descoberta e
justificação – é artificial, arbitrária,
ocultando o fato de ocorrer, na realidade, uma mudança de
cosmologias, a criação de novas ontologias, afetando
tanto os processos de descoberta como os critérios de teste.
Na mesma linha vai considerar como definitivamente perdida a distinção
entre termos observacionais e termos teoréticos:
“Enfim, descobrimos que o aprendizado não se desenvolve
da observação para a teoria, mas sempre envolve ambos
esses elementos. A experiência aparece acompanhada de pressupostos
teóricos e não antes deles; e a experiência
sem teoria é tão incompreensível quanto (supostamente)
a teoria sem experiência: eliminemos parte do conhecimento
teorético de um ser senciente e teremos pessoa completamente
desorientada e incapaz de realizar a mais simples das ações.
Eliminemos maior porção de conhecimento e o mundo
sensorial dessa pessoa (sua “linguagem de observação”)
começará a desintegrar-se, desaparecerão a
sensação de cor e outras sensações simples,
até que a pessoa venha a achar-se em estágio mais
primitivo que o de um bebê.” (p.263)
A crítica de Feyerabend é bem mais abrangente do
que está aqui relatado, desta forma remetemos o leitor a
um anexo onde expomos nossa compreensão da mesma (Anexo I:
A Razão e as “razões” de Paul Feyerabend).
Para os nossos propósitos imediatos, vamos deter-nos aqui,
apesar de registrar que tal crítica acompanhará, sob
certo aspecto, todo o nosso texto.
Os enunciados básicos e a base empírica da ciência
propostos por Popper foram também objeto de várias
contestações, o que necessariamente não implica
num não reconhecimento de seu valor e utilidade. Zahar num
instigante texto (“O Problema da Base Empírica”,
in Karl Popper – Filosofia e Problemas, org. Anthony O´Hear)
vai rediscutir a proposta popperiana, partindo entre outros pontos
do mesmo problema levantado por Feyerabend quanto à natureza
da linguagem observacional. Zahar propõe a tese, que reconhece
como ousada, “ ... de que uma abordagem fenomenológica
da base empírica constitui um complemento necessário
ao falseacionismo de Popper.” (p.57) Sustenta que “...em
epistemologia, a única distinção legítima
parece ser a que separa relatos de nível zero do resto, ou
seja, de todas as proposições transcendentes.”
(p.66) O alvo principal de sua crítica é a rapidez
convencionalista com que Popper aceita enunciados básicos
“não problemáticos”. A respeito faz a
seguinte citação de Popper: “O conhecimento
é possível, portanto, porque existem enunciados básicos
“não problemáticos” (análogos às
proposições intuitivamente certas sobre os dados dos
sentidos), isto é, enunciados básicos que não
precisam mais ser testados, e que não devem ser questionados
depois que o acordo intersubjetivo tiver sido alcançado.”
(in, Die beinden Grundprobleme, p.123) Vai discordar de John Watkins
que sustentava que enunciados de nível um – dados sensoriais
– constituiriam a base da física e que as proposições
de nível zero, autopsicológicas, na primeira pessoa,
seriam assunto exclusivo da psicologia e da psicobiologia. Para
Zahar: “... somente relatos autopsicológicos deveriam
ser considerados enunciados científicos básicos.”
(p.60)[16]
Crítica mais ampla, mantendo os parâmetros popperianos,
partiu de Imre Lakatos e resultou numa nova proposta epistemológica:
“A Metodologia de Programas de Pesquisa Científica”.
Em seu conhecido ensaio: “O Falseamento e a Metodologia dos
Programas de Pesquisa Científica”, na antologia já
citada que organizou com Alan Musgrave, expõe sua crítica
e proposta. A primeira – a crítica - parte dos inúmeros
problemas que acarretam a noção de falseacionismo.
Entendemos que como pano de fundo desta crítica está
a tese Duhem-Quine que afirma a impossibilidade de refutação
de uma teoria isolada, sem que todo o conjunto de que faz parte
não o seja. Lakatos que, num Adendo, vai tentar superar este
dilema, assim formula a referida tese:
“De acordo com a ‘tese Duhem-Quine’, em havendo
imaginação suficiente, qualquer teoria (quer consista
numa proposição, quer consista numa conjunção
finita de muitas proposições) pode ser salva permanentemente
da ‘refutação’ por algum ajustamento adequado
no conhecimento de fundo em que está incluída. Como
diz ‘aconteça o que acontecer, qualquer pronunciamento
pode ser considerado verdadeiro, se fizermos ajustamentos suficientemente
drásticos em outros pontos do sistema ... Inversamente, nenhum
enunciado é imune à revisão’ (citação
de Quine, in From a Logical Point of View, 1953, cap. II) De mais
a mais, o ‘sistema’ é nada menos que o ‘conjunto
da ciência’. ‘Uma experiência recalcitrante
pode ser acomodada por uma de várias reavaliações
alternativas em vários pontos alternativos do sistema total
[incluindo a possibilidade de reavaliar a própria experiência
recalcitrante]’.” (Lakatos e Musgrave, 1979:229)[17]
Atento à fragilidade a que a tese Duhem-Quine expõe
o falseacionismo popperiano, Lakatos vai examiná-lo detidamente,
tentando uma correção de reforço. Em primeiro
lugar, divide as posições falseacionistas em duas:
o falseacionismo dogmático, naturalista ou ingênuo,
que daria ao enunciado singular refutador a força de condenar
uma teoria científica irreversivelmente; e o falseacionismo
sofisticado, ou metodológico, que utilizaria a noção
de refutabilidade não para uma teoria isolada mas para uma
série de teorias, sempre em comparação com
uma concorrente que a superaria na medida em que apresentasse maior
capacidade explicativa e maior conteúdo empírico.
Neste caso, a refutação teria caráter provisório
e comparativo. Considera Lakatos que o falseacionismo dogmático
é insustentável por basear-se em duas suposições
falsas:[18]
“A primeira suposição é que há
uma fronteira natural, psicológica, entre as proposições
teóricas ou especulativas de um lado e as proposições
factuais ou observacionais (ou básicas) de outro. Isto, naturalmente,
faz parte do ‘enfoque naturalista’ do método
científico.
A segunda suposição é que se uma proposição
satisfaz ao critério psicológico de ser factual ou
observacional (ou básica), ela é verdadeira; é
possível afirmar que foi demonstrada a partir dos fatos.
Chamarei a esta a doutrina da prova observacional (ou experimental).”
(p.118)
A essas suposições, que considera refutadas (a primeira,
pela psicologia; a segunda, pela lógica), acrescenta outra
base – também insustentável – que seria
um critério demasiado rigoroso de demarcação
entre o científico e o não-científico. A respeito
deste último ponto diz: “são exatamente as teorias
científicas mais admiradas que simplesmente falham em proibir
qualquer estado observável de coisas.” (p.121) Formula
um exemplo imaginário que refutaria a teoria newtoniana e
como o mesmo poderia ser afastado pelos cientistas, tal como usualmente
o fazem. Numa nota de rodapé há um breve referência
à psicanálise: “Popper pergunta: ‘Que
espécie de respostas clínicas refutaria, para satisfação
do analista, não só um diagnóstico particular
mas a própria psicanálise?’ ... Mas que espécie
de observação refutaria, para satisfação
dos newtonianos, não só determinada versão
mas também a própria teoria newtoniana ?” (p.122)
Em sua proposta de uma Metodologia de Programas de Pesquisa, Lakatos
vai defender a idéia de que os cientistas trabalham com conjuntos
de teorias, os quais têm um núcleo inquestionável,
que se torna irrefutável por estar protegido por um cinturão
de teorias particulares que explicariam as anomalias e se ofereceriam
a testes, não permitindo a aplicação do Modus
Tollens ao núcleo. Dá como exemplo histórico
de um programa de pesquisa bem-sucedido a teoria gravitacional de
Newton. O “oceano de anomalias”(sic) em que tal teoria
estava mergulhada foi afastado pela criação de modelos,
teóricos, que procurariam dar conta das mesmas, deixando
para um futuro a corroboração empírica. Assim,
segundo Lakatos, caminhariam os grandes programas de pesquisa, não
se deixando refutar com facilidade, transferindo problemas para
o cinturão protetor, sempre à espera de confirmações
futuras retrospectivas da teoria básica. Caso o programa
mostre progresso empírico, em competição com
outros, é dado como progressivo, em caso contrário,
como degenerativo. Observa-se que há nesta proposta uma preocupação
em harmonizar a epistemologia com a prática concreta dos
cientistas e com a história do desenvolvimento da ciência.
Neste debate já se faz sentir a presença de Kuhn
e suas noções de revoluções científicas,
paradigma, ciência normal, e outras, contra as quais quer
Lakatos apresentar uma alternativa, uma vez que a proposta original
de Popper não se harmonizaria com as descrições
históricas do real desenvolvimento e prática científicas,
por ser uma proposta fortemente prescritiva.
Dado que nosso objetivo é discutir especificamente a questão
da racionalidade da teoria psicanalítica não nos deteremos
mais neste debate que rascunhamos apenas para ilustrar os temas
que estavam em discussão, aos quais de certa forma retornaremos
no capítulo dedicado à proposta epistemológica
de Larry Laudan. Por enquanto, julgamos mais objetivo passar para
a segunda fase de Popper, na qual tentará dar conta da racionalidade
de teorias metafísicas. Pois, como vimos, até este
momento, racionalidade e cientificidade se confundem e, a segunda,
se refere fundamentalmente às ciências empíricas.
Deve ser registrada a ausência de exame de exemplos das ciências
humanas, talvez por escaparem da estreita noção de
racionalidade utilizada.
1.1.2 – O RACIONALISMO CRÍTICO
Popper, nesta segunda fase de sua obra, vai preocupar-se com o
desenvolvimento do que chamou “o método de conjecturas
e refutações.” Observamos que nesse momento
seu interesse está voltado para abarcar a metafísica
– designação que emprega de modo vago, abrangendo
tudo aquilo que escaparia à ciência empírica
– em seu projeto epistemológico. Anteriormente, rascunhamos
algumas das principais críticas que lhe foram feitas e que
embora rebatidas por Popper, tiveram também eco em seu empreendimento
filosófico e, a nosso ver, motivaram esta investida no terreno
da metafísica, exigindo-lhe o desenvolvimento de novas propostas
metodológicas. Cremos que tal interpretação
é correta, pois, logo no primeiro capítulo de sua
principal obra desta fase – Conjecturas e Refutações
(O Progresso do Conhecimento Científico) – vemos o
autor retomar o tema da demarcação, agora, com novos
argumentos, tentando salvar a racionalidade daquelas teorias que
não se enquadravam em seu estreito critério de demarcação.
Por outro lado, como se pode observar no sub-título de sua
principal obra deste período (O Progresso do Conhecimento
Científico), é evidente sua preocupação
em dar conta de um dos pontos mais questionados de sua proposta:
a insuficiência para explicar o progresso científico
que, segundo todas as pesquisas históricas, não obedece
critérios de racionalidade tão rigorosos e acanhados
como os propostos por Popper. Verificamos, então, que sua
noção de racionalidade vai afastar-se dos constrangimentos
da cientificidade e vai aproximar-se da noção de pensamento
crítico. Esta fase consolida o que veio a ficar conhecido
como o seu racionalismo crítico.
Seguindo a mesma linha do item anterior, apresentamos de forma
sucinta os principais passos da argumentação popperiana
e, em seguida, as críticas que suscitou. Podemos dividir
sua exposição em dois grandes temas: As Origens do
Conhecimento e da Ignorância e o Método de Conjecturas
e Refutações.
As Origens do Conhecimento e da Ignorância – Este
é o título da conferência introdutória
de sua obra citada, na qual resume a idéia central que irá
desenvolver na série de ensaios subseqüentes. Seu ponto
de partida é a crítica à noção
de verdade evidente(sic), a cujo acesso estaríamos impedidos
pela “ação de uma força sinistra, origem
de influências impuras e maléficas que pervertem nossa
mente e nos impõem o hábito de resistir ao conhecimento
(teoria da conspiração).” (p.31) Embora cite
o marxismo como uma teoria típica do conjunto de teorias
da conspiração, a rigor seu alvo mais amplo é
toda epistemologia que pretenda fundamentar o conhecimento numa
origem. Nesta empreitada crítica, corrente alguma será
poupada, como textualmente diz:
“Nesta conferência, procurarei demonstrar que as diferenças
entre as escolas empirista e racionalista são em verdade
bem menos expressivas do que as semelhanças, e que ambas
estão erradas. Sustento que estejam erradas embora eu mesmo
seja um empirista e um racionalista. Mas acredito que, embora tanto
a razão como a observação desempenhem funções
importantes, essas funções pouco se assemelham às
que seus defensores clássicos lhes atribuíam. Mais
precisamente, procurarei demonstrar que nem a observação
nem a razão podem ser descritas como fontes do conhecimento,
no sentido em que até hoje têm sido definidas.”
(p.32)
Opõe-se tanto ao que denomina epistemologias otimistas
(Bacon e Descartes) quanto às que designa como pessimistas
(as diversas formas de irracionalismo ou de ceticismo e, sobretudo,
as correntes relativistas que começavam a ganhar terreno).
Considera que ambas as tendências falham por buscarem as fontes
do conhecimento, com esperança ou desespero. Pensa que o
erro fundamental de tais empreendimentos está em não
distinguir com suficiente clareza a origem da validade do conhecimento.
A autoridade dos sentidos, o primado da observação,
a veracitas naturae, de Bacon, ou, a autoridade do intelecto, o
primado das idéias claras e distintas, a veracitas Dei, de
Descartes, não aboliram o papel da autoridade na epistemologia.
Teriam feito apenas substituições, em lugar de Aristóteles
ou a Bíblia, estariam os sentidos ou o intelecto (sic). A
crítica que faz dessas epistemologias otimistas é
que em ambas há o objetivo de propor um método para
alcançar verdades evidentes, seguras. A “leitura do
livro da natureza”, proposta por Bacon, pretendia levar ao
conhecimento ou episteme, não a conjecturas. O mesmo intento
é o da crítica de Bacon ao “preconceito da mente
que prejulga erroneamente a natureza, e possivelmente a julga mal”,
levando à doxa, às opiniões e leituras impróprias
do livro da natureza.[19] Popper reafirma que sua proposta epistemológica
caminha em sentido oposto, isto é, todo conhecimento depende
de um conhecimento prévio, ousado, não sendo passível
de ser justificado, quer por novas observações (estas
teriam papel significativo somente no contexto da testabilidade,
uma vez já formulada a nova teoria), o que levaria a um regresso
infinito, quer pela razão; um conhecimento que só
pode ser avaliado pelos seus produtos. Quanto a tentativa de fundamentação
pela razão, lembra que: “a física de Descartes,
embora admirável sob muitos aspectos, estava errada; contudo,
ela se baseava em idéias reputadas claras e distintas –
que, portanto, deveria ser verdadeiras.” (p.45) Após
reiterar com novos argumentos sua crítica à busca
das fontes do conhecimento, assim como rejeitar a atribuição
das fontes de nossa ignorância aos obstáculos que colocamos
(negligência, obstinação ou preconceitos) à
contemplação da verdade evidente, faz sua proposta:
“Podemos ter a esperança de detectar e eliminar o
erro criticando as teorias e opiniões alheias e – se
treinarmos para isso – as nossas próprias”. (este
último ponto é sem dúvida altamente desejável,
mas desnecessário: se não pudermos criticar nossas
próprias teorias e opiniões, haverá quem o
faça por nós). Essa resposta sintetiza a visão
do que sugiro chamarmos de “racionalismo crítico”:
um ponto de vista, uma atitude e uma tradição que
devemos aos gregos. É muito diferente do “racionalismo”
e do “intelectualismo”, da escola de Descartes e também
muito diferente da epistemologia de Kant. Contudo, é uma
posição que, no campo da ética e do conhecimento
moral, foi abordada por Kant com o seu princípio da autonomia.
Este princípio expressa a percepção do filósofo
de que não devemos aceitar o comando de uma autoridade –
por mais sublime que seja – como base da ética. Sempre
que defrontamos um comando dado por uma autoridade devemos julgar,
criticamente, se obedecê-lo será um ato moral ou imoral.
A autoridade poderá ter o poder de obrigar-nos a obedecer-lhe;
porém, como temos a capacidade de escolher, a responsabilidade
última pela ação nos pertence. Obedecer ou
não uma ordem é uma decisão crítica
que tomamos – como também o é a submissão
a qualquer autoridade.” (p.54)
No momento da citação acima, Popper expõe
não somente sua proposta – o racionalismo crítico
– mas o background ético e, segundo alguns comentadores[20],
político, de sua epistemologia que desempenhará um
relevante papel em sua proposta filosófica.
Popper resume sua posição a respeito das origens
do conhecimento e da ignorância em dez teses. Nestas, reafirma
que não há “fontes últimas” do
conhecimento; “a verdadeira questão epistemológica
não tem a ver com fontes: perguntamos se a afirmativa é
verdadeira – isto é, se concorda com os fatos”;
afirma não haver conhecimento sem conhecimento prévio
– tradição e conhecimento inato – sendo
que ambos devem oferecer-se à crítica; o progresso
do conhecimento científico estaria na modificação
das teorias precedentes; volta a contestar tanto as epistemologias
“otimistas” quanto as “pessimistas”, uma
vez que recusa critérios de verdade, ao mesmo tempo que admite
critérios de reconhecimento do erro e da falsidade; rejeita
a autoridade quer da observação quer da razão,
assim como relativiza a importância da precisão ou
da exatidão que só interessam para a conveniência
do problema em questão; sugere que toda solução
de um problema levanta outros, especialmente, quando é uma
solução corajosa. No que diz respeito ao papel da
linguagem, diz textualmente:
“A precisão da linguagem é um fantasma; os
problemas relativos ao significado e à definição
das palavras na verdade não têm importância ...
As palavras só têm utilidade como instrumentos para
a formulação de teorias; os problemas verbais devem
ser evitados a todo custo.” (p.57)
O Método das Conjecturas e Refutações –
É neste primeiro capítulo do livro que tomamos como
referência desta segunda fase de Popper, que vamos encontrar
sua proposta para o método científico. É também
neste momento que faz sua mais extensa crítica à cientificidade
da psicanálise, a qual deixaremos para um tópico específico.
Mais interessante, no momento, é caracterizar os passos que
dá para firmar sua noção de racionalidade.
Sua argumentação vai basear-se num novo exame da solução
de Hume para a questão da indução e da causalidade.
Embora tais problemas já tenham sido tratados na Lógica
da Pesquisa Científica, são agora abordados com outra
ênfase e nova linguagem, isto é, há uma visível
preocupação em retomar o problema de Hume com o fito
de encontrar uma racionalidade mais ampla do que meramente a de
demarcação entre ciência e pseudociência.
Desta forma,
vai Popper criticar a solução psicológica
de Hume, ou seja, não seria o costume ou o hábito
que dariam um falso suporte à indução. Considera
Popper a psicologia de Hume como popular e baseada no senso comum,
pois, observa que:
A – O resultado típico da repetição
não é a crença numa lei, mas a formação
de um comportamento ou uma expectativa que se tornam inconscientes,
“fisiológicos” (como o andar de bicicleta e suas
regras) e só são percebidos quando algo sai errado
(“não percebemos as batidas de um relógio, mas
notaremos o silêncio, se o relógio parar”).
B – Hábitos e costumes, via de regra, não
se originam na repetição. Dá como exemplo o
andar, falar ou o comer em horas determinadas, comportamentos que
antecedem a repetição.
C – A crença numa lei não corresponde precisamente
ao comportamento que revela a expectativa de uma sucessão
de eventos aparentemente baseados numa lei. “Como admite Hume,
uma única observação pode ser suficiente para
criar uma expectativa ou uma crença – fato que ele
procurava explicar como resultado de um hábito indutivo,
formado por inúmeras longas seqüências repetitivas
que experimentamos em período anterior da nossa vida.”
(p.73)
Discorda do uso não critico da idéia central de
Hume de que a repetição seja baseada na similaridade.
Popper assinala que a similaridade já é fruto de uma
interpretação. Interpretamos como semelhantes eventos
que, então, passamos a tomar como repetições.
Defende que em realidade a idéia de repetição
é fruto de nossa inclinação a esperar regularidades.
“Tratava-se (referindo-se a teoria que ele, Popper, havia
já defendido) de uma teoria baseada em processo de tentativas
– de conjecturas e refutações. Um processo que
permitia compreender por que nossas tentativas de impor interpretações
ao mundo vinham, logicamente, antes da observação
de similaridades. Como havia razões lógicas para agir
assim, pensei que esse procedimento poderia ser aplicado também
ao campo científico; que as teorias científicas não
eram uma composição de observações mas
sim invenções – conjecturas apresentadas ousadamente,
para serem eliminadas no caso de não se ajustarem às
observações (as quais raramente eram acidentais, sendo
coligidas, de modo geral, com o propósito definido de testar
uma teoria procurando, se possível, refutá-la).”
(p.76)
Embora rejeite, com veemência, a teoria das idéias
inatas, advoga que “... todos os organismos têm reações
ou respostas inatas – entre elas, respostas adaptadas a acontecimentos
iminentes. Podemos descrever essas respostas como “expectativas”
sem implicar que tais “expectativas” sejam iminentes.”
(p.77) Ressalta que tais “expectativas inatas” não
devem ser confundidas com um conhecimento válido a priori,
pois, podem equivocar-se. Assim, um bebê nasce com a expectativa
de ser alimentado mas pode ser abandonado e morrer de fome; este
é o seu exemplo.
Com a introdução de “expectativas inatas”
procura não só contrapor-se à solução
de Hume, quanto ao papel do hábito, mas fundamentar seu método,
entendendo que todo cientista trabalha também com um “horizonte
de expectativas”, que são seus interesses teóricos,
seu problema, suas conjecturas e antecipações, as
teorias que aceita como seu pano de fundo e quadro de referências.
A noção de “expectativas inatas” assumirá
um papel cada vez mais relevante na proposta popperiana, principalmente,
em sua última fase, a da “epistemologia evolucionária”.
No momento em discussão ela equivale mais a uma fundamentação
das conjecturas, como ponto de origem de qualquer conhecimento.
Popper aproxima sua proposta de solução ao “problema
de Hume” – a justificação da indução
e da causalidade – à solução kantiana.
Porém, faz então um reparo a Kant – fruto de
uma polêmica leitura da Crítica da Razão Pura
, como discutiremos adiante – ao considerar que Kant estava
certo ao dizer que “nosso intelecto não deriva suas
leis da natureza, mas impõe suas leis à natureza”,
mas errado ao admitir que a dinâmica de Newton fosse válida
a priori. Continua Popper, a partir desta leitura de Kant, a criticá-lo
por propor uma epistemologia que teria sempre êxito, ou seja,
que a natureza aceitaria nossas leis.
O método das conjecturas e refutações tem
também um caráter prescritivo , a ciência deve
progredir assim. É conhecida a afirmação de
Popper que: “da ameba a Einstein é um passo.”
Frisa que a ameba também utiliza o método de ensaio
e erro, porém o cientista “procura eliminar (erros),
consciente e cuidadosamente, na tentativa de refutar suas teorias
com argumentos penetrantes – inclusive o apelo aos testes
experimentais mais severos que suas teorias e engenho lhe permitem
preparar.” (p.81) Faz parte também do anedotário
sua reação, quando questionado por historiadores da
ciência quanto à validade histórica de tais
normas para o progresso científico, que teria sido de retrucar:
“Então ... pior para a ciência.”
Uma vez que nosso objetivo imediato é mostrar como evoluiu
a noção de racionalidade em Popper, cabe assinalar
três pontos que caracterizariam o método racional que
apresenta, após questionar a razoabilidade da crença
de que “o futuro repetirá o passado” mesmo quando
com a alegação de que “as leis naturais não
se alterarão”, contudo, estas só são
naturais ante o fracasso das tentativas, até então,
feitas para refutá-las, retruca Popper. Os pontos mencionados
estão no seguinte parágrafo:
“... Precisamos com efeito rejeitar o ponto de vista de que
a crença na ciência é tão irracional
quanto a crença nas práticas mágicas primitivas
– que os dois tipos de crença implicam a mesma aceitação
de uma ‘ideologia total’ – tradição
ou convenção baseada na fé. Mas precisamos
ter todo o cuidado se formulamos nosso problema, como Hume, em termos
de razoabilidade das nossas crenças. Na verdade, deveríamos
dividir o problema em três partes – o conhecido problema
da demarcação (como distinguir a ciência da
mágica primitiva); o problema da racionalidade do procedimento
crítico ou científico (e o papel exercido pela observação);
finalmente, o problema da racionalidade da nossa aceitação
das teorias, para fins práticos e científicos ...”
(p.87)
A abrangência do racionalismo crítico para o âmbito
dos problemas filosóficos é formulada no capítulo
seguinte – “A Natureza dos Problemas Filosóficos
e suas Raízes Científicas” – quando vai
afirmar que: “os problemas filosóficos genuínos
têm sempre suas raízes em problemas urgentes fora do
campo da filosofia, e morrem se perdem essas raízes.”
(p.100) A discussão racional estaria então norteada
pela solução dos problemas em questão, esses
podem ser filosóficos ou não. Entendemos que Popper
está dando passos, metodológicos, para a formulação
de sua proposta de “lógica (ou análise) situacional”,
formulação que discutiremos no próximo tópico.
Há, como já assinalamos, uma crescente preocupação
de Popper em dar conta do progresso científico, da expansão
do conhecimento, de critérios racionais para a escolha entre
teorias. É patente sua tentativa de afastar o irracionalismo,
evitar o transcendentalismo e afirmar a irrelevância do papel
da linguagem nas questões epistemológicas. Assim lemos
o capítulo 10 de Conjecturas e Refutações (“Verdade,
Racionalidade e a Expansão do Conhecimento”). Em outro
momento vamos discutir o êxito deste empreendimento, por ora,
apenas sintetizamos sua formulação:
Considera que a ciência tem necessidade de crescer, seu
crescimento é que a torna racional e empírica. Se
as teorias saltam de qualquer teoria precedente, não importa
se de mitos ou práticas mágicas, para se oferecerem
como explicações de problemas, sujeitas a testes,
isto não daria um caráter irracional à seleção
da melhor delas. Advoga que temos critérios para a escolha
da melhor teoria, do que seja mesmo uma “boa teoria”.
Estes seriam: maior conteúdo informativo (empírico);
maior força lógica; maior capacidade explanatória
e poder de previsão, o que resultaria numa também
maior possibilidade de ser rigorosamente testada do que suas rivais.
Popper não atribui a “sede de progresso” da
ciência à importância prática ou social
desse progresso, mas à sua significação intelectual.
Defende mesmo uma aproximação à verdade –
verdade como correspondência – assumindo uma posição
realista que se acentuará no correr do restante de sua obra.
Por outro lado, não é qualquer verdade que busca a
ciência, mas verdades interessantes:
“Aceitamos, portanto, a idéia de que a função
da ciência é a busca da verdade, ou seja, de teorias
verdadeira (embora, como observou Xenófanes, podemos nunca
alcançá-las ou mesmo não reconhecer sua veracidade).
Enfatizamos, porém, o fato de que a verdade não é
o único objetivo da ciência. Procuramos mais do que
a simples verdade: buscamos uma verdade interessante – difícil
de ser descoberta. Nas ciências naturais (em oposição
à matemática), procuramos a verdade com alto grau
de capacidade explicativa, no sentido de logicamente improvável.”
(p.255)
Uma vez feito este sumário dos principais argumentos do
racionalismo crítico popperiano, cabe, como nos propomos,
fazer o contraponto, registrando alguns dos questionamentos que
lhe foram feitos. Limitando-nos ao escopo deste trabalho, privilegiamos
a crítica da leitura que Popper faz de Kant.
Wilson Mendonça em Conhecimento e Ação: Uma
Leitura de Popper , rebate no tópico – “Kant
Mal Compreendido” – as reiteradas afirmações
de Popper de que Kant pretenderia deduzir aprioristicamente as leis
Newton, as quais – segundo a leitura de Popper – seriam
para Kant o modelo do conhecimento verdadeiro. A citação
que Mendonça faz de Kant é suficiente, a nosso ver,
para esclarecer tal equívoco:
“Mas quanto a fornecer mais leis além daquelas sobre
as quais repousa uma Natureza em geral, enquanto conformidade dos
fenômenos no espaço e no tempo a leis, para isso não
basta o poder que o entendimento puro tem de prescrever leis a priori
aos fenômenos através de simples categorias. As leis
particulares, porquanto concernem a fenômenos determinados
empiricamente, não podem ser integralmente derivadas das
categorias, muito embora todas estejam submetidas a elas. É
preciso o concurso da experiência para chegar a conhecer estas
leis.” (p.24)
Na mesma linha, Wolfgang Röd[21] discute as relações
entre Popper e Kant, chamando a atenção para a influência
de autores kantianos, hoje bastante esquecidos, como Fries (1773-1843)
e Riehl (1844-1924), no pensamento popperiano. Assinala que a denominação
racionalismo crítico já havia sido utilizada por Riehl,
sendo deste também a influência quanto à opinião
de que Kant haveria se excedido ao negar qualquer possibilidade
de se obter o conhecimento da realidade em si. Röd atribui
a leitura equivocada de Popper, da Crítica da Razão
Pura, ao fato de ter tomado o termo “dedução”
em seu sentido usual, ao passo que Kant deixou claro o que ele pretendia
significar com o termo: “... expor os conceitos puros do entendimento
(e com eles todo o conhecimento teórico a priori) como princípios
da possibilidade da experiência ...” Kant teria adotado
o linguajar dos jurista que entendem por “dedução”
a justificação de uma pretensão legal. Julgamos
que o importante neste ponto é que, de fato, Popper não
aceitaria a solução kantiana, assim formulada por
Röd: “... os objetos, aos quais os conceitos do entendimento
se relacionam, não existem independentes destes, mas são
constituídos por eles. Em uma palavra, os objetos não
são coisas em si, mas fenômenos.”
Um exame profundo e minucioso das relações entre
Popper e Kant vamos encontrar na obra de Sérgio Fernandes:
Foundations of Objective Knowledge – The Relations of Popper’s
Theory of Knowledge to that of Kant, que utilizaremos no próximo
tópico, ao discutir a noção de conhecimento
objetivo, em Popper. Por ora, registramos apenas o comentário
que Fernandes faz da relutância de Popper em discutir o termo
“racional”, a qual atribui a duas ordens de temores:
o indutivismo e o essencialismo, correntes com as quais não
quer ser, através de qualquer leitura que lhe façam,
identificado; limita-se então a localizar o ponto decisivo
da racionalidade na “atitude crítica”.
Apesar de fugir à competência desta dissertação
muitos dos pontos acima mencionados (acrescentaríamos, ainda,
a forma ligeira como Popper trata o problema da linguagem) assinalamo-los
por serem cruciais, interessando-nos para o desdobramento da pesquisa
de que este texto faz parte.
1.1.3 – A EPISTEMOLOGIA EVOLUCIONÁRIA
Nesta última fase em que dividimos a obra de Popper, evidencia-se
sua preocupação em dar uma objetividade ao conhecimento
científico, compatível com sua já então
consolidada opção pelo realismo. Verificamos isto
na obra que tomamos como referência – Conhecimento Objetivo,
Uma Abordagem Evolucionária [Popper,(1973)1975] – desde
a dedicatória e seu prefácio. O livro é dedicado
a Alfred Tarski, em cuja teoria da verdade pretende Popper ter encontrado
os fundamentos lógicos que lhe faltavam para o seu realismo.
No prefácio, de uma forma que o próprio autor reconhece
como rude, afirma sua proposta:
“... se estou disposto a sustentar até o fim a verdade
essencial do realismo do senso comum, considero a teoria de senso
comum do conhecimento como uma asneira subjetivista. Tenho tentado
erradicá-la e substituí-la por uma teoria objetiva
do conhecimento, essencialmente conjectural. Isto pode ser uma pretensão
audaciosa, mas não peço desculpas por ela.”
(p.7)
Como nas obras de referência que selecionamos para caracterizar
as fases anteriores, Popper inicia a discussão sobre o conhecimento
objetivo, retomando o “problema de Hume”. Esta nova
apresentação repete argumentos anteriores, mas como
uma nova roupagem e novo sentido, ou seja, tenta articular sua crítica
lógica à indução com a crítica
psicológica. Considera tal articulação válida
por postular um princípio de transferência, segundo
o qual: “... o que se mantém em lógica também
se mantém – desde que adequadamente transferido –
em psicologia. (Este princípio heurístico é
o que agora chamo ‘princípio de transferência’.)”
(p.34) Acrescenta que passou a encarar a psicologia como uma disciplina
biológica e que assim deveria ser vista qualquer teoria psicológica
sobre a aquisição de conhecimento. Antes de distinguir
conhecimento subjetivo de conhecimento objetivo, retoma a analogia
“Einstein e a Ameba” para reafirmar que embora ambos
partilhem de expectativas inatas, somente o primeiro é crítico
em relação às mesmas, procurando conscientemente
a eliminação do erro; enquanto, a segunda, não
tem essa possibilidade – de enfrentar suas hipóteses
– uma vez que estas fazem parte dela (Ameba). Diz então:
“Só conhecimento objetivo é criticável:
o conhecimento subjetivo só se torna criticável quando
se torna objetivo. E torna-se objetivo quando dizemos o que pensamos;
e mais ainda quando o escrevemos, ou imprimimos.” (p.35) Ainda
neste capítulo inicial – “Conhecimento Conjectural:
Minha Solução do Problema da Indução”
– vai reafirmar, enfaticamente, o papel da verdade como idéia
reguladora. O fato de não podermos justificar nossas teorias
não quer dizer que não as testemos movidos pela busca
da verdade e eliminação da falsidade.
Formula, então, a teoria dos três mundos:
Mundo 1 – seria o mundo dos objetos físicos ou de
estados materiais.
Mundo 2 – seria o mundo de estados de consciência
ou de estados mentais, ou talvez de disposições comportamentais
para agir.
Mundo 3 – seria o mundo de conteúdos objetivos de
pensamento, especialmente de pensamentos científicos e poéticos
e de obras de arte.
A necessidade de tal formulação nos parece uma decorrência
do interesse cada vez maior em ampliar seu sistema, abarcando a
metafísica e a estética. Um passo importante já
havia sido dado quando da introdução da “análise
ou lógica situacional” como método de avaliação
de questões metafísicas, ou seja, todas aquelas que
não são passíveis de testabilidade, pelo menos,
direta. Na falta de testes, de experiências cruciais, a discussão
por meio da “análise situacional” permitiria
dar uma racionalidade ao debate de tais proposições.
Faltava uma fundamentação da objetividade, não-arbitrariedade,
deste campo. Assim, o mundo 3 vem preencher esta lacuna. Embora
sendo um mundo por nós criado, guarda autonomia em relação
ao criador e com este interage. Compara nossas teorias – habitantes
por excelência do mundo 3 – com filhos que geramos,
mas levam vida própria e muito têm a nos ensinar. Além
de sistemas teóricos e, mais importantes que estes, são
os problemas e situações de problema que habitam tal
mundo, assim como o estado de uma discussão ou o estado de
um argumento crítico.
Reconhece algumas das importantes implicações de
sua nova proposta, uma delas seriam os novos sentidos que adquirem
os termos pensamento e conhecimento:
“Minha tese envolve a existência de dois sentidos diferentes
de conhecimentos ou de pensamento: 1) conhecimento ou pensamento
no sentido subjetivo, constituído de um estado de espírito
ou de consciência ou de uma disposição para
reagir; e 2) conhecimento ou pensamento num sentido objetivo, constituído
de problemas, teorias e argumentos como tais. Neste sentido objetivo,
o conhecimento é totalmente independente de qualquer alegação
de conhecer que alguém faça; é também
independente da crença ou disposição de qualquer
pessoa para concordar; ou para afirmar, ou para agir. O conhecimento
no sentido objetivo é conhecimento sem conhecedor; é
conhecimento sem sujeito que conheça.
Frege escreveu a respeito do pensamento no sentido objetivo: ‘Por
pensamento entendo não o ato subjetivo de pensar, mas o seu
conteúdo objetivo ...’” (p.110/1)
Popper se preocupa em distinguir seu Mundo 3 de outras formulações
que poderiam ser aproximadas, como o mundo das idéias (Platão)
ou o espírito absoluto (Hegel), permitindo somente uma aproximação
às concepções de Frege.[22]
O Mundo 3 passa, desde então, a desempenhar um papel fundamental
na epistemologia popperiana, pois, embora autônomo é
uma produção humana (“... um produto natural
humano, comparável a uma teia de aranha”) e interage
com o Mundo 2, tornando-se tal interação a responsável
pelo crescimento do conhecimento objetivo (“... há
estreita analogia entre o crescimento do conhecimento e o crescimento
biológico, isto é, a evolução de plantas
e animais.”).
Na medida em que a introdução desta nova noção
dá a objetividade que faltava – e que satisfaz a Popper
– à “análise situacional”, esta
passa também a desempenhar um crescente papel, através
da fórmula muitas vezes repetida:
P1 ® TT ® EE ® P2
Em que:
P1 : Problema apresentado
TT : Teoria ou Solução Experimental
EE : Eliminação de erros (por discussão crítica
ou por testes experimentais)
P2 : Novo problema surgido
Juntamente com a “análise situacional”, o darwinismo
passou a ter uma crescente importância no pensamento popperiano,
a ponto do subtítulo da obra que tomamos como referência
ser: Uma Abordagem Evolucionária. O que seria uma analogia
– seleção das teorias mais aptas/seleção
das espécies melhor adaptadas – toma por vezes a aparência
de uma identidade ou de um continuum dos processos biológicos
e mentais. Tal indistinção se explica pelo fato de
Popper considerar o darwinismo um exemplo de “lógica
situacional”. Por outro lado, por considerar não passível
de testabilidade o darwinismo, coloca-o na categoria de um Programa
de Pesquisa Metafísica.
Por Programa de Pesquisa Metafísica entende uma teoria
não passível de ser testada, portanto, metafísica
(segundo sua concepção), mas passível de ser
racionalmente criticada por enquadrar-se numa “lógica
situacional”, ou seja, propõe-se a solucionar um problema,
sendo em conseqüência também passível de
ser comparada com teorias rivais. O modelo de Programa de Pesquisa
Metafísica seria a teoria da seleção natural
de Darwin, da qual faz uma longa exposição no item
37 de sua Autobiografia Intelectual (Popper,1977).
Ainda nesta fase, Popper faz algumas considerações
sobre a linguagem e seu papel no desenvolvimento do Mundo 3. Atribui
quatro funções à linguagem, duas inferiores
(expressiva e sinalizadora), as quais partilharíamos com
os animais; e duas superiores (descritiva e argumentativa), próprias
somente dos seres humanos, fruto de um processo evolutivo e realimentadoras
do mesmo, na medida que teriam um papel essencial no Mundo 3.
Resta assinalar que neste período Popper faz, de forma
muito ligeira, uma referência à estética, considerando
que as obras de arte podem ser apreciadas também à
luz da “lógica situacional”. Neste caso procurar-se-ia
identificar o problema com que o artista estaria se defrontando
e sua solução apresentada. A teoria da arte como auto-expressão
é fortemente criticada, assim como qualquer teoria estética
“subjetivista”. Não fica muito claro se Popper
estende sua crítica a qualquer forma de expressionismo.
Sérgio Fernandes (op.cit. p.116) chama atenção
para o equívoco em que cairíamos se tomássemos
a teoria do conhecimento de Popper como naturalista. Este, talvez,
seja o ponto em que se concentra a maior parte das críticas
a esta última fase de Popper. Fernandes acrescenta que freqüentemente
Popper trata como biológico o que para Kant é transcendental,
mas isto não implica que considere idéias metafísicas,
regulativas, como biologicamente explicáveis. É possível
que tal interpretação naturalista surja da aproximação
que Popper faz de seu método de “análise (ou
lógica) situacional” e os processos descritos pela
teoria da evolução darwiniana:
“Caso a visão da teoria darwiniana como lógica
situacional seja aceitável, poderíamos explicar a
estranha similaridade entre minha teoria do crescimento do conhecimento
e o darwinismo: ambos seriam casos de lógica situacional.”
(Popper, 1977, tópico 37)
A citação acima é considerada como “desconcertante”,
por John Watkins (“Popper e o Darwinismo”, in Karl Popper:
Filosofia e Problemas; org. Anthony O’Hear). Watkins discorda
da aproximação referida, lembrando importantes diferenças
entre ambas as teorias, como: “Para Darwin, não poderia
haver algo como um “monstro promissor” (ou seja, a possibilidade
de mutações amplas e úteis); mas a história
da ciência, vista pelos olhos popperianos está repleta
de ‘monstros promissores’.” (op.cit. p.p. 229-230)
Na mesma coletânea, diz Michael Smithurst (no artigo: “Popper
e o Ceticismo da Epistemologia Evolucionista, ou, Para que Foram
Feitos os Humanos?”):
“Popper vê a eliminação de teorias como
um empreendimento progressivo, pois se trata de chegar mais próximo
da verdade; mas a evolução darwiniana é não-progressiva,
e não se aproxima de nada, a um ponto que, ironicamente,
T. S. Kuhn, que também representa sua filosofia da ciência
como ‘evolutiva’, a invoca como motivo para evitar mencionar
a verdade ao se referir às teorias.” (p.p. 249-250)
Esta aproximação com o darwinismo seria, a nosso
ver, onde os críticos mais se concentram nesta última
fase de Popper.
Pensamos que feita esta sumária resenha do desenvolvimento
das concepções de Popper sobre ciência e racionalidade,
podemos passar a discutir especificamente – nosso objetivo
maior – como é tratada a psicanálise na obra
de Popper e que lugar poderia ter em sua epistemologia. Neste capítulo
nos limitaremos exclusivamente aos textos do próprio Popper.
1.2 – POPPER E A PSICANÁLISE
A psicanálise é uma questão para Popper desde
sua juventude (17 anos), quando precocemente foi despertado para
o problema de traçar uma distinção entre a
ciência e a pseudociência. Contudo, ao contrário
do que ocorreu em relação à teoria de Einstein
e ao marxismo, duas teorias que então também o atraíram,
às quais dedicou inúmeros textos, pouco encontramos
em Popper sobre a psicanálise. As referências são
esparsas, ligeiras e, até certo ponto, pouco significativas,
ou mesmo, ambivalentes. Talvez, aí esteja a origem de avaliações
em relação à psicanálise, tão
díspares, inspiradas na epistemologia popperiana, quanto
às de Grünbaum e Klimovsky, conforme discutiremos no
próximo capítulo.
É no primeiro capítulo de Conjecturas e Refutações
(Popper,1972) que vamos encontrar suas críticas mais extensas
à psicanálise. Estas podem ser agrupadas nos seguintes
itens:
Uma excessiva capacidade de explicação. “Não
conseguia imaginar qualquer tipo de comportamento humano que ambas
as teorias (refere-se a de Freud e a de Adler) fossem incapazes
de explicar.” (1972:65)
A idéia de uma “confirmação” da
teoria a partir de experiências anteriores. Neste caso a referência
que faz é diretamente a uma conversa com Alfred Adler, embora
sugira que a atitude dos adeptos de Freud fosse a mesma:
“Os analistas freudianos afirmavam que suas teorias eram
constantemente verificadas por “observações
clínicas”. Quanto a Adler, fiquei muito impressionado
por uma experiência pessoal. Certa vez, em 1919, informei-o
de um caso que não me parecia ser particularmente adleriano,
mas que ele não teve qualquer dificuldade em analisar nos
termos da sua teoria do sentimento de inferioridade, embora nem
mesmo tivesse visto a criança em questão. Ligeiramente
chocado, perguntei como podia ter tanta certeza. ‘Porque já
tive mil experiências desse tipo’ - respondeu; ao que
não pude deixar de retrucar: ‘Com este novo caso, o
número passará então a mil e um ...’
O que queria dizer era que suas observações anteriores
podiam não merecer muito mais certeza do que a última;
que cada observação havia sido examinada à
luz da ‘experiência anterior’, somando-se ao mesmo
tempo às outras como confirmação adicional.”
(1972:65)
A utilização de “observações
clínicas”. “As observações clínicas,
como qualquer tipo de observação, são interpretações
empreendidas à luz das teorias, por esta razão podem
parecer sustentar as teorias à luz das quais foram interpretadas”.
(1972:67, nota3) Além da circularidade das “observações
clínicas”, critica a falta de observações
que fossem empreendidas como testes (“tentativas de refutação”).
Pede também critérios de refutação que
estabelecessem as condições em que a teoria, não
um diagnóstico em particular, fosse passível de ser
refutada.
O “Efeito de Édipo”. Expressão que cunhou
para caracterizar “a influência exercida por uma teoria,
expectativa ou predição sobre o acontecimento previsto
ou descrito”. (1972:67, nota3) Lembra a série de acontecimentos
casuais que levaram Édipo ao parricídio, a partir
da predição deste evento pelo oráculo. Cita
Freud: “... do ponto de vista da teoria analítica,
nenhuma objeção pode ser feita à afirmativa
de que a maioria dos sonhos usados durante uma análise ...
devem sua origem à sugestão (do analista) ... não
há nada neste fato que possa prejudicar a confiabilidade
dos resultados obtidos.” (1972:67, nota 3) Como teremos oportunidade
de discutir adiante, esta é uma citação truncada,
que vai ser corrigida por Grünbaum, em sua crítica não
menos contundente, e mais rigorosa, à psicanálise.
Aceitando, provisoriamente a leitura que Popper faz de Freud, o
que desejamos registrar é sua afirmação de
que tal impossibilidade de uma previsão “arriscada”,
por parte da teoria psicanalítica, torna-a uma teoria irrefutável.
Em que pese tais críticas que, embora gerais, são
incisivas, acredita Popper que “... Pessoalmente, não
duvido da importância de muito do que afirmam (refere-se a
Freud e Adler) e acredito que algum dia essas afirmações
terão um papel importante numa ciência psicológica
‘testável’.” (1972:67)
Examinaremos as objeções de Popper em três
momentos:
A – Neste capítulo pretendemos discuti-las aceitando
suas formulações e explicitando-as, dentro da epistemologia
popperiana, baseados no sumário que fizemos na seção
anterior.
B – No próximo capítulo examinaremos as mesmas
objeções, agora melhor formuladas por Adolf Grünbaum,
que chega a conclusões análogas a Popper, quando levantaremos
nossos questionamentos às mesmas.
C – Num terceiro momento, Capítulo III, examinaremos
os próprios fundamentos da epistemologia popperiana, quando
aplicado às ciências humanas e, em particular, à
psicanálise, contrastando-a com a proposta epistemológica
de Larry Laudan.
As objeções que Popper faz à cientificidade
da psicanálise são compatíveis com os pontos
de vista que desenvolve no que consideramos a primeira fase de sua
epistemologia. Estava então voltado para o estabelecimento
de um critério de demarcação entre ciência
e pseudociência, servindo a psicanálise – assim
como a astrologia – como um bom exemplo da segunda, sobretudo,
por não oferecer possibilidade de ser testada por algum enunciado
básico que a refutasse. Não teria a psicanálise
previsões arriscadas que pudessem servir como experiências
cruciais refutadoras. Além do mais, o que insinua na crítica
às observações clínicas é que
estas não só seriam teorias que interpretariam os
dados, mas que na melhor das hipóteses cairiam nos velhos
vícios dos processos indutivos. Lembremos de uma de suas
famosas frases: “Pode ser útil colecionar insetos,
mas não observações.” Está também
implícito na primeira objeção – “excessiva
capacidade explicativa” – o uso de hipóteses
ad hoc pela psicanálise, pois, só assim poderia explicar
tantos fenômenos. O uso de tal tipo de hipótese –
ou seja: hipóteses auxiliares que não podem ser testadas
independentemente – imunizaria a teoria psicanalítica
de qualquer refutação.
Lembremos algumas das críticas que na seção
anterior relacionamos ante este tão rigoroso critério
de demarcação. Referimo-nos, em especial, às
críticas de Lakatos e Feyerabend que, utilizando exemplos
de outros campos do conhecimento (ciências naturais), recusam
que os cientistas trabalhem como propõe Popper e, Lakatos
em particular, consideram ingênuo (ou dogmático) o
falseacionismo desta fase da obra de Popper, Acrescentaríamos
que Gregorio Klimovsky (in, Las Desventuras Del Conocimiento Científico,
1999), autor de declarada orientação popperiana, após
discutir minuciosamente as dificuldades de utilização
de experiências cruciais, assim como o caráter necessariamente
convencional dos enunciados de primeiro nível (observacionais),
conclui: “ ... toda afirmação acerca da base
empírica é de natureza hipotética e é,
portanto, revisável ... Se isto é assim, o que resta
da ambição da ciência de dispor de uma série
de conhecimentos indiscutíveis a partir dos quais se possam
contrastar hipóteses e teorias ? Desde o ponto de vista filosófico,
a resposta é que tal conhecimento indiscutível não
existe.” (op.cit.; p.223) Popper certamente concordaria com
tais afirmações. Contudo, seu critério de demarcação
foi excessivo, a nosso ver, não tanto pelo rigor, mas por
substituir a questão da racionalidade pela da cientificidade,
ou, pelo menos, borrar tal distinção num primeiro
momento de sua obra. Mesmo que aceitemos o critério proposto
– com todo o necessário caráter hipotético
dos refutadores – não nos satisfaz a vasta gama de
produção científica que ficaria relegada à
pseudociência, num limbo epistemológico pouco diferenciado:
psicanálise/astrologia/teoria da seleção natural
de Darwin. Pensamos que a mesma insatisfação acometeu
a Popper, daí propor o método de conjecturas e refutações
e a “análise ou lógica situacional”. Uma
vez que neste capítulo nos propusemos a manter o exame dentro
da própria obra popperiana, vamos investigar como a psicanálise
poderia receber outro tratamento.
Curiosamente, Popper não retoma o tema da teoria psicanalítica
no restante de sua obra. Entretanto, a proposta de utilização
da “análise situacional” visa exatamente fornecer
um espaço mais amplo para a discussão daquelas teorias
que embora não testáveis – metafísicas,
na terminologia popperiana - são passíveis de discussão
racional, uma vez que se propõem a dar conta de problemas
reconhecidos pela comunidade científica. Lembraríamos
que, nesta segunda fase, Popper passa a falar com maior insistência
de escolha entre teorias rivais. Na fase anterior, talvez, o que
avalizasse mais a crítica de Lakatos seria o fato da pretensão,
dogmática, de refutação de uma teoria isolada.
Assim, oferecemos um exemplo, a partir de Freud, de uma das teorias
componentes da teoria psicanalítica que, exatamente, pretende
dar conta de uma situação-problema. Não entraremos
na discussão da solução dada por Freud, porém
registramos sua formulação, uma vez que corresponde
a nosso ver ao modelo que Popper espera encontrar nas legítimas
teorias metafísicas.
Referimo-nos à obra de Freud: Análise do Ego e Psicologia
do Grupo (Freud, 1921, S.E. 18: 66-143). Vejamos como o texto freudiano
se enquadra numa análise situacional:
Problema (P1) : Os indivíduos quando em grupo, sob certas
condições, se comportam, sentem, pensam, de forma
muito diversa do que seria esperado por suas formas usuais de comportamento,
sentimento e pensamento.
“E esta condição (pertencer a um determinado
grupo) é sua inserção numa coleção
de pessoas que adquiriram as características de um ‘grupo
psicológico’. O que é, então, um ‘grupo’
? Como ele adquire a capacidade de exercer uma tão decisiva
influência sobre a vida mental do indivíduo ? E qual
é a natureza da mudança mental que ele impõe
ao indivíduo ?” (Freud, S.E. 18: 72)
Freud considera que é tarefa de uma teoria psicológica
sobre grupos dar conta dessas três questões. A validade
do problema e a pertinência das questões são
dados pelo reconhecimento pela comunidade científica, que
apresentou várias teorias a respeito, e pela observação
cotidiana. No correr do texto, Freud examina as principais teorias
disponíveis: a de Le Bon, a de McDougall e a de Trotter.
Aponta concordâncias e assinala as insuficiências de
tais teorias, como a título de exemplo: a incapacidade de
darem resposta adequada ao fenômeno do pânico. Este
ocorreria de forma desproporcional ao perigo existente. Assim, as
teorias que atribuíam o pânico ao “contágio”
(“indução primária”), como a de
McDougall, não dariam conta do contra-exemplo de estados
de pânico em ausência de graves perigos, ou, capacidade
do grupo de enfrentar reais estados de graves ameaças.
Teoria proposta (TT) : Os grupos psicológicos se formam
por desenvolver uma ligação entre seus membros de
caráter libidinal[23] e seu líder representar para
cada membro seu próprio ideal.
Tal teoria dá conta das três perguntas acima levantadas,
esclarece o papel do líder melhor que as anteriores e deu
margem a experiências de tratamento psicanalítico em
grupo, assim como à utilização de técnicas
grupais para diversas formas de assistência. Foi o caso das
experiências de W. R. Bion e Jonh Rickman (Bion, 1970)[24]
no exército britânico – na recuperação
psicológica de combatentes – e de W. R. Bion na Tavistock
Clinic (Bion, 1970).
Eliminação de erros (EE) : As experiências
citadas exigiram a correção da teoria original (T1),
a qual não dava suficientemente conta do papel e do processo
de escolha do líder, entre outros problemas (P2), .
Novos problemas (P2) : Como é escolhido o líder
num grupo ? Qual o seu papel (além do que Freud havia sugerido)
? Como explicar a formação e o papel que exercem os
sub-grupos, dentro do grupo maior ?
Nova teoria (T2) : Para dar conta dessas questões uma nova
teoria foi formulada (Bion, 1970), colocada a teste, através
da aplicação de sua metodologia em grupos variados,
surgindo novos problemas (P3) que exigiram repensar e formular nova
teoria (T3)[25], a partir da correção de erros (EE).
A experiência psicanalítica com grupos, somente possível
a partir do trabalho original de Freud, permitiu a formulação
de novas teorias, eliminando erros anteriores, ou seja, tendo uma
maior capacidade explicativa e abrindo novos campos de investigação.
Os resultados empíricos se expressaram pela capacidade que
a experiência citada forneceu de uma mais rápida e
melhor recuperação de combatentes, assim como pela
possibilidade de utilização de técnicas grupais
no tratamento de pacientes internados em hospitais psiquiátricos
(a experiência de comunidades terapêuticas, na qual
a própria vida comunitária representava um importante
fator terapêutico, reduzindo o tempo tradicional de internação
e facilitando a ressocialização), e ainda nos tratamentos
em hospitais gerais de pacientes com distúrbios psicossomáticos
ou com resistência a tratamentos de enfermidades crônicas
(como a diabetes), entre outras aplicações de terapêuticas
grupais.
Citamos, muito sumariamente, este exemplo de análise situacional
de uma das teorias componentes da teoria psicanalítica, apenas
para registrar um ponto ao qual voltaremos no Capítulo III,
quando discutirmos as insuficiências da epistemologia popperiana
para lidar com as ciências humanas e, em particular, com a
psicanálise. Adiantamos que, apesar das insuficiências,
há um espaço que não foi explorado por Popper
para uma aproximação mais criativa e menos dogmática
da “questão da psicanálise”.
A fim de suprir a ausência de comentários mais extensos
e consistentes a respeito da psicanálise, na obra de Popper,
utilizaremos o seu texto A Lógica das Ciências Sociais
(tradução brasileira da participação
de Popper in The Positivist Dispute in German Sociology. Popper,
1978) como fonte de discussão do padrão de racionalidade
que propõe para as ciências humanas. Neste trabalho,
em que expõe seu ponto de vista em vinte e sete teses, encontramos
uma subordinação da psicologia à sociologia,
o que a nosso ver descaracteriza o objeto, ou, para usar uma linguagem
popperiana, a própria natureza dos problemas com que a psicologia
se defronta.
Na vigésima-segunda tese diz:
“A psicologia é uma ciência social visto dependerem,
grandemente, nossos pensamentos e ações de nossas
condições sociais. Idéias como (a) a imitação,
(b) a linguagem, (c) a família, são obviamente idéias
sociais; está claro que a psicologia da aprendizagem e do
pensamento e também, por exemplo, a psicanálise, não
podem existir sem utilizar uma ou outra dessas idéias sociais,
o que demonstra ser impossível explicar a sociedade exclusivamente
em termos psicológicos, ou reduzi-la à psicologia.
Logo, não podemos considerar a psicologia como a base das
ciências sociais.
O que não podemos, a princípio, explicar psicologicamente,
e o que devemos pressupor em toda explicação psicológica
é o ambiente social do homem. A missão de descrever
esse ambiente social (isto é, com a ajuda de teorias explicativas
– como declaradas anteriormente – visto que descrições
livres de teorias não existem) é a tarefa fundamental
da ciência social.” (p. 30)
Tais afirmações, à primeira vista, chocantes,
se tornam mais coerentes (talvez, excessivamente) quando articuladas
com as demais teses em que faz sua proposta de uma “lógica
situacional”, para as ciências sociais. Este ponto fica
mais claro na vigésima-quinta tese:
“A investigação lógica da Economia
culmina com um resultado que pode ser aplicado a todas as ciências
sociais. Este resultado mostra que existe um método puramente
objetivo nas ciências sociais, que bem pode ser chamado de
método de compreensão objetiva, ou de lógica
situacional. Uma ciência orientada para a compreensão
objetiva ou lógica situacional pode ser desenvolvida independentemente
de todas as idéias subjetivas ou psicológicas. Este
método consiste em analisar suficientemente a situação
social dos homens ativos para explicar a ação com
a ajuda da situação, sem outra ajuda maior da psicologia.
A compreensão objetiva consiste em considerar que a ação
foi objetivamente apropriada à situação. Em
outras palavras, a situação é analisada o bastante
para que os elementos que parecem, inicialmente, ser psicológicos
(como desejos, motivos, lembranças e associações),
sejam transformados em elementos da situação. O homem
com determinados desejos, portanto, torna-se um homem cuja situação
pode ser caracterizada pelo fato de que persegue certos alvos objetivos;
e um homem com determinadas lembranças ou associações
torna-se um homem cuja situação pode ser caracterizada
pelo fato de que é equipado, objetivamente, com outras teorias
ou com certas informações.” (p. 31/2)
A seguir, na mesma tese, Popper vai dar o “exemplo de Carlos
Magno”, ou seja, a possibilidade de compreendermos objetivamente
as ações de Carlos Magno caso possuíssemos
todas as informações de que o personagem dispunha
e assim estabelecermos seus alvos e objetivos. Acha que esse método
– lógica situacional – é:
“...racional, empiricamente criticável, e capaz de
melhorias. Podemos, por exemplo, encontrar uma carta que demonstre
que o conhecimento à disposição de Carlos Magno
era diferente do que admitimos em nossa análise. Por contraste,
as hipóteses psicológicas ou caracterológicas
são dificilmente criticáveis por argumentos racionais.”
( Vigésima-sexta tese, p. 32)
O exemplo acima de aplicação da “análise
situacional” às ciências humanas levanta uma
gama de problemas que tocam as bases da epistemologia popperiana.
Como reservamos um espaço para a discussão mais abrangente
da mesma, registramo-lo apenas para ilustrar como Popper tenta lidar
com a questão – há uma referência en passant
à psicanálise – nesta fase de pleno desenvolvimento
de seu racionalismo crítico e epistemologia evolucionária.
Por ora, interessa-nos encontrar um lugar para a discussão
da racionalidade da psicanálise. Pensamos tê-lo encontrado
em sua proposta de Programas de Pesquisa Metafísica. Como
já assinalamos na seeção anterior, foi este
o espaço que Popper reservou para a teoria da seleção
natural de Darwin, teoria não-testável, portanto,
metafísica, mas que recebeu um tratamento mais atencioso
por parte de Popper. Chegou mesmo a sugerir aperfeiçoamentos
na teoria darwiniana, bastante ousados, porém preciosos para
alguns comentadores, como Watkins (1977).
Quando lembramos o texto de Freud sobre grupos, pensávamos
precisamente na possibilidade da epistemologia popperiana aproveitá-lo
para uma interlocução que poderia superar dificuldades
mútuas.
Em resumo: entendemos que a teoria psicanalítica, dentro
de critérios de cientificidade estritamente popperianos,
não se sustenta como ciência. Deverá a psicanálise
encontrar sua racionalidade, na proposta popperiana, como um Programa
de Pesquisa Metafísica. Posição idêntica
encontramos entre popperianos, como Renée Bouveresse Quilliot
e Roland Quilliot que são citados por Elizabeth Saporiti
(1997: 69), partilhando a mesma opinião:
“Assim sendo, a Psicanálise poderia ter pretensões
de racionalidade, mesmo não sendo científica. (Passa
a citar os Quilliot): “E, quando Popper aproxima Freud de
Darwin, alegando que a teoria freudiana, da mesma forma que a darwiniana,
oferece o que ele chama de ‘uma lógica’ das situações,
ele está reconhecendo abertamente o caráter racional
da teoria freudiana. Pode-se assim concluir que, na posição
de Popper, nada impediu jamais que se atribuísse à
teoria freudiana o mesmo estatuto que o próprio Popper vem
atribuindo há muito tempo à teoria da evolução:
o de ser um ‘programa de pesquisa metafísica’
útil à ciência.”[26]
Resta ainda um comentário sobre a ambivalência de
Popper em relação à psicanálise. No
mesmo capítulo já citado de Conjecturas e Refutações,
diz;
“Mencionaria aqui um ponto de concordância com a psicanálise.
Esta afirma que os neuróticos interpretam o mundo de acordo
com um modelo pessoal fixo, que não é facilmente abandonado,
e cujas raízes podem remontar às primeiras fases da
infância. Um modelo ou esquema adotado muito cedo se mantém
e serve como padrão interpretativo para toda experiência
nova, verificando-a, por assim dizer, e contribuindo para enrijecê-la.
Esta é uma descrição do que chamei de “atitude
dogmática”, por comparação com a atitude
crítica que tem em comum com ela a facilidade da adoção
de um sistema de expectativas – um mito, talvez: hipótese
ou conjectura -, mas que estará sempre pronta a modificá-lo,
a corrigi-lo e até mesmo a abandoná-lo. Estou inclinado
a achar que a maioria das neuroses podem ser devidas ao não
desenvolvimento da atitude crítica – a um dogmatismo
enrijecido (e não natural); à resistência às
exigências de adaptações de certas interpretações
e respostas esquemáticas. Resistência que em si pode
ser explicada, em certos casos, por uma injúria ou um choque
que provocou medo e o aumento da necessidade de segurança,
analogamente ao que acontece quando ferimos um membro, que depois
temos medo de usar – o que o enrijece. (Pode-se até
mesmo argumentar que o caso do membro é não só
analógico à resposta dogmática, mas um exemplo
desse tipo de resposta). Em qualquer caso concreto, a explicação
precisará levar em conta o peso das dificuldades que podem
ser consideráveis, especialmente num mundo complexo e cambiante:
experiências feitas com animais nos ensinam que variando as
dificuldades impostas, podemos provocar vários graus de comportamento
neurótico.” (p.79)
Infelizmente, Popper não explorou esse seu insight sobre
a importância, para a psicanálise, da distinção
entre um “pensamento dogmático” e um “pensamento
crítico”, que será um dos pontos fundamentais
para a compreensão da psicose, assim como do tipo de racionalidade
que a psicanálise utiliza. A exploração deste
ponto poderia também atender à sugestão de
Klimovsky (1987:282) quanto à psicanálise poder oferecer
alguma contribuição à epistemologia.
Reservamos para o final desta seção nossos comentários
sobre duas noções que aparecem com freqüência
nas críticas de Popper e que retornarão nas de Grünbaum,
principalmente a primeira. Referimo-nos às noções
de sugestão e de ambivalência. Tais conceitos merecem
um lugar especial dada a forma bastante equivocada como são
tratados, tradicionalmente, pelos críticos da psicanálise.
Quanto ao problema da sugestão, Freud se defrontou com o
mesmo desde cedo e discute-o em vários momentos, dos quais
vamos selecionar: duas de suas Conferências Introdutórias
(Freud, 1916/7; S. E. XVI) – as de número XXVII e XXVIII
– e seu texto já citado sobre os grupos humanos (Freud,
1921; S. E. XVIII). Nestas obras reconhece o fenômeno da sugestão
como um fenômeno universal, ou seja, que ocorre em qualquer
situação, tanto nas relações do indivíduo
consigo mesmo (auto-sugestão), como com um outro (hipnotizador,
parceiro amoroso), quanto nos grupos.[27] A rigor, a teoria psicanalítica
nasceu da tentativa de superar certos problemas – tanto clínicos
como teóricos – que os diversos métodos terapêuticos
baseados no uso da sugestão, que surgiram no final do século
XIX, ofereciam. Do ponto de vista teórico, a noção
de sugestão se fez presente em todas as teorias sobre os
grupos humanos em voga na época, sob diversos nomes: imitação
(Tarde), contágio (Mc Dougall), prestígio (Le Bon),
com bem assinala Freud; a respeito do que comenta:
“Devemos, pois, estar preparados para a afirmação
que a sugestão (ou mais corretamente a sugestibilidade) é
realmente um irredutível e primitivo fenômeno, um fato
fundamental na vida do homem. Tal, também, era a opinião
de Berheim, de cujas impressionantes artes fui uma testemunha no
ano de 1889. Contudo, posso recordar de mesmo então ter tido
um sentimento de abafada hostilidade a esta tirania da sugestão.
Quando um paciente que se mostrava inacessível, ouvia o grito:
‘O que você está fazendo? Vous vous contresuggestionez!’
, eu dizia para mim mesmo que isto era uma evidente injustiça
e um ato de violência. Pois, o homem certamente tinha o direito
a contra-sugestões se estavam tentando subjugá-lo
com sugestões. Mais tarde, minha resistência tomou
a direção de protestar contra a visão de que
a sugestão, que tudo explicava, fosse ela própria
isenta de explicação. Eu repetia o velho quebra-cabêça:
Christophorus Christum, sed Christus sustulit orbem: Constiterit
pedibus dic ubi Christophorus? (‘Cristovão sustentava
Cristo; Cristo sustentava o mundo; Diga, onde Cristovão punha
então seu pé?’).” (Freud, 1921; S.E. XVIII:89)
Freud vai propor como fundamento da sugestão a libido, cujo
papel na dinâmica dos grupos já comentamos anteriormente.
Em qualquer relação pessoal a libido se faz também
presente pelo fenômeno da transferência, ou seja, o
paciente, como qualquer pessoa, transfere para o outro vínculos
afetivos que reproduzem relações anteriores, sendo
as mais básicas as relações com os primeiros
objetos de amor e ódio: pais e irmãos, por exemplo.
Segundo a concepção freudiana, a possibilidade de
alguma forma de influência, e não nos referimos somente
à terapêutica, está matizada pelo fenômeno
da transferência. Esta pode ser positiva (amorosa) ou negativa
(agressiva). Quando consideramos como muito equivocadas e superficiais
as críticas que se baseiam no papel da sugestão, assim
o julgamos pelos seguintes motivos:
A – Ignoram a universalidade do fenômeno.
B – Não discutem a teoria psicanalítica da
sugestão, que envolve o fenômeno da transferência
e sua teoria da libido, da mesma forma que não apresentam
outra teoria concorrente.
C – Não discutem a sugestão e a resistência
à mesma, ou seja, as duas formas de transferência que
Freud propõe. Importante lembrar que não só
na psicanálise, mas na tradição psiquiátrica,
tão importante quanto a sugestibilidade é o seu oposto:
o negativismo, freqüente em quadros psicóticos. Da mesma
forma, não é discutido o aspecto seletivo da sugestão,
isto é: o paciente não aceita qualquer interpretação
ou explicação que lhe seja sugerida.
D – Como há pouco mencionamos, ao citar Popper sobre
o “pensamento dogmático” (neurótico) e
o “pensamento crítico” (normal), não pretende
a teoria psicanalítica explicar o sintoma ou a história
do paciente, mas sim permitir que este encontre significações,
as quais serão sempre provisórias, permitindo re-significações,
o que o “pensamento dogmático” não possibilita.
Lembramos que um dos sintomas característicos – patognomômico
– das psicoses é a impossibilidade de um “pensamento
crítico”. O delírio – para tomarmos a
forma paradigmática do pensamento psicótico –
é necessariamente irredutível à argumentação
racional; sua verdade é evidente e manifesta, suas idéias
são, muitas vezes, claras e distintas, não dando margem
a dúvidas, segundo o ponto de vista do paciente. Neste sentido
é que pensamos ter escapado a Popper, como a outros epistemólogos
da mesma tradição, que desprezam o irracional, a contribuição
fundamental da psicanálise ao problema da psicose: a de denunciar
a sua pretensão de constituir-se em um conhecimento privado[28].
Quanto à noção de ambivalência, Popper
admite a existência do fenômeno mas o considera um obstáculo
à testabilidade da psicanálise:
“Mas que resultados clínicos poderiam refutar satisfatoriamente
não só um diagnóstico analítico em particular
mas a própria psicanálise? Os analistas têm
discutido critérios e concordado com eles? Não existirá,
ao contrário, toda uma série de conceitos analíticos
como, por exemplo, o conceito de ‘ambivalência’
(não estou sugerindo que esse conceito não exista)
que tornariam difícil, se não impossível, chegar
a um acordo sobre tais critérios?” (Popper, 1972:67)
Poderíamos pensar que um psicanalista de inclinação
popperiana responderia às inquietações de Popper,
sugerindo a aplicação do método da “análise
situacional”, próprio para as teorias não testáveis
(metafísicas, segundo Popper) pelos métodos próprios
das ciências empíricas. Contudo, este ponto escapa
a Popper que na continuação do trecho acima citado
vai mostrar sua surpresa, após uma citação
um tanto truncada de Freud, pelo fato deste reconhecer que muitos
dos sonhos usados nas análises devem-se à sugestão
do analista. Como procuramos há pouco esclarecer o fenômeno
da sugestão é reconhecido pela teoria psicanalítica
e é um de seus problemas.[29] O mesmo ocorre com a noção
de ambivalência. A psicanálise não pretende
eliminá-la de sua ontologia, pelo contrário, oferecer
uma teoria que lhe dê sentido.
O termo ambivalência foi utilizado por Freud, tornando-se
progressivamente mais relevante em sua teoria, a partir da introdução
do mesmo na psiquiatria, por Eugen Bleuler, como nos conta Laplanche
e Pontalis (1970):
“O termo ‘ambivalência’ foi por Freud tomado
a Bleuler, que o criou. Bleuler considera a ambivalência em
três domínios. Voluntário (Ambitendentz): o
indivíduo quer ao mesmo tempo comer e não comer, por
exemplo. Intelectual: o indivíduo enuncia ao mesmo tempo
uma proposição e o seu contrário. Afectivo:
ama e odeia num só movimento a mesma pessoa.
Bleuler faz da ambivalência um sintoma preponderante da
esquizofrenia, mas reconhece a existência de uma ambivalência
normal.
... Bleuler acaba por privilegiar a ambivalência afectiva,
e é este sentido que orienta a utilização freudiana.”
(Laplanche e Pontalis, 1970:49)
Como é comum ocorrer na história da psiquiatria,
uma noção como a de ambivalência surge, inicialmente,
na descrição de quadros graves, sendo mesmo um dos
sintomas básicos da esquizofrenia [Bleuler (1911), 1960],
e aos poucos é identificada como constituinte da vida psíquica
normal. Como registramos na Introdução o inusitado
daqueles fenômenos que não são absorvidos pela
psicologia normal seriam os tipicamente psicóticos, como
é o caso das idéias delirantes. Coube à teoria
psicanalítica fazer uma radical aproximação
entre essas duas classes de fenômenos – psicóticos
e normais – embora mantendo um diferencial. É neste
sentido que a ambivalência vai aparecer na teoria psicanalítica
como a manifestação de um permanente conflito entre
tendências pulsionais – amor e ódio pelo mesmo
objeto, por exemplo. Está tal conceito – ambivalência
– também na base da noção de conflito
mental, sem a qual ficaria ininteligível a proposta psicanalítica
e, segundo esta, a própria compreensão da vida psíquica.
Consideramos extremamente equivocada a crítica epistemológica,
baseada no fato da teoria psicanalítica utilizar o conceito
de ambivalência, quando tal crítica não apresenta
outra teoria rival para dar conta do problema, ao mesmo tempo que
reconhece a legitimidade de sua existência.
CAPÍTULO II: DUAS AVALIAÇÕES DA TEORIA PSICANALÍTICA,
NA TRADIÇÃO POPPERIANA.
Apresentamos duas avaliações conflitantes da teoria
psicanalítica, tomando como referência a tradição
popperiana: a de Adolf Grünbaum e a de Gregorio Klimovsky.
Ao falarmos em tradição popperiana estamos introduzindo
e utilizando a noção de Larry Laudan (1977) de Tradição
de Pesquisa que, conforme anunciamos na Introdução,
é o referencial epistemológico que empregamos nesta
dissertação. Consideramos válida a arregimentação
de ambos os autores, apesar das diferenças que os mesmos
tenham da leitura de Popper. Grünbaum, por várias vezes,
manifestou sua discordância com o critério de demarcação
popperiano, entre ciência e pseudociência (Grünbaum,
1979), defendendo um indutivismo neo-baconiano. Entretanto, apesar
de discordâncias, aparentemente tão profundas, seu
principal e constante interlocutor é Popper, sua noção
de cientificidade baseia-se na de refutabilidade, da mesma forma
que, tal como Popper, rejeita um papel relevante para qualquer abordagem
hermenêutica ou que se fundamente na moderna filosofia da
linguagem. Em suma, os padrões básicos de racionalidade
e cientificidade que emprega não se distinguem daqueles que,
no capítulo anterior, classificamos como os de Popper em
sua primeira fase. Por outro lado, Klimovsky, em suas principais
obras (1998; 1999), adota declaradamente critérios popperianos,
empregando o que denomina o método hipotético-dedutivo
em sua versão complexa, considerando-o aplicável às
ciências humanas, inclusive à psicanálise.
Em conseqüência, julgamo-nos autorizados a examinar,
através desses autores, o comportamento da epistemologia
popperiana quando aplicada à psicanálise. É
certo que Popper dificilmente concordaria com quaisquer das conclusões
a que tais autores chegam, mas é certo também que
Popper aceitaria que tratássemos sua teoria epistemológica
como um objeto do Mundo 3, passível de ser testado, avaliado,
discutido, independente de quem a formulou, que é a postura
que estamos assumindo.
2.1 – A CRÍTICA FILOSÓFICA DE ADOLF GRÜNBAUM
No domínio do debate epistemológico que envolve
a tradição popperiana, Adolf Grünbaum –
um prestigiado nome da filosofia da ciência contemporânea
– realizou a mais minuciosa e consistente crítica epistemológica
à teoria psicanalítica de que temos conhecimento.
Dentro de uma perspectiva própria, utiliza concepções
popperianas, corrigindo muitas vezes as afirmações
imprecisas e esparsas de Popper a respeito da psicanálise.
Tomaremos como referência o seu texto mais longo e detalhado
: The Foundations of Psychoanalysis – A Philosophical Critique
(Grünbaum, 1984), não só pela abrangência
de sua crítica, como pela grande repercussão que teve
e, ainda tem, no ambiente psicanalítico. Não temos
notícia de alguma resposta às suas críticas
com igual amplitude. Como não temos a pretensão de
preencher esta lacuna, o que exigiria um trabalho específico,
limitar-nos-emos a articular suas críticas às de Popper,
apontar nossas concordâncias e discordâncias, e, seguindo
a mesma metodologia do capítulo anterior, deixar nossos questionamentos
sobre as bases de sua proposta epistemológica para uma seção
própria, no capítulo seguinte.
Julgamos mais objetivo apresentar a avaliação de
Grünbaum a partir de suas conclusões:
“Três principais conclusões emergem das avaliações
que fiz nos capítulos precedentes.
1 – Na medida em que a evidência para o corpo psicanalítico
é atualmente tida como derivar das produções
dos pacientes em análise, esta garantia é acentuadamente
fraca.
2 – Em vista do meu relato das falhas epistêmicas
inerentes ao método psicanalítico, pareceria que a
validação das hipóteses cardinais de Freud
tem que vir, se possível, principalmente de estudos extra-clínicos,
ou epidemiológicos, ou mesmo experimentais, bem configurados
(ver Masling 1983; Eysenck e Wilson 1973). Contudo esta avaliação
é uma tarefa para o futuro.
3 – Apesar da pobreza das credenciais clínicas, talvez
possa ocorrer que a brilhante imaginação teórica
de Freud tenha sido real e fortuitamente bem sucedida para a psicopatologia
ou a compreensão de alguma sub-classe de atos falhos. Entretanto,
enquanto a psicanálise possa assim ser vista como cientificamente
viva, ela não está atualmente nada bem, pelo menos
no que diz respeito aos seus fundamentos clínicos. Nem há
um favorável veredito de tais achados experimentais como
tivemos ocasião de discutir em profundidade no capítulo
3 (p.p.188-189), cap. 4 (p.p.202-205) e cap. 9 (p.270).”
A crítica de Grünbaum, em sua obra principal, se divide
em duas partes: uma longa introdução, na qual procura
contestar a visão hermenêutica da psicanálise,
e o corpo central do livro, no qual discute sempre a partir dos
próprios textos e standards epistemológicos de Freud.
A crítica à hermenêutica foge ao escopo de
nosso trabalho e registramos apenas a estratégia fundamental
da argumentação de Grünbaum, que se dirige sobretudo
a Habermas e Paul Ricoeur.
A idéia que Grünbaum atribui aos hermeneutas é
a de que Freud teria se auto-equivocado, propondo ser a psicanálise
uma ciência natural, obedecendo a leis causais semelhantes
às utilizadas na física ou química, enquanto
o método que emprega seria, na realidade, o das ciências
humanas. Estas não se enquadrariam no mesmo tipo de leis
que as ciências naturais, uma vez que obedeceriam à
“causalidade do destino”. Termo que Habermas tomaria
de Hegel e, aplicando à psicanálise, sugeriria que
a mesma procura compreender os sintomas, quadros clínicos,
à luz de uma narrativa histórica do indivíduo.
Assim, os resultados terapêuticos – segundo o entendimento
de Grünbaum da posição dos hermeneutas –
seriam fruto da liberação, pela dissolução
da repressão (isto é, dos conteúdos ideativos
de que o paciente não tem consciência), de uma mais
livre capacidade de auto-reflexão. Grünbaum vai criticar,
desde a dicotomia ciências naturais e ciências humanas,
até o papel da auto-reflexão. Considera que Habermas
tem uma visão equivocada da metodologia das ciências
naturais, uma vez que estas também dependeriam do contexto
histórico, não diferindo das ciências humanas
a este respeito. O contexto histórico de que Grünbaum
fala refere-se às ocorrências dos eventos – físicos,
materiais – num determinado tempo, sob certas condições,
ligados a um passado de outros eventos. Quanto à crítica
à auto-reflexão, o papel da consciência não
é abordado, sendo a crítica centrada na incompetência
do paciente de ter um papel privilegiado no processo de avaliação
epistemológica do trabalho psicanalítico. Tais objeções
são mais voltadas a Habermas.
Em relação a Ricoeur, as críticas vão
dirigir-se ao fato de restringir o domínio de conhecimento
do objeto psicanalítico à linguagem. Ou seja, Ricoeur
considera que o campo epistemológico da psicanálise,
por excelência, é o diálogo clínico,
sendo que somente por seu intermédio poder-se-ia fazer uma
avaliação da validade da teoria psicanalítica.
Grünbaum rejeita tal limitação e faz referência
aos elementos não-verbais dos quais a psicanálise
faz extenso uso. O ponto que Grünbaum enfatiza, em sua crítica,
é o fato de que: “ ... Ricoeur insiste que ’a
psicanálise não satisfaz os standards da ciência
de observação e os ‘fatos’ com que ela
lida não são verificáveis por múltiplos,
independentes observadores ... não há ´fatos´nem
qualquer observação de ‘fatos’ em psicanálise
mas a interpretação de uma narrativa histórica’.”
(p.p.44-45) Dentro de sua proposta epistemológica, que não
distingue ciências naturais e humanas, Grünbaum ora reduz
as formulações de Ricoeur a um modelo explicativo
causal, ora vai apontar o que entende ser incoerências na
investigação de Ricoeur, como quando: “ ...
ele (Ricoeur) nada oferece em relação à validação
de hipóteses causais, das quais, ele reconhece, a teoria
de Freud está repleta !” (p.68)
Ainda nesta parte introdutória, de crítica aos hermeneutas,
Grünbaum nega a distinção entre razões
e causas. Sua crítica a tal distinção se remete
ao trabalho de von Wright (1977) – Explanation and Understanding
– que caracteriza as explicações sobre as ações
humanas como “ ... fazendo os fenômenos teleologicamente
inteligíveis mais do que previsíveis (ou explicáveis)
a partir do conhecimento de suas causas eficientes.” (citação
que faz de von Wright 1977:8, na p.69). Sua discussão deste
ponto de vista fica bastante prejudicada, pois, como em outras ocasiões,
procura reduzir a argumentação oponente a explicações
causais, sem contudo examinar detalhadamente os fundamentos do texto
de von Wright. Mesmo que tal ocorra pelo fato do tema ser tratado
numa introdução, pareceu-nos também indicativo
o papel secundário que dá à linguagem. A respeito
do silogismo prático, exposto por von Wright, Grünbaum
formula-o da seguinte maneira:
“A questão da razão versus causa (r vs. c)
se desenvolve por referência ao assim chamado ‘silogismo
prático’, que tem a seguinte forma: uma ação
A é tida como levada a efeito porque o agente objetiva alcançar
o alvo G e acredita que realizando A atingirá G. E, indicando
estas razões estabelecidas para fazer A, R vs. C nega que
um estado de um agente de ter uma razão para ação
(no sentido explicativo) possa pertencer a uma espécie do
gênero ‘causa’.” (p.70)
Grünbaum critica a especificidade do silogismo prático
para a compreensão do agir humano sem, entretanto, discutir
os pontos fundamentais da argumentação de von Wright
que envolvem, por exemplo, o espaço da liberdade (o agente
poderá ou não realizar a ação A, embora
tenha todos os motivos, ou razões, para tal) e a distinção
lógico-linguística das descrições, que
tomam as formas: causais ou teleológicas, segundo estruturas
lógicas distintas que as sustentam.
A linha argumentativa de Grünbaum, nesta introdução,
está dirigida não somente à crítica
das teorias hermenêuticas da psicanálise, mas ao estabelecimento
do método que irá empregar na parte principal de seu
livro:
“Declaradamente, seus (de Freud) critérios de validação
são essencialmente aqueles do indutivismo hipotético-dedutivo
(Freud, S.E. 1914, 14:77; 1915, 14:117; 1923, 20:32). E a adesão
a eles é a marca distintiva da probidade científica
que requeria para sua teoria. Daí, cumpre a mim avaliar os
argumentos de Freud em favor de sua monumental teoria clínica
e terapia da personalidade, segundo seus próprios standards.”
(p.93/4)
Antes de entrarmos na avaliação de Grünbaum,
gostaríamos de assinalar que, pelo afirmado acima, o autor
seguirá uma metodologia própria, diversa da de Popper,
em sua crítica. Utilizará o que entende, a nosso ver,
com uma boa fundamentação nos textos que cita de Freud,
ser os próprios standards deste. Não toma, portanto,
como Popper supostamente faria, a psicanálise como uma teoria
do Mundo 3, passível de ser investigada independente das
intenções de seu criador. A propósito, é
bom lembrar que outros autores, como von Wright (1977), consideram
que Freud utiliza tanto formulações causalistas como
teleológicas, ou seja, tanto explica, como compreende.
Grünbaum desenvolve a parte mais substantiva de sua crítica
aos fundamentos da psicanálise em duas etapas: inicialmente,
vai defender – em oposição a Popper –
que é uma teoria testável e, em seguida, que os testes
– baseados na experiência clínica – a refutam.
Vejamos esses dois momentos.
A refutabilidade da psicanálise é evidenciada por
diversas citações de Freud, nas quais este propõe
possibilidades de ocorrências clínicas que invalidariam
a teoria psicanalítica. Grünbaum dá como exemplo
o texto: Um Caso de Paranóia que Contraria a Teoria Psicanalítica
da Doença (Freud, S.E. 1915, XIV: 263-272). Vamos deter-nos
neste exemplo, uma vez que o autor o utiliza, assim como o tema
da paranóia freqüentemente serve de paradigma para a
sua tese quanto à refutabilidade da teoria psicanalítica.
Cita Freud: “A ‘teoria psicanalítica da paranóia’,
que está em questão no trabalho, é a hipótese
que o amor homossexual reprimido é causalmente necessário
para o sofrimento por delírios paranóides (Freud,
S.E. 1915, XIV: 265-266).” (p. 108) Por outro lado, o caso
clínico descrito é o de uma jovem que se sente perseguida
por seu amante, ou seja, por uma pessoa do sexo oposto, enquanto
que , segundo a teoria psicanalítica da doença, o
perseguidor deveria ser do mesmo sexo. Tal previsão seria
possível, pois, o amor homossexual reprimido apareceria à
consciência como o seu oposto – em vez de eu o(a) amo
, eu o(a) odeio e/ou ele(ela) me persegue. O caso, descrito de uma
forma brilhantemente sucinta por Freud, é esclarecido por
este, uma vez que surge uma figura feminina, na segunda entrevista
que tem com a paciente, que se revela, segundo a interpretação
freudiana, como a verdadeira perseguidora. Tratar-se-ia de um final
feliz. Para Freud, estaria salva a teoria psicanalítica da
paranóia e, para Grünbaum, estaria demonstrada a possibilidade
de refutação da psicanálise que, ao contrário
do que afirmava Popper, prevê situações em que
a teoria poderia ser refutada, além de apresentar-se como
uma teoria baseada em nexos causais necessários, contrariando
a posição dos hermeneutas. Entretanto, julgamos que
um exame mais cuidadoso de toda a situação pode levar
mais a dúvidas do que a confirmações, neste
ou naquele sentido.
Grünbaum retira importantes implicações para
a sua tese deste exemplo, resumindo-as no seguinte trecho:
“Daí, este exemplo tem uma ampla e importante moral:
sempre que indicadores empíricos possam garantir a ausência
de um determinado fator patogênico teórico P, assim
como um diagnóstico diferencial pela presença de uma
determinada neurose teórica N, então uma hipótese
etiológica de uma forte forma ‘P é causalmente
necessária para N’ é clara e empiricamente falseável.
Seria falseável para qualquer vítima de N que não
tivesse sido sujeita a P. Pois, a hipótese prediz que qualquer
um que não esteja assim sujeito (ao fator P) será
poupado dos tormentos de N, uma predição que tem uma
implicação profilática significativa. Da mesma
forma, a hipótese retrocede que qualquer caso de N foi também
um caso de P. Daí, se há indicadores empíricos
para a presença de P, então esta retroatividade pode
ser empiricamente instanciada por uma pessoa que exemplifica tanto
N quanto P.” (p.109)
Mesmo reconhecendo as ressalvas que Freud faz, no trabalho estudado,
quanto ao papel do fator patogênico – amor homossexual
reprimido – no desenvolvimento da paranóia, insiste
Grünbaum que é tal situação paradigmática
da refutabilidade da teoria psicanalítica, ao contrário
do que postulava Popper. Vai mais longe: “ ... se a homossexualidade
reprimida é realmente um fator etiológico específico
na paranóia, então o declínio do tabu que cerca
a homossexualidade em nossa sociedade deveria ser acompanhado por
decréscimo de incidência de paranóia masculina.”
(p. 111) No mesmo local, pouco adiante, faz também suas ressalvas,
quanto ao teste que propõe, acrescentando a cláusula
ceteris paribus, ou seja, não havendo outros elementos propiciadores
da enfermidade operando. Não considera, porém, que
tal restrição seja significativa, tal o caráter
de conditio sine qua non (sic) do fator patogênico.
Acrescenta, sempre citando a obra de Freud, vários outros
momentos em que Freud coloca sua teoria em posição
suscetível de teste empírico, que é o tema
de toda essa seção de seu livro (p.p.97-126). Seu
diálogo é com Popper, chegando inclusive a criticar
a inconsistência do caso imaginado em Conjecturas e Refutações
(Popper,1972) – o da criança sendo afogada ou salva
por alguém (para ambas as situações a psicanálise
teria explicações) – mostrando sua fragilidade
epistemológica. Tudo isso o leva a formular uma das teses
centrais de seu livro:
“É uma tese central deste ensaio que o método
clínico psicanalítico e as inferências causais
(etiológicas) baseadas nele são fundamentalmente falhos,
sob o ponto de vista epistemológico, por razões outras
que não a sua não-falseabilidade.” (p.124)
Antes de entrarmos nas outras razões de Grünbaum,
julgamos conveniente examinar a situação que toma
como modelo para demonstrar a falseabilidade da teoria psicanalítica,
a fim de não acumularmos tantas questões como as que
surgirão quando de nossa avaliação da proposta
epistemológica da tradição popperiana.
Vamos listar concordâncias, discordâncias e, sobretudo,
questionamentos acerca de pontos que achamos indecidíveis:
A - Concordamos com Grünbaum que a teoria psicanalítica,
tal como foi formulada por Freud, se propõe a ser testada
nos moldes tradicionais, ou seja: por indução e por
refutação, de forma categórica. Considerar
o método freudiano como indutivismo hipotético-dedutivo,
tudo indica corresponder a uma posição pessoal de
Freud. Isto não impede que ela seja tratada de outros ângulos
e que o próprio Freud tenha utilizado, por exemplo, o método
de conjecturas e refutações. Um bom exemplo deste
último procedimento é o famoso Caso Schreber, onde
Freud – após a exposição do livro de
memórias do Dr. Schreber – conjectura interpretações,
à luz da psicanálise, do relato de Schreber e salta
para uma teoria explicativa da paranóia. Neste exemplo, a
indução não desempenhou papel algum e temos
uma teoria, que se não se oferece a teste, se oferece à
análise crítica.
B - Por outro lado, discordamos de Grünbaum no que diz respeito
ao seu entendimento da teoria psicanalítica da paranóia.
No texto que é tomado como modelo há comentários
de Freud que podem esclarecer-nos quanto à complexidade do
fenômeno e a impossibilidade de reduzi-lo tão simplesmente
ao esquema: P (fator patogênico: amor homossexual reprimido)
® N (paranóia). Vejamos o que diz Freud:
“ ... A literatura psicanalítica já havia colocado
o ponto de vista de que pacientes sofrendo de paranóia estão
em luta contra a intensificação de suas tendências
homossexuais – um fato indicativo de uma escolha de objeto
narcísica. E mais uma outra interpretação havia
sido feita: que o perseguido é no fundo alguém a quem
ama ou amou no passado. [nota de rodapé do editor: Ver Parte
III da análise de Freud de Schreber (1911c)] Uma síntese
das duas proposições conduziria-nos à necessária
conclusão que o perseguido deveria ser do mesmo sexo da pessoa
perseguida. Nós não mantínhamos, é verdade,
como sem exceção e universalmente válida a
tese que a paranóia é determinada pela homossexualidade;
mas isto era somente porque nossas observações não
eram suficientemente numerosas; a tese era uma daquelas que em vista
de certas considerações somente se torna importante
quando pode reivindicar aplicação universal. Na literatura
psiquiátrica não há certamente falta de casos
em que o paciente se imagina perseguido por uma pessoa do sexo oposto.
Contudo, uma coisa é ler tais casos, e outra completamente
diferente é vir a ter contato pessoal com um desses pacientes.
Minha própria observação e análises,
assim como aquelas de amigos tinham até então confirmado
a relação entre paranóia e homossexualidade
sem qualquer dificuldade.” (Freud, S.E. XIV:265)
Esta citação, tão na linha da compreensão
de Grünbaum, precisa ser vista à luz desta que se segue:
“O perseguidor original (itálico de Freud) –
a agência de cuja influência o paciente deseja escapar
– é aqui, mais uma vez, não um homem mas uma
mulher. A chefe sabia acerca do caso amoroso da jovem, desaprovava-o,
e mostrava sua desaprovação através de misteriosos
indícios. A fixação da paciente a seu próprio
sexo opunha-se a suas tentativas de adotar uma pessoa do outro sexo
como um objeto amoroso. Seu amor por sua mãe tinha se tornado
o porta-voz de todas aquelas tendências que, representando
a parte de uma ‘consciência’, procuram deter um
primeiro passo da jovem no sentido do novo caminho para a satisfação
sexual normal – em muitos aspectos um caminho perigoso; e
realmente ela (‘consciência’) foi bem sucedida
em perturbar a relação da jovem com os homens.”
(Freud, S.E. XIV:267)
Quando Freud fala de escolha objetal narcísica, refere-se
a uma forma de eleição do objeto ao qual a libido
vai dirigir-se que, de alguma forma, representa o próprio
paciente – como ele é, como ele foi ou como ele gostaria
de ser. Não se trataria necessariamente de uma ligação
homossexual (no sentido coloquial da expressão), o que importa
é o caráter indicativo de uma regressão ao
narcisismo, noção que Freud desenvolveu após
formular sua teoria acerca da paranóia. A rigor, em seu estudo
de um caso de paranóia, o já mencionado Caso Schreber,
em 1911, já surge o embrião do conceito que vai ser
desenvolvido em 1914 (Uma Introdução ao Narcisismo).
Importante frisar a noção de conflito mental que a
citação acima evidencia. Tal conflito ocorre na intimidade
do indivíduo, inconscientemente, e independe de fatores externos,
como os tabus sociais. De nada adiantaria, no caso estudado, que
houvesse uma aceitação social de suas tendências
homossexuais, pois, quem não as aceitava era a própria
paciente! Isto, por um lado, invalidaria a proposta de teste feita
por Grünbaum e reforçaria a suposição
de Popper, quanto a não-testabilidade da teoria psicanalítica.
Este é um dos motivos de termos, no capítulo anterior,
sugerido a análise situacional como melhor método
de avaliação da teoria psicanalítica, dentro
dos parâmetros popperianos.
C – O comentário anterior nos leva a algumas considerações
sobre a proposta epistemológica de Grünbaum que nos
parece instanciar o que Lakatos denominou de “falseacionismo
dogmático”. Sua tentativa de isolar uma hipótese
para testar toda a teoria mostra-se inviável. Apesar de no
próximo capítulo retomarmos este ponto, gostaríamos
de fazer alguns comentários sobre a paranóia que é
um quadro mental muito propício à discussão
dos limites da razão, do uso de padrões de racionalidade
e temas afins que interessam à pesquisa da qual esta dissertação
faz parte.
D - Restringindo-nos ao campo da psicanálise e, em particular,
às formulações de Freud, concordamos com Laplanche
e Pontalis (1970) no sentido de que ele usa o termo tal como a tradição
kraepeliniana. Ou seja: paranóia seria um delírio
sistematizado que se organizaria numa personalidade que permanece
conservada, não apresentando portanto deterioração
(por exemplo: uma pseudo-demência, como ocorre no caso das
esquizofrenias), assim como distúrbios da senso-percepção
(alucinações). Por este motivo, os verdadeiros casos
de paranóia são de difícil diagnóstico
e, raramente, são encontrados em pacientes que procuram tratamento,
psiquiátrico ou psicanalítico. Em geral, vamos encontrar
paranóicos no forum (eternos reivindicadores de heranças,
de indenizações, ou outras questões sempre
obscuras quanto a seus fundamentos), nos movimentos místicos,
políticos, ou, em casos policiais (principalmente, em crimes
passionais, por delírio de ciúmes). Lembremos que
o caso a que Grünbaum se refere, é um caso em que Freud
foi chamado a entrevistar a cliente de um advogado. Não se
tratava de alguém que procurou tratamento, devido a um sofrimento
mental, mas uma jovem que desejava resguardar sua honra, através
da justiça. Julgamos oportuno este breve registro por considerar
que qualquer que seja a teoria – psicanalítica ou psiquiátrica
– que se proponha a dar conta do fenômeno da paranóia
será de problemática testabilidade empírica
e deverá explicitar o padrão de racionalidade empregado.
Grünbaum continua sua crítica filosófica aos
fundamentos da psicanálise, examinando a validade da investigação
clínica proposta por Freud e a teoria da repressão.
Discutiremos estes dois pontos de forma um tanto sucinta, uma vez
que, como já dissemos, mereceriam uma resposta tão
extensa quanto o trabalho do autor, que é bastante minucioso.
Nosso interesse, contudo, é mais geral: explicitar a racionalidade
de sua crítica, no âmbito da tradição
popperiana.
O Argumento de Correspondência (“Tally Argument”)
– Esta é uma expressão criada por Grünbaum,
a partir de sua leitura de Freud, para caracterizar os pressupostos
de Freud para validar epistemológicamente o método
psicanalítico de investigação clínica.
Tais pressupostos seriam:
A – Negação de contaminação epistêmica
irremediável dos dados clínicos, pela sugestão.
B – Distinção fundamental entre o tratamento
psicanalítico e as terapias rivais que trabalham essencialmente
por sugestão.
C – Afirmação da validade dos principais fundamentos
do método psicanalítico – como a etiologia específica
sexual das diversas psiconeuroses – por métodos retrospectivos,
ou seja, reconstituições das origens da enfermidade.
D – Possibilidade de garantia, independente de controle
estatístico, de resultados favoráveis da intervenção
psicanalítica.
E – Reconhecimento de que o paciente, uma vez livre de conflitos
reprimidos, está credenciado a dar informações
fidedignas por auto-observação introspectiva acerca
de suas motivações.
Grünbaum vai procurar demonstrar que tais pressupostos são
falhos, fundamentalmente, pelo papel decisivo da sugestão.
Admite que Freud está atento a tal objeção,
quando afirma: “Afinal, seus conflitos (do paciente) somente
serão satisfatoriamente resolvidos e suas resistências
superadas se as idéias antecipatórias que lhe são
dadas correspondam com o que é real nele. Tudo aquilo que
nas conjecturas do médico é inadequado desaparece
no curso da análise ... deve ser retirado e substituído
por algo mais correto.” (Freud, S.E. 1917, 16: 452) (grifo
nosso).
É a partir dessa citação que surge a idéia
de “argumento de correspondência”, pois, a mera
sugestão não daria conta da remissão do quadro
patológico, o qual teria suas raízes na atividade
inconsciente. Precisa haver uma “correspondência”,
entre a interpretação e o real conflito inconsciente.
Grünbaum vai tirar daí também outras exigências
epistemológicas, como a que chamou:
Tese da Condição Necessária (NCT – Necessary
Condition Thesis) – Acredita Grünbaum, a partir principalmente
das leituras de duas conferências de Freud (“Sobre a
Transferência” e “A Terapia Analítica”),
poder afirmar que segundo Freud:
“1) somente o método psicanalítico de interpretação
e tratamento pode permitir ou mediar ao paciente o insight correto
dos fatores patogênicos inconscientes de sua psiconeurose;
2) o correto insight da etiologia de seu sofrimento e da dinâmica
inconsciente de seu caráter é, por sua vez, causalmente
necessário para a conquista terapêutica de sua neurose.
Eu me referirei à conjunção destas duas reivindicações
freudianas com sua “Tese da Condição Necessária”
ou, por brevidade, ‘NCT’.” (p. 140)
Julga Grünbaum que Freud, com o correr de sua obra, abandonou
estes princípios epistemológicos (“Tese da Condição
Necessária”), tornando seu projeto muito frágil
em relação a outras terapias e mesmo à remissão
espontânea de sintomas. As críticas se dirigem a dois
pontos: subestimação do papel da sugestão na
terapia analítica e aceitação da substituição
de sintomas. Tal substituição, ou mesmo manutenção
de sintomas (como resquícios de repressões), comprometeria
as exigências epistemológicas de validação
da teoria e técnica psicanalíticas, propostas pelo
próprio Freud.
Grünbaum dedica toda a segunda parte de seu livro a questionar
a teoria da repressão, uma vez que para Freud: “A teoria
da repressão é a pedra fundamental em que repousa
toda a estrutura da psicanálise. É a sua parte mais
essencial.” (Freud, S.E. 1914, XIV:16) Segundo tal teoria,
conteúdos ideativos não aceitos pelo ego consciente,
seriam recalcados para o inconsciente, ou, a rigor, não alcançariam
a consciência, permanecendo inconscientes, enquanto os afetos
a eles ligados se manifestariam de formas variadas: ligar-se-iam
aos sintomas, somáticos (como no caso das histerias), ou,
a outras idéias muito afastadas das originais recalcadas
(como no caso das obsessões). Deste modo, os sintomas satisfariam
de alguma forma a necessidade de expressão daquilo que foi
recalcado. Tal mecanismo estaria na base também dos sonhos
(cujos conteúdos de que temos lembrança – conteúdo
manifesto – representam de forma quase alegórica, conteúdos,
ou desejos, a que não podemos ter acesso direto – o
conteúdo latente), nos lapsos de linguagem ou atos falhos.
Como Freud propõe que a “associação
livre” – o falar livremente do analisando, sem preocupação
de articulação consciente de temas ou restrições
de qualquer ordem – a interpretação dos sonhos,
dos lapsos de linguagem e das parapraxias seriam o meio, por excelência,
de atingirmos os tais conteúdos inconscientes, vai Grünbaum
questionar a validade de tal metodologia. Não acredita encontrar
nexo causal no processo de associação de idéias,
o qual além de estar contaminado pela sugestão do
analista, inclusive a oriunda das interpretações (que
propiciariam certa linha de associação), incidiria
no erro lógico do post hoc ergo propter hoc (depois disso,
logo por causa disso), da confusão do antecedente com causa.
Considera Grünbaum que as teorias rivais – como as de
base psicolingüisticas – ofereceriam explicações
melhores para os lapsos, prescindindo das obscuras noções
de conteúdos inconscientes.
Uma vez que foge aos interesses da presente dissertação
discutir especificamente o exame de Grünbaum, mas apenas tomá-lo
como um modelo de teoria epistemológica que refuta a teoria
psicanalítica, pensamos poder deter-nos aqui, acrescentando
somente os comentários que faz sobre as teorias pós-freudianas
da psicanálise. A rigor, Grünbaum não as examina,
pois considera que:
“ ... uma vez que estas teorias neo-revisionistas pós-freudianas
são, em realidade, psicanalíticas, elas abraçam
alguma versão etiológica da teoria da repressão.
Mais ainda, elas se baseiam epistemicamente na livre associação
para a investigação clínica por fatores patogênicos
propostos e outros determinantes inconscientes do comportamento,
e a suspensão das repressões como um meio de efetuar
a terapia ... minha crítica epistêmica das hipóteses
originais de Freud aplica-se com igual força às bases
etiológicas, desenvolvimentistas e terapêuticas destes
sucessores.” (p.246-7)
Grünbaum reitera tal posição em outros textos
(1983), o que nos parece devido a duas ordens de fatores: o restrito
contato que teve com a teoria de relações de objeto,
principalmente a chamada “escola inglesa” (Melanie Klein,
Money-Kyrle, W.R.Bion, por exemplo), e o caráter fortemente
prescritivo de sua proposta epistemológica, que o impede
de observar outras possibilidades de racionalidade e, sobretudo,
como realmente os cientistas trabalham. Lembremos neste último
caso os questionamentos de Lakatos e Feyerabend a Popper.
Melvin Lansky (1997)[30] faz uma esclarecedora síntese
sobre a “crise filosófica da psicanálise”
produzida a partir das contribuições de Melanie Klein
(teoria das relações de objeto)[31]. Estas contribuições,
embora se mantenham dentro do paradigma freudiano, levantam novas
questões para a epistemologia da psicanálise, tais
como: as origens das fantasias inconscientes, o processo de formação
de símbolos, o papel da experiência, entre outras,
que vêm ao encontro de questões da tradição
filosófica. Considera Lansky que esses temas, no entanto,
não foram tratados filosoficamente por Melanie Klein, mas
por alguns de seus seguidores, como Money Kyrle (a partir de uma
perspectiva humeana) e, em especial, por W. R. Bion (com forte influência
kantiana). Como voltaremos a este ponto em nossas Considerações
Finais, deixamos apenas o registro no sentido de assinalar a equivocada
avaliação de Grünbaum, quanto aos desenvolvimentos
da teoria psicanalítica.
2.2 – A TEORIA MODELÍSTICA DE GREGORIO KLIMOVSKY
Gregorio Klimovsky, epistemólogo argentino, matemático
de formação, acerca de trinta anos vem participando
de um grupo de estudos, com psicanalistas de vasta experiência
e respeitabilidade, sobre epistemologia e psicanálise. Klimovsky
se dedica à história da filosofia da ciência,
tendo publicado: Las Desventuras del Conocimiento Científico
– Una introducción a la epistemología (Buenos
Aires: A-Z editora, 1994) e, mais recentemente, em colaboração
com Cecilia Hidalgo, antropóloga que trabalha em epistemologia
das ciências sociais, La Inexplicable Sociedad – Cuestiones
de epistemología de las ciencias sociales (Buenos Aires:
A-Z editora, 1998). Ambos os livros são de orientação
popperiana. Contudo, é em seu ensaio “Aspectos Epistemológicos
da Interpretação Psicanalítica” (in,
Fundamentos da Técnica Psicanalítica, cap. 34, de
Horácio Etchegoyen), que vai expor mais detalhadamente sua
proposta epistemológica para a psicanálise:
“... cremos que a psicanálise é mais exatamente
uma teoria modelística: proporciona um modelo de funcionamento
do aparato psíquico do qual se desprendem certas conseqüências
sobre a conduta manifesta dos seres humanos e, em particular, dos
pacientes. Nesse sentido, parece que em psicanálise é
mais freqüente, ainda que não obrigatório, que
operem leis do tipo que estamos agora estudando; se ocorre internamente
algo do tipo B, é que se vai observar algo do tipo A. Na
classe de casos que nos está preocupando, portanto, interpretar
será propor uma hipótese e ver como dela sai, dedutivamente,
com o auxílio de leis, o que queríamos explicar.”
(op. cit., p. 275)
Julgamos que uma melhor compreensão da proposta de Klimovsky,
exige que esclareçamos sua posição mais ampla
em relação à epistemologia e aos problemas
que se colocam à filosofia da ciência, dentro da tradição
anglo-saxã a que nos restringimos. Klimovsky defende a adoção
do método hipotético-dedutivo em sua versão
complexa – esta é a terminologia que emprega –
quer para as ciências naturais, quer para as humanas. Em sua
obra maior (Klimovsky, 1994), a psicanálise é freqüentemente
citada como um dos empreendimentos científicos que levanta
questões ao emprego do método hipotético-dedutivo
em sua versão simples. Tal distinção corresponde,
em grande parte, a que Lakatos faz entre o falseacionismo dogmático
ou ingênuo (método hipotético-dedutivo em sua
versão simples) e o falseacionismo sofisticado (método
hipotético-dedutivo em sua versão complexa), o qual
seria “uma espécie de desenvolvimento natural do pensamento
popperiano.” (Klimovsky, 1994:217) Embora Klimovsky encampe
tal posição de Lakatos, não se identifica necessariamente
com o restante da proposta lakatosiana, mantendo-se mais fiel à
linha de pensamento de Popper.
As razões que levaram Klimovsky a postular uma nova versão
para o método hipotético-dedutivo são semelhantes
às de Lakatos e prendem-se às insuperáveis
dificuldades que cercam as experiências cruciais. Estas são
examinadas em detalhes, tanto no plano teórico como através
da discussão de exemplos históricos.
Do ponto de vista teórico, o esquema abaixo mostra a complexidade
do problema e, a conseqüente, questionabilidade da refutação
dogmática (ingênua ou naturalista, na terminologia
de Lakatos):
Hipóteses e Teorias Pressupostas – Constituem o marco
teórico que envolve a Teoria específica que está
sendo testada. Nesta última surgem sempre termos que provêm
de outras teorias dadas como aceitas. Exemplifica, mostrando que
uma teoria química que fale de ‘átomos’
e ‘valências’, não poderá deixar
de utilizar termos como ‘massa’ e ‘força’
que provêm da mecânica newtoniana. Esta, por sua vez,
emprega noções geométricas baseadas na geometria
euclidiana. Estaríamos, assim, sempre pressupondo várias
teorias, prévias à específica.
Hipóteses Colaterais – Abarcaria as hipóteses
vinculadas ao material de trabalho escolhido para o teste. Compreenderiam
as já suficientemente corroboradas e aceitas (Hipóteses
Subsidiárias) e as que aceitamos provisória e transitoriamente
a fim de que a investigação possa ser realizada (Hipóteses
Auxiliares). Klimovsky chama a atenção para esta distinção
– entre as hipóteses subsidiárias e as auxiliares
– uma vez que nem sempre os epistemólogos (como Hempel,
in Filosofia da Ciência Natural) o fazem, tornando-as inquestionáveis.
Contudo, lembra que as Hipóteses Subsidiárias apontam
para o nosso conhecimento do material empregado, enquanto as Hipóteses
Auxiliares revelam nossa ignorância do mesmo, não tendo
sido, previamente, contrastadas com outras.
Dados Observacionais – Seriam as “condições
iniciais, as condições de contorno e outros enunciados
singulares de primeiro nível que informam acerca da base
empírica e, portanto, do contexto particular no qual se organiza
a investigação.” (p. 213)
Conseqüências Observacionais – Seriam os dados
observacionais que poderiam ser deduzidos de todas as hipóteses
acima listadas, incluindo as que constituem a Teoria Específica,
além dos Dados Observacionais. A verdade ou falsidade das
Conseqüências Observacionais determinaria, no falseacionismo
ingênuo, a corroboração ou refutação
da Teoria Específica; por outro lado, como o esquema abaixo
mostra, tal afirmação está muito distante das
reais possibilidades da investigação que, para os
defensores do holismo, o que estaria em jogo seria todo, ou, pelo
menos, uma boa parte do conhecimento humano.
Klimovsky apresenta exemplos históricos em que o enunciado
observacional era, em realidade, falso ou não pertinente.[32]
Entretanto, julgamos mais significativa a discussão que o
autor faz do caráter hipotético dos enunciados de
primeiro nível, quando afirma ser esta também a posição
de Popper. Isto o leva a dizer que:
“Se o que estamos dizendo é certo, toda afirmação
acerca da base empírica tem natureza hipotética e
é, portanto, revisável ... Se isto é assim,
o que resta da ambição da ciência de dispor
de uma série de conhecimentos indiscutíveis a partir
dos quais se possam contrastar hipóteses e teorias ? Desde
o ponto de vista filosófico, a resposta é que tal
conhecimento indiscutível não existe.” (p.223)
Entretanto, Klimovsky ao mesmo tempo que concorda com o falibilismo
popperiano sustenta, na mesma linha de Popper, o aspecto racional,
objetivo e progressista do empreendimento científico. Isto
fica explicitado no epílogo de sua obra, o qual denomina:
“A ciência no banco dos réus”, quando diz:
“Admitimos, portanto, sem disfarces, que perante à
posição cética de certos pensadores ‘inovadores’
... que preferimos sustentar a tese ‘reacionária’
daqueles que pensam que na história da ciência se observa
uma marcha zigzagueante porém progressiva em direção
a resultados cognitivos e práticos cada vez mais confiáveis,
de importância crucial para a compreensão da realidade
natural, humana e social, e também para a formulação
de estratégias destinadas a atuar sobre elas em benefício
de nossa espécie. ... a experiência não é
arbitrária: permite-nos adotar uma base empírica,
que logo se verá se é adequada, ou, não.”
(p. 399)
Klimovsky radica a racionalidade científica em sua metodologia,
na medida em que considera que esta garante a objetividade científica.
Neste sentido, valoriza a experiência e o papel da observação,
por razões metodológicas.
Uma vez feita esta breve resenha da posição epistemológica
esposada por Gregório Klimovsky, pensamos poder apresentar
com maior clareza sua específica discussão sobre a
teoria psicanalítica para, em seguida, contrastá-la
com a de Grünbaum.
Como já foi mencionado, é no exame dos fundamentos
epistemológicos da interpretação psicanalítica
que vamos encontrar sua avaliação da psicanálise.
Registra a pequena ocorrência do termo “interpretação”
na obra de Freud, em que pese sua obra mais famosa ser A Interpretação
dos Sonhos (Freud, 1900; S.E. IV e V), mas aí “ ‘interpretação’
quer dizer algo assim como uma chave explicativa do que está
ocorrendo na psique ou na conduta do sujeito e não outra
coisa.” (p. 269) Entretanto, interpretação vai
aparecer com vários outros sentidos, que vai agrupar segundo
os seguintes aspectos:
Epistemológico: “ ... se relaciona com o tipo de conhecimento
que a interpretação oferece. Uma interpretação
é uma espécie de teoria em miniatura a respeito do
que há por trás de um fenômeno manifesto. Desse
modo, interpretar implica produzir um modelo ou uma hipótese
de modo semelhante ao que faria um físico, quando quer destacar
o que há por trás de um efeito. A isso poderíamos
chamar de a vertente gnosiológica da interpretação,
que coloca problema epistemológicos típicos.”
(p.270)
Semântico: “ ... tem a ver com significações.
O que aqui se faz é algo parecido com a captação
de significados que o material ao qual a interpretação
se refere está oferecendo. Aqui o trabalho se parece ao de
um lingüista ou de um semiótico, e é de uma ordem
diferente da gnosiológica, apesar de que não se pode
deixar de reconhecer que há aspectos comuns.” (p. 270)
Instrumental: “ ... é, talvez, em certo sentido, terapêutico,
onde a interpretação psicanalítica é
uma ação: o que interpreta está fazendo algo
com o fim de produzir uma modificação ou um determinado
efeito no paciente.” (p. 270)
Klimovsky vai deter-se, fundamentalmente, no aspecto epistemológico.
Distingue o material observável do não-observável.
No caso da psicanálise, o material manifesto seria o empírico,
o observável; o discurso, a conduta do paciente, por exemplo.
O material não-observável corresponderia ao material
latente, inconsciente. Este material latente da psicanálise
corresponderia ao que, na epistemologia anglo-saxônica, se
denomina “objetos teóricos”: aqueles que se conjecturam
com auxílio da teoria, mas que não são diretamente
observáveis. Na medida em que o inconsciente é o “objeto
teórico”, por excelência, da psicanálise,
a questão para o psicanalista é a de sustentar o que
disser a respeito do inconsciente. Se chamarmos A o material observável
(manifesto) e B , o inobservável (latente), a interpretação
é o que vincula A com B.
O autor distingue dois tipos básicos de interpretação:
a interpretação-leitura e a interpretação-explicação.
No caso da interpretação-leitura, A é condição
suficiente para B, enquanto B é condição necessária
para A. Dá um exemplo, que considera ingênuo mas esclarecedor,
baseado nas teorias de Freud sobre a inibição que
o superego exerceria sobre o ego:
“Na realidade, do ponto de vista epistemológico, o
superego e a ação inibitória não são
material manifesto, material empírico. Para uma fundamentação
epistemológica da psicanálise, o superego não
é dado, sim, é que se deixou de fazer uma ação
que a situação favorecia e que havia interesse manifesto
por parte do agente em faze-la: está o rapaz, está
a moça nas circunstâncias apropriadas, ela desejosa
e com o maior beneplácito, ele gosta da moça, mas
sem saber o que ocorreu, de imediato ele toma um livro e se põe
a ler. Esses são os dados, não o superego e sua ação
inibitória.” (p. 272)
O exemplo pode, de fato, ser ingênuo mas o registramos uma
vez que o autor não o vê muito diferente de quando
um biólogo olha por um microscópio e vê uma
célula. Um leigo, sem acesso á teoria psicanalítica,
veria simplesmente a conduta acima descrita, como intrigante, incompreensível.
Contudo, este não é o caso típico da interpretação
psicanalítica, mas sim a interpretação-explicação.
No caso da interpretação-explicação
a relação entre A e B é de condição
necessária; sendo por outro lado B (material latente) condição
suficiente para A (material manifesto). O autor dá um exemplo,
no qual poderiam ocorrer outras causas (como C, no material latente)
para o surgimento de A. Contudo, o psicanalista pode insistir em
que seja somente B, por considerar que este constitui um modelo
mais adequado para a situação a ser interpretada.
“Quando faz isso, o psicanalista não leu o material
latente, o que realmente fez foi formular uma hipótese; a
hipótese, muito útil, de supor que o material latente
é assim.” (p. 274) Neste sentido é que Klimovsky
considera a psicanálise uma teoria modelística. O
psicanalista estaria sempre escolhendo modelos explicativos para
formular sua interpretação e testando tais modelos
que funcionam como hipóteses.
Klimovsky faz referência também a um tipo misto:
interpretação-explicação-leitura. Seriam
aquelas em que a relação A e B constituiria uma conexão
necessária e suficiente. Dá como exemplo as manifestações
de narcisismo (Freud, S.E. XIV):
“Por exemplo, arma de leitura (utiliza Freud), quando vê
um indivíduo muito interessado em si mesmo, com grande superestima
e preocupação por si mesmo, ele entende que a libido
deve estar investindo o ego: a libido desse homem está posta
em seu ego, porque esse homem se está superestimando. Essa
é a parte de leitura: vendo o que o sujeito está fazendo,
damo-nos conta onde está a libido.
Em algumas circunstâncias, sobretudo em relação
à conduta narcisística, é o contrário:
se supomos que a libido é narcisista, poderemos deduzir que
esse indivíduo tende a superestimar-se. Estaríamos
explicando sua conduta.” (p. 276)
Sob o ponto de vista epistemológico, julgamos que a que
mais nos interessa é a interpretação-explicação,
por ser a melhor candidata a testes. A este respeito duas objeções
podem ser levantadas: a questão das hipóteses autopreditivas
(“profecias autocumpridas” ou “hipóteses
suicidas”) e o problema da sugestão. Klimovsky reconhece
serem dificuldades comuns nas ciências sociais, também.
Entretanto, não as julga insuperáveis.
Quanto à crítica a um possível aspecto autopreditivo,
que seria inerente às interpretações psicanalíticas
(Nagel), o autor busca no próprio exemplo que Nagel utiliza
em seu livro – A Estrutura da Ciência – a superação
do obstáculo epistemológico. O exemplo a que se refere,
baseado num fato real, é o da notícia divulgada por
um periódico novaiorquino das dificuldades financeiras de
um banco e sua provável falência. A própria
notícia provocou uma corrida dos depositantes ao banco e
sua conseqüente falência. Klimovsky vai criticar tal
exemplo em três pontos: a) A hipótese da insolvência
do banco não foi na realidade contrastada, pois, a divulgação
da notícia, em realidade, testou outra lei: a do efeito da
propagação de rumores; b) Qualquer hipótese
científica só pode ser testada em ausência de
perturbações que tumultuem a regência da lei
científica a que se liga. A rigor, a hipótese não
foi sequer testada; c) No caso da interpretação psicanalítica,
este obstáculo pode ser evitado, simplesmente, pela não
formulação da interpretação. A interpretação
pode ser retida pelo analista que observaria a reação
do paciente, testando sua hipótese “in pectore”,
por meio de uma conduta futura.
No que tange ao fenômeno da sugestão, lembra os comentários
de Freud em Construções em Psicanálise (Freud,
S.E. XXIII), onde insiste em que o sim e o não do paciente,
em resposta a uma interpretação, não podem
ser confundidos com corroboração e refutação.
Não acredita, Klimovsky, tratar-se de um problema insuperável,
lembrando que a conduta adaptativa do paciente é bastante
estreita, limitando-se ao material verbal manifesto, havendo muitos
outros canais de comunicação com o paciente –
verbais e não-verbais, conduísticos – capazes
de fornecer elementos de avaliação. Lembra também
a proposta de Wisdom (1976). Esta, em resumo, consistiria em testar
a interpretação a partir do tipo de defesa que o paciente
utiliza, ou seja: “a defesa (com que o paciente reagiria à
interpretação) deve ser abordada com a mesma teoria
com que se formulou a primeira hipótese interpretativa, de
modo que o analista não poderia utilizar o material associativo
(e defensivo) para formular uma interpretação alheia
à teoria que originou a primeira.” (p. 278)
Os aspectos semânticos e instrumentais da interpretação
são tratados de forma rápida. Contudo, há certos
comentários de Klimovsky que merecem ser registrados por
dizerem respeito diretamente ao tema desta dissertação.
Referimo-nos, em especial, ao desenvolvimento que faz do comentário
de Freud quanto aos efeitos de pequena monta que uma interpretação
equivocada acarreta, em contraposição ao tipo de mudança
ou reação que produz a interpretação
acertada. Vê aí o autor os limites da ideologia do
paciente – “uso a palavra ‘ideologia’ em
um sentido metafórico e geral, como tudo que o paciente crê
... assim como suas defesas e suas sugestionabilidades” (p.
281) – chamando a atenção dos epistemólogos
para a importância deste ponto. Resume como vê a questão
epistemológica da teoria psicanalítica, tomada a partir
da interpretação, no que se segue:
“ Cremos que o que foi dito basta para mostrar as três
zonas em que se move a epistemologia da psicanálise: o problema
da teoria (explicação e leitura), o problema da ação
racional (com a teoria que a respalda) e o imenso problema de como
notamos a qualidade simbólica (convencional ou natural) que
leva do material manifesto ao latente. Esses são os três
problemas típicos, mas de distinta ordem, com os quais se
vê o epistemólogo frente a essa espinhosa questão.”
(p. 281)
Há ainda duas questões que Klimovsky registra: a)
Não vê maior diferença, exceto no método,
da teoria psicanalítica para outras teorias científicas,
uma vez que a seu ver muitas utilizam modelos teóricos que
se oferecem a testes; b) Indaga se não haverá algo
“ ... no modo psicanalítico de pensar que influa na
própria visão que o epistemólogo tem da marcha
da ciência ? “ (p. 282) Considera que da mesma forma
que a física e a matemática deram contribuições
à epistemologia, o mesmo poderia ocorrer com a psicanálise.
Cita os psicanalistas ingleses: Money-Kyrle (de orientação
humeana) e W. R. Bion (de orientação kantiana) como
autores que tentaram avançar neste caminho.
Seguindo a sistemática que propomos, caberia agora examinar
criticamente a proposta de Klimovsky. Entretanto, julgamos mais
útil fazê-lo, contrastando-a com a de Grünbaum,
principalmente, porque muitas das restrições que teríamos
a fazer prendem-se mais à própria epistemologia popperiana,
o que será objeto de seção do próximo
capítulo. Reconhecemos, no entanto, que Klimovsky supera
o marco popperiano, em especial, no que diz respeito às ciências
humanas e à psicanálise, em particular.
Listamos os seguintes pontos de contato e conflito das duas avaliações:
A – Grünbaum e Klimovsky consideram a teoria psicanalítica
passível de testabilidade.
B – Grünbaum utiliza, como metodologia para os testes,
o que chama de indutivismo hipotético-dedutivo.
Klimovsky sugere que os testes se façam a partir de conseqüências
deduzidas dos modelos psicanalíticos apresentados.
C – Grünbaum considera que as observações
clínicas não se prestam a testes, dada a contaminação
epistêmica da sugestão e do caráter de hipóteses
autopreditivas das interpretações psicanalíticas.
Klimovsky considera que a experiência clínica é
passível de teste, sendo superáveis as dificuldades
que envolvem o problema da sugestão e do possível
caráter autopreditivo das interpretações psicanalíticas.
D – Grünbaum julga que, até o momento, a teoria
psicanalítica foi refutada nos testes a que se ofereceu.
Klimovsky considera que a teoria psicanalítica se sai tão
bem nos testes a que pode ser submetida como qualquer outra ciência
humana.
E – Grünbaum não diferencia a teoria freudiana
dos desenvolvimentos de seus continuadores – como as contribuições
da teoria de relações de objeto – quanto aos
problemas epistemológicos que levantam.
Klimovsky assinala a importância de que os testes dos modelos
psicanalíticos sejam realizados levando-se em conta a teoria
da corrente psicanalítica que está em jogo. Propõe
que se investigue a contribuição que a teoria psicanalítica
possa dar à epistemologia.
F – Grünbaum exemplifica, por sua proposta, o que Lakatos
denomina: falseacionismo dogmático (ingênuo ou naturalista),
dentro do marco popperiano.
Klimovsky exemplifica, se ainda utilizarmos a terminologia de
Lakatos, o falseacionismo sofisticado, desenvolvimento natural,
segundo este autor, do pensamento popperiano.
Evidentemente, a lista acima é fruto de nossa particular
avaliação de ambos os autores. Julgamos que a divergência
básica se origina do item F. Reconhecemos também a
influência de outros fatores, dos quais destacamos: o fato
de Klimovsky ter trabalhado durante muitos anos com psicanalistas
de grande experiência e respeitabilidade científica,
em Buenos Aires, onde a psicanálise teve um peculiar desenvolvimento,
florescendo as mais diversas correntes do pensamento psicanalítico.
Desta forma, pôde o autor, a nosso ver, observar como realmente
os psicanalistas trabalham. Frisamos este ponto, pois, é
uma constante nas críticas de Lakatos, Kuhn e Feyerabend
à tradição popperiana que, dado o seu já
assinalado caráter fortemente prescritivo, perde a possibilidade
de avaliar certas características do empreendimento científico,
principalmente, na área das ciências humanas. No campo
de interesse desta dissertação, damos como exemplo
a compreensão equivocada que Grünbaum tem da teoria
da repressão – atribuindo a fatores externos um papel
que, consensualmente, não é reconhecido pelos psicanalistas
(daí certas propostas de testes que seriam inviáveis,
como a da diminuição da paranóia em virtude
da perda da força dos preconceitos anti-homossexuais) –
assim como sua não percepção de inovações
marcantes no desenvolvimento da psicanálise, com conseqüências
epistemológicas, como já assinalamos ao referirmo-nos
ao trabalho de Melvin Lansky.
Uma discussão mais aprofundada deste ponto nos levaria
além de nossos imediatos propósitos, pois, tocaria
na própria questão do papel e validade da chamada
filosofia da ciência. Sem entrar nesta complexa questão,
adiantamos o ponto de vista, segundo o qual consideramos que as
imprecisões de Grünbaum não invalidam o cerne
de sua crítica filosófica. Lembraríamos que
o próprio Popper foi desaconselhado, por Peter Medawar, a
publicar sua conferência sobre a teoria da evolução
de Darwin, apresentada na Conferência Herbert Spencer, em
1961, daí o motivo de somente uma década depois, embora
sem maiores correções, ter sido publicada em Conhecimento
Objetivo. É o que nos conta Jonh Watkins (Watkins, “Popper
e o Darwinismo”, in Karl Popper – Filosofia e Problemas,
org. Anthony O´Hear). Por outro lado, as incorreções
que por ventura os biólogos constataram, não impedem
que usufruamos das estimulantes conjecturas de Popper. Acrescentaríamos
ainda, remetendo o leitor à Introdução, que
não vemos quem poderia fazer a avaliação epistemológica
de qualquer empreendimento científico, ou, metafísico
(no sentido que Popper dá à expressão) que
não um filósofo, portador que é de um instrumental
crítico que não é familiar ao cientista.
CAPÍTULO III: A TEORIA PSICANALÍTICA COMO UMA TRADIÇÃO
DE PESQUISA, NA PERSPECTIVA DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN.
Após termos feito uma panorâmica resenha da questão
da psicanálise na epistemologia popperiana e apresentado
duas avaliações antagônicas, mas de extração
epistemológica afins, pensamos ser o momento de apresentarmos
nossa avaliação e uma proposta de possível
superação dos impasses que encontramos pelo caminho.
Dividimos este capítulo em duas partes: na primeira, procuraremos
sumariar as insuficiências da proposta de Popper quando aplicada
à teoria psicanalítica, assim como as possibilidades
que a própria proposta apresenta para lidar com o problema,
quer da cientificidade, quer da racionalidade da teoria psicanalítica;
na segunda, apresentaremos a proposta epistemológica de Larry
Laudan que nos parece oferecer, no âmbito do debate anglo-saxão,
uma alternativa mais ampla de forma a abrigar a teoria psicanalítica
no campo de teorias científicas e empreendimentos racionais.
3.1 – INSUFICIÊNCIAS DA EPISTEMOLOGIA POPPERIANA QUANDO
APLICADA À PSICANÁLISE
Observamos, restringindo-nos aos textos do próprio Popper,
duas ordens de problemas para tratar uma teoria como a que a psicanálise
oferece:
A – Incapacidade da epistemologia popperiana de lidar com
as questões interessantes que são levantadas pela
teoria psicanalítica.
B – Falta à epistemologia popperiana um padrão
de racionalidade compatível com a abrangência do sistema
em que se tornou a obra de Popper.
É freqüente, em Popper (como registramos na p.37),
a referência a que a ciência busca mais do que a simples
verdade, mas a uma verdade interessante, difícil de ser descoberta,
com alto grau de capacidade explicativa, improvável e, portanto,
com um alto grau de refutabilidade. Em outros momentos vai dizer
que uma teoria é melhor que outra, entre outros fatores,
por sua maior capacidade explicativa: um maior número de
fatos passam a ser explicados e, mais ainda, que explique além
de novos fatos ou das anomalias de sua rival, todo aquele domínio
de sua antecessora. Nessas referências, maior conteúdo
é sinônimo de maior conteúdo empírico.
Mesmo que tomemos como empírico tudo aquilo que seja passível
de teste – conceituação popperiana, com a qual
concordamos - sentimos a falta da dimensão conceitual. Isto
evidencia-se quando utiliza a sua proposta de “análise
ou lógica situacional”, como no exemplo que dá
das motivações de Carlos Magno (ver p.51). Sua compreensão
objetiva – hipostasiando uma carta reveladora das intenções
do personagem – apega-se a um possível dado empírico
que, provavelmente, seria desinteressante para quem desejasse compreender
o que move um personagem histórico de tal envergadura. Curioso
contrastar o exemplo de Carlos Magno com o de Galileu – a
respeito de sua malograda teoria das marés – em que
Popper é muito mais feliz. É mais feliz no sentido
de reconstituir o problema com que se defrontava Galileu –
o de formular uma teoria sobre as marés que, ao mesmo tempo,
corroborasse a de Copérnico e evitasse a introdução
de influências interplanetárias que lhe desagradavam,
por uma possível aproximação com a astrologia;
mas, ao afastar qualquer motivação psicológica,
que concordamos poder ser irrelevante naquele contexto da história
da ciência, afasta também o problema de Galileu. Em
suma, a “análise situacional”, tal como exemplifica
Popper, empobrece a situação-problema em sua insistência
em reduzir questões psicológicas a sociais. Pensamos
termos sido mais generosos com sua proposta ao submetermos à
“análise situacional” a teoria psicanalítica
sobre os grupos humanos (ver Capítulo I, seção
1.2), a qual expande o conteúdo explicativo, tanto empírica
como conceitualmente.
Algo semelhante poderíamos dizer a respeito do tema da
liberdade. Popper o afasta sem maiores questionamentos, o mesmo
ocorrendo – como já registramos – com Grünbaum
ao criticar von Wright. Entretanto, é nas ciências
humanas e, em especial, na teoria psicanalítica que é
o nosso objeto de investigação, onde tal questão
não pode ser evitada, como acertadamente nos lembra Lacan
(1998): “... O ser do homem não apenas não pode
ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem
se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.”
Observamos aqui uma aproximação loucura e liberdade,
que são temas que não podem faltar a uma epistemologia
que se pretenda útil a teorias como a psicanalítica.
Quando questionamos a crítica de Grünbaum a von Wright,
fizemo-lo pensando que este último oferece um espaço
em sua proposta para a liberdade. Ou seja: o agente pode recusar
a ação prevista, embora tenha todas as condições
a seu dispor, e estejam delineados seus alvos e objetivos. É
o caso que ele denomina: “matar o tirano”. Tal contra-exemplo
refutaria qualquer proposta epistemológica que exija previsões
– arriscadas ou triviais – para ciências que pedem
lugar para o imprevisível, pela própria natureza do
problema com que lidam. Julgamos que Fernandes[33] coloca questão
análoga:
“ ... só existe ciência daquilo que no homem
é natureza, da natureza no homem. Essa natureza não
é só a parte física e biológica ...
É o simbólico quando se comporta como natureza ! quer
dizer, como a alteridade que nos aliena, aquilo que é inconsciente
e me determina sem passar pela minha razão ou pela minha
liberdade. É isso a natureza. Tanto quanto a tempestade e
o ritmo dos dias. Eu posso ser vítima da natureza, no sentido
vulgar, como posso ser vítima da ideologia, da linguagem
e de tudo que está embutido nela, da minha mãe, do
Nome do Pai, etc.”
A aceitação do problema tal como está exposto,
na citação acima, implica delimitarmos o campo da
ciência ao que lhe é pertinente. De outra forma, pensamos
ser este o equívoco em que incide Popper, limitamos nosso
mundo conceitual. Isto pode ser observado no, aparentemente ingênuo,
exemplo hipotético que Popper oferece em crítica à
psicanálise. Referimo-nos à situação
que imagina em que um homem pode salvar uma criança de afogamento
ou pode afogá-la e, em ambos os casos, a psicanálise
oferecerá uma explicação; o que tornaria a
psicanálise irrefutável. (Popper, 1972: 65) Grünbaum
faz uma longa crítica deste exemplo, defendendo como já
vimos a refutabilidade da psicanálise, o que faz parte de
sua estratégia de realmente refutá-la. (Günbaum,
1984) Nossa crítica, quanto à insuficiência
da epistemologia popperiana, seguiria outro caminho. Pois, vemos
no hipotético caso, uma preocupação de Popper
em alcançar uma teoria psicológica que não
diferenciasse dois homens, ou o mesmo homem em situações
diversas, fazendo previsões, de preferência proibitivas,
para qualquer homem. A singularidade, quer da situação,
quer do indivíduo, desapareceria por completo. A rigor, qualquer
psicanalista, a começar por Freud, recusar-se-ia a fazer
previsão alguma, dado o necessário reconhecimento
da dimensão de liberdade no homem. Isto não exclui
que, a posteriori, úteis conjecturas pudessem ser feitas
para uma significação, ou resignificação,
do ocorrido. Em suma, o que desejamos sublinhar é que o caráter
fortemente prescritivo da epistemologia popperiana não só
não corresponde à prática real da atividade
científica, como já foi por muitos mencionado, mas
exige uma ciência que seria incompatível com o fenômeno
humano ! Paradoxalmente, esta não é a postura de Popper,
quando tenta reconstruir o problema de Galileu. Neste caso, aceita
de bom grado a hipótese que oferece, por apresentar uma base
empírica, sendo que por empírico aqui entendemos em
seu uso mais tradicional, não popperiano, ou seja, algo em
que há uma referência ao sensório. Colocando
a questão em outros termos: o que Popper pede de uma teoria
psicológica sobre o comportamento humano é que ela
seja refutável tal como uma teoria que se refere às
chamadas ciências naturais, as quais são tomadas como
modelo de racionalidade científica. Não haveria lugar
para a singularidade, em sua expressão mais ampla, embora,
Popper afirme o contrário:
“ ... há nas ciências naturais aquela consciência
do malogro final de todas as nossas tentativas para compreender,
que tem sido muito discutido por estudiosos das humanidades e que
se tem atribuído à ‘diversidade’ das outras
pessoas, à impossibilidade de qualquer auto-compreensão
real e à inevitabilidade de supersimplificação,
que é inerente a qualquer tentativa para compreender qualquer
coisa singular e real. (Podemos agora acrescentar que parece importar
pouco que tal realidade seja cósmica ou microcósmica.).”
(Popper, 1975:175-176)
Esta citação está num contexto de discussão
da possível diferença de metodologia nas ciências
naturais e nas ciências humanas, o que Popper não vai
aceitar, dizendo mais adiante do trecho citado: “Elaborar
a diferença entre a ciência e as humanidades tem estado
em moda desde muito e tornou-se enfadonho. O método de resolver
problemas, o método da conjectura e refutação,
é praticado por ambas. É praticado na reconstrução
de um texto danificado bem como na construção de uma
teoria da radioatividade.” (Popper, 1975:176) Apesar de tais
afirmações, não vemos Popper aplicar o método
a problemas psicológicos que, como vimos, procura reduzir
a problemas sociológicos, descaracterizando-os. Tal descaracterização
causa, por vezes, perplexidade ao leitor. Referimo-nos ao momento
em que propõe a investigação lógica
da economia como um modelo para as ciências sociais, dada
a sua objetividade (Popper, 1978:31-32). Ora, é conhecida
a dificuldade com que os economistas se defrontam ao lidar com conceitos
como o de “utilidade”, ou, de “opções
de aplicação de recursos”, em que os fatores
psicológicos se mostram irredutíveis. Klimovsky (1999:315)
levanta a mesma objeção, referindo-se a “lei
das utilidades decrescentes”, formulada em termos vagos e
em linguagem ordinária, no famoso tratado de economia de
Samuelson. Laudan, por sua vez, faz uma interessante consideração
histórica a respeito dos conflitos que viveu Adam Smith,
a respeito dessas questões:
“Viner ... oferece um argumento convincente que um dos problemas
conceituais centrais para a teoria econômica de Adam Smith
era sua incompatibilidade com a tese newtoniana de um equilíbrio
de forças na natureza. A questão era particularmente
aguda uma vez que a teoria econômica de Smith se baseava num
geral (newtoniano) equilíbrio de forças da natureza
e, contudo, postulava forças de motivação econômica
(por exemplo: auto-interesse) que eram aparentemente incompatíveis
com um tal sistema de equilíbrio. Tem sido alegado que Adam
Smith escreveu seu tratado de filosofia moral com a finalidade de
resolver esta tensão.” (Laudan, 1977:230)
Acreditamos que a proposta de Klimovsky, de tomar a teoria psicanalítica
como uma teoria modelística, é uma forma criativa
de utilização do método de conjecturas e refutações.
É intrigante a atitude ambivalente de Popper em relação
à psicanálise, tal como já foi assinalado (p.p.38-39),
que resulta muitas vezes no reconhecimento das contribuições
da psicanálise, mas não em sua utilização.
Uma vez que a obra de Popper foi tornando-se cada vez mais abrangente,
uma necessária ampliação de seus padrões
de racionalidade se fez presente. Na primeira seção
do Capítulo I, fizemos uma breve resenha deste trajeto. Não
esconde Popper tal pretensão de abrangência:
“ Pode ser interessante e frutuoso investigar até
onde podemos aplicar análises situacionais (a idéia
de solucionar problemas) à arte, à música,
à poesia, e se isso pode ajudar nossa compreensão
nesses campos. Não duvido de que, em alguns casos, possa
ajudar. Os cadernos de notas de Beethoven para o último movimento
da Nona Sinfonia mostram que a introdução deste movimento
conta a história das tentativas do compositor para resolver
um problema – o problema de romper em palavras. Ver isto auxilia
nossa compreensão da música e do músico. Se
esta compreensão ajuda nosso gozo da música é
coisa diferente.” (Popper, 1975:174)
Comentários mais desenvolvidos vamos encontrar em sua Autobiografia
Intelectual (Popper, 1977:60-79). Observamos aí como transporta
para a estética as mesmas dificuldades que mostra ao tratar
da psicologia, isto é: utiliza de forma muito restrita seu
próprio método de “análise situacional”.
No caso, o sacrificado é o expressionismo, não ficando
claro se como teoria, ou manifestação estética,
ou ambas. Não gostaríamos de ser injustos com o autor
que faz inúmeras ressalvas quanto ao ponto de vista que vai
expor, num texto reconhecidamente intimista – uma autobiografia
– onde se permite comentários sem o seu usual rigor.
Contudo, não podemos deixar de utilizar este material, pois,
o próprio Popper reconhece sua importância, uma vez
que foi a partir de suas especulações estéticas
que formulou a teoria dos 3 mundos:
“Meu interesse por música levou-me ao que eu então
supus ser uma descoberta intelectual de menor importância
... Posteriormente, essa descoberta muito influenciou meu pensamento
filosófico e, em última análise, me levou à
distinção que estabeleci entre mundo 2 e mundo 3,
distinção que desempenha importante papel na filosofia
desenvolvida na minha idade madura.” (Popper, 1977: 67)
A conjectura que Popper desenvolve é entre uma “música
objetiva” e uma “música subjetiva”, através
da análise das produções de Bach e de Beethoven,
respectivamente. É bom lembrar que sua posição
não é “grosseira”, no sentido de estereotipar
a genialidade de ambos compositores: “... Procurei dar uma
idéia razoavelmente clara da diferença entre essas
duas teorias concernentes à música ... a de Bach e
a de Beethoven – que, na época, me pareciam muito diversas,
embora eu apreciasse ambas.” (Popper, 1977:73) Por outro lado,
sua posição nos parece bastante estreita caso seja
estendida à necessidade do artista de expressar suas emoções.
Pois, neste caso, o que está em jogo não são
as emoções daquele artista em particular, mas uma
forma, talvez a mais adequada, de expressão estética
para tratar aquela determinada situação-problema.
Sublinhamos este ponto porque especialmente nos interessa, uma
vez que a teoria psicanalítica procura lidar, exatamente,
com aquilo que a tradição relegou ao “incompreensível”,
ao “irracional”, como se com tais denominações
banisse de nossa ontologia o que, prima facie, de fato, não
compreendemos. Entretanto, o fenômeno psicótico se
caracteriza, fundamentalmente, por não ser, pelo menos prima
facie, “compreensível”. Afastá-lo de nosso
mundo, é cair numa forma de falácia epistêmica
– o que não “conhecemos”, não existe,
ou, o que é pior, é desinteressante. As conseqüências
de tal atitude são historicamente conhecidas, empobrecendo
a psiquiatria e a psicologia, assim como tendo implicações
éticas das mais graves. A este respeito basta lembrar o tratamento
que foi dado ao psicótico: exclusão e punição.
Há uma vasta literatura sobre o tema, abordando também
a forma pela qual foi o “incompreensível”, o
“irracional”, absorvido na história da ciência
médica, trazendo novas questões tanto de ordem ética
como epistemológica.
A questão da estética, tal como é tratada
por Popper, leva-nos também ao ponto central de nossa crítica
quanto à insuficiência de sua proposta epistemológica:
as questões que mais nos intrigam, são afastadas como
“subjetivistas”, restando, contudo, questões
desinteressantes. Ou seja, questões que dizem respeito à
natureza dos problemas com que lida a teoria psicanalítica
são afastadas. Há um empobrecimento do mundo. Mais
uma vez, repetimos: não vemos isto como uma implicação
necessária da proposta epistemológica popperiana,
mas de um uso inadequado da mesma. Reconhecemos que a “análise
situacional” é um instrumento suficientemente poderoso
para lidar com as questões dos programas de pesquisa metafísica
(nos quais incluímos a teoria psicanalítica), utilizando
a terminologia de Popper. Inexplicavelmente, Popper insiste em utilizá-lo
de forma tímida. Levantaríamos algumas hipóteses
a respeito e uma interrogação:
Pensamos que Popper nunca se libertou de um cientificismo que
marca sua primeira fase: o critério de demarcação
entre ciência empírica e não-empírica
é, também, um critério de demarcação
entre o racional e o irracional. Cientificidade se confunde com
racionalidade.
A segunda possibilidade se prende à preocupação
de Popper em afastar de sua teoria qualquer forma de transcendentalismo
e de ignorar a relevância do papel da linguagem. Sua polêmica
leitura de Kant ocorre tanto na que faz da Crítica da Razão
Pura, como nos textos referentes à razão prática,
onde o papel da liberdade, em Kant, é por ele subestimado.
Acrescentaríamos a ausência de referência à
Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, que não somente
contém temas de interesse comum – a questão
dos juízos estéticos – como, segundo alguns
comentadores, é fundamental para a compreensão das
anteriores. Ao mesmo tempo, sua atitude em relação
à filosofia da linguagem impede-o de examinar mais detidamente
as diferenças entre as afirmações na primeira
e na terceira pessoa, assim como os diferentes modos de avaliação
de tais proposições.
Quanto à interrogação a que nos referíamos,
esta se prende ao fato de Popper demonstrar um estranho desconhecimento
da teoria freudiana, embora a mesma seja uma preocupação
sua desde a juventude (17 anos), conforme revela a citação
com que abrimos o Capítulo I.
Tal interrogante se torna mais forte quando constatamos que Popper
foi contemporâneo de Freud, vivendo ambos na mesma Viena e,
mais tarde, radicou-se num país – Inglaterra –
onde suas idéias foram muito bem aceitas pelo vigoroso movimento
psicanalítico lá existente, tendo desempenhado importante
papel no desenvolvimento das teorias de W. R. Bion, conforme registramos
na Introdução.
Todos esses questionamentos nos levam a buscar, no âmbito
do debate epistemológico anglo-saxão, outras propostas
que possam oferecer à teoria psicanalítica um instrumental
de crítica e avaliação mais adequado.
3.2 – A PROPOSTA EPISTEMOLÓGICA DE LARRY LAUDAN
A epistemologia de Larry Laudan surge do debate em que estão
envolvidos: Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend, como os principais
protagonistas das disputas entre: internalistas e externalistas;
positivistas e relativistas, ou, racionalistas e irracionalistas.
Em realidade, sua proposta é uma permanente tentativa de
superar os impasses que as diversas correntes apresentam para dar
conta de questões básicas, tais como: a racionalidade
do empreendimento científico, da escolha entre teorias, bem
como a noção de progresso. É uma proposta de
filiação declaradamente pragmatista e que tem pretensões
de abrangência semelhantes às que encontramos em Popper.
Suas principais teses estão em sua obra maior: Progress and
its Problems – Towards a Theory of Scientific Growth (Laudan,
1977), que nos servirá de referência.
Laudan parte da crise desencadeada pelo desenvolvimento das pesquisas
epistemológicas na primeira metade do século XX, que
entre outros questionamentos levantou:
“Durante muito tempo, muitos têm tomado a racionalidade
e o progresso da ciência como um fato óbvio ou uma
conclusão sem problemas, e alguns leitores provavelmente
ainda pensarão como bizarro acreditar que exista algum importante
problema a ser aqui resolvido. Ainda que esta confiante atitude
tenha sido quase inevitável, dados os preconceitos culturais
em favor da ciência na cultura moderna, houve um grande número
de recentes contribuições que trouxeram sérias
questões a respeito:
1 – Filósofos da ciência, cujo objetivo primário
é definir o que é racionalidade, têm geralmente
descoberto que seus modelos de racionalidade encontram poucos, se
é que algum, exemplos no real processo de atividade científica.
Se aceitamos a reivindicação feita em nome desses
modelos como o que define a própria racionalidade, então
parecemos forçados a virtualmente ver toda a ciência
como irracional.
2 – Tentativas de mostrar que os métodos da ciência
garantem conhecimento verdadeiro, provável, progressista
ou altamente confirmado – tentativas que têm uma ascendência
quase contínua desde Aristóteles aos nossos tempos
– têm geralmente fracassado, levantando uma diferente
suposição de que as teorias científicas não
são nem verdadeiras, nem prováveis, nem progressistas,
nem altamente confirmáveis.
3 – Sociólogos da ciência têm podido
indicar vários episódios, no passado recente (e remoto)
da ciência, que parecem revelar muitos fatores, decisivamente
envolvidos nas decisões científicas, não racionais
ou irracionais.
4 – Alguns historiadores e filósofos da ciência
(p. ex.: Kuhn e Feyerabend) têm questionado, não meramente
que certas decisões entre teorias, em ciência, têm
sido irracionais, mas que as escolhas entre teorias científicas
competidoras, por sua própria natureza, devam ser irracionais.
Eles (especialmente Kuhn) têm também sugerido que todo
ganho em nosso conhecimento é acompanhado por concomitantes
perdas, de modo que é impossível afirmar quando, ou
mesmo se, estamos progredindo.
O ceticismo a que tais conclusões apontam tem sido reforçado
pelos argumentos do relativismo cultural em relação
à consequência de que a ciência é apenas
um conjunto de crenças entre muitas possíveis, e que
nós no Ocidente veneramos a ciência, não porque
ela seja mais racional do que suas alternativas, mas simplesmente
porque somos produtos de uma cultura que tem tradicionalmente muito
se estabelecido através da ciência. Todos os sistemas
de crença, a ciência inclusive, são vistos como
dogmas e ideologias entre as quais a preferência objetiva
e racional é impossível.” (pp.2-3)
Observamos que Laudan parte da questão da racionalidade,
precisamente o ponto que consideramos frágil na epistemologia
popperiana. Utiliza a noção de progresso para aproximar-se
da de racionalidade. Dadas as várias implicações
de tal correlação, julgamos melhor listar os pontos
básicos da proposta de Laudan, discutindo-os passo a passo.
Tal exame se faz necessário também em virtude da forma
de articulação dos argumentos de Laudan que estão
sempre estreitamente interligados. Só, assim, poderemos vir
a avaliar se sua noção de racionalidade supera as
dificuldades que observamos em Popper.
1 – Inverte a tradicional subordinação do
progresso à racionalidade científica. Argumenta Laudan
que progresso é necessariamente um conceito temporal, enquanto
racionalidade é, em geral, vista como atemporal. Continua,
lembrando que a maioria dos autores vê “o progresso
nada mais do que uma projeção temporal de uma série
de escolhas individuais racionais”.[34] A dificuldade de sustentar
tal posição – contraditada, sobretudo, pelo
desenvolvimento dos estudos sobre história da ciência
– levou muitos autores (refere-se especificamente a Kuhn e
Feyerabend) a afirmar a necessária irracionalidade das escolhas
científicas. Este seria um dos fundamentos do relativismo,
o qual Laudan quer evitar, dados os inúmeros problemas que
traz.
2 – A racionalidade científica se revela pela escolha
da teoria mais progressista. Esta afirmação, embora
uma óbvia decorrência da anterior, traz inúmeras
implicações. A opção pela referida inversão,
segundo Laudan, prende-se ao fato de que o progresso é um
conceito muito mais fácil de ser apreendido do que o de racionalidade.
O fato da noção de progresso ser mais facilmente apreendida,
não implica em que a mesma não ofereça uma
gama de questões que o autor reconhece evitar, na medida
em que pretende apenas discutir aspectos cognitivos do progresso.
Tal posição está, evidentemente, subordinada
à sua concepção de ciência. A redução
a apenas aspectos cognitivos vai tornar-se, por sua vez, um dos
pontos frágeis da epistemologia de Laudan, o que nos parece
ser uma característica da epistemologia anglo-saxã.
3 –“A ciência é essencialmente uma atividade
de resolver problemas”. Através desta tese, Laudan
procurará escapar dos impasses tanto do racionalismo como
do relativismo. Pensamos que este é o seu argumento forte.
Consideramo-lo forte porque será o ponto que o distinguirá
dos demais filósofos da ciência de sua tradição,
uma vez que ao falar de problemas, refere-se tanto a problemas empíricos,
como a problemas conceituais. Laudan não nega outras finalidades
à ciência:
“A abordagem feita aqui não pretende implicar que
a ciência seja “nada mais” que uma atividade de
resolver problemas. A ciência tem uma variedade de objetivos
tão ampla quanto a gama de motivações que cada
cientista tem: a ciência objetiva explicar e controlar o mundo
natural; os cientistas buscam (entre outras coisas) verdade, influência,
utilidade social, e prestígio. Cada um destes objetivos poderia
ser (e tem sido) usado para fornecer uma moldura dentro da qual
se poderia tentar explicar o desenvolvimento e natureza da ciência.
Minha abordagem, contudo, sustenta que uma visão da ciência
como um sistema de resolver problemas mantém maior esperança
de capturar o que é mais característico da ciência
do que qualquer outra moldura alternativa permite.” (p.12)
Dada a importância central que a noção de
problema desempenha nesta proposta epistemológica, devemos
deter-nos mais na discussão da natureza e tipos de problemas
a que Laudan se refere.
4 – Natureza e tipos de problemas científicos –
Laudan considera que os problemas científicos não
diferem fundamentalmente de qualquer outro tipo de problema. Vê
os problemas como as questões da ciência, enquanto
as teorias seriam as suas respostas. Propõe-se a defender
duas teses:
“Tese 1: O primeiro e essencial teste forte (acid test) para
qualquer teoria é se ela fornece respostas aceitáveis
para questões interessantes: se, em outras palavras, ela
fornece soluções satisfatórias para problemas
importantes.
Tese 2: Na avaliação dos méritos de teorias,
é mais importante perguntar se elas constituem adequadas
soluções para problemas significativos do que perguntar
se são ´verdadeiras´, ´corroboradas´,
´bem-confirmadas´ ou de alguma forma justificáveis
dentro do quadro da epistemologia contemporânea.” (pp.13-14)
Distingue problemas de fatos: “... problemas reconhecidos
como tais em um determinado tempo podem, por motivos perfeitamente
racionais, deixar de ser problemas em tempos posteriores. Fatos
nunca sofrem tal tipo de transformação.” (p.17)
Acrescenta a respeito: “Enquanto insistirmos que as teorias
são somente destinadas a explicar “fatos” (isto
é, afirmações verdadeiras acerca do mundo),
nos encontraremos impossibilitados de explicar a maior parte da
atividade teórica que ocorreu na ciência.” (p.16)
Cita vários exemplos históricos de problemas empíricos
que se mostraram contrafactuais, mas que exigiram tratamento como
fatos, uma vez que foram “pensados” como tais, pela
comunidade científica. Tais como: as discussões na
Royal Society of London sobre as propriedades e comportamento das
serpentes marinhas, descritas nos relatos de marinheiros; e, mais
recentemente, a preocupação da medicina em explicar
o “fato” das sangrias promoverem a cura de certas doenças.[35]
Indica, ainda, muitos fatos acerca do mundo que não despertam
problemas empíricos, simplesmente, porque são desconhecidos.
Exemplifica através do fato de, provavelmente, o sol ser
composto principalmente de hidrogênio, mas até este
fato ter sido descoberto ou inventado (sic), não se constituia
num problema. Frisa este ponto, para destacar que os fatos que interessam
são os fatos conhecidos. Contudo, tal propriedade –
ser conhecido – não basta, um problema empírico
deve trazer com a sua solução um prêmio. Daí
a dimensão histórica dos problemas empíricos:
em certas épocas, certos fatos seriam interessantes, ao passo
que, em outras, o mesmo fato não o seria.
Classifica os problemas como empíricos e conceituais. Os
empíricos – ou de primeira ordem – pretendem
falar sobre o mundo e surgem no contexto de investigação
de uma teoria. Ressalva o reconhecimento de que os problemas empíricos
estão sempre “carregados de teoria”, todavia,
considera-os de primeira ordem, substantivos, uma vez que são
“ ... tratados como se fossem problemas sobre o mundo.”
(p. 15) São de três tipos:
Problemas não resolvidos – aqueles que não
foram ainda adequadamente resolvidos por qualquer teoria.
Problemas resolvidos – aqueles que foram resolvidos adequadamente
por uma teoria, pelo menos.
Problemas anômalos – aqueles que uma determinada teoria
não resolveu mas que outra, ou mais, competidora, resolveu.
“Evidentemente, problemas resolvidos contam em favor de uma
teoria, os anômalos constituem evidência contra uma
teoria, e os não-resolvidos simplesmente indicam as linhas
para uma futura investigação teórica. Usando
esta terminologia, podemos argumentar que uma das principais marcas
do progresso científico é a transformação
de problemas empíricos anômalos e não-resolvidos
em problemas resolvidos. De toda e qualquer teoria devemos perguntar
quantos problemas ela resolveu e com quantas anomalias ela se confronta.
Esta questão, de uma forma um pouco mais complexa, torna-se
uma das ferramentas primárias para a avaliação
comparativa de teorias científicas.” (p. 18)
Aquilo que, na citação acima, chama de “uma
forma um pouco mais complexa” entendemos ser a sua originalidade
e, a rigor, um reconhecimento da complexidade do problema da avaliação
de teorias. Pois, vai introduzir a questão – em geral,
omitida neste debate – dos problemas conceituais. Antes de
passarmos à discussão de Laudan sobre esta última
classe de problemas, é importante registrar algumas de suas
considerações que são esclarecedoras, quando
confrontadas com os inúmeros exemplos históricos que
fornece. Pensamos, sobretudo, no peculiar estatuto dos problemas
não-resolvidos, que Laudan considera importantes somente
quando se tornam resolvidos, por alguma teoria. De outra forma,
ficam apenas como potenciais. Parece-nos uma observação
aguda, uma vez que esclarece, ainda que parcialmente, como veremos
ao discutir a dimensão conceitual, o surgimento de um problema
científico, assim como o fato de certas questões não
se constituírem num problema em que pese sua insolubilidade,
numa determinada época,[36] Se o peso dos problemas não-resolvidos
não é comprometedor para invalidar uma teoria, já
que não podemos saber de antemão se poderão
vir a ser resolvidos por esta teoria, o progresso empírico
se faz, dentre outras formas, pela transformação de
problemas não-resolvidos em resolvidos. Estes têm uma
natureza diversa. Uma vez que Laudan faz uma opção
fundamentalmente pragmatista, defende o ponto de vista que:
“Uma teoria pode resolve um problema na medida que ela implica
mesmo que uma afirmação aproximada do problema; ao
determinar que uma teoria resolve um problema, é irrelevante
se a teoria é verdadeira ou falsa, bem ou fracamente confirmada;
o que conta como uma solução de um problema num determinado
momento não o será para sempre.” (pp. 22-23)
Laudan sempre trabalha com comparação entre teorias.
Deste modo, o caráter aproximativo dos resultados na solução
de um problema científico não invalida a teoria, apenas
pode enfraquecê-la em comparação com uma competidora.
Tanto a teoria de Newton (caso do movimento dos planetas), como
a de Einstein (observações telescópicas de
Eddington) forneciam resultados aproximados. Os motivos podem ser
vários: desde a previsão sob condições
ideais até a insuficiências das técnicas laboratoriais
ou instrumentais em relação à teoria. O ponto
que julgamos importante é a distinção que faz
entre as exigências de exatidão do modelo explicativo
clássico e o caráter aproximativo que requer os propósitos
de solução de um problema científico. Laudan
vai mais longe ao lembrar a irrelevância histórica
da verdade ou falsidade na solução de problemas (a
teoria ondulatória de Young, verdadeira ou falsa, resolvia
o problema da dispersão da luz), da mesma forma que a não-permanência
das soluções.
“Na história de muitas disciplinas, tanto humanistas
como científicas, pode-se perceber um gradual estreitamento
e fortalecimento do limiar que será permitido a uma teoria
para que seja uma solução ao problema relevante. A
menos que reconheçamos que os critérios de aceitabilidade
de soluções de problemas evoluíram através
do tempo, a história do pensamento parecerá ser realmente
enigmática.” (p. 26)
Os problemas anômalos, nesta proposta, desempenham um especial
papel. Aceita a tese Duhem-Quine, quanto à impossibilidade
de teste de teorias isoladas, sem que o conjunto em que estão
inseridas seja também testado, daí resultar a dificuldade
de encontrarmos a “teoria culpada”. Entretanto, chama
atenção para o peculiar papel que as anomalias desempenham,
ou seja: sua importância só se torna significativa
quando outra teoria a resolve. Assim, revaloriza as anomalias, não
por, talvez, se mostrarem inconsistentes com a teoria em exame,
mas quando apontam para uma maior capacidade de solução
de problemas por uma teoria competidora.
Laudan discute o peso dos problemas empíricos,os quais
não têm um valor absoluto: variam de importância,
segundo muitas circunstâncias. Além da influência
de fatores sociais, de natureza da mais diversa e conjuntural, examina
mais detidamente aqueles aspectos que se referem ao peso racional
cognitivo. Com isto pretende questionar, por exemplo, o caráter
absoluto das “experiências cruciais” (Popper),
da mesma forma que o caráter impreciso das anomalias que
provocam a mudança de paradigma (Kuhn)[37]. Enfatiza sempre
que o peso dos problemas empíricos deve ser visto na comparação
entre teorias. Considera também que sua proposta de colocar
a ênfase epistemológica na solução de
problemas é imune à crítica de Duhem, pois,
uma teoria (ou um complexo de teorias) – independente de ser
verdadeira ou falsa – pode ser avaliada se é ou não
eficaz na resolução de um determinado problema.
Quanto aos problemas conceituais, define-os por exclusão:
são não-empíricos. Chama atenção
para o papel relevante que desempenham na escolha entre teorias.
Dá, entre outros exemplos, a oposição à
teoria de Newton, por parte de pensadores eminentes (como: Locke,
Berkeley, Huygens e Leibniz), por questões conceituais.[38]
Critica os filósofos da ciência, de Popper a Feyerabend,
passando por Lakatos, Kuhn, Carnap e Reichenbah, de ignorarem o
papel dos problemas conceituais na avaliação racional
das teorias científicas. Freqüentemente, as questões
conceituais aparecem nestes filósofos como demonstrações
da irracionalidade da ciência, tal como é realmente
praticada.
“Seria um enorme erro, contudo, imaginar que o progresso
e a racionalidade cientifica consistem inteiramente na solução
de problemas empíricos. Há um segundo tipo de atividade
de solução de problemas que tem sido pelo menos tão
importante no desenvolvimento da ciência quanto a de solução
de problemas empíricos. Este tipo de problema, que eu chamo
problema conceitual, tem sido amplamente ignorado pelos historiadores
e filósofos da ciência (embora raramente pelos cientistas),
presumivelmente porque ele não se ajusta bem naquelas epistemologias
empiristas da ciência que têm ditado a moda por mais
de um século.” (p. 45)
Os problemas conceituais podem ser:
Problemas conceituais internos – quando uma teoria T apresenta
inconsistências ou suas categorias básicas são
vagas e pouco claras.
Problemas conceituais externos – quando uma teoria T está
em conflito com outra – T’ – que reconhece ser
racionalmente bem fundamentada.
Os problemas conceituais internos podem surgir quando uma teoria
é autocontraditória, ambígua ou circular. Há
inúmeros exemplos na história da ciência, como
a inicial teoria de Faraday que, contudo, não foi abandonada
mas evoluiu da noção de partículas contíguas
para a teoria do campo. Este aspecto evolutivo, que permite que
a teoria não seja abandonada uma vez constatada sua inconsistência,
tem sido comum na história e constitui-se numa das fontes,
cita Whewell, de progresso, através da “clarificação
de conceitos”.[39]
Os problemas conceituais externos – fruto de alguma forma
de conflito entre teorias – surgem a partir da particular
relação que as teorias guardam entre si. Estas relações
podem ser de:
A – Implicação: T implica T1
B – Reforço: T fornece uma “rationale”
para T1.
C – Compatibilidade: T nada implica para T1.
D – Implausibilidade: T implica que T1 é improvável,
no todo, ou, em parte.
E – Inconsistência: T nega T1, no todo, ou, em parte.
Observa Laudan que tais relações muitas vezes passam
despercebidas, mas estão sempre presentes na avaliação
de teorias. Por exemplo, a compatibilidade pode representar um conflito
oculto, quando se espera que uma teoria que surge, reforce outra
e não ocorre o caso. Comenta que: “Os vários
domínios e disciplinas científicos nunca são
completamente independentes entre si. Numa dada época, há
sistemas hierárquicos de interconexão entre as várias
ciências que condicionam as expectativas racionais que os
cientistas guardam quando avaliam teorias.” (p. 53) É
o caso de uma teoria da hereditariedade que fosse compatível
com a química mas não utilizasse seus atuais recursos
e fosse vista, então, com desconfiança. Na relação
acima poderíamos dizer que, com exceção de
A, existe uma ordem crescente, de B a E, de graus de ameaça
cognitiva.
Laudan chama a atenção para o caráter não-arbitrário
de tais conflitos, pois: “... poderíamos criar um problema
para a moderna teoria quântica, indicando sua irrelevância
em relação ao Zen Budismo !”. (p. 55) Em outros
termos: há fontes para os problemas conceituais. Classifica-as
em:
A – Dificuldades intra-científicas. Casos em que duas
teorias científicas de diferentes domínios estão
em tensão. Um exemplo histórico seria o conflito do
sistema astronômico de Copérnico - que não consistia
numa teoria física, somente se tornando articulada, sob o
ponto de vista da física, com Galileu – e a física
aristotélica predominante na época.
B – Dificuldades normativas. A força das normas, da
metodologia que se espera da atividade científica, tem sido
uma fonte importante de conflitos conceituais. Via de regra, uma
teoria em conflito com a metodologia predominante, transforma-se
de modo a ajustar-se ao que se espera como método científico.
Lembra, a título de exceção, o conflito da
física newtoniana, que teorizava sobre entidades não
observáveis, como um caso em que a teoria impôs uma
mudança na metodologia científica. Considera que a
insistência de uma corrente de newtonianos, que não
quiseram adaptar-se aos métodos da época, é
responsável pela produção da metodologia hipotético-dedutiva
que é dominante até hoje. Este grupo de newtonianos
insistiu contra o indutivismo prevalecente de Bacon, Locke e do
próprio Newton. En passant, faz uma referência à
psicanálise considerando que o núcleo das críticas
que lhe são feitas, refere-se a questões metodológicas.[40]
Registra que nesses casos os historiadores e filósofos da
ciência, por subestimar o papel dos problemas conceituais,
ficam com dificuldade em encontrar uma rationale para a avaliação
das teorias concorrentes.
C – Dificuldades de “visão do mundo”.
Dá como um dos maiores exemplos históricos de conflito
entre uma teoria científica e a “visão de mundo”
dominante, a enorme repercussão que teve a teoria de Newton.
Uma nova ontologia se fez necessária, lembrando a sua influência
no desenvolvimento da obra de Kant e, segundo alguns autores (como
Buchdahl), foi um dos pontos centrais que desencadearam o iluminismo.
Foram levantadas questões quanto à nossa possibilidade
de conhecer o mundo, assim como uma nova inteligibilidade da ação
à distância. Como exemplo mais recente, cita o famoso
caso Lysenko, ou seja: o forte apoio que este autor recebeu, por
parte do estado soviético, para sustentar uma teoria contra
a biologia evolucionária, tanto o darwinismo como o mendelismo,
pelo fato de sua teoria vir ao encontro da visão de mundo
– a interpretação stalinista do marxismo –
dominante em seu ambiente cultural.[41] Laudan esclarece que, segundo
sua proposta epistemológica, o conflito em discussão
– teoria científica vs. “visão de mundo”
– pede uma solução para ambas e não há
possibilidade de previsão nestes casos, o resultado dependerá
da capacidade de resolver problemas (quer da teoria, quer da “visão
de mundo”).
A exemplo do que fez em relação aos problemas empíricos
discute o peso dos problemas conceituais. Considera-os mais sérios
do que uma anomalia empírica. Recordemos que a oposição
à mecânica newtoniana foi mais por conta da metafísica
da época do que por sua imprecisa previsão do movimento
da lua. Sugere quatro circunstâncias que influenciam o peso
dos problemas conceituais: a) O grau de tensão lógico
entre duas teorias; b) Quando no conflito entre T1 e T2, a importância,
na solução de problemas empíricos, de T2 é
muito grande para que a teoria seja abandonada. Neste caso, a incompatibilidade
conceitual não pesará tanto; c) Quando os problemas
conceituais ocorrem em ambas as teorias em competição,
seu peso diminuirá; d) A duração do problema
conceitual. Quanto mais recente o problema, maior o otimismo de
que seja superado.
Resume sua posição a respeito da seguinte maneira:
“ ... O que afirmo ... é que nenhuma das principais
filosofias da ciência contemporâneas fornece espaço
para o significativo papel que os problemas conceituais têm
desempenhado na história da ciência. Mesmo aqueles
filósofos que reivindicam tomar a real evolução
da ciência seriamente (por exemplo: Lakatos, Kuhn, Feyerabend
e Hanson) não fizeram sérias concessões às
dimensões não-empíricas do debate científico.
Agora, conhecemos o suficiente acerca da importância desses
fatores não-empíricos dentro da evolução
da ciência para dizer com alguma confiança que qualquer
teoria acerca da natureza da ciência que não encontre
lugar para problemas conceituais fracassa em reivindicar ser uma
teoria acerca de como realmente a ciência tem evoluído.”
(p. 66)
Como observamos, Laudan está introduzindo uma das noções
que será fundamental em sua epistemologia: a noção
de progresso, a qual servirá de suporte para a sua compreensão
da racionalidade. Antes de entrarmos na discussão desses
temas, que nos interessam de perto, é necessário esclarecermos
outro dos pilares da epistemologia de Laudan: a noção
de Tradição de Pesquisa.
5 – Tradição de Pesquisa – Trata-se
de uma contribuição original de Laudan, fruto da sua
tentativa de superar os impasses que o debate epistemológico,
em que está envolvido, apresenta. Nasce, também, da
insatisfação e insuficiência que o conceito
de teoria científica desperta, quando queremos dar conta
do desenvolvimento histórico do empreendimento científico.
Seus principais interlocutores, neste momento, são: Kuhn
e Lakatos, pois, ambos os autores se preocuparam com a mesma questão.
Kuhn sugere a noção de paradigma, enquanto Lakatos,
a de programas de pesquisa. Em ambos os casos, a preocupação
é a de identificar unidades maiores – conjuntos de
teorias – que simples teorias isoladas, para explicar os movimentos
– progressivos ou regressivos – da ciência. Embora
Laudan partilhe da mesma inquietação, vai criticar
as soluções apresentadas, oferecendo sua alternativa.
È, neste sentido, coerente com sua concepção
que qualquer teoria – inclusive as epistemológicas
– só pode ser avaliada comparativamente.
Parte o autor da distinção de duas acepções
do termo teoria científica. Na primeira: “... o termo
‘teoria’ denota um conjunto muito específico
de doutrinas relacionadas (comumente chamadas ‘hipóteses’,
ou, ‘axiomas’, ou, ‘princípios’)
que podem ser utilizados para fazer predições específicas
experimentais e para dar explicações detalhadas dos
fenômenos naturais.” (p. 71) Dá como exemplos:
a teoria do eletromagnetismo, de Maxwell; a teoria do valor, de
Marx; e a teoria do complexo de édipo, de Freud, entre outras.
Por outro lado, a segunda acepção se refere a conjuntos
de doutrinas e suposições, muito mais gerais e menos
testáveis, como: a “teoria atômica”, “teoria
da evolução”, ou, “a teoria cinética
dos gases”. Feita tal distinção, afirma:
“... As diferenças entre os dois tipos de teorias
... são vastas: não somente há contrastes de
generalidade e especificidade entre elas, mas os modos de julgamento
e avaliação que lhe são apropriados são
radicalmente diferentes. ... só quando nos tornamos plenamente
cientes das diferenças cognitivas e de avaliação
entre esses dois tipos de teorias, será possível ter
uma teoria do progresso científico que seja historicamente
fundada e filosoficamente adequada.” (p. 72)
Laudan, antes de apresentar as características de sua concepção
de Tradição
de Pesquisa, faz uma breve descrição crítica
das propostas de Kuhn e de Lakatos, procurando registrar em que
diferem da sua.
Vê os paradigmas como “ ... ‘modos de ver o
mundo’; amplos insights quasi-metafísicos ou suposições
acerca de como os fenômenos em algum domínio devem
ser explicados. Incluídas sob o guarda-chuva de qualquer
bem desenvolvido paradigma estará um número específico
de teorias, cada qual pressupõe um ou mais elementos do paradigma.”
(p. 73) Como é conhecido, para Kuhn, uma vez aceito pela
comunidade científica um paradigma, esta comunidade se comportará
dentro do que denomina: “ciência normal”, o que
é próprio das “ciências maduras”.
Ou seja: todos os problemas que se apresentem serão resolvidos
dentro do paradigma dominante, até que se acumulem anomalias,
de tal monta, que provoquem o descrédito do paradigma, estabelecendo-se
a crise paradigmática, que será resolvida pela revolução
científica, com a adoção de um novo paradigma.
As ciências imaturas seriam aquelas que não teriam
atingido a fase paradigmática[42], sendo característica
das mesmas um constante questionamento de seus fundamentos. O progresso
ocorreria, portanto, através das revoluções,
não tendo caráter cumulativo, ou seja, é um
“novo mundo” que se instala, incomensurável com
o anterior, o mundo do velho paradigma.
Embora, como já foi dito, Laudan concorde com muito da
contribuição de Kuhn, diverge nos seguintes pontos:
A – Alinha-se às críticas de outros autores,
como Lakatos e Feyerabend, quanto à dificuldade de Kuhn em
esclarecer certos pontos obscuros, ou, sem maior fundamentação
histórica, tais como: quando uma anomalia ameaça o
paradigma ? ou seria o número de anomalias ? neste caso,
qual o critério ? Não haveria, na história,
períodos longos de “ciência normal” como
quer Kuhn, assim como há registro de constantes disputas
de paradigmas.
B – Propõe outras críticas: a falha de Kuhn
em não ver o papel dos problemas conceituais; questiona a
idéia kuhniana de que os paradigmas (ou “matrizes disciplinares”)
são sempre implícitas e nunca amplamente articuladas
(na história as discussões científicas, via
de regra, são sobre questões explícitas); a
rigidez que Kuhn atribui aos paradigmas – sua imunidade às
críticas – não daria conta da evolução
das teorias abrangentes; a idéia de que os cientistas utilizariam
“exemplares” do mesmo paradigma parece não ocorrer,
sendo freqüente o uso do mesmo “exemplar” (“basicamente
uma aplicação arquetípica de uma formulação
matemática a um problema experimental”) com pontos
de vista radicalmente diferentes, quanto à ontologia e metodologia
científica.
Quanto aos programas de pesquisa de Lakatos, considera-os tanto
uma resposta como um avanço em relação a Kuhn.
Avanço na medida que, a proposta lakatosiana, admite a co-existência
de programas de pesquisa alternativos, sua possibilidade de comparação
racional (comensurabilidade) e, mais do que Kuhn, tenta lidar com
a difícil questão da relação entre a
super-teoria e suas mini-teorias componentes. Assim resume a epistemologia
dos programas de pesquisa:
“ ... têm três elementos: 1) um ‘núcleo
duro’ (ou ‘heurística negativa’) de suposições
fundamentais que não podem ser abandonadas ou modificadas
sem o repúdio do programa de pesquisa; 2) a ‘heurística
positiva’, que contém ‘um conjunto parcialmente
articulado de sugestões ou indicações de como
mudar ... modificar, sofisticar (sic)’ nossas teorias específicas
sempre que desejemos melhora-las, e 3) ‘séries de teorias,
T1, T2, T3, ...’ onde cada teoria subseqüente ‘resulta
do acréscimo de cláusulas auxiliares a ... teoria
prévia’. Tais teorias são os exemplos específicos
do programa de pesquisa geral. Os programas de pesquisa podem ser
progressivos ou regressivos de várias formas: mas, progresso
para Lakatos, mais mesmo do que para Kuhn, é exclusivamente
uma função do crescimento empírico de uma tradição.
É a posse de um maior ‘conteúdo empírico’
, ou de um maior ‘grau de corroboração empírica’
que faz uma teoria superior, ou mais progressista, em relação
a outra.” (p. 76)
As críticas de Laudan se dirigem aos seguintes pontos:
a) da mesma forma que Kuhn, Lakatos concebe o progresso exclusivamente
em termos empíricos; b) as excessivas restrições
que faz ao surgimento de novas mini-teorias – “duas
teorias só podem estar num mesmo programa de pesquisa se
um das duas implica a outra” (p. 77) – o que é
muito raro na história da ciência; c) a dependência
de Lakatos das noções de Tarski-Popper de “conteúdo
empírico e lógico”, o que coloca o progresso
como fruto da comparação de conteúdos empíricos,
o que por sua vez foi contestado, por autores como Grünbaum,
como não-factível; d) a falta de relação
entre uma teoria sobre o progresso e uma teoria sobre a aceitabilidade,
uma vez que Lakatos, idiossincraticamente (sic), se recusa a admitir
racionalidade na escolha entre teorias; e) a negação
do peso das anomalias na avaliação de um programa
de pesquisa; f) a rigidez, que também ocorre com Kuhn, quanto
ao núcleo do programa de pesquisa admitir mudanças
básicas.
Realizada a crítica aos autores, que reconhece terem tido
um relevante papel pioneiro, passa Laudan a expor sua alternativa:
a noção de Tradição de Pesquisa. Dá
exemplos, em vários domínios, de Tradições
de Pesquisa: Darwinismo, Teoria Quântica, Teoria Eletromagnética
da Luz, Empirismo e Nominalismo, Voluntarismo e Necessitarismo,
Behaviorismo e Freudismo; portanto, da biologia à psicologia,
passando pela física, filosofia e teologia, encontra conjuntos
– Tradições de Pesquisa - que entende ter características
em comum. Estas seriam:
A – Contêm um número de teorias específicas
que as exemplificam e, parcialmente, as constituem.
B – Têm compromissos metafísicos e metodológicos
que as caracterizam e distinguem das demais.
C – São amplas formulações, às
vezes, contraditórias, com longa duração no
tempo, diferentemente das teorias que, muitas vezes, são
fugazes.
As tradições de pesquisa, na medida em que fornecem
grandes linhas para o desenvolvimento de teorias, fazem com que
as teorias específicas tenham a função –
dentro de uma tradição de pesquisa – “de
explicar todos os problemas empíricos no domínio,
‘reduzindo-os’ à ontologia da tradição
de pesquisa.” (p.79) Mais ainda, determinam o modo como as
entidades que consideram legítimas devem relacionar-se. Dá
dois exemplos esclarecedores:
Se a tradição física em estudo é cartesiana,
só reconhece mentes e matéria como o que existe, estando
excluídas outras substâncias, ou, formas mistas. As
partículas cartesianas devem interagir por contato, não
por ação à distância.
Se a tradição é marxista, suas entidades
unicamente podem interagir em virtude de forças econômicas
que as influenciam.
Laudan fornece, neste momento, uma definição operativa
de Tradições de Pesquisa:
“... uma tradição de pesquisa é um conjunto
de suposições gerais acerca de entidades e processos
num domínio de estudo, e acerca dos métodos apropriados
a serem usados para a investigação de problemas e
construção de teorias neste domínio ... (as
tradições de pesquisa) não são nem explanatórias,
nem preditivas, nem diretamente testáveis.” (p. 81)
Observamos, pela citação acima, que há marcantes
diferenças entre teorias e tradição de pesquisa.
Neste sentido, uma tradição de pesquisa pode conter
teorias rivais, o que freqüentemente ocorre, uma vez que teorias
surgem em competição com antecessoras, geralmente,
oferecendo-se a testes empíricos, pois, pretendem fazer previsões
num determinado domínio. Apesar de tais diferenças,
são as tradições de pesquisa que nos oferecem
os instrumentos que necessitamos para resolver problemas –
empíricos e conceituais – assim como determinam o que
é problema em seu domínio, e que importância
têm. Ainda no marco das diferenças entre teorias e
tradições de pesquisa, esclarece:
“ ... uma bem sucedida tradição de pesquisa
é aquela que conduz, via suas teorias componentes, à
solução adequada de uma crescente gama de problemas
empíricos e conceituais. Determinar que uma tradição
é bem sucedida neste sentido não significa, evidentemente,
que a tradição foi ‘confirmada’ ou ‘refutada’.
Nem pode tal avaliação dizer-nos qualquer coisa acerca
da verdade ou falsidade da tradição. Uma tradição
de pesquisa pode ser enormemente bem sucedida em gerar teorias profícuas
e, contudo, ser falha em sua ontologia ou metodologia. Da mesma
forma podemos conceber que uma tradição de pesquisa
possa ser verdadeira e, contudo, (talvez, pela falta de imaginação
de seus proponentes) ser mal sucedida em gerar teorias que sejam
efetivos solucionadores de problemas. Daí, abandonar ou rejeitar
uma tradição de pesquisa não é (ou não
deveria ser) julgar que a tradição é falsa.”
(pp. 82-83)
As teorias e as tradições de pesquisa guardam entre
si relações complexas. Importante destacar que não
existe uma relação de implicação entre
ambas, assim: “ ... há inúmeras teorias mutuamente
inconsistentes que reivindicam lealdade à mesma tradição
de pesquisa, como há inúmeras diferentes tradições
de pesquisa que podem, em princípio, fornecer uma base para
uma dada teoria.” (p.85) Para melhor compreendermos tais relações,
devemos levar em conta que elas se dão sob dois pontos de
vista: o histórico e o conceitual.
As tradições de pesquisa influenciam fortemente
– embora não totalmente – o âmbito e o
peso dos problemas empíricos com os quais suas teorias componentes
devem trabalhar, da mesma forma que determinam seu domínio
conceitual. Em conseqüência, delimitam o domínio
de aplicação das teorias específicas, assim
como podem gerar problemas conceituais para as teorias. Em suma:
têm as tradições de pesquisa um papel constrangedor
em relação às suas teorias componentes. Pensemos,
a título de exemplo, em “cartesianos” como Huygens
e Leibniz – comprometidos com uma ontologia de corpos em ação
por contato – viam a teoria da mecânica celeste de Newton
como supérflua.
Por outro lado, as tradições de pesquisa exercem
um papel heurístico em relação às teorias,
oferecendo-lhes dados iniciais para a sua construção.
Isto não significa, evidentemente, que podemos deduzir teorias
das tradições de pesquisa, mas que estas indicam linhas
de pesquisa. Por exemplo: quando Descartes desenvolveu sua teoria
sobre a luz e as cores, já tinha inaugurado uma tradição,
na qual as únicas propriedades que os corpos poderiam ter
seriam as de tamanho, forma, posição e movimento.
Tais propriedades serviam, assim, como parâmetros para qualquer
teoria física a ser construída. Desta forma, sabia
Descartes, de antemão, que sua teoria ótica deveria
seguir linhas compatíveis com tais propriedades dos corpos
e assim o fez.
Um segundo, e importante, papel heurístico das tradições
em relação às teorias já havia sido
assinalado por Lakatos: o de indicar, em linhas gerais, como as
teorias devem ser modificadas para aumentar sua capacidade de resolver
problemas. Como exemplo histórico, pode ser citada a modificação
que a teoria cinética dos gases sofreu – para dar conta
do insucesso inicial de suas predições – dentro
de uma flexível tradição de pesquisa que permitia
a criação de novas hipóteses explicativas.
Uma das mais importantes funções das tradições
de pesquisa em relação às teorias é
a de racionalizá-las, ou, justificá-las. Usualmente,
as teorias fazem muitas suposições sobre a natureza,
as quais não podem ser justificadas, quer no interior da
teoria, quer por dados que confirmem a teoria. Contudo, a tradição
a que a teoria está ligada, fornece-lhe uma rationale que,
pelo menos, garante ao cientista uma “primeira audiência”
– por parte de seus pares, que também partilham da
mesma tradição – embora, outros (de tradições
diversas) possam questioná-la.
Laudan, assim, resume o exame que faz da relação
teoria/tradição de pesquisa:
“ ... as tradições de pesquisa podem justificar
muitas das afirmações que suas teorias fazem; podem
servir para marcar certas teorias como inadmissíveis porque
são incompatíveis com a tradição de
pesquisa; podem influenciar o reconhecimento e o peso de problemas
empíricos e conceituais para suas teorias componentes, e
podem fornecer linhas gerais heurísticas para a geração
ou modificação de teorias específicas.”
(p. 93)
Laudan faz uma aguda observação sobre a possibilidade
de uma teoria se destacar de sua originária tradição
de pesquisa, o que registramos, uma vez que nos será muito
útil em nossas Considerações Finais. Diz que
uma teoria se afasta de sua tradição original, em
geral, quando é absorvida por uma tradição
alternativa, totalmente ou com pequenas modificações.
Isto ocorre porque, via de regra, as teorias não têm
vida própria e sua própria existência, em geral,
tem curta duração. Lembra que as teorias não
têm a capacidade de autenticarem-se, pois, fazem afirmações
sobre o mundo para as quais não oferecem uma rationale. Esta
– a rationale – como já vimos, seria uma contribuição
da tradição de pesquisa. Dá, como exemplos
históricos, as primeiras doutrinas da termodinâmica
que se iniciaram numa tradição calórica (teorias
substancialistas do calor) e foram absorvidas pela tradição
cinética; assim como Newton foi capaz de mostrar que sua
teoria poderia absorver a teoria do impacto de Huygens, a qual era
de tradição cartesiana. É importante frisar
que estamos sempre lidando com tradições em competição.
Uma vez sendo criaturas históricas (sic), as tradições
de pesquisa florescem, crescem, desaparecem mas, também,
evoluem. Este último aspecto é o de mais difícil
elucidação. Laudan lembra as dificuldades de Lakatos
e Kuhn para dar conta de uma evolução, quer dos programas
de pesquisa, quer dos paradigmas, tendo esses autores optado por
ser um acontecimento, uma ocorrência histórica, inexplicável
racionalmente, o mecanismo íntimo de sua substituição,
não deram conta, sobretudo, da possibilidade de evolução.
Laudan crê numa evolução das tradições
de pesquisa e fornece, convincentes exemplos históricos:
mudanças no aristotelismo (certos aristotélicos abandonaram
a idéia da impossibilidade do movimento no vazio), no cartesianismo
(certos cartesianos repudiaram a identificação de
matéria e extensão), ou, na psicologia freudiana[43].
Diz, a respeito:
“ ... estes aparentes ‘renegados’ não
estavam mais trabalhando dentro de uma tradição, a
qual eles honestamente reivindicavam subscrever ? Tomás de
Aquino deixa de ser um aristotélico porque rejeita partes
da análise de Aristóteles do movimento ? Huygens se
torna não-cartesiano porque admite a possibilidade de espaços
vazios ?” (p. 97)
As mudanças das teorias componentes seria um dos elementos
de evolução das tradições de pesquisa.
Contudo, o ponto mais problemático, refere-se ao núcleo,
quais seriam os elementos que não poderiam ser alterados,
sob pena de não estarmos mais falando de uma mesma tradição
de pesquisa ? A solução de Lakatos é que, nessas
maxi-teorias (programas de pesquisa, paradigmas ou tradições
de pesquisa), o núcleo é intocável. A posição
de Laudan é muito mais flexível, pois, questiona o
que seja o núcleo, ou melhor, julga que os elementos nucleares
se alteram com o tempo: “O que constituía a essência
do tradição de pesquisa marxista no final do século
XIX é substancialmente diferente da ‘essência’
do marxismo cinqüenta anos mais tarde.” (p. 99) Reconhece
Laudan não ter uma resposta satisfatória para o que
seria “não-rejeitável” numa tradição
de pesquisa, mas acredita que relativizando a questão aproxima-se
mais de como os cientistas realmente trabalham, ou, utilizam uma
tradição. Acredita também que, através
da evolução de uma tradição ativa, se
aprende mais sobre o seu “núcleo não-rejeitável”.
Uma rica discussão é apenas mencionada, na obra
central de Laudan, que estamos discutindo, e refere-se às
relações entre tradição de pesquisa
e visão de mundo. É uma inter-relação,
a nosso ver, embora Laudan veja mais numa direção:
tradição de pesquisa ® visão de mundo.
Mostra como, nem sempre uma bem sucedida tradição
de pesquisa altera a visão de mundo (“certos sistemas
mais amplos de crenças dentro de uma dada cultura”),
como ocorreu com as tradições inauguradas por Galileu,
Descartes ou Newton. Menciona também os reajustes que as
pessoas reflexivas tiveram que fazer ante o impacto do darwinismo
ou do marxismo. Mostra, contudo, que tal resistência não
tem – como muitos pensam – um caráter necessariamente
conservador, pois, muitas vezes as novas tradições
foram rapidamente aceitas, por corresponderem a expectativas da
época. Voltaremos a este ponto em nossas críticas
à proposta de Laudan. No momento, gostaríamos de registrar
também a noção de pessoas reflexivas –
ou comunidade de pensadores – que desempenha um importante
papel na proposta de Laudan.
O autor chama a atenção para o fato de que os cientistas
trabalham, freqüentemente, com mais de uma tradição
de pesquisa. Deseja salientar que não vê as tradições
de pesquisa como estando, necessariamente, em competição.
O que ocorre é um movimento permanente, mais de integração
do que de supressão de uma tradição sobre as
demais. Cita o exemplo do marxismo que retirou elementos do idealismo
de Hegel, do materialismo de Feuerbach e do “capitalismo”
de Adam Smith e seus seguidores.
Reconhece o autor o caráter incipiente de sua proposta,
a qual merece mais pesquisa para futuros esclarecimentos, como é
o caso: da questão das tradições de pesquisa
não-standards, ou seja, “ ... aquelas unidades que
são demasiado estreitas para serem plenas tradições
de pesquisa, mas bastante globais para serem consideradas como meras
teorias.” (p. 106) Um dos exemplos que dá, diz-nos
diretamente a respeito, é o da psicometria, do início
do século XX, que sustentava a idéia de um possível
representação matemática de fenômenos
mentais. São casos em que os cientistas têm uma mesma
metodologia e ontologias diferentes, ou, vice-versa.
A avaliação das tradições de pesquisa
nos leva, inevitavelmente, para a ampla questão do crescimento
científico, ou, em outros termos: para a noção
de progresso, o que implica a concomitante discussão de racionalidade,
segundo o ponto de vista de Laudan.
6 – Progresso e Racionalidade – Como sublinhamos,
desde o início da discussão da epistemologia de Larry
Laudan, a noção de progresso exerce, nesta, um papel
central por vários motivos, dentre os quais destacamos que
é, através dela, que podemos aproximarmo-nos da noção
de racionalidade. A rigor, esta última interessa-nos mais,
dados os propósitos desta dissertação. Entretanto,
gostaríamos de assinalar que a questão do progresso
tem um valor em si, constituindo-se num desafio para qualquer epistemologia.
Quer seja o de explicar como é possível o progresso
ou o crescimento do conhecimento científico, quer seja o
de esclarecer em que consiste tal noção que é,
por muitos, relativizada (Kuhn), ou, até negada (em certa
medida, Feyerabend). Sugerimos a retomada da discussão do
processo de avaliação das tradições
de pesquisa como a melhor forma de compreendermos o que significa
progresso, pelo menos, do ponto de vista da proposta em discussão.
Propõe Laudan dois critérios para a avaliação:
adequação e progressividade. Por adequação
entende a capacidade das teorias mais recentes da tradição
em resolver problemas. Enquanto que, por progressividade, entende
a determinação se uma tradição, no curso
do tempo, ou aumentou ou diminuiu sua eficácia. A progressividade
implica em duas ordens de medidas:
A – O progresso geral de uma tradição de pesquisa.
Determinado pela comparação da eficácia entre
as antigas e as mais recentes teorias componentes.
B – A taxa de progresso de uma tradição de
pesquisa. Determinada pelas variações, num determinado
período de tempo, da eficácia da tradição.
A distinção entre esses dois índices é
importante uma vez que não andam, necessariamente, passo
a passo. Uma tradição pode representar um elevado
progresso geral, mas vir apresentando uma baixa taxa de progresso,
ou, ao contrário, uma tradição pode estar apresentando
uma elevada taxa de progresso, mas seu progresso geral ser reduzido.
O que está em jogo é um aspecto temporal. Vai sofisticar
mais ainda o processo de avaliação, distinguindo duas
modalidades: o contexto da aceitabilidade e o contexto da busca.
Argumenta que a falta desta distinção – dos
contextos em que as teorias (ou conjunto de teorias) são
avaliadas – tem levado a equívocos, como o de considerar
escolhas históricas, entre teorias, como irracionais. Esquece-se
que nos dois diferentes contextos, são também diferentes
os objetivos e critérios em jogo.
A – Contexto da Aceitabilidade – Aceitar uma teoria
é “ ... tratá-la como se fosse verdadeira”.
(p. 108) Os critérios, então, podem ser os mais diversos:
desde o maior grau de confirmação (para os indutivistas),
até o de escolher qualquer uma por não haver escolha
racional (Kuhn), passando pelo de maior grau de falseabilidade (para
os falsificacionistas, à la Popper). Sugere o seu próprio:
“ ... escolha a teoria (ou tradição de pesquisa)
de maior eficácia em resolver problemas”, esclarecendo:
“Sob este ângulo, a rationale para aceitar ou rejeitar
qualquer teoria é, então, fundamentalmente baseada
na idéia de progresso em resolver problemas. Se uma tradição
de pesquisa resolveu mais importantes problemas do que suas rivais,
então aceitar esta tradição é racional,
precisamente no grau em que estamos almejando o ‘progresso’,
isto é, maximizar o escopo de problemas resolvidos. Em outras
palavras, a escolha de uma tradição sobre as suas
rivais é uma escolha progressiva (e assim uma escolha racional)
precisamente na medida em que a tradição escolhida
é uma melhor solucionadora de problemas do que suas rivais.”
(p. 109)
B – O Contexto da Busca - Somente a aceitabilidade não
dá conta da escolha que os cientistas fazem das teorias a
serem investigadas, daí a idéia de muitos da não
racionalidade da escolha entre teorias. Contudo, Laudan considera
racional uma escolha de uma teoria, mesmo que seja a menos aceitável.
Argumenta que não se pode saber de antemão o futuro
sucesso de uma teoria: “ ... é sempre racional buscar
alguma tradição de pesquisa que tenha uma maior taxa
de progresso do que suas rivais (mesmo se ela tenha uma eficácia
menor em solucionar problemas)”. (p.111) O que está
em jogo, nesses casos, é a “promessa”, ou, a
“fecundidade” da teoria. O exemplo mais marcante que
oferece é a tradição de pesquisa galileana,
a qual inicialmente não oferecia mais soluções
do que o aristotelismo, mas prometia a curto prazo oferecer soluções.
O mesmo ocorreu com o atomismo de Dalton, que era inferior à
tradição, então dominante, das afinidades eletivas.
A respeito deste último exemplo diz:
“Aquela tradição química (química
das afinidades eletivas) tinha sido enormemente bem sucedida em
correlacionar e predizer como as diferentes substâncias químicas
se combinavam. A doutrina atômica inicial de Dalton nada podia
reivindicar ante o sucesso em resolver problemas da química
das afinidades eletivas ... o sistema de Dalton confrontava-se com
numerosas e sérias anomalias. O que Dalton era capaz de fazer,
contudo, era predizer – como nenhum outro sistema havia feito
antes – que as substâncias químicas se combinariam
em certas definidas proporções e múltiplos,
não importando quanto dos vários reagentes estivesse
presente. ... Ainda que a maioria dos cientistas se recusasse a
aceitar a proposta daltoniana, muitos contudo estavam preparados
para tomá-la seriamente, alegando que a capacidade de fazer
descobertas do sistema daltoniano o fazia, ao menos, suficientemente
promissor para ser valioso para futuro desenvolvimento e refinamento.”
(p.113)
Laudan acredita que a introdução do contexto de
busca possa ser uma solução intermediária,
mais saudável (sic), para a insistência de Kuhn em
que nunca é racional a busca de alternativas ao paradigma
dominante (exceto nos momentos de crise) e, por outro lado, a posição
anarquista de Feyerabend e, no caso, de Lakatos que consideram a
busca de qualquer tradição de pesquisa – não
importando se regressiva ou não – como sendo sempre
racional. A rigor, a nosso ver, são posições
idênticas (Kuhn, Feyerabend e Lakatos), pois, a noção
de racionalidade desaparece.
Vejamos como apresenta a questão do progresso e racionalidade:
“Uma das mais espinhosas questões da filosofia do
século XX diz respeito a natureza da racionalidade. Alguns
filósofos sugerem que a racionalidade consiste em agir para
maximizar utilidades pessoais; outros sugerem que a racionalidade
consiste em acreditar em, e agir segundo, somente aquelas proposições
das quais temos boa base para crer serem verdadeiras (ou ao menos
serem mais prováveis que não); outros apontam que
a racionalidade é uma função da análise
custo-benefício; ainda outros reivindicam que racionalidade
leva a não mais do que colocar afirmações que
possam ser refutadas. Muito foi escrito sobre estas, assim como
outras, noções de crença e ação
racionais. Mas, ignorando o fato de que nenhuma dessas explicações
de racionalidade se mostrou livre de dificuldades lógicas
e filosóficas, nunca foi mostrado que qualquer delas é
suficientemente rica para se ajustar às nossas intuições
acerca da racionalidade inerente em muito da história do
pensamento científico. Pelo contrário, é relativamente
fácil mostrar que há numerosos casos na história
da ciência – casos em que quase todos concordariam intuitivamente
que a análise racional estava ocorrendo – que vão
contra a cada um dos modelos de racionalidade acima mencionados.”
(p.p.21-22)
Ao fazer uma crítica tão ampla – a praticamente
todas as correntes epistemológicas – considera o autor
que a única forma de aproximação ao tema da
racionalidade, seria o de colocá-lo como parasítico
(sic) ao de progresso e, ambos, subordinados ao seu modelo de solução
de problemas. Sustenta a radicalidade de sua posição
através de exemplos históricos e aprofunda-a, chegando
a defender que pode ser racional a objeção, por motivos
filosóficos ou religiosos, levantada a alguma teoria ou tradição
de pesquisa científica. Isto fica menos impactante, caso
lembremos que uma teoria ou tradição de pesquisa é
avaliada segundo os problemas empíricos e conceituais que
resolve e as anomalias que gera. Sua preocupação é
identificar a escolha racional como a progressista, com aquela que
aumenta a eficácia das teorias que aceita. Está pressupondo,
pois, “ ... uma teoria da racionalidade sem pressupor qualquer
coisa acerca da veracidade ou verissimilitude das teorias que julgamos
ser racionais ou irracionais”. (p. 125)
Laudan admite que pode ser mal interpretado, tanto no sentido
de negar que as teorias científicas sejam verdadeiras, como
no de ser confundido com um partidário da epistemologia “vale
tudo” (“anything goes”), à la Feyerabend.
Rebate tais possíveis críticas, frisando que seu modelo
não nega uma interpretação “realista”
do empreendimento científico – apenas não vê
como possamos afirmar que a ciência é verdadeira, provável
ou aproxima-se da verdade – da mesma forma que tal modelo
exige altos padrões de comportamento racional. Quanto a este
último ponto, desenvolve mais longamente sua contra-argumentação,
uma vez que muitos filósofos da ciência pretenderam
reivindicar que nossos padrões de avaliação
racional podem ter permanecido constantes durante o tempo, enquanto
outros (como Popper e Lakatos) admitem que tais padrões evoluíram
mas que podemos reconstruir a racionalidade de um momento histórico,
segundo nossos atuais padrões. O autor julga que os historiadores
da ciência recusam ambas pretensões. Lembra que cientistas
do passado tiveram que fazer suas opções em relação
às teorias apresentadas, segundo seus critérios e
não os nossos. Questiona também a arrogância
de imaginarmos serem nossas teorias de racionalidade melhores que
as deles – o que pode ser verdade – e com isto não
enxergarmos o que foi operativo naquele determinado caso histórico.
Reconhece que a racionalidade tem características transtemporais
e transculturais, embora tais características não
possam excluir a participação – não ocasional,
mas constante – de fatores extra-científicos; a noção
de eficácia seria uma dessas características. En passant,
faz um comentário que julgamos digno de ser registrado, pois,
utilizaremo-lo mais adiante. Referimo-nos ao fato de pressupor que
seu modelo se aplica àquelas culturas que têm uma tradição
de discussão crítica, “ ... sem a qual nenhuma
cultura pode reivindicar racionalidade”.
Retornando ao tema das escolhas históricas aparentemente
irracionais, ou seja, aquelas em que motivos políticos ou
religiosos predominaram, vale a pena mencionar os parâmetros
que Laudan sugere para a avaliação histórica
do processo de escolha entre teorias ou tradições
de pesquisa:
“A racionalidade ou irracionalidade de qualquer episódio
onde fatores ‘não-científicos’, mas intelectuais,
desempenham um papel deve ser avaliada segundo caso por caso. Todavia
princípios norteadores poderiam ser: 1) no caso de tradições
de pesquisa competidoras, se uma daquelas tradições
é compatível com a mais progressista ‘visão
de mundo’ disponível, e a outra não, então
há fortes bases para preferir a primeira; 2) se ambas as
tradições podem ser legitimadas com referência
a mesma ‘visão de mundo’ , então a decisão
racional entre elas pode ser feita sob bases inteiramente ‘científicas’;
3) se nenhuma tradição é compatível
com uma progressista ‘visão de mundo’, seus proponentes
devem ou articular uma nova ‘visão de mundo’,
que as justifique, ou desenvolver uma nova tradição
de pesquisa que possa ser compatível com a mais progressista
‘visão de mundo’ existente.” (pp. 132-133)
Como entendemos que as principais críticas à proposta
de Laudan, neste ponto, possam vir daqueles que ficaram conhecidos
como “externalistas” – defensores de uma história
da ciência escrita a partir, fundamentalmente, de fatores
sócio-econômicos – em oposição
aos “internalistas” – defensores de uma história
da ciência escrita a partir do próprio interior do
empreendimento científico – acrescentamos a esta dissertação
um apêndice (Apêndice II), no qual resumimos a discussão
de Laudan a respeito.
Laudan julga que sua proposta pode dar melhor conta da questão
do processo de crescimento do conhecimento científico –
cumulativo ou não-cumulativo – do que as atuais alternativas,
principalmente, a de Kuhn (crescimento por “revoluções
científicas”). Vai criticar tanto as teorias cumulativas
(Popper e Lakatos), como as não-cumulativas (Kuhn), baseando-se
mais uma vez em dados da história da ciência. Nesta
linha, observa que as “revoluções científicas”
não foram tão revolucionárias como, à
primeira vista, parecem. Faz tal afirmação ao negar
que a chamada “ciência normal” (Kuhn), que pressupõe
um paradigma dominante, seja o comum na história. Sempre
ocorreram disputas entre tradições de pesquisa e questionamentos
sobre os fundamentos da ciência (o que, segundo Kuhn, não
ocorreria nos períodos de “ciência normal”),
não sendo tais questionamentos próprios, ou exclusivos,
quer de situações de crise, quer das chamadas “ciências
imaturas”. Da mesma forma, não vê a adoção
de um novo paradigma, ou de uma nova tradição de pesquisa,
como um acolhimento por parte da maioria dos cientistas. Pelo contrário,
observa que as inovações são recebidas e defendidas
por um número reduzido de cientistas. A idéia de Kuhn
– e também de Lakatos – de que a atividade científica
durante o período em que o paradigma ou o programa de pesquisa
atinge a maturidade, está imune a influências externas,
também não encontraria respaldo na história.
Da mesma forma, as exigências de Popper, assim como de Lakatos,
de que a nova teoria deve resolver os mesmos problemas que a anterior
e novos, ou aqueles até então não resolvidos,
aumentando o conteúdo empírico, seria pobre em exemplos
históricos.
Continuando sua crítica às epistemologias correntes,
em especial aos relativistas, questiona os fundamentos da incomensurabilidade
de paradigmas. Considera que o critério de solução
de problemas permite uma certa independência para a avaliação,
mesmo histórica, das diversas alternativas, portanto, da
escolha racional entre teorias. Sua argumentação se
baseia na suposição de que a maior parte dos problemas
empíricos pode ser formulada em linguagem, mesmo que teórica,
comum às diversas tradições em competição.
Ao mesmo tempo, os problemas que são próprios de uma
tradição podem ser avaliados dentro da mesma, por
critérios de consistência, simplicidade, refutabilidade
ou precisão nas previsões. De certa forma, Laudan
concorda com Kuhn quanto ao progresso representar “ganhos
e perdas”. Entretanto, coloca a questão em outros termos:
a eficácia na solução de problemas pode relegar
a um segundo plano questões que seriam problemas –
mesmo que “problemas resolvidos” – para a tradição
anterior (recordemos que a “química das afinidades
eletivas” resolvia problemas que a química de Dalton
não dava conta. Neste caso o que houve foi uma mudança
do peso dos problemas).
Laudan estende a aplicação de seu modelo de progresso
às humanidades, num instigante capítulo – História
das Idéias – onde defende como possível e apropriado
(sic) falar de progresso nas não-ciências, considerando
simplista a identificação de racionalidade científica
com controle e precisão quantitativa. Sugere que o tema seja
melhor pesquisado:
“ Se há alguma verdade na afirmação
(positivista) acerca das diferenças entre as ciências
e não-ciências, e eu suspeito que haja alguma verdade
nisto, tais diferenças serão encontradas, não
na exclusiva exibição de progresso pelas ciências,
mas mais ainda na maior taxa de progresso por elas exibida. Todavia,
mesmo esta afirmação é ainda uma matéria
de vaga intuição, e assim permanecerá até
que historiadores das idéias não-científicas
comecem a re-escrever a história com uma visão voltada
para a avaliação do progresso relativo e da racionalidade
das tradições de pesquisa em competição,
nas humanidades.” (p. 192)
7 – A Comunidade de Pensadores – Laudan faz recorrentes
referências a “comunidade de pensadores”, “pessoas
reflexivas”, ou, simplesmente, “pensadores” como
os agentes da escolha entre teorias ou tradições de
pesquisa. A rigor, a racionalidade estaria localizada nestes agentes,
ou seja: a escolha realizada pelo agente é que seria racional,
não a teoria ou a tradição de pesquisa. É
um ponto que não desenvolve em sua obra maior e, ao que pudemos
constatar, em suas outras, posteriores.
A partir desses pontos básicos que procuramos resenhar,
Laudan discute os principais temas que dominam o debate epistemológico
anglo-saxão contemporâneo. Discute também questões
ligadas à história das idéias e ao papel da
ciência. Ambas as questões estão relacionadas
com o nosso tema, ao qual devemos agora retornar. Pois, apresentamos
a proposta de Laudan no contexto de crítica às insuficiências
da epistemologia popperiana para lidar com o problema da racionalidade
da teoria psicanalítica. Cabe fundamentar nossa suposição
de ser melhor a proposta de Laudan do que a de Popper. Antes, seguindo
a metodologia que adotamos em relação aos demais autores
discutidos, devemos alinhar nossas críticas. Estas seriam
de duas ordens, fundamentalmente:
A – Relega Laudan a um segundo plano, como seus demais interlocutores
(Popper, Lakatos, Kuhn e Feyerabend), o problema da linguagem. Indagamos
se seria possível, principalmente, na discussão da
psicologia e, em particular, da teoria psicanalítica, reduzir
tão rapidamente – sem maior questionamento –
as proposições na primeira pessoa em proposições
na terceira pessoa.
B – Sentimos falta de uma maior discussão de temas
das chamadas ciências humanas, o que é também
uma constante, na tradição em que está inserido.
O autor, no Prólogo da obra que tomamos como referência,
faz a ressalva de que tratará exclusivamente do que entende
por “progresso cognitivo”, ou seja: “... progresso
em relação às aspirações intelectuais
da ciência.” Em seu entendimento, o progresso cognitivo
não implica , nem é fruto, de progresso material,
social, ou, espiritual. Embora reconheça que não seja
possível desconectar, completamente, tais noções,
não se propõe ao exame de suas relações.
C – Não discute o papel da “comunidade de pensadores”
que, em nossa leitura, é extremamente relevante no processo
decisório de escolha entre tradições de pesquisa.
Malgrado essas restrições, consideramos a proposta
de Larry Laudan capaz – no marco do conjunto de epistemologias
que servem de pano de fundo deste trabalho – de superar muitas
das insuficiências que encontramos na epistemologia popperiana,
quando aplicada à teoria psicanalítica, pelos motivos
que listamos a seguir:
A – Faz uma melhor formulação do problema
da racionalidade – Como foi visto, se a racionalidade, por
um lado, como quer o autor, fica sendo uma noção parasítica
da de progresso, por outro, liberta-a de uma submissão à
de cientificidade. A crítica que poderia ser feita, seria
a de que fica borrada a distinção entre cientificidade
e racionalidade; porém, num sentido muito diverso do de Popper,
o que permite um amplo espaço de discussão para empreendimentos
racionais, como julgamos ser a teoria psicanalítica. Recordemos
que esta é uma das hipóteses de partida da pesquisa,
à qual esta dissertação está subordinada.
B – Melhor tratamento dos problemas conceituais –
Talvez, esta seja a contribuição mais original de
Laudan: colocar os problemas conceituais como constitutivos do empreendimento
científico e de seu processo decisório. Distancia-se,
assim, do “positivismo”, em sua acepção
pejorativa. O mundo de Laudan é bem mais rico que o de Popper.
C – Melhor aproximação da questão do
progresso – Como observamos em vários momentos, em
nossa crítica à proposta popperiana, esta colidia,
ora com a real forma de trabalho dos cientistas, ora com os registros
históricos das vicissitudes da trajetória das teorias
científicas. O caráter fortemente prescritivo da epistemologia
de Popper não dá lugar para a compreensão dos
movimentos progressivos ou regressivos da ciência. Paradoxalmente,
a epistemologia popperiana justifica uma leitura irracionalista
da história da ciência, pois, ao contrário de
Laudan, não nos dá elementos para pensar de forma
mais ampla a intimidade do processo de crescimento científico,
tal como historicamente se dá.
D – Permite um espaço de reflexão para as
relações entre “visão de mundo”
e ciência – A introdução dos problemas
conceituais, frisamos, como constitutivos do empreendimento científico,
permite a Laudan dar o devido valor à mútua relação
entre “visão de mundo”, teorias científicas,
aceitabilidade científica, interesses científicos
(vide seus comentários sobre o contexto de busca). Apesar
de pretendermos deixar para o próximo capítulo nossas
considerações a respeito deste tema, adiantamos ter
sido uma preocupação de Freud que a psicanálise
não se tornasse uma weltanschauung , tendo escrito um pequeno
texto sobre a questão (Freud, 1933, S. E. XXII), o qual relemos
agora como uma preocupação de não fazer colidir
a psicanálise com “visões de mundo” que
poderiam tomá-la como competidora. Independente das intenções
e cautelas do criador da psicanálise, esta foi recebida,
ora com repúdio, ora com um excessivo entusiasmo que mal
escondeu o movimento de sua absorção, desvitalização
e banalização.
E – Fornece instrumentos para uma investigação
epistemológica mais rica da teoria psicanalítica –
Curiosamente, os instrumentos a que nos referimos já estavam
contidos na proposta popperiana, embora não utilizados por
Popper. Estamos falando, no caso de Laudan, da visão da ciência
como um método de solucionar problemas. Em Popper, o método
proposto para a crítica de programas de pesquisa metafísica
– a “análise situacional” – é,
exatamente, um método de avaliação da melhor
forma de solucionar situações-problema. Laudan, ao
aprofundar sua noção de problema e de seu papel na
ciência, propicia-nos uma nova forma de pensar as questões
epistemológicas que interessam à teoria psicanalítica.
Colocando a questão em outros termos: ao enfatizar a centralidade
da eficácia na solução de problemas para a
avaliação das propostas científicas, abre espaço
para a teoria psicanalítica apresentar sua proposta em competição
com outras, deslocando para segundo plano uma questionável
discussão de seus fundamentos, como o de qualquer outra teoria
do mesmo domínio. Observamos aí uma inversão
da crítica tradicional que, com freqüência, se
esteriliza na busca de fundamentos.
F – A Teoria Psicanalítica como uma Tradição
de Pesquisa – A proposta de Larry Laudan nos permite pensar
a teoria psicanalítica, com suas peculiaridades, desde sua
ontologia até sua específica metodologia, como mais
uma tradição de pesquisa. O aspecto amplo e, em grande
medida, vago da noção de tradição de
pesquisa, antes de ser um defeito, é a nosso ver uma virtude,
uma vez que não pretende como a de paradigma (Kuhn) –
com quem partilha da mesma imprecisão – ser uma noção
rígida. Em nosso entendimento da leitura de Laudan, os aspectos
ontológicos e metodológicos seriam os fundamentais
para que diversas teorias – como é o caso da teoria
psicanalítica – compartilhassem da mesma tradição.
A isenção da responsabilidade por critérios
de refutabilidade ou previsibilidade dão também a
liberdade de substituirmos teorias que se mostraram inadequadas,
sem abandonarmos a tradição. Como já comentamos,
em outro momento, concordamos que, pelo menos, boa parte das teorias
que compõem a teoria psicanalítica – ou a tradição
freudiana (na terminologia de Laudan, embora, preferíssemos:
tradição psicanalítica, a fim de incluir as
novas contribuições) – não se saem bem
ante testes de refutabilidade e previsibilidade. Entretanto, como
também já comentamos, a metodologia que fundamenta
tais testes não é adequada à psicanálise,
ou seja: a tradição psicanalítica pede outros
métodos. Exemplificamos esta afirmação ao dar
como modelo a teoria psicanalítica sobre os grupos humanos
que, como procuramos demonstrar, se sai bastante bem, quase exemplar,
quando avaliada pelo método da “análise situacional”
(Popper). É possível que a “análise situacional”
seja uma boa candidata a método de avaliação
de grande parte, pelo menos, de teorias componentes da tradição
psicanalítica, enriquecida pela noção de problema,
segundo Laudan. Outra vantagem de tomarmos a teoria psicanalítica
como uma tradição de pesquisa seria um melhor entendimento
de sua evolução, como observamos ao fazer referência
ao trabalho de Melvin Lansky (Lansky, 1997) acerca das repercussões
epistemológicas dos desenvolvimentos da psicanálise.
Entendemos que formulação semelhante – a necessidade
da psicanálise encontrar um modelo próprio –
foi a que fez Klimovsky:
“ ... se a psicanálise se desenvolver como ciência
madura, terminará por achar que os modelos que a levaram
ao êxito são os que lhes são próprios
e não os que saíram por analogia das outras disciplinas
e, então, assim como a biologia tem seus modelos homeostáticos
e a sociologia seus modelos estruturais, a psicanálise terá
seus modelos psicanalíticos. Em tal sentido, diremos que,
em última instância e como nas outras ciências,
a peculiaridade do material psicanalítico não muda
a estrutura lógica profunda do problema da validade das teorias,
mas sim muda o tipo de imaginação, o ato criativo
do investigador para propor suas hipóteses, para formar seus
teoremas, suas teorias. Aqui é onde nos encontramos com algo
sui generis da psicanálise, e quem não tenha trabalhado
em psicanálise e não entenda bem sua metodologia não
se dá conta de como se produzem seus modelos, nem se fará
a par das dificuldades inerentes ao problema com que a psicanálise
trata.” (Klimovsky, 1987: 282)
A noção de tradição de pesquisa levanta
outra questão que diz respeito mais diretamente a esta dissertação:
a possibilidade de uma maxi-teoria, como a psicanálise, pertencer
a mais de uma tradição, pelo menos, parcialmente.
Com isto queremos dizer que suspeitamos que a tradição
psicanalítica permite a absorção de teorias
epistemológicas diversas que a fundamentem, ou, reinterpretem-na
com maior ou menor êxito. Este processo de integração
de tradições de pesquisa, como já foi assinalado,
é uma possibilidade histórica que Laudan registra.
Deste modo, a racionalidade do empreendimento psicanalítico
pode receber fundamentação de fontes diversas, guardar
tensões com tradições diversas – como
nos parece ser o caso de sua relação com a tradição
popperiana – sem que o seu núcleo seja afetado. Nesta
linha de pensamento poderíamos supor a teoria psicanalítica
como uma teoria componente da tradição popperiana
– haja vista a manifesta ambivalência de Popper em relação
à psicanálise – como um de seus programas de
pesquisa metafísica guardando com a mesma (tradição
popperiana) uma relação de tensão, como um
problema conceitual interno. Tal especulação não
é tão extravagante como, à primeira vista reconhecemos
ser, pois, quando aproxima o pensamento neurótico do pensamento
dogmático, citando uma concordância com a psicanálise,
como já mencionamos, está Popper admitindo um dos
pontos centrais da teoria do pensar de W. R. Bion e de sua compreensão
do fenômeno psicótico.
Finalizando esta breve comparação das duas propostas
epistemológicas – de Popper e Laudan – em relação
à teoria psicanalítica, mencionaríamos a questão
das verdades interessantes (Popper) e dos problemas interessantes
(Laudan). Esta foi uma das restrições que fizemos
a Popper, uma vez que o interessante, para esta autor, referia-se
a questões meramente empíricas. Julgamos que Laudan
supera esta limitação ao introduzir a importância,
o peso, dos problemas conceituais em qualquer empreendimento científico.
Deste modo, grande parte daquilo que é objeto de investigação
psicanalítica – afetos, relações inter-pessoais,
sonhos, lapsos significativos – encontram um espaço
que é muito restrito na tradição popperiana.
Lembremos como Grünbaum, num certo afã em refutar a
teoria dos lapsos, de Freud, cita estudos de psicolingüística
que, independente de seu rigor metodológico, são desinteressantes
do ponto de vista psicológico, ou seja: pouco ou nada esclarecem
acerca das motivações do agente, principalmente, naqueles
casos em que o lapso tem um peso psicológico peculiar. Em
suma: as questões que são interessantes para a teoria
psicanalítica, ou, para a psiquiatria e a psicologia, não
encontram necessariamente o suporte empírico que a metodologia
proposta exige; para esta tornam-se desinteressantes.
4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Realizada esta sumária resenha da discussão da racionalidade
da teoria psicanalítica, a partir da obra de Karl Popper
até as recentes contribuições de Larry Laudan,
dentro do âmbito do debate epistemológico anglo-saxão,
entendemos ser tão importante quanto articular nossas próprias
avaliações, levantar também novos questionamentos
e novas perspectivas. Esperamos ter transmitido, durante todo o
trabalho, uma postura muito próxima à proposta por
Popper de colocar nossas hipóteses mais caras em escrutínio,
dispostos a abandoná-las, caso se mostrem insuficientes para
nossos objetivos últimos. Embora concordemos com Lakatos
(1979) que esta não é a atitude usual, nem mesmo recomendável,
quer de profissionais de ciências naturais, e, acrescentaríamos,
quer de humanas e, de psicanalistas, em particular; a seriedade
e importância que damos ao tema de nossa pesquisa –
uma aproximação filosófica e psicanalítica
do problema da psicose – não nos permite outra atitude,
senão a de extrema humildade, sob o risco de um inevitável
insucesso em qualquer tentativa de avançarmos na compreensão
de algo que, por definição, resiste à abordagem
racional. Como de outra forma já dissemos, esta foi a grande
contribuição da psicanálise – e ainda
é sua peculiar promessa (no sentido que Laudan dá
ao termo): permitir o diálogo entre o racional e o irracional.
Ao examinarmos as críticas ao estatuto científico
da psicanálise, não pretendemos afastar sequer aquelas
que, desde os seus primórdios, a consideraram como ‘mais
um conto de fadas’[44]; tema a que retornaremos, ao final
destas considerações. Lembramos ainda que nossa questão
central se refere, sobretudo, à racionalidade da teoria psicanalítica
e, secundariamente, à sua possível cientificidade.
4.1 – AVALIAÇÕES
No que diz respeito às nossas próprias avaliações,
tentaremos evitar repetições listando-as, acrescidas
de breves comentários, seguindo a ordem dos autores estudados:
1 – Karl Popper - Não vemos, dentro da epistemologia
popperiana, lugar para a teoria psicanalítica como tendo
o estatuto de uma ciência empírica. A simples tentativa
de fazer previsões, ousadas ou triviais, próprias
da ciência empírica segundo Popper, aproximaria equivocadamente
a psicanálise da astrologia, por exemplo, violando um de
seus pressupostos de tratar o homem como um ser livre, apesar de
ter a “loucura” como o limite de sua liberdade.[45]
Uma vez que ambas – “loucura” (alienação
mental, automatismo mental, como foi por vezes designada) e liberdade
– coexistem, a nosso ver, constitutivamente; qualquer previsão
seria mero exercício de charlatanismo ou ingenuidade científica.
Não excluímos com isto outras possibilidades de teste,
mas uma tão radical imprevisibilidade, se formos fiéis
à letra e ao espírito dos textos popperianos, afastaria
a teoria psicanalítica de qualquer pretensão a ser
uma ciência empírica, da mesma forma que Popper entendeu
o darwinismo. Em conseqüência, julgamos que a teoria
psicanalítica está mais próxima do darwinismo,
partilhando com ele do estatuto de programa de pesquisa metafísica,
do que das ciências naturais, ou, de pseudociências
como a astrologia[46], no sistema popperiano. O método que
Popper propõe para este tipo de empreendimento seria a “análise,
ou lógica, situacional”. Como procuramos demonstrar,
através do exame da teoria psicanalítica dos grupos
humanos, a teoria psicanalítica se ajusta exemplarmente à
“análise, ou lógica, situacional” de Popper,
ficando em aberto a questão do por quê Popper não
teria utilizado melhor seu próprio instrumental; da mesma
forma que deixamos interrogada a compreensão da atitude sempre
ambivalente de Popper em relação à psicanálise,
o que, em certa medida, explica as duas avaliações
que expusemos (Grünbaum e Klimovsky), tão antagônicas,
apesar de oriundas da mesma tradição popperiana.
2 – Adolf Grünbaum – Embora consideremos que
o autor exemplifica o que Lakatos denominou de falseacionismo dogmático,
não desejaríamos desprezar sua exaustiva crítica
filosófica dos fundamentos da psicanálise e ignorar
o que ela nos ensina. Quando em nosso texto concordamos com o autor
no que diz respeito a Freud ter pretendido utilizar uma metodologia,
em certos momentos, claramente compatível com o indutivismo
hipotético-dedutivo (sic), isto não significa que
concordemos com sua crítica ao abandono, não declarado,
de tal metodologia, por parte de Freud. O que Grünbaum –
dentro de sua perspectiva epistemológica estritamente prescritiva
– vê como uma falha, vemos como uma virtude. Freud nunca
se recusou a abandonar, ou modificar, suas mais cultivadas teorias
– como a da sedução, a da ansiedade, ou, a primeira
teoria pulsional – quando as via insuficientes para dar conta
de sua experiência clínica. Da mesma forma, o método
do indutivismo hipotético-dedutivo sofreu as suas vicissitudes.
Tal intolerância por parte de Grünbaum não pode
deixar de levá-lo ao pessimismo quanto à cientificidade
da psicanálise, no que talvez acerte, por razões falsas.
Outras fragilidades da crítica de Grünbaum já
assinalamos – como a avaliação equivocada que
faz do papel da sugestão, assim como dos desenvolvimentos
da teoria psicanalítica (atitude que mantém em trabalho
muito recente: “Um século de psicanálise –
Retrospectiva crítica e perspectivas”, in Freud –
Conflito e Cultura, org. Michael Roth, 2000) – o que nos leva
à discussão do papel do filósofo da ciência,
que se defronta com dificuldades semelhantes às do historiador
da ciência.[47] Julgamos que o trabalho em conjunto –
no caso, de filósofos e psicanalistas – poderia superar
certos mal-entendidos. Evidentemente, no caso em questão,
a crítica poderia tornar-se até mais aguda, mas também,
mais pertinente.
3 – Gregorio Klimovsky – No outro extremo do espectro
da tradição popperiana encontramos Klimovsky que sugere
a busca de um modelo psicanalítico. Sua proposta, que identificamos
com o falseacionismo sofisticado (ou, em sua terminologia: método
hipotético-dedutivo em sua versão complexa), parece-nos
muito mais promissora como instrumento de investigação
da racionalidade da teoria psicanalítica. Alguns autores
psicanalíticos, como W. R. Bion (Bion, !977), elaboraram
modelos extremamente sofisticados de avaliação epistemológica
do trabalho psicanalítico. A discussão de tais modelos
não é o objetivo desta dissertação,
assim, apenas os mencionamos, reconhecendo que os mesmos mereceriam
um exame por parte de filósofos da ciência, nos moldes
que Wisdom (1976) tem realizado. A respeito deste último
autor, citado por Klimovsky (1987), entendemos que sua proposta
encontra sérias dificuldades técnicas. Propõe
Wisdom um método de avaliação de uma interpretação
psicanalítica, no correr de uma sessão de psicanálise,
oferecendo um exemplo. Concordaríamos com Wisdom, desde que
tal avaliação não interferisse no próprio
trabalho psicanalítico e fosse realizada a posteriori. Como
assinala Klimovsky, a interpretação psicanalítica
tem um caráter instrumental, em certo sentido terapêutico
(sic). Tal dificuldade não nos parece insuperável[48],
pois, embora a psicanálise não se deva propor a previsões,
isto não a impede de ser avaliada de forma peculiar como
outras ciências – caso desejemos tomá-la como
tal, e esta parece ser a posição de Klimovsky –
que lidam com ações, com atos intencionais. No Capítulo
II mencionamos a sugestão de Klimovsky que, da mesma forma
que a física e a matemática deram contribuições
à epistemologia, seria esperado que o mesmo ocorresse com
a psicanálise, citando então os trabalhos de Money-Kyrle
(1978) e a obra de Bion, como campo de investigação
neste sentido. Não só concordamos com a sugestão
de Klimovsky, mas lembramos que um dos objetivos de nossa pesquisa
é, precisamente, o de investigar se a psicanálise
– ou seu objeto de estudo, ou, as situações-problema
que ela discute – pode oferecer alguma contribuição
ao tema da razão e suas vicissitudes. Não nos sentimos
em condições de oferecer, no momento, informações
consistentes para fundamentar tal hipótese, mas assinalaríamos
algumas questões que nos apresentam, desde já. Adiantamo-nos
a uma possível e justa crítica: não visamos
qualquer forma de naturalização da razão, mas
uma melhor compreensão de seu uso, ou, impedimentos. Pensamos
que o usual afastamento de fatores emocionais, ou afetivos, no escrutínio
da ação ou das escolhas racionais, é uma fonte
de impasses, os quais tradicionalmente se tenta superar, ora por
precipitadas reivindicações de irracionalidade, ora
por explicações sociológicas, que falham por
insuficiência e uma certa artificialidade, na medida em que
um mundo significativo é ignorado. Por outro lado, nossa
herança cartesiana da busca da certeza, de idéias
claras e distintas, encontra em nosso campo de estudo realização
mais em sistemas delirantes do que no pensamento crítico
– como bem percebeu Popper – que é eivado de
dúvidas, incertezas e imprecisões.
4 – Larry Laudan – A proposta de Laudan, principalmente
pela forma como introduz os problemas conceituais na investigação
espistemológica, pareceu-nos a mais rica para tratar dos
temas com que a teoria psicanalítica se defronta. Entendemos
que sua proposta nasce do debate que serviu como um dos cenários
desta dissertação. O impacto da epistemologia de Kuhn
– talvez hegemônica atualmente no mundo anglo-saxão
– e as agudas críticas do anarquismo epistemológico
de Feyerabend, estão nas fontes da tentativa de superação,
por parte de Laudan, do impasse que causaram no referido debate.
Nossa avaliação encontra suporte no texto de Laudan:
Science and Relativism – Some Key Controversies in the Philosophy
of Science, onde um imaginário encontro reúne pragmatistas,
relativistas, positivistas e realistas. A noção de
Tradição de Pesquisa, que o próprio autor reconhece
ser ainda incipiente, necessita ser testada em sua eficácia.
O autor fez tal tentativa, principalmente, no controverso campo
da história da ciência e da história das idéias,
reabilitando esta última, especialmente, ao sugerir complexos
mais amplos – como o são as Tradições
de Pesquisa – para servir de unidades de estudo, em lugar
de conceitos ou teorias isoladas. Agrada-nos, em particular, a forma
como a questão do crescimento do conhecimento científico,
ou, o progresso, é tratada. Utilizaremos esta contribuição
para fazer nossa avaliação mais global deste cenário
e tecer breves comentários sobre a outra cena que emoldura,
e motiva nossa pesquisa, conforme mencionamos na Introdução.
Referimo-nos à chamada “crise da psicanálise”.
5 – Tentativa de uma avaliação global –
Durante todo o nosso trabalho tivemos uma dupla preocupação:
examinar as críticas à racionalidade da teoria psicanalítica
(dentro do domínio escolhido) e procurar identificar as propostas
que poderiam melhor se candidatar a instrumento de investigação
epistemológica da psicanálise. Não nos preocupa
a teoria psicanalítica enquanto conjunto de teorias explicativas
de uma vasta gama de fenômenos psicológicos e culturais,
mas sim sua dimensão de instrumento de pesquisa de tais fenômenos.
Esta distinção se faz importante, uma vez que a fragilidade
das teorias que compõem a psicanálise é inversamente
proporcional aos problemas que a tradição psicanalítica
pôs em relevo. Pensamos em questões, como: a inteligibilidade
dos distúrbios mentais, a sexualidade infantil, o novo peso
da sexualidade e da agressividade como motores da ação,
a dinâmica dos grupos humanos e tantos outros que, embora
alguns já reconhecidos por nossa tradição cultural,
não desempenhavam o papel que, após o surgimento da
psicanálise, passaram a ter.
Nos últimos vinte ou trinta anos, outras tradições
competidoras têm oferecido soluções, algumas
promissoras, outra degenerativas, ou seja: há propostas de
elaboração dos problemas citados, como há propostas
de simplesmente abandoná-los, como pseudoproblemas ou como
desinteressantes. Neste torvelinho de teorias, ou tradições,
que se oferecem, observamos também o ressurgimento de antigas,
que se pensava terem sido definitivamente superadas. Neste último
caso, referimo-nos aos fundamentalismos religiosos, por exemplo,
que se oferecem como respostas a muitas das questões levantadas,
tendo crescente aceitabilidade. Importante registrar a pertinência
da proposta de Laudan que aponta para o ressurgimento de tradições
e oferece uma inteligibilidade maior para um fenômeno que,
de outra forma, seria descartado com o epíteto de irracional.
Seguindo sua linha de pensamento, a racionalidade estaria sempre
radicada no agente da escolha entre tradições, progressistas
ou regressivas. Como já registramos, não deixa claro
quem seria tal agente – a comunidade de pensadores, as pessoas
reflexivas – responsável pelo destino das tradições
em competição. Este é outro ponto que deixamos
em aberto.
No momento, e dentro do contexto desta dissertação,
gostaríamos de mencionar concordâncias e divergências
nos epílogos das duas obras maiores, de dois dos autores
estudados de filiações diversas: Klimovsky e Laudan.
Suas conclusões podem ajudar-nos nesta tentativa de avaliação
global.
Klimovsky conclui sua minuciosa e erudita introdução
à epistemologia, com um texto que denomina: “A ciência
no banco dos réus”. Neste, como o próprio título
já sugere, faz uma forte defesa do empreendimento científico
ante as críticas que são representadas pelo segundo
Feyerabend:
“ No panorama cultural e no próprio campo da epistemologia
se advertem na atualidade teses adversas à ciência
e suas aplicações, quer a partir do ponto de vista
político e sociológico, quer do ponto de vista filosófico,
sendo que neste último se pretende por vezes negar os valores
que tradicionalmente foram adjudicados à ciência, quanto
à sua objetividade, sua racionalidade ou sua pertinência
para a construção do conhecimento.” (Klimovsky,
1999:399)
Argumenta que a racionalidade científica provém
de sua particular metodologia, a qual considera insubstituível
como meio de se alcançar a objetividade que dá, por
sua vez, racionalidade ao empreendimento científico. Em sua
defesa do método hipotético-dedutivo em sua versão
complexa, julga que: “ ... as teorias científicas podem
ser avaliadas desde dois pontos de vista um tanto independentes:
a) o de suas conexões com aspectos éticos e valorativos,
e b) o de seu valor epistemológico como constituintes de
conhecimento.” (p. 403) Inclui a psicanálise nessa
possibilidade, uma vez que julga que possa evoluir para uma formulação
menos vaga e polissêmica, introduzindo termos teóricos
com poder semântico mais adequado do que o da linguagem ordinária.
Laudan, em seu epílogo – “Além de Veritas
e Praxis” – reconhece, como Klimovsky, a crise de credibilidade
por que passa a ciência mas, ao contrário do autor
argentino, não deposita tantas esperanças no empreendimento
científico: “A preocupação dos clássicos
filósofos da ciência tem sido mostrar que os métodos
da ciência são instrumentos eficientes para produzir
verdade, alta probabilidade, ou mesmo maior aproximação
da verdade. Neste empreendimento, eles falharam lamentavelmente.”
(Laudan, 1977: 223) Após questionar se os métodos
da ciência são o melhor meio de solucionar problemas,
vai identificar na curiosidade humana o maior motor do empreendimento
científico, haja vista os insucessos em respostas utilitárias
para tão grande dispêndio de recursos e energia. Conclui
seu arrazoado nos seguintes termos:
“Reconhecendo que a resolução de um problema
intelectual é um requisito tão fundamental para a
vida como beber e comer, podemos abandonar a perigosa pretensão
de que a ciência é legítima somente na medida
em que contribui para nosso bem estar material ou nosso estoque
de verdades perenes. Visto por esta luz, o repúdio da investigação
teórica científica é equivalente à negação
daquilo que pode ser nosso mais característico traço
humano.
Dizer tal coisa não sugere que o gasto de recursos em problemas
teóricos na ciência esteja justificado tout court.
Demasiada pesquisa científica hoje em dia é dedicada
a problemas que são cognitivamente triviais, como socialmente
irrelevantes. Se o cientista ‘puro’ merece o generoso
apoio que presentemente lhe é concedido, ele deve ser capaz
de mostrar que seus problemas são genuinamente significativos
e que seu programa de pesquisa é suficientemente progressista
para ser digno de nele lançarmos nossos preciosos e limitados
recursos.” (p. 225)
Em que pese discordâncias tão clamorosas entre os
autores, há uma preocupação comum, da qual
também partilhamos: a baixa credibilidade da ciência
em lidar com problemas humanos. Não se trata, evidentemente,
de um dado novo, mas seu peso é crescente na mesma proporção
em que o espetacular avanço tecnológico das últimas
décadas contrasta com o lento e, muitas vezes regressivo,
desenvolvimento das ciências humanas. Neste contexto é
que situamos a “crise da psicanálise”, talvez,
fruto do desencanto de suas promessas, da mesma forma que começam
a manifestar-se os sintomas de desencanto com a psicofarmacologia
– uma tradição não incompatível
com a psicanalítica[49] mas que foi oferecida como uma alternativa
à psicanálise pela comunidade científica. Lembremos
aqui a ênfase que Laudan dá ao papel de taxa de progresso
e promessa de soluções no processo de aceitabilidade
de uma tradição nova de pesquisa. Retomando nosso
campo específico de trabalho, o estudo das psicoses, sob
o ponto de vista filosófico e, mais restritamente ainda,
epistemológico, consideramos que as propostas estudadas podem
servir-nos – nas linhas que já descrevemos –
mas mostram certas insuficiências próprias da tradição
a que se filiam, por maiores que sejam suas diferenças.
Um sentimento de artificialidade nos desperta a indistinção,
ontológica e metodológica, que esta tradição
faz entre as ciências naturais e as humanas. Acreditamos que
se trata de um problema conceitual interno, que autores como Klimovsky
e Laudan procuram enfrentar. Encontramos dificuldade em lidar, com
o instrumental oferecido, com um mundo significativo, onde haja
lugar para se pensar a singularidade. Este ponto não escapou
também a Popper, embora sua solução –
“a análise situacional” – nos pareça
insuficiente, pelo menos, até sua atual elaboração.
Neste sentido, pensamos em continuar nossa investigação
através de duas novas linhas de trabalho: a filosofia da
linguagem e a estética.
4.2 – DESDOBRAMENTOS
4.2.1 – A QUESTÃO DA LINGUAGEM
Por várias vezes mencionamos a forma rápida e secundária
com que a questão da linguagem era tratada pelos diversos
autores. Entretanto, na abordagem psicanalítica ocupa a linguagem
um lugar de relevo. Não nos referimos, somente, à
forma privilegiada de comunicação, mas ao seu papel
como construtora de um mundo significativo. Na mesma ordem de importância
colocamos o problema da primeira pessoa, a questão do “eu”,
problema praticamente ignorado na tradição que acabamos
de estudar. Não julgamos que as proposições
na primeira pessoa sejam passíveis de serem reduzidas a proposições
de terceira pessoa, ou eliminadas, como não significativas
(no sentido de que tais proposições seriam meramente
expressivas, sem valor epistêmico). Muito pelo contrário,
julgamos que exigem um exame mais cuidadoso. Apenas ilustrando um
novo caminho de pesquisa, citaríamos as contribuições
de Wittgenstein a respeito da impossibilidade de construção
de uma linguagem privada – o conhecido “argumento da
linguagem privada” (Wittgenstein, 1968) – que consideramos
um precioso instrumento de pesquisa para a compreensão da
base da atividade delirante a qual pretende ser, fundamentalmente,
privada, ou melhor, conter um conhecimento privado[50], não
passível de comunicação.
A certa altura de nosso trabalho, comentamos a crítica
de Zahar à noção de base empírica, em
Popper. Sua crítica se volta à solução
que Popper oferece para a questão dos enunciados autopsicológicos
– que para Zahar seriam todos aqueles referidos à primeira
pessoa, não importando tratar-se de percepções,
sensações, ou, sentimentos – que Popper tenta
resolver através de um peculiar convencionalismo, como já
discutimos, ou seja: as proposições perceptuais seriam
válidas, por convenção, podendo ser reavaliadas,
ficando a ênfase quanto ao aspecto empírico, na testabilidade.
Quanto às proposições não passíveis
deste método de decisão convencional – as estritamente
autopsicológicas – Popper vai de certa forma eliminá-las,
utilizando o método de “análise situacional”,
no qual o que importa é o problema a que se referem. Fizemos
esta breve recapitulação para apresentar uma outra
linha de pesquisa que, tanto diferentemente de Popper, como de Zahar
(que busca na fenomenologia uma solução), pretende
lidar com as proposições na primeira pessoa através
de uma análise lingüística, a partir de contribuições
de Wittgenstein, como é o caso da proposta de Tugendhat .
Julgamos que é preocupação constante em Tugendhat
dar conta da validade das proposições eu-sinto (eu-f)
e ele-sente (ele-f) sem recorrer à tradicional teoria analógica
– entre as minhas experiências e as de outros –
que, em última instância, pressuporia um conhecimento
privado, por base. Por outro lado, basear as proposições
“eu-f” nas “ele-f”, sendo estas validadas
a partir de comportamentos observáveis, levaria a um mero
behaviorismo, solução que tanto Wittgenstein como
Tugendhat rejeitam. Este último procura enfrentar todas as
conseqüências deste dilema – conhecimento privado/behaviorismo.
“A analogia entre a fundamentação criterial
da justificação das proposições ‘ele-f’
e a fundamentação criterial da justificação
das proposições sobre objetos perceptíveis
tem contudo suas limitações. Em primeiro lugar, devemos
nos confrontar com o seguinte problema: se examinarmos mais de perto,
mostra-se que aquelas proposições que atuam como critérios
para a verdade das proposições sobre objetos perceptíveis
são uma espécie de proposições-f; pois
são de fato proposições ‘subjetivas’,
nas quais se diz de uma pessoa que ela vê, sente, etc. alguma
coisa. Assim, produz-se a situação curiosa em que,
no caso das proposições sobre objetos perceptíveis,
proposições-f atuam como critérios e, no caso
das proposições-f, ocorre exatamente o contrário:
proposições sobre objetos perceptíveis atuam
como critérios. Por isso, poder-se-ia pensar que um círculo
deveria se produzir aqui ..” (Tugendhat, 1992: 253)
O círculo vicioso previsto não ocorre, pois, lembra
Tugendhat certos comentários de Wittgenstein no sentido de
que “no caso das proposições sobre objetos perceptíveis,
o entendimento da proposição simples precede necessariamente
o entendimento da proposição modificada subjetivamente”.
(1992: 253) Uma criança não aprende o jogo de linguagem:
“isso parece-me vermelho ...” sem antes aprender: “isso
é vermelho ...” Se se supor um aprendizado em ordem
inversa, o “parece-me ...”, ou, “provavelmente
...” (por exemplo: “isso provavelmente é uma
cadeira ...”), se tornaria supérfluo. Este ponto nos
parece de grande importância, uma vez que envolve a discussão
da base empírica da ciência, como assinala Tugendhat:
“Essa reflexão implica uma inversão radical
de toda a teoria do conhecimento moderna que, por ter deixado de
lado a problemática semântica, pensou o conhecimento
dos objetos de tal modo que o processo do conhecimento deveria partir
como um todo das sensações dos sentidos – em
termos lingüísticos: deveria partir de proposições
como ‘parece-me que ...’. Somente quando o jogo de linguagem
recebe a ‘nova articulação’ das proposições
subjetivas é que as proposições originalmente
não modalizadas ganham um sentido ‘objetivo’
específico, que se expressa no fato de que cada proposição
simples ‘p’ sobre objetos perceptíveis é
equivalente a ‘realmente p’. Desse modo, é agora
integrado a ‘p’ o contraste ‘parece(me) que p’
e só nesse nível pertence à ‘gramática’
das proposições sobre objetos perceptíveis
a conexão criterial com essas proposições subjetivas,
a sua possibilidade de fundamentação por meio dessas.”
(1992: 254)
Tudo isso nos leva de volta à questão das proposições
na primeira pessoa, do tipo eu-f. Tugendhat fornece uma contribuição
própria que permite superar certas dificuldades que, à
primeira vista, poderiam afastar das proposições eu-f
qualquer função de conhecimento. Seria um saber imediato,
não comportando erro nem, conseqüentemente, dúvida.
Entretanto, Tugendhat vai localizar no uso correto da proposição
‘eu-f’ a noção de verdade pertinente a
este tipo de proposição que não comporta a
utilização de conceitos como “percepção”,
“observação” e “verificação”.
(p.257) Não vai negar o caráter expressivo ou exclamativo
de tais proposições, mas procura preservar a possibilidade
de seu caráter assertórico:
“A assimilação de Wittgenstein das proposições
eu-f às exclamações está essencialmente
correta. ... Wittgenstein tendeu a negar o caráter assertórico
dessas expressões, porque julgava ser essa a única
maneira de estabelecer seu caráter expressivo. Mas esses
caracteres não se excluem e, se se quisesse negar que se
pode empregar as palavras ‘verdadeiro’ e ‘falso’
em conexão com as proposições ‘eu-f’,
estar-se-ia contradizendo nosso uso linguístico real. Uma
tal concepção estaria negando, em particular, um aspecto
comunicativo essencial de nossa linguagem, que é dado pela
simetria verídica das proposições-f em primeira
e terceira pessoa.” (1992: 263)
Mais adiante, Tugendhat vai questionar que o caráter não
cognitivo de tais proposições não lhes retira
o caráter de saber. “Saber e conhecer, porém,
não são os mesmos e nem todo saber precisa apoiar-se
em um ato de conhecimento.” (1992: 264)
O saber no caso das proposições ‘eu-f’
não repousa na verificação, mas na correta
aplicação da regra. Neste sentido, não ocorrendo
mentira ou dissimulação, trata-se de um saber direto,
porém mediato na medida em que se funda em alguma coisa (aplicação
de uma regra). Tugendhat comenta que tal afirmação
pode parecer paradoxal por estarmos “... tão fortemente
orientados pelo modelo da percepção que supomos não
poder haver um saber empírico não indutivo que não
se funde em uma percepção ou algo análogo.”
(1992: 265)
Estes comentários visam, apenas, apontar uma outra tradição
– com diferentes ontologia e metodologia – que se oferece
como um desdobramento possível para nossa pesquisa. Tal movimento
é coerente, também, com nossa principal referência
psicanalítica – a obra de W. R. Bion – a qual
se encaminhou na direção de uma maior ênfase
e investigação do papel do significado e da linguagem,
assim como da estética, outro campo propício à
discussão da racionalidade psicanalítica.
4.2.2 – A QUESTÃO ESTÉTICA
São conhecidas as várias incursões de Freud
neste terreno, cabendo lembrar que o famoso “complexo de Édipo”
é referido não às diversas versões do
mito de Édipo, mas à peça de Sófocles:
Édipo Rei. É uma hipótese de trabalho que a
produção estética é um meio possível
de organização de elementos que, de outra forma, não
teriam veículo adequado de articulação e expressão.
Tal configuração permitiria o exame crítico
da situação-problema. Em certa medida, o que estamos
sugerindo não difere da proposta de Popper, quando este se
aproximou da música. Difere, contudo, no sentido de não
pretendermos afastar os elementos emocionais e afetivos que participam
do significado da obra. Uma das críticas que fizemos à
proposta popperiana foi exatamente a de tentar afastar fatores subjetivos,
emocionais e afetivos, o que – no caso de ser bem sucedido
– deixava-o, usando “Popper contra Popper”, com
verdades desinteressantes, quando a situação-problema
dizia respeito a questões psicológicas.
Quando no início dessas considerações finais,
mencionamos a que, talvez, tenha sido a primeira crítica
pública à cientificidade da psicanálise –
“ ... mais um conto de fadas” – pensávamos
no grão de verdade que ela possa conter. Pois, da mesma forma
que ocorre com os contos de fadas, chamou a atenção
de Freud a não-arbitrariedade dos sintomas neuróticos,
oferecendo sua teoria uma inteligibilidade para os mesmos, até
então negada. Se tal inteligibilidade repousa numa racionalidade
científica ou não dependerá, como já
vimos, da concepção quer de ciência, quer de
racionalidade, que adotemos. Qualquer que seja a opção
feita, acreditamos não ser possível excluir da investigação
filosófica um campo tão vasto de problemas que, a
exemplo da estética, desafiam nossa capacidade de reflexão.
É neste sentido que entendemos a necessidade que teve Kant
em formular a noção de juízos reflexivos e
escrever sua última crítica, Crítica da Faculdade
de Julgar. Esta poderia ser um ponto de partida para uma busca da
racionalidade da teoria psicanalítica, pelo viés da
discussão da estética, onde questões comuns
também à psicanálise são, seguindo certos
comentadores (como Philonenko), seus pontos de origem: a singularidade,
a possibilidade de comunicação, a intersubjetividade
“ ... É somente sobre o fundo desta experiência
original da intersubjetividade humana, que Kant analisa na Crítica
da faculdade de julgar estética, que se podem desenvolver
as modalidades indiretas da comunicação. No parag.
22 examinando os requisitos do julgamento de gosto e apresentando
a idéia de um senso comum, Kant não se contenta em
dizer que ele constitui a condição do julgamento de
gosto; trata-se da ‘condição necessária
da comunicação universal de nosso conhecimento, que
deve ser presumida em toda lógica e em todo princípio
de conhecimento ...’ Por outro lado, Kant insiste –
como na Antropologia - nas relações entre o pensamento
estético e o pensamento moral e sublinha como o primeiro
é símbolo que, concretamente, conduz o homem ao segundo.
Vê-se daí aparecer o sentido da Crítica da
faculdade de julgar e sua relação com as duas outras
Críticas. A Crítica da faculdade de julgar funda e
completa a Crítica da Razão pura e a Crítica
da Razão prática ao desenvolver a experiência
original pressuposta em ambas como reflexões sobre o pensamento
humano ... A Crítica da faculdade de julgar preenche esta
tarefa sistemática, constituindo-se como uma lógica
da intersubjetividade, ou seja, como uma lógica da significação.”
(Philonenko, in Kant, Critique de la Faculté de Juger, 1989:
11-12)
Uma vez que a questão do singular, da individualidade, permeia
toda a discussão do julgamento de gosto, o parentesco da
estética com a psicanálise, que lida fundamentalmente
com singularidades, se torna muito próximo. Alguns autores,
como Charles Taylor, enfatizam tal relação:
“O trabalho de Freud é uma magnífica tentativa
de resgatar nossa liberdade e autocontrole, a dignidade do sujeito
desprendido, diante das profundezas interiores. Isso não
quer dizer que o projeto de Freud não apresentasse nenhuma
coincidência com o dos artistas pós-schopenhauerianos.
Os próprios termos da ciência freudiana e a linguagem
de suas análises requerem uma articulação das
profundezas interiores. E Freud por certo tinha idéia do
grande poder da capacidade simbólica do homem, ainda que
aprisionada, como está na maioria dos casos, no gigantesco
conflito dos instintos, e distorcida como é pelas condensações
e deslocamentos. Pode ser que o projeto de Freud, uma espécie
de ciência natural da mente, seja impossível nos termos
restritivos em que ele o concebeu. A exploração pode
estar mais próxima da arte e da literatura do que ele estaria
disposto a admitir.” (Taylor, 1986: 571).
Da mesma forma, autores psicanalíticos procuraram na manifestação
estética uma forma privilegiada de comunicação
da experiência analítica[51]. Bion conclui, o que talvez
tenha sido seu último seminário público (Paris,
10/07/1978), afirmando:
“É muito importante estar ciente de que você
pode nunca ficar satisfeito com sua atividade analítica se
você sente que está restrito ao que é estreitamente
chamado de uma abordagem ‘científica’. Você
terá que ser capaz de ter a chance de sentir que a interpretação
que você dá é bela, ou que você obteve
uma bela resposta do paciente. Este elemento estético de
beleza torna uma situação muito difícil tolerável.
É tão importante ousar pensar ou sentir seja lá
o que você pense ou sinta, nunca se preocupando quão
não-científico isto seja.” (Bion, 1999)
Todos esses motivos credenciam a estética como outro campo
de investigação para pensarmos a racionalidade da
teoria psicanalítica.
APÊNDICE I
A RAZÃO E AS “razões” DE PAUL FEYERABEND
Ney Marinho
O presente texto procurará discutir a crítica que
Feyerabend faz à razão, a partir da leitura de Contra
o Método (1975), assim como “as razões”
que apresenta para tal crítica. Utilizaremos outras produções
suas, como: “Consolando o Especialista” (in, A Crítica
e o Desenvolvimento do Conhecimento, org. Musgrave, ª e Lakatos,
I.), Adeus à Razão (1991) e sal auto-biografia, Matando
o Tempo (1996). Pretendemos restringir-nos aos argumentos do autor,
desprezando a crítica de seus comentadores, a fim de tentar
encontrar uma possível racionalidade para seu “anarquismo
epistemológico” a partir de sua própria argumentação.
Nossa escolha metodológica visa evitar o círculo vicioso
em que poderíamos cair caso utilizássemos, através
de seus críticos, pressupostos que são exatamente
os questionados por Feyerabend.
1 – EM CONTRA O MÉTODO
Feyerabend afirma na Introdução sua tese central:
“A ciência é um empreendimento essencialmente
anárquico: o anarquismo teorético é mais humanitário
e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas
representadas por ordem e lei.” (p.18)
Coloca-nos assim perante uma noção – anarquismo
– que considera capaz de elucidar o enigma dos assombrosos
êxitos científicos e o aparente progresso da ciência,
termo este (“progresso”) freqüentemente utilizado
durante sua exposição, ao mesmo tempo que relativizado.
Na citação acima já encontramos dois pontos
importantes da linha de pensamento de Feyerabend, pois, por um lado,
vai ele através de detalhada pesquisa histórica demonstrar
a falta de racionalidade no processo de desenvolvimento científico
(ausência de critérios racionais na escolha entre teorias
conflitantes); falta de fundamentação na aceitação
de novas teorias; inconsistências entre teorias e fatos e
assim por diante, ao mesmo tempo que preconiza uma postura: o anarquismo
epistemológico, por parte dos cientistas, filósofos
e pensadores em geral, que vise um desenvolvimento maior da consciência
individual e a ampliação do exercício da liberdade
pessoal, o que vem a caracterizar sua concepção de
humanismo. Esta seria a única finalidade válida do
empreendimento científico, uma vez descartada qualquer veleidade
de aproximação da verdade, superação
de formas primitivas de pensar ou qualquer outro tipo de proposta
usualmente encontrada em projetos de educação científica.
O papel que o humanismo joga na aproximação de Feyerabend
da epistemologia das ciências – naturais ou humanas
– tem ainda outras dimensões. O correr de sua obra
revela que privilegia esta dimensão humanista, ética,
não só por uma opção pessoal mas por
xonsiderar que a educação científica forma
uma ideologia própria, autoritária e simplificadora
da ciência que vai contra, citando J. S. Mill: “o cultivo
da humanidade, único procedimento que produz ou pode produzir
seres humanos bem desenvolvidos”.
Neste ponto – o humanismo – merece que nos detenhamos
mais por representar, a nosso ver, um dos “princípios”
que fundamentam o pensamento de Feyerabend, dando-lhe uma forte
racionalidade.
Como foi dito, a opção humanista é pessoal,
atendendo às inclinações do autor, certamente
fruto de sua história pessoal (tema que abordaremos posteriormente),
mas também como uma reação à atividade
anti-humanista que a ciência tradicional, assim como sua epistemologia,
desenvolve. Curiosamente, diríamos que este é um segundo
“princípio” que norteia a investigação
de Feyerabend. Esclarecemos: acredita o autor que a ciência
está sempre criando novas cosmologias, novas concepções
de mundo, procurando dar uma coerência a seus novos achados.
Esta referência se encontra no capítulo XIII, onde
diz a respeito da a ceitação da argumentação
de Galileu em favor de Copérnico:
“De começo, tudo o que se exige é consonância,
pelo menos parcial, com a cosmologia. A consonância mostra
que aquelas ciências (refere-se às novas ciências
ainda não suficientemente desenvolvidas para dar conta de
novas teorias) são, no mínimo relevantes e que, possivelmente,
produzirão, algum dia, evidência completa e positiva.
Assim, a idéia de que o telescópio mostra o mundo
tal como ele realmente é defronta-se com muitos obstáculos.
Mas o apoio que dá a Copérnico e dele recebe constitui
indicação de que talvez estejamos a mover-nos em direção
correta.” (p. 242)
Esta mesma atitude – a necessidade de “consonância”
– vai exigir Feyerabend dele próprio em sua coerente
defesa do humanismo como único valor capaz de dar significado
à investigação epistemológica. Neste
sentido é que pensamos tratar-se de um segundo “princípio”
, a exigência de consonância, de um autor que nega os
princípios.
Embora tenhamos procurado deter-nos na Introdução
e na análise da tese central que ali é exposta, é
muito difícil, dado o estilo do autor, um exame passo a passo
de sua argumentação. Enquanto sua leitura é
fácil e atraente, como ele mesmo propõe para os textos
filosóficos e científicos, a quantidade de afirmações
e citações torna extremamente complexa a tarefa de
acompanha-lo em todos os seus atalhos. Contudo, como estamos apenas
tentando detectar os “princípios”, as razões,
a racionalidade que o move, pensamos que a fim de não tornar
exaustiva e desinteressante esta pesquisa já podemos sugerir
que o primado da ética – o humanismo peculiar que defende
– e da coerência – a não contradição
interna em seu “sistema” – como candidatos a “princípios”
de seu “projeto filosófico”. Evidentemente nos
cabe dar as nossas “razões” para tal afirmação
que, talvez, não fossem aceitas pelo autor que não
pretende oferecer qualquer “projeto filosófico”
e muito menos um “sistema” regido por “princípios”.
Por sinal é exatamente neste ponto que vai discordar dos
anarquistas militantes e qualificar seu anarquismo como uma “dadaísmo”
(ver “Introdução”, nota 12).
Esta breve apresentação da tese inicial do autor
se, por um lado, poderia ser suficiente para explorar conceitos
chaves de sua epistemologia, por outro, seria injusta por restringirmos
o exame de sua bombástica afirmação sem ouvir
suas “razões”. Estas constituem uma vigorosa
crítica à racionalidade científica e à
razão em geral.
Uma vez que não é nosso objetivo resenhar o texto,
apenas nos limitaremos a uma listagem de seus argumentos contra
qualquer tentativa de dar racionalidade ao desenvolvimento do pensamento
científico, à aceitação de novas teorias
e ao propalado progresso que tal atividade traz. Tomaremos a revolução
copernicana como paradigma, obedecendo o percurso do autor.
Vejamos algumas afirmações de Feyerabend:
“O único princípio que não inibe o
progresso é: tudo vale.”
“Cabe, por exemplo, recorrer a hipóteses que contradizem
teorias confirmadas e/ou resultados experimentais bem estabelecidos.
É possível fazer avançar a ciência, procedendo
contra-indutivamente.”
“Qualquer idéia, embora antiga e absurda, é
capaz de aperfeiçoar nosso conhecimento.”
“Nenhuma teoria está em concordância com todos
os fatos de seu domínio, circunstância nem sempre imputável
à teoria.”
Tais afirmações introduzem os capítulos iniciais
do livro. Neles procura fundamenta-las. A revolução
copernicana é tomada como um exemplo paradigmático
de irracionalidade do desenvolvimento científico. Vale a
pena sublinharmos algumas de suas conclusões do exame da
defesa de Galileu da teoria copernicana, pois, de outra forma poderia
Feyerabend ser tomado apenas como um sociólogo da ciência,
ou mesmo, um mero panfletário de um anarquismo utópico.
Contudo, sua argumentação é mais poderosa.
Procura demonstrar que:
A – A substituição do paradigma aristotélico
ocorreu através de uma nova concepção de movimento,
experiência, de interpretação natural e mesmo
de evidência.
B – A modificação das noções
acima não foi devida à argumentação
racional, mas à utilização de técnicas
de propaganda e persuasão, por parte de Galileu, entre elas
o uso do italiano em lugar de latim, como meio de mais facilmente
promover suas idéias.
C – Para demonstrar as afirmações acima, toma
como exemplo o “argumento da torre” e o uso do telescópio.
Em ambos os casos o paradigma aristotélico foi afastado sem
que a argumentação contrária fosse convincente,
sendo até contraditória, por exemplo, no que dizia
respeito a previsões.
Em resumo, mostra Feyerabend que o que ocorreu foi uma mudança
de cosmologia. Passou-se a ver o mundo de outra forma. O primado
das sensações corporais, como prova de evidência,
foi substituído pelo uso de instrumentos. Estes, por sinal,
não estavam sequer em condições de garantir
uma melhor performance do que os órgãos dos sentidos.
A implicação de tal linha de pensamento leva o autor
à indistinção entre contexto de descoberta
e contexto de justificação. Este talvez seja o ponto
principal de sua argumentação que tem como interlocutor
privilegiado Karl Popper. É contra qualquer tentativa de
fornecer racionalidade ao desenvolvimento científico, assim
como à sua crítica, inclusive a dele próprio.
Alega que usa argumentos racionais apenas para utilizar os mesmos
instrumentos de seus oponentes.
Pensamos que podemos deter-nos neste ponto, uma vez que em Contra
o Método é este o principal ataque à razão.
Ou seja, segundo o autor, a racionalidade científica não
resiste a um exame mais acurado de como historicamente a ciência
se desenvolveu. Pelo contrário:
“Ora, admitindo que a teoria copernicana é uma Boa
Coisa, teremos de admitir também que sua sobrevivência
é uma Boa Coisa. E tendo em conta as condições
de tal sobrevivência, teremos de admitir, ainda, que foi uma
Boa Coisa a razão haver sido posta em segundo plano durante
os séculos XVI, XVII e mesmo XVIII. ... Convém, conseqüentemente,
permitir que, em quaisquer circunstâncias, as inclinações
se contraponham à razão, pois isso pode beneficiar
a ciência.”
Feyerabend conduz seu pensamento até a noção
de incomensurabilidade – duas teorias não poderiam
ser racionalmente comparáveis – estendendo-a, inclusive,
ao que Popper denominaria pseudociência, ou seja, os mitos.
Diz na apresentação do capítulo XV:
“Enfim, a exposição feita nos capítulos
VI-XIII atesta que a versão do pluralismo de Mill, dada por
Popper, não está em concordância com a prática
científica e destruiria a ciência, tal como a conhecemos.
Existindo a ciência, a razão não pode reinar
universalmente, nem a sem-razão pode ver-se excluída.
Este traço da ciência pede uma epistemologia anárquica.
A compreensão de que a ciência não é
sacrossanta e de que o debate entre ciência e mito se encerrou
sem a vitória para qualquer dos lados empresta maior força
ao anarquismo.”
Em sua defesa da incomensurabilidade, Feyerabend introduz a noção
de ilusão epistemológica. Esta é uma área
de “fatos” da antiga teoria “... que foram distorcidos
de maneira a se acomodarem às novas linhas dominantes. Essa
ilusão é a responsável por teimosamente persistir
a exigência de conteúdo maior”. Defende que,
a rigor, as novas teorias criam novas ontologias. Em sua argumentação
a favor da incomensurabilidade que, por sinal, perpassa todo seu
livro, chamaríamos a atenção para dois momentos
preciosos:
Na nota 1 do capítulo IX, lembra, citando Zilboorg, como
“... ao término da Idade Média, a ciência
viu-se forçada a apartar-se da psicologia humana, de forma
que até mesmo o grande esforço de Erasmo e de seu
amigo Vives, os mais altos representantes do humanismo, não
bastou para provocar uma reaproximação e a psicopatologia
teve de acompanhar de longe, durante séculos as tendências
desenvolvimentistas da medicina e da cirurgia”. Portanto,
o que de fato ocorreu foi que as novas teorias, substitutas da bruxaria,
simplesmente afastaram os fenômenos que esta estudava. Mais
adiante cita o depoimento do próprio Augusto Comte criticando
o positivismo “nascente e incompleto” que afastou de
seu campo de interesse os fenômenos estudados pela astrologia.
No capítulo XVII utiliza como exemplo de incomensurabilidade
no domínio da percepção a impossibilidade de
percebermos simultaneamente duas figuras, a partir de um único
desenho, devido à utilização de diferentes
perspectivas. Esta brilhante analogia com a comparação
de diferentes teorias, denuncia também os limites de seu
relativismo, pois, apesar de tal impossibilidade, somos constrangidos
a ver somente aquelas duas determinadas figuras. Introduz-se assim
um importante elemento de não-arbitrariedade para alguns
dados de realidade, fundamento das epistemologias racionalistas
e realistas. Feyerabend vai responder a este possível questionamento
falando de um comum aparelho de percepção para todos
os seres humanos. O questionamento poderia seguir outro caminho
como o da discussão dos limites de nosso esquema conceitual,
como Davidson coloca em “The very Idea of a conceptual framework”.
Pensamos que ao mencionar o tema do relativismo já podemos
passar para outros textos, onde a questão será mais
explorada.
2 – EM OUTROS TEXTOS
Em sua crítica à Razão, Feyerabend vai progressivamente
enfatizar seu radical relativismo que atinge seu clímax em
Adeus à Razão. Falamos em “radical relativismo”
pelo fato de não poupar outro autores, como Thomas Kuhn e
Imre Lakatos, nos quais vê concessões à racionalidade
científica que enfraqueceriam seus argumentos. Vejamos como
leva este processo de progressiva radicalidade.
2.1 – EM “CONSOLANDO O ESPECIALISTA”
Neste texto, no último tópico – “O Papel
da Razão na Ciência” – a pretexto de “...
defender Kuhn contra Lakatos” faz uma intensa crítica
a qualquer forma de dar racionalidade ao desenvolvimento científico,
incluindo ambos os autores citados. Seus 15 parágrafos de
crítica, a rigor, baseiam-se na defesa da incomensurabilidade
das teorias científicas. Embora seu alvo principal seja Popper,
critica Lakatos por permitir um “período de hesitação”
até que um programa de pesquisa, que para Feyerabend é
sinônimo de teoria, seja abandonado. Considera que este período
que Lakatos concede é arbitrário e que os seus “padrões
críticos” não diferem muito dos propostos por
Popper, quanto ao caráter permanente dos mesmos, pois, ao
dar à teoria mais tempo não põe em discussão
a validade da crítica. Retorna a Popper, lembrando que este
sugeriu que a crítica fosse flexível, de acordo com
as exigências do momento, podendo ela mesma ser criticada
a posteriori. Feyerabend aproxima neste ponto Kuhn e Popper, cobrando
do primeiro não ter questionado os limites da razão.
Este vai ser, talvez, o ponto mais forte de sua argumentação.
Pois, supondo uma argumentação popperiana de que a
disputa entre duas teorias – T e T1 – seria decidida
se a classe de conseqüências verdadeira de T1 fosse maior
do que a de T, sem aumento do conteúdo de falsidade, questiona
a possibilidade de comparação de tais classes. Dá
como exemplo a mecânica celeste clássica e a teoria
especial da relatividade, na medida em que utilizam conceitos de
forma muito distinta. Afirma que a comensurabilidade usualmente
é fruto da utilização por parte de um realista
de uma linguagem que força a unificação de
termos observacionais das teorias em questão.
Sua argumentação aproxima-se, a nosso ver, da de
Wittgenstein, quando este prioriza os “jogos de linguagem”
e define aprender uma língua como participar de uma nova
forma de vida. Vejamos como esta aproximação aparece
em Feyerabend numa de suas críticas ao círculo de
Viena:
“... De acordo com Carnap, Fiegl, Nagel e outros, os termos
de uma teoria recebem sua interpretação, de modo indireto,
por estarem relacionados com um sistema conceitual diferente, que
é uma teoria mais antiga ou uma linguagem de observação.
Não se adotam as teorias mais antigas ou as linguagens de
observação em virtude de sua excelência teórica
(não seria possível que o fossem: as teorias mais
antigas são geralmente refutadas). Adotam-se porque (cita
literalmente Carnap) ‘são usadas por uma certa comunidade
de linguagem como meio de comunicação’.”
O texto prossegue antevendo certos tópicos que serão
desenvolvidos em Contra o Método, já expostos, ou
em Adeus à Razão.
2.2 – EM ADEUS Á RAZÃO
Neste livro se propõe basicamente a criticar duas noções:
objetividade e razão. Pretende fazê-lo através
da defesa de um relativismo racional e humano. Vejamos em suas próprias
palavras (muitas vezes difíceis de ser resenhadas dado o
seu estilo coerentemente persuasivo e propagandístico):
“Dizer que um ponto de vista é objetivo (-amente verdadeiro)
é afirmar a sua validade independentemente das expectativas,
idéias, atitudes e desejos humanos. Trata-se de uma das reivindicações
fundamentais que os atuais cientistas e intelectuais apresentam
a respeito do seu trabalho. A noção de objetividade,
porém, é bastante anterior à ciência
e afasta-se dela. Surgiu sempre que uma nação ou uma
tribo ou uma civilização identificaram o seu modo
de vida com as leis (físicas ou morais) do universo, e evidenciou-se
quando se confrontaram diferentes culturas com diferentes perspectivas.”
Sobre a razão, diz:
“Uma segunda idéia que desempenha um papel importante
na defesa da civilização ocidental é a noção
de Razão (com maiúscula) ou racionalidade. À
semelhança da noção de objetividade, esta idéia
possui uma variante material e uma formal. Ser racional, na acepção
material, significa rejeitar certas opiniões e aceitar outras
... Ser racional no sentido formal implica, mais uma vez, adotar
um determinado procedimento ... As noções são
ambíguas e nunca explicadas com clareza ...”
Em 11 teses vai criticar os fundamentos de ambos os conceitos,
questionando tanto o aspecto material da racionalidade quanto o
seu aspecto formal, argumentativo. Tudo isso em nome de uma alternativa:
o relativismo, o qual pretende mostrar que é: “...
racional, humano, e se encontra mais generalizado do que vulgarmente
se supõe.” Estas teses contêm constatações
– fruto de suas pesquisas históricas – e prescrições,
não sendo sempre fácil a distinção.
Contudo, tal ambigüidade pode ser-nos útil para identificarmos
a racionalidade de Feyerabend.
3 – CONSIDERAÇÕES FINAIS ou “MATANDO
O TEMPO”
Nossa proposta foi a de apresentar os principais pontos da crítica
de Feyerabend à Razão, assim como as suas “razões”.
Entendemos que há uma racionalidade na argumentação
de Feyerabend que prescinde de aspas ou de minúsculas, uma
vez que encontramos um princípio que rege sua obra e lhe
dá coerência. Por sinal, a sua radicalidade é
um fruto necessário de sua exigência de auto-coerência.
Quando critica Kuhn e Lakatos, o faz por julga-los não tanto
pouco radicais mas, sobretudo, incoerentes em suas críticas
ao racionalismo popperiano. Isto procuramos registrar no item acima.
Além da coerência há, em todos os textos estudados,
uma preocupação ética que se transforma em
princípio na medida que é um freqüente argumento
contra a tradicional racionalidade científica. Colocando
nosso ponto de vista em outros termos: uma vez demonstrada a impossibilidade
de comparação lógica entre teorias, ou seja,
afirmada de forma quase radical – abrindo espaço somente
para o método antropológico como possibilidade de
diálogo entre culturas (ou teorias, ou padrões, ou,
em última instância, entre linguagens) – a tese
da incomensurabilidade, só resta como critério decisório
opções éticas, escolhas entre cosmologias,
entre formas de vida. Vemos, assim, que para Feyerabend o primado
de um princípio ético é mais do que uma prescrição
mas, como a certa altura afirma acerca de seu relativismo, um achado
de sua pesquisa. Esta, como se depreende de sua auto-biografia,
é por sua vez movida pela curiosidade pelo humano.
Ao resumir o último capítulo de Adeus à Razão,
nos diz:
“O capítulo deixa claro que a minha preocupação
não é nem a racionalidade, nem a ciência, nem
a liberdade – abstrações dessa natureza revelam-se
mais prejudiciais do que benéficas – mas a qualidade
da vida dos indivíduos.”
A citação acima mostra sua obstinação
em evitar qualquer princípio aprisionante, empreendimento
em que, em nosso entender, fracassa. Pois, há uma forte coerência
em torno de princípios éticos que norteiam seu texto.
A publicação de sua auto-biografia faz parte desta
mesma postura ética, uma vez que generosamente expõe
sua intimidade – desde sua relação com a mãe,
passando pela participação na guerra, até sua
vida sexual – e a oferece, a pretexto de “matar o tempo”,
como sua principal razão. Apesar da autorização
do autor – uma vez que torna pública sua intimidade
– pensamos que não nos cabe fazer conjecturas ou interpretações
que inevitavelmente devassariam mais uma vida que merece respeito
e admiração, podendo ser mal utilizadas por críticos
que não fossem “amigos”. Lembramos que mais de
uma vez nos fala Feyerabend da importância de assuntos tão
sérios quanto ciência ou progresso serem discutidos
entre amigos próximos, o que dizer então de dramas
de uma vida. Talvez este seja um importante ponto da “nova
racionalidade” que Feyerabend propõe: uma razão
que leve em conta e extraia seu sentido de verdadeiras relações
afetivas, em lugar de meras abstrações. Talvez também,
por sua confessada teimosia, não desejasse usar termos tais
como: razão, racionalidade, mas pensamos que nossa hipótese
se fundamenta nas usa últimas palavras em Adeus à
Razão :
“É possível ajudar as pessoas escrevendo livros.
Fiquei surpreendido e deveras sensibilizado quando vi que pessoas
de diferentes culturas, cujas ações eu respeitava,
tinham lido algumas das minhas obras, e com uma franca aceitação.
Deste modo, resolvi pôr de lado o meu cinismo e escrever um
último livro bom, para Grazia, porque a conhecia e porque
escrevo melhor tendo um rosto sorridente diante de mim (lembrem-se
que escrevi AM – Against Method – tendo Imre Lakatos
em mente) e, através dela, pra todos aqueles que não
obstante a fome, a opressão, as guerras tentam sobreviver
e alcançar um pouco de dignidade e felicidade. Claro que,
para escrever um tal livro, terei de cortar os últimos cordões
que me ligam à abordagem abstrata, ou retomando a minha habitual
maneira irresponsável de falar, terei de dizer
ADEUS À RAZÃO.”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Feyerabend, P. (1965). “Consolando o Especialista”.
In A Crítica e o Desenvolvimento do
Conhecimento, org. Imre Lakatos e Alan Musgrave. São Paulo,
Cultrix, 1979.
____________(1975). Contra o Método. Rio, Liv. Francisco
Alves, 1989.
____________ (1985). Adeus à Razão. Lisboa, Edições
70, 1991.
____________ ((1994). Matando o Tempo. São Paulo, UNESP,
1996.
APÊNDICE II
A CRÍTICA AO EXTERNALISMO
À LUZ DA EPISTEMOLOGIA DE LARRY LAUDAN
Ney Marinho
1 – A QUESTÃO E ALGUMAS DE SUAS IMPLICAÇÕES
Utilizaremos as palavras de Georges Canguilhem (1970) para introduzir
o tema:
“O externalismo é uma forma de escrever a história
das ciências condicionando um certo número de acontecimentos
–que se continua a chamar de científicos mais por tradição
do que por análise crítica – através
de suas relações com interesses econômicos e
sociais, com exigências e práticas técnicas,
com ideologias religiosas ou políticas. É, em suma,
um marxismo mitigado ou, melhor, empobrecido que tem curso nas sociedades
ricas. O internalismo – tomado pelos primeiros por idealismo
– consiste em pensar que não há história
das ciências, se não se coloca no próprio interior
da obra científica para aí analisar os procedimentos
pelos quais ela procura satisfazer às normas específicas
que permitam defini-la como ciência e não como técnica
ou ideologia.” (p.15)
Consideramos que Canguilhem resume com felicidade as posições
em debate, cujas implicações são várias.
Estas podem ser vistas em outras disputas como a dos relativistas
vs. racionalistas, ou, nas diversas concepções de
progresso científico e de objetivos do empreendimento científico
e, a rigor, na própria concepção de ciência,
ou ainda, de racionalidade. Uma implicação mais singela,
nem por isso menos importante, residiria nos próprios critérios
de aceitação ou rejeição de teorias.
Os externalistas tenderiam a recusar qualquer racionalidade nas
opções por teorias em competição, ao
passo que os internalistas procurariam prescrever e identificar
tais critérios.
Embora tais termos – internalismo e externalismo –
sejam característicos do debate anglo-saxão, podemos
alinhar nestas duas posições autores dos mais diversos.
Assim, estão alinhados com o internalismo: Koyré,
Bachelard, Popper; enquanto seriam externalistas: Kuhn e Feyerabend.
O peso dos autores citados já demonstra a magnitude do problema
que, de fato, nos parece cardinal por suas implicações,
próximas e remotas. Implicações éticas,
epistemológicas e ontológicas se levarmos o problema
colocado às suas últimas conseqüências.
Seria uma espécie de divisor de águas. Seria também
um ponto de discussão privilegiado para o ângulo filosófico,
uma vez que nem a história, nem a atividade científica
podem dar conta de seus próprios fundamentos que, em última
instância, é o que está em questão. Como
diz Canguilhem, ao terminar seu texto citado:
”... A história das ciências não é
uma ciência e seu objeto não é um objeto científico.
Fazer uma história das ciências, no sentido mais operativo
do termo, é uma das funções, não das
mais fáceis, da epistemologia filosófica.”(p.23)
Uma vez reconhecida a amplitude do tema, como esperamos ter deixado
claro, nos restringiremos ao exame da posição de Larry
Laudan, particularmente em relação ao externalismo,
cuja proposta epistemológica é o objeto de nosso estudo.
2 – A CRÍTICA DE LAUDAN AO EXTERNALISMO
Laudan vai situar o problema na discussão da sociologia
do conhecimento. Engloba neste termo o estudo do papel tanto de
fatores sociológicos como psicológicos no desenvolvimento
do pensamento científico. Inicialmente, procura distinguir
duas espécies de sociologias do conhecimento científico:
Sociologia não-cognitiva da ciência, interessada em
explicar os modos de organização dos cientistas, sem
preocupar-se com a origem ou fatores determinantes de suas crenças.
Sociologia cognitiva da ciência, interessada em explicar
por que certas teorias foram formuladas, aceitas ou rejeitadas;
investigando os fatores sociológicos determinantes.
Somente esta segunda modalidade de sociologia do conhecimento científico
entra no debate de internalistas e externalistas, que de acordo
com a visão de Laudan mantêm posições
incomensuráveis.
Na medida em que as “crenças” são, por
excelência, os problemas empíricos da sociologia cognitiva
do conhecimento científico, é importante delimitar
seu domínio. Isto não é tarefa tão simples
como muitas vezes se julga. Deste modo, há posições
que vão desde de tornar este domínio co-extensivo
com o da história do pensamento humano às de recusar
qualquer relação entre situação social
e racionalidade científica. Dois exemplos mostram a necessidade
de tal delimitação do domínio da sociologia
do conhecimento:
Se, por um lado, 2 mais 2 é igual a 4 é uma proposição
reconhecidamente a-histórica; a existência de teorias
de supremacia racial em sociedades escravagistas é obviamente
histórica, ou, num exemplo mais interessante que dá:
a adesão dos operários ao socialismo se prenderia
mais a condições sociais do que a sofisticadas opções
racionais entre teorias concorrentes. Tudo isso nos leva a discutir:
que crenças são passíveis de avaliação
sociológica? Quais não? Quais os legítimos
problemas empíricos da sociologia do conhecimento? Tais indagações
se impõem devido ao risco dos sociólogos do conhecimento
poderem ser questionados quanto à contingência de suas
próprias crenças. Laudan vai identificar três
princípios que acredita ter encontrado na argumentação
daqueles que advogam um papel privilegiado para a sociologia do
conhecimento. Tais princípios nem sempre são compatíveis
e boa parte da epistemologia de Laudan colide com os mesmos. Seriam
eles:
1 – Suposição de Arracionalidade (Arationality)
– A partir da obra de Karl Manheim, é comum distinguir-se
dois tipos de idéias:
Idéias Imanentes – Seriam, segundo esses sociólogos,
conceitos, proposições ou crenças que poderiam
ser demonstradas como ligadas natural e racionalmente a outros aos
quais o agente adere. Um exemplo típico seriam os teoremas
da geometria euclidiana. Aquele que aceita seus axiomas estará
comprometido a aceitar suas implicações.
Idéias Não-imanentes – Seriam aqueles conceitos,
proposições ou crenças que não trazem
consigo credenciais de racionalidade, ou seja, o agente pode aceitá-los
ou não, podendo optar por idéias alternativas, uma
vez que aquelas que não são intrinsicamente mais racionais
para ele. Estas seriam, por excelência, o objeto de explicação
sociológica.
Laudan vai considerar tal princípio como um critério
de demarcação e denominá-lo e defini-lo como
Suposição de Arracionalidade, o qual “...leva
à implicação de que a sociologia do conhecimento
pode tomar parte na explicação de crenças se
e somente se aquelas crenças não possam ser explicadas
em termos de seus próprios méritos racionais.”(1977:202)
Ressalta que se trata de um princípio metodológico
e não metafísico, uma vez que “...não
afirma que sempre que uma crença pode ser explicada por razões
adequadas então não pode ter sido socialmente causada.”(p.202/3)
Imaginando um hipotético debate entre um racionalista e um
radical adepto da sociologia do conhecimento, mostra o inevitável
impasse que tal princípio leva, ao conduzir o sociólogo
a defender, em última instância, suas crenças
como “situacionalmente transcendentes”, única
possibilidade de continuar crítico da crença em exame.[52]
Laudan propõe uma solução para este impasse
que discutiremos no próximo tópico. Continuando sua
crítica vai reivindicar da sociologia cognitiva do c |