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PERSPECTIVA CLÍNICA DA PSICANÁLISE FOCALIZANDO O FENÔMENO CONSIDERAÇÃO

Rosa Beatriz Pontes de Miranda Ferreira

Nota do editor - Rosa Beatriz Pontes de Miranda foi presidente, e diretora do Instituto de Psicanálise, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Teve grande influência em seu meio e inspirou o movimento de abertura democrática no funcionamento institucional e na formação analítica em sua Sociedade, movimento este posteriormente abortado por pressões da Ipa. Reuniu em torno de si, durante muitos anos, psicanalistas e estudantes interessados na obra de W.R. Bion, da qual sempre foi muito interessada, além da de Freud e Melanie Klein.

É nossa intenção mostrar a analogia do fenô­meno "consideração" nas obras de Melanie Klein, Bion e Marx. Mostrar a abrangência do conceito "consideração" na primeira infân­cia (feto, bebê) e sua influência no desenvol­vimento do Homem e da Sociedade. Esperamos que ou­tras experiências ajudem a focalizar o problema, senão em termos de solução, ao menos de progresso.

Antes de considerar o fenômeno, gostaríamos de ci­tar os diferentes significados da palavra Consideração. Segundo Caldas Aulete e Mirador, seria: 1 -Ação de con­siderar, de examinar, de refletir; 2 - Importância, valia; 3 - Atenção; 4 - Circunspecção no que se diz ou no que se faz; 5 - Estima, respeito, deferência que se tem por alguém; 6 - Raciocínio, observação, opinião, reflexão, proposição.

O que nos interessa sobretudo é a capacidade de es­tar em contato com a realidade e regular eficientemente suas relações com os outros e suas tarefas: a capacida­de de consideração, reflexão em torno da realidade. Consideração pelos outros - a estima, respeito, deferência que se tem por alguém é formada e desenvolvi­da pelas circunstâncias desde o período fetal e primei­ro ano de vida. Esses períodos são de maior importân­cia para a formação da personalidade e caráter de um futuro homem ou mulher.

Muitas vezes nos deparamos com pessoas assaz in­teligentes e que nada podem pensar a respeito de suas emoções. São pessoas que, visivelmente, apresentam sinais de distúrbios no pensar. Encontramos, também, pessoas inteiramente desinteressadas de todo proces­so social, indiferentes ao outro que não faça parte de seu restrito universo. Diríamos que eles também sofrem de distúrbio no pensar.

Nosso ponto de vista é que a saúde de um adulto é função de sua infância, mas a base da saúde mental do ser humano está nas suas primeiras semanas e meses. Esses serão decisivos na formação da personalidade. De forma alguma, entretanto, depende só da mãe e da so­ciedade para seu crescimento e desenvolvimento. O in­divíduo nasce com certas características, algumas das quais já foram ou não favorecidas durante o período fetal. Uma dessas características dominantes é a capa­cidade de tolerar a frustração, que pode ter toda uma escala de valores.

Junto às condições inatas, aos primeiros contatos com a mãe, desenvolverá uma capacidade de pensar, podendo apresentar menores ou maiores distúrbios. A capacidade de pensar será, portanto, função da capa­cidade inata de tolerar a frustração e da capacidade da Mãe ou substituto em ajudá-lo, não só nas suas neces­sidades fisiológicas, mas também nas psicológicas – ­atenção e afeto. Saliento, portanto, a existência de pro­blemas que nascem com o indivíduo e outros que vêm do meio, Mãe e ambiente - e entre constitucional e ambiente, há uma interação.

Teoricamente, concordamos com M. Klein e Bion quanto ao predomínio da perseguição na primeira etapa de vida. Em termos de modelo, diríamos: o bebê que nas­ce espera ter sustento imediato, esperaria o seio sem que ele mesmo precisasse desejar. O seio que não está pre­sente já é mau em si. Dependendo da capacidade de aceitar a frustração, à medida que vai sendo atendido vai reconhecendo um seio bom que o sustenta. Em con­dições normais, haverá um momento em que reconhecerá que o seio mau que o faltou é o mesmo seio bom que o atendeu, passando concomitantemente a reco­nhecer a mãe como um todo. A mãe que o amamentou é a mesma pessoa com as coisas más e boas. Ao se de­senvolver satisfatoriamente, pensa: "esse seio não es­tá aqui nesse momento, mas existe e vai aparecer". De­senvolvendo a capacidade de tolerar a frustração, de­senvolverá a de pensar, passando à idéia de que há um seio bom, embora nem sempre presente, e surgirá o sen­timento de amor e reconhecimento por esse fato. À me­dida que esse amor se desenvolve, surge um sentimen­to de reconhecimento e culpa por ter atacado o seio, tornando-o mau. O bebê aceitará uma distância maior, em tempo e espaço, desse seio e da Mãe, com quem aprendeu a relacioná-lo. Haverá maior consideração pe­la Mãe ou objeto que a substitui. É como se o bebê dis­sesse: "pode ter vida própria, valorizo-os, você pode se ausentar, pode ter outro".

Estamos trazendo isso de uma forma muito esque­mática, como modelo. Mas achamos que os processos de divisão e integração permanecem constantemente ativos na personalidade; mais ainda, que se tenha ini­ciado num período anterior aos quatro meses. Hoje em dia, não podemos dizer que a maioria das pessoas não saiba da importância dos aspectos emocionais, mas sim que, como antes ignorava ou ainda ignora os aspectos econômicos, desconhece, por algum motivo, esse valor. Por quê? Há apenas o componente emocional do pró­prio indivíduo? Da família? Do grupo? Do trabalho? Do Estado? Ou o esclarecimento é muito reduzido? Que ti­po de esclarecimento deve ser feito? Quando, como e do quê? A criança é maioria e, no entanto, é tão explo­rada quanto o trabalhador. Não porque dê lucro a ter­ceiros, mas porque suas necessidades são imensas e não tem voz, pois ainda não verbaliza e não reivindica em massa. A quem cabe reivindicar por ela? Estarão os pais também atendidos nas suas necessidades, para atender à primeira infância? As mulheres grávidas, divorciadas, desquitadas, casadas e solteiras têm compreensão e aju­da? De uma coisa sabemos: a necessidade da criança começa muito antes do nascimento.

Durante a última guerra, Bion, como oficial psiquia­tra, tomou parte em um serviço de reabilitação de lí­deres. Sua primeira proposta foi que essa seleção não se restringisse ao departamento de seleção de oficiais. Isso não foi aceito, e teve de restringir-se aos que apa­reciam no departamento. A essência da técnica de se­leção usada, e que se tornou a base das técnicas de se­leção em muitos campos diferentes, foi prover uma es­trutura na qual oficiais selecionados, inclusive um psiquiatra, pudessem observar a situação de tensão que os induzisse a desprezar os interesses de seus colegas em causa própria. A situação teria de ser de vida real. Chamamos isto de Consideração.

As teorias psicanalíticas e marxistas constituem apro­ximações diferentes ao estudo da natureza humana. Não são conflituais - complementam-se e enrique­cem-se. A unidade dessas teorias está no fato de ambas verem o homem como um ser submetido a forças que dificultam seu desenvolvimento.

O Marxismo, pela sua teoria da construção da Socie­dade Comunista, tem de primeiro estar consciente da realidade, cada um consciente das suas tarefas e levar em consideração as necessidades dos outros. Ora, es­sa consciência comunista (ou moral comunista) tem sua base na primeira infância. Aquele que pôde considerar seus primeiros objetos os outros desde pequeno pode­rá ter uma moral que não seja servil, feudal ou burgue­sa.

"A mais simples reflexão teórica sobre vida social não começa nem com o conceito de sociedade,... nem com o indivíduo isolado... mas com o indivíduo como real­mente ele é: um indivíduo que está sempre necessaria­mente ligado a outros seres humanos no seu pensamen­to e existência, uma vez que ele tem logicamente de as­sumir a existência de outros seres da mesma natureza que ele próprio. Logo que seres humanos aparecem, têm necessariamente relações de pensamento e ação para com cada um." (T. Botlomore, Marxist Sociology. Lon­dres, 1975).

Em relação à experiência enriquecedora de Cuba, po­demos afirmar que sentimos que um Estado sério e bem orientado pode desenvolver um país em que as novas condições sociais, tanto de ajuda aos pais quanto de pre­vidência, saúde, trabalho etc., possam servir de Conti­nentes para que crianças atendidas fisiológica e psicologicamente se desenvolvam em adultos sadios. Acre­ditamos, porém, que a Psicanálise é necessária nesses países. Perguntaremos: e as pessoas que viveram ante­riormente a essa revolução, estarão todas sadias mentalmente? E os acidentes independentes de condições sociais, tais como acidentes normais de morte e doen­ça que podem ocorrer na primitiva infância ou mesmo na época fetal? Como homens, não estamos empenha­dos numa luta tanto para reter nossa capacidade civi­lizada quanto evidenciar nossa natureza primitiva e pe­rigosa? Diríamos portanto que, para alguns, não basta­rá mudança social. Pode ocorrer a necessidade de um tratamento individual. Será preciso a formação de uma dupla terapêutica que possa suprir a deficiência que se originou primitivamente. A criança que não pôde che­gar à fase de Consideração não se desenvolveu favora­velmente e vai precisar de um setting que supra o que Ihe faltou mentalmente até voltar a pensar sem distúr­bio. De maneira alguma negamos o valor dos outros pe­ríodos da vida e suas conseqüências, apenas queremos enfatizar esse e suas conseqüências, relacionando-o com o fenômeno Consideração.

No decorrer de nossa vida e da nossa experiência ana­lítica, encontramos inúmeras pessoas com uma vida lim­pa, decente, até heróica, com filhos seriamente doen­tes, às vezes até hostis, senão aos pais, às suas idéias. Mereceria todo um trabalho e questionamento em torno desse assunto, mas, de qualquer maneira, seria desejá­vel que pessoas altamente evoluídas sob um ponto de vista não negligenciassem o outro lado do problema, isto é, a sanidade e formação da personalidade de seus próprios filhos e dos outros.Marx, deixando de lado o erro dos idealistas, dos me­tafísicos e dos mecanicistas, perguntou: "e o Homem?" Segundo Marx; "até agora só fizemos interpretar o mun­do; trata-se, agora, de transforma-lo '. Não pensemos que tudo se repete, tratemos de mudar!

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