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A arte da psicanálise em Freud.

Jorge Luiz Veschi.

Introdução.

Vamos fazer um percurso ao longo dos textos técnicos de Freud. Existem movimentos importantes de reformulação ao longo de seu trabalho clínico. Porém, o eixo de sua questão começa logo cedo na sua atividade clínica: alguma coisa que se processa através da linguagem mas não pode ser controlado pela linguagem. Esta problemática aparece na sua dificuldade em se adequar, integralmente, a prática do hipnotismo e da catarse. As dificuldades de Freud parecem se relacionar bem com aquilo que a neurose também não acolhe bem.

Existe uma elaboração lenta de seu método. Sua habilidade maior é considerar os efeitos de suas intervenções, lutar com sua dificuldade em ouvir os clientes e os colegas, sua aptidão pela linguagem e uma arraigada tradição de inspecionar e interpretar devido a sua linhagem judaica. Como qualquer sujeito se constitui no ponto de forças de sua história, sua época e sua tradição. Com isso não apareceria outro semelhante e, em se tratando deste tipo de obra, se torna difícil apreender efetivamente o seu trabalho. Mas, podemos, até certo ponto, “pinçar” e trabalhar algum elementos de seu trabalho. Claro, qualquer procedimento de leitura é também uma atualização, tanto em termos de traduzirmos o pensamento do outro em nossos termos quanto, o adequarmos a realidade na qual estamos inserido e da qual fazemos parte.

Uma arte implicada na palavra encontra, de início, o problema da tradução. As palavras possuem um elemento genérico que lhes permite serem traduzidas e compreendidas por outros mas, possuem também elementos singularizantes implicados alguns com a cultura, outros com a época e, ainda outros com a pessoa que os emprega. Na psicanálise nos deparamos cotidianamente com estes limites subjetivos, que criam um terreno de equívocos – comuns e necessário para a clínica.

Existe uma discussão a respeito de se utilizar o termo arte ou técnica no caso da prática psicanalítica. Atualmente o termo técnica está comprometido com um sentimento mecânico, pragmático; arte está comprometido com uma atividade sem utilidade imediata e prática onde a presença da subjetividade é bastante delineada. Mas, aquilo que chamamos de arte, em muitos ambientes não está dissociado da arte. Quando dizemos, por exemplo, arte indígena, para o índio são elementos de seu uso cotidiano. O aspecto de arte da psicanálise se refere a forte dose de subjetividade mas, deveria se tratar de uma atividade participante do cotidiano, da maneira de ser de algumas pessoas. Uma produção artística tem uma finalidade imediata e uma que transcende ao imediato. Em toda produção do artífice existe uma utilidade mas, seu produto é também expressão de alguma coisa para além do produto, do artificie e de quem o utiliza. Toda produção humana porta em si um sonho. Este sonho é indiferenciado, congrega elementos do sonho de quem o fez, quem o utiliza e dele próprio.

Alguns elementos são precisos no trabalho psicanalítico mas, sua conceituação varia bastante. Esta variação vai determinar para cada uma delas a abrangência a um público específico e a uma maneira de ser específica de psicanalista. A maneira de trabalhar e de interpretar expõe quem o faz. Longe de apresentar uma técnica verdadeira, apresentam a verdade de quem as formula e que pode corresponder a demanda, ou necessidade de alguns outros.

Manejo psíquico. (Manejo da alma).

Psychische Behandlung (Seelenbehandlung). 1.890

Iniciamos com um entrave grande de termos. Behandlung, traduzido geralmente como tratamento, porta uma referência ao sentido de “mãos” (hand). Esta referência á mão se refere a uma atividade sem mediação de instrumentos, trata-se de “meter a mão na massa”, uma prática sem mediação ou proteção. Refere-se, também, a um exercício bastante “primitivo”, inaugural não em termos históricos mas relativo aos princípios – tanto no sentido de trabalhar com os princípios, desde onde brota aquilo que aparece nos acontecimentos, quanto como algo sempre inaugural, sempre nos seu próprio começar. O método psicanalítico está sempre no seu começo e abordando o campo a partir de onde os acontecimentos principiam.

Freud começa dizendo que: “Psique é uma palavra grega que pode ser traduzida no alemão como Seele. Seele é um termo alemão que pode ser traduzido pelo termo latino alma. Seele se distingue na tradição alemã de Geist (espírito, intelecto) pelo fato de Seele se referir a algo mais telúrico, carnal, sensório; Geist se refere a alguma coisa mais abrangente, transcendente – como quando se fala em “Espírito do tempo”, por exemplo. Portanto, não se trata de um trabalho intelectual, nem referido ao sentido de “mente” como se traduz oficialmente, mente tem uma referência muito forte com a razão, tal como o tem Geist, não é esta a referência que Freud utiliza. Seele ser refere ao imaterial do corpo, àquilo que promove ao corpo sua experiência de uma totalidade. Psique era, para o grego, o sopro que nos habita e nos deixa na respiração mantendo um interação permantente entre interior e exterior – entre o mundo e seu além.

Nas línguas latinas, alma se refere ao nome da causa oculta dos movimentos vitais, princípio sensitivo e de significado da vida; princípio imaterial da vida, do pensamento e da ação; coração como centro das paixões, da consciência e aquilo que dá expressão e força não só ao físico como também ao moral; fonte e motor de todos os atos humanos; assombração, fantasma.

Seelenbehandlung seria o sentido de um ofício de lidar, com bastante intimidade e envolvimento, com o aspecto sensível do corpo e do viver. Freud acentua que se trata de um: “Behandlung von der Seele aus, Behandlung – seelischer oder körperlicher Störungen – mit Mitteln, welche zunächt und unmittelbar auf das Seelische des Menschen einwirken”[1]. Manejo a partir da alma, manejo – de perturbações anímicas ou corporais – com medidas as quais, em primeiro lugar e sem mediação, se efetivam sobre a alma humana. O “meio”, as medidas utilizadas neste tipo de manejo agem diretamente na alma humana. Este índice de penetração é da maior importância em ser considerado. Vamos encontrar, no desenvolvimento de sua formulação, o motivo do poder de penetração deste método. Uma situação psicanalítica pode tanto fazer bem quanto mal visto que, uma vez se constituindo seus meios de trabalho, age sem mediação sobre o anímico. É preciso se considerar que, devido ao termo Behandlung incluir o sentido de “mãos”, esta ação sem mediação no anímico é tanto no paciente quanto no psicanalista.

Logo em seguida começa a formular o desdobramento desta formula: “Ein solches Mittle ist vor allem das Wort, und Worte sind auch das wesentliche Handwerkszeug der Seelenbehandlung”. Tal meio é, perante todos os outros a palavra, as palavras sendo assim, o instrumento essencial do manejo anímico. Este sentido de “vor” é importante na medida em que qualquer método ou abordagem humana está envolvido por algum ambiente de palavra, ou seja, dentro de um ambiente qualquer de linguagem. A palavra é apresentada como instrumento privilegiado nos assuntos da alma humana. Age sobre a alma sem mediação. Mas seria qualquer palavra? Vamos ver a que tipo de palavra Freud se refere neste trabalho seu introdutório.

Freud se mantém apegado a desfazer a dicotomia entre alma e corpo mas sem reduzir um ao outro no plano simbólico. A alma se mantém de maior importância para comportar esta sensação que ainda é corpo mas falta substância, todo espaço de continente dos outros e a dimensão da linguagem. O corpo se encontra em uma situação ‘vor das Wort’, perante a palavra. A realização de suas excitações e a efetivação de suas demandas dependem da linguagem. Freud vai encontrar os sintomas se neste território. “os sintomas são muito claramente influenciados por aquilo que parte das moções (Aufregungen), das mobilizações de sentimentos (Gemütsbewegungen), precauções (Sorgen), etc[2]”. O próprio corpo nos é apresentado como um texto para se empurrar para fora as mobilizações de sentimentos: “Todos os estados anímicos de uma pessoa são colocados para fora em suas tensões e relaxamentos de sua musculatura facial, estabelecimento de seu olhar, preenchimento de sangue nos vasos da pele, no tipo de requisição absorvente de seu aparato sonoro e na movimentação de seus membros, principalmente as mãos[3]”.

Freud introduz nestes primórdios indícios do que seria mais tarde o efeito transferencial. Este efeito faz parte ativa do sentido de “Behandlung”, conforme o significado de “meter a mão na massa”. Leva a palavra para uma espécie de além dela, para as paragens do mítico, passional. “A efetividade destes métodos estabelecidos pelos médicos decorrem da composição de duas partes colocadas juntas. Uma delas, que as vezes concorre com uma parcela maior, outras menor, não podendo, porém, jamais ser negligenciada, se deve a atitude anímica do paciente. A expectativa crente (gläubige) com a qual enfrenta a influência do médica sem mediações vai depender, por um lado, da intensidade de sua aspiração de recuperação e, por outro lado, da sua confiança de que esta dando os passos certos, isto é também verdadeiro para a arte médica em geral, do poder que atribui a pessoa do médico e, mesmo, a pura simpatia humana que o médico despertou nele. Existem médicos que tem uma capacidade maior de despertar a simpatia dos pacientes[4].” Abordar o sentido de fé e crença não é fácil mas é da maior importância para se colocar a questão da efetividade da arte psicanalítica. Por um lado se trata de uma espécie de “para além do princípio da linguagem”, todo aparato da linguagem repousa em horizonte de crença, aquilo que nos vai fazer acreditar no sentido de uma palavra, de que estas são o mundo. Por outro lado Freud lembra de como a fé (Glaube) traz, oculta, a ambição (Ehrgeiz – avidez de honra, de prestígio). Freud pertence a uma tradição onde a fé, a crença é da maior importância e, possui uma singular capacidade crítica afiada, isto lhe permite uma leitura bastante incisiva e efetiva a respeito deste sentimento; sabe de sua importância e sua característica, sua correspondência com a projeção dos ideais anímicos mais elevados, seu aspecto representativo das ambições da alma realizada nas religiões e ídolos.

A instrumentalidade da palavra como meio de agir sobre a vida anímica está posta, aqui, articulada com o fato das vivências humanas se darem dentro da linguagem e, pelo efeito das aspirações de desejo do paciente. “Worte sind já die wichtigsten Vermittler für den Einfluss, den ein Mensch auf den anderen ausüben will; Worte sind gute Mittel, um seelische Veränderungen bei dem hervorzurufen, am den sie gerichtet werden,...[5]” . As palavras são o meio mais importante pelo qual uma pessoa exerce influência nos outros; as palavras são um bom meio de se pode puxar para fora transformações em quem são dirigidas,...

Freud enuncia alguns fatores elementares de cuidado com o exercício deste método: “Com a suspensão da escolha livre do paciente de seu médico um ligação impotantíssima para a influenciabilidade anímica do paciente seria aniquilada”[6]. A autocracia na raiz da personalidade resistiria a participação de qualquer pessoa não autorizada dentro do ambiente anímico. Existem uma série de protocolos com os quais o sistema anímico opera, vamos ver ao longo de nosso estudo como Freud os explicita; estes protocolos determinam a influenciabilidade anímica. “O médico é obrigado a deixar de lado uma grande quantidade de meios bastante eficazes sobre o sistema anímico. Ele não tem o poder, ou não tem o direito de os invocar”[7]. Nomeadamente aqui: a provocação de afetos muito fortes, as relações presas em sentimentos de ternura, o poder de promover alterações deve estar restrito ao plano deliberado do paciente. Delineiam-se contornos éticos importantes, particularmente no que tange aos limites de que poder o médico pode lançar mão.

Nesta época Freud está as voltas com o hipnotismo. Quais os pontos que ressalta do hipnotismo? São pontos que o dirigem para o método psicanalítico mais adiante: o rapport – a atitude do paciente para com o hipnotizador. Esta atitude tem com eixo a docilidade, obediência (gehorsam) e credulidade (glaubig). A docilidade depende da afeição que o paciente sinta pela terapeuta, afeição esta que não pode ser conseguida através da sedução ou da utilização de ligações ternas, portanto é uma base muito delicada de se manejar, não é qualquer pessoa que pode ocupar este lugar nem sua escolha depende de valores objetivos. A credulidade se liga as ambições da alma. As ambições da alma promovem a maior parte de sua tendência ao adoecimento, uma vez colocar a pessoa em choque com os limites e as frustrações, mas criam também as condições de tratamento, uma vez a pessoa poder projetar suas ambições na forma de crença para com alguém ou alguma coisa. Uma pessoa que não tenha ambições na alma é difícil de ser influenciada. A mesma ambição presente na alma de quem manda está na alma de quem obedece.

O termo chave desta construção é “influência (Einfluss – fluxo para dentro, fluxo penetrante)”. Freud esta ocupado em decifrar e administrar a atividade da influência. Sua conclusão inicial e básica é que a influência se enraiza na palavra. Agora, todo seu dispositivo diz respeito a uma complexidade da qual a psicanálise é parte constituinte enquanto resposta – na forma de seu método – e enquanto decifração de sua forma de instaurar-se – na forma de sua teoria e metapsicologia. Vejamos estes parágrafos, como exemplo: “Aquilo que o hipnotizador coloca perante o hipnotizado através da palavras que lhe oferece, lhe puxou para fora uma atitude anímica-corporal correspondente ao conteúdo que imprimiu nele. Isto por lado implica a obediência, por outro lado um aumento da influência corpórea de uma idéia. As palavras ganham outra vez a efetividade da magia.[8]” Um pouco mais adiante escreve: “ fora da hipnose e dentro da vida efetiva (wirklichen Leben) apenas da criança em direção às pessoas amadas mais velhas, se estabelece uma submissão resignada de sua vida anímica a uma outra pessoa, ou seja, como uma forma incompleta em referência a um relacionamento amoroso feito com extrema dedicação (Hingebun – onde haja muito desamparo no fundo). Uma combinação de uma estima exclusiva com uma obediência crente é geralmente o cerne do amor.[9]” Veja como Freud está delineando um campo dos mais sensíveis: o manejo da alma humana, a influência através da palavra e os efeitos baseados nas características do amor.

No parágrafo final aparece uma afirmação que merece atenção. “Eine tiefere Einsicht in die Vorgäng des Seelenlebens, deren erste Anfäng gerade auf den hypnotischer Erfahrungen ruhen, wird Mittel und Wege dazu weisen[10].” Um insight mais aprofundado no acontecimento da vida anímica, cujo começo foi gerado pelas experiências hipnóticas, virá apontar os meios e caminhos para sua natureza. Este convite e a maneira como Freud se expõem através de suas incertezas está no âmago mesmo do ofício analítico sendo, também, seu aspecto mais árduo e difícil de encontrar nas práticas clínicas cotidianas, onde vamos encontrar muitas certezas e estabelecimentos para se manter um acontecimento analítico.

Sobre a psicoterapia da histeria.

(Zur Psychotherapie der Hysterie). 1893.

Freud começa seu artigo introduzindo dois elementos importantes do trabalho clínico que estava desenvolvendo: “Encontramos logo no começo, para nossa grande surpresa, que cada sintoma histérico singular desaparecia imediatamente e sem retorno, quando se conseguia ressuscitar a lembrança[11]do acontecimento provocador em toda sua transparência e o afeto que lhe acompanha[12] como uma sentinela quando evocado e, quando ao doente é possibilitado desentocar de maneira minuciosa o acontecimento e leva a efeito[13] o afeto em palavra[14].”

Este método: “Ele levanta (hebt[15]) a Vorstellung[16] originariamente não tendo sido abreagida, que o afeto mesmo emperrou, fazendo que seja escoada através da permissão da fala (das Rede) e a traga para uma associação corrigida, introduzindo-a na consciência normal (em hipnose leve) ou eliminando-a através de sugestão clinica, como acontece no sonambulismo seguido de amnésia[17].”

Temos aqui alguns termos compondo uma a situação: Erinnerung, Affekt, Vorstellung, Rede. O afeto aparece como precisando aparecer junto com a lembrança mas, também como aquilo mesmo que estrangula a Vorstellung originalmente. Outro problema é a passagem entre afeto e fala, particularmente em um ambiente onde a Vorstellung está estrangulada.

Erinnerung pode ter o sentido de reminiscência. Reminiscência significa, desde a filosofia platônica, a lembrança daquilo que (ainda) não aconteceu; este sentido será referido ao sentido de desejo na psicanálise. Affekt é definido por Freud no seu trabalho “Projeto para uma psicologia” como “restos de Erinnerungen”, os afetos agiriam como uma fonte interna na produção de estímulos sobre o sistema psi, de uma maneira semelhante a como atuam as cargas provenientes do mundo externo. Os afetos podem, portanto, não só misturarem-se como, até mesmo, concorrerem com os estímulos do mundo externo na produção da percepção. Estes “restos de Erinnerungen” podem dizer respeito a partes de um contexto que não chegaram a ser assimilados na consciência, resíduos de reminiscência que nunca chegaram a se efetivar em uma realização – como escreve Freud aqui: não abreagiram originalmente.

Das Rede significa falatório, palavreado, uma fala sem muita conseqüência. Este tipo de fala, que Freud encontrava muito na atitude de seus clientes, começa a lhe despertar um tipo de atenção distinto daquela que despertava em seus colegas médicos da época. Isto começa a lhe parecer uma tentativa fracassada de escoar o afeto pela fala, procurar uma permissão através da fala para o escoamento do afeto. Esta procura de uma permissão está comprometida no tipo de direcionamento que o paciente adotava com o clínico. Mas, não é apenas o clínico que vai permitir, a permissão é lançada à própria linguagem, se esta autoriza este tipo de expressão. Tanto o significado de afeto com o qual estamos acostumados a lidar, quanto o significado de lembrança dificulta-nos trabalhar o campo “primitivo” onde Freud está operando. Trata-se de marcas, impressões onde não está distinto os componentes provenientes do “mundo externo” daqueles provenientes do ‘mundo interno’. O significado de “resto” tem muita força na medida em que a capacidade do afeto pode não se dar por apenas um elemento mas a um conjunto de restos díspares entre si, também pode não portar um sentido claro ou preciso.

Uma Vorstellung que não foi abreagida significa que, a conecção simbólica entre um acontecimento e aquilo de palavra referido a ele não foi colocado ao acesso da consciência. Uma situação desta deixa parecer uma ameaça/desejo de repetição das condições originárias desta Vorstellung. Isto corresponde ao desejo inconsciente ou ao surgimento do recalcado acionando o ängst[18]. O procedimento de levantamento desta Vorstellung depende da permissão da fala. Esta permissão deve-se a interação da Vorstellung com a linguagem e pelo fato da fala precisar acolher em si elementos de intensidade perturbadores para a “rede” que sustenta a fala. Quando Freud aponta a relação entre o sonho e esta situação de base deixa ver como ela desperta uma impressão de acontecimento, impressão esta pesada para a fala sendo, devido ao que este peso representa para a fala de incômodo e ameaça, por isso que dependerá de algumas condições criadas no enquadramento clínico a aceitação na fala desta Vorstellung que não pode ser abreagida.

A abreação ou catarse implica uma intensidade na fala que a aproxima do acontecimento. Não é um enunciado explicativo, informativo ou ao nível da comunicação, trata-se de um dispêndio de energia. Freud esta procurando na fala os instrumentos de seu método. Parece cada vez mais convicto a respeito da relação entre neurose e linguagem.

Logo em seguida aparece um avanço significativo. “Es drängte sich mir zunächt die Erkenntnis auf, dass, insofern man von einer Verursachung sprechen könne, durch welche Neurosen erworben würden, die Ätiologie in sexuellen Momente zu suchen sei”[19]. Fui pressionado de início ao reconhecimento de que, até onde se pode falar de uma causação, através da qual a neurose vem a ser adquirida, esta etiologia deve ser procurada em fatores sexuais. O termo “erworben” realçado juntamente com “sexuellen” tem uma importância crucial. Erworben pode significar adquirir, alcançar, ganhar, merecer, modo de vida, ganha pão, ofício, trabalho. Nesta franja de significados está implícito as condições da neurose e seu tipo de relacionamento com a sexualidade. O ganho secundário com a neurose, o fato da neurose representar um estilo de vida, a maneira como através dela se alcança e se adquire um certo tipo de sexualidade....

Estávamos trilhando uma implicação da neurose, principalmente de seu manejo clínico, com a fala, agora Freud introduz neste ambiente a sexualidade. Temos assim um elemento de complexidade, a intervenção de um vetor de profundidade de campo. Estes “sexuellen Momente” vale pelo afeto que emperrou a Vorstellung que não abreagiu, que havíamos comentado logo acima. Existe uma rede sendo transada implicando as Vorstellungen, a sexualidade, a causação da neurose e seus fatores de aquisição.

Logo no final do parágrafo aparece uma construção para a clínica da transferência: “Acontece que as características etiológicas coincidem com as constantes clínicas”. Este estar junto (zusammen) da clínica com a etiologia da neurose constitui um nó da maior importância, através disso se pode participar do regime das causas e, para Freud que era um pesquisador ferrenho, estabelecia na situação clínica um trabalho de investigação de campo, in loco. Zusammen significa junto, um com o outro, coincidindo, em companhia, ao todo, englobadamente, em colaboração. Mas não devemos ficar muito satisfeito com o sentido de coincidência. Há toda uma margem de possibilidade para um significado imaginário de englobamento de uma situação à outra na procura de um sentido de totalidade. Também temos o sentido da clínica colaborando, fazendo companhia para a etiologia de forma a se constituir as condições de possibilidade para a neurose de transferência, ou seja, as condições clínicas criam um contexto tal que, juntamente com as condições etiológicas constituem ao se juntarem, uma neurose – a neurose de transferência.

De inicio Freud fica com o primeiro significado, a situação clínica coincide com a etiologia. Com o tempo, vamos ver isso no desdobramento de seus textos, começa a formular este segundo sentido, a neurose de transferência está ligada ao desejo, a uma demanda de totalização e de inserção do psicanalista no regime das causas. A situação clínica não é neutra, não resolve apenas; é preciso que crie parte daquilo que vai se dispor a resolver.

Freud se encontra enroscado na nosologia. Procura se utilizar dos conceitos da psicopatologia psiquiátrica mas vai, o tempo todo, trabalhando a mistura das entidades clínicas. “As neuroses que ocorrem comumente são melhor descritas como “gemischte (mistura)”[20]. Quanto a etiologia escreve: reconhecemos que o aspecto prioritário da etiologia das neuroses é o de que sua gênese é überdeterminiert (sobre determinada, super determinada)[21]. Está entrando em um território sem a segurança oferecida por uma concepção única de causa. Causa esta que seria tratada, removida proporcionando a cura. Todo edifício de um relacionamento de causa-efeito começa a ser abalado. Estamos diante de uma situação sobre determinada, esta situação será vivida no tratamento misturando, às suas próprias misturas, as condições do tratamento (neurose de transferência). A questão que começa a se esboçar é: como pode uma situação de misturas ansiar por uma totalidade, ou uma unidade? Sendo esta demanda o que aparece no paciente como sua atitude quanto ao seu desejo ou sua identidade.

As condições de sobre determinação, o fato da necessidade de uma situação vivida na base da clínica são condições de um território alheio ao ambiente clínico clássico. Não se trata de um clínico que “extirpa” de seu paciente um mal reconhecido por ele e ao qual é externo. As condições sob as quais se dará a vivência clínica implicam dramaticamente o clínico. Tratam-se sempre de misturas. Tanto a concepção da causa única, de um quadro preciso e definido quanto a neutralidade do clínico – sua exterioridade ao processo - são deixados de lado.

Mais adiante exprime elementos decisivos para a vivência psicanalítica: “Das Verfahren ist mühselig und zeitraubend für den Arzt, es setzt ein grosses Interesse für psychologische Vorkommnisse und doch auch persönliche Teilnahme für den Kranken bei ihm voraus[22]”. O procedimento é fatigante e vagaroso para o médico se fundamentando em um grande interesse para com os acontecimentos psicológicos e, também, na simpatia para com a personalidade do doente. Acrescenta o exemplo de como seria possível manter o tratamento de uma pessoa atacada por reumatismo, independente de uma simpatia ou aprovação quanto a personalidade em tratamento e, que este não é o caso do tratamento analítico.

Para Freud é necessário um certo nível de inteligência por parte do paciente; mais importante que a atenção integral do paciente é sua “Zutrauen (confiança)”. Um grande número de pacientes, acrescenta, para quem este tipo de manejo seria adequado, abandonam o médico tão logo pressentem pelo que começa a aparecer, qual seria a direção da pesquisa que está sendo empreendida. “es scheint, als ob eine solche Einwirkung des Arztes die Bedingung sei, unter welcher die Lösung des Problems allein gestattet ist[23]”. Parece, que uma influência do médico é necessária, para uma tal deixada dos problemas se tornar estabelecida. É praticamente inevitável, escreve Freud, que a referência pessoal ao médico se torne, durante algum tempo, indevidamente calcada no primeiro plano (ungebührlich in den Vordergrund drängt).

Uma diferença elementar, decisiva e complicadora do tipo de manejo clínico que esta sendo elaborado para as neuroses implica um tipo especifico de escolha. Esta escolha envolve o interesse do clínico pela personalidade que vai tratar e uma confiança do paciente em relação a personalidade do clínico. O paciente deixará seus problemas em troca, inicialmente, de um aporte na personalidade do clínico. A expressão de sua intimidade e a disposição em uma vivência de seus fantasmas não poderia se dar sem o elemento de confiança. Um clínico não suportaria eficazmente as fatigantes e vagarosas condições do manejo psicanalítico, sem que as condições do trabalho psicológico lhe sejam gratificantes e sem que se interesse por uma convivência, ao nível de intimidade implicado em uma análise, lhe seja atraente com aquela pessoa a quem trata. Estas condições nem mesmo são acessórias ao tratamento, estão na base, nas condições de possibilidades do tratamento.

Freud trás a tona algo inusitado para o pensamento clínico da época. A concepção de um “pensamento de defesa (Gedanke der Abwehr)”, uma resistência no sentido de manter as condições “da doença”. “Através de meu trabalho psíquico precisava superar uma força psíquica nos pacientes que resistia ao vir a ser consciente (lembrar – Erinnern) das Vorstellungen patogênicas”[24]. Existe uma intimidade grande entre neurose e defesa. O pensamento de defesa age como resistência ao vir a ser consciente. Começa a se delinear a importância do trabalho com esta resistência da defesa. O manejo clínico vai se concentrar em uma diminuição do pensamento de defesa. Este pensamento pode, inclusive, camuflar a realidade do paciente. A confiança, apontada anteriormente como parte fundamental para o trabalho analítico, é da maior importância para a desativação do sentimento de defesa. Esta defesa visa proteger as fantasias, o sonho, a imagem de si do paciente. O manejo vai deixando ver como as condições da neurose vão cedendo na proporção que o sentimento de defesa cede. A tomada de consciência implica esta desativação do sentimento de defesa, um estar bem com o sentimento de vulnerabilidade devido a uma desmobilização do sentimento de perigo – proveniente dos desejos inconscientes.

Tanto a fala contida quanto a desenfreada, bem como vários tipos de apresentação discursiva de fantasias ou sonhos podem ser “pensamentos de defesa”. É muito difícil uma expressão que não seja defensiva, a expressão artística é o paradigma do rebaixamento das defesas. O manejo psicanalítico começa a procurar um efeito deste tipo no discurso. Este efeito aparece como antídoto para as forças de recalcamento e repressivas na base da produção da situação neurótica.

Freud escreve: O Eu do doente foi abordado por uma Vorstellung que se mostrou inassimilável, provocando uma força de repulsão (Kraft der Abstossung) por parte do Eu, com a finalidade de defender-se desta Vorstellung intolerável. Esta defesa de fato foi bem sucedida, a Vorstellung referida foi empurrada (gedrängt) para fora da consciência e da lembrança[25]”. Uma força psíquica – uma aversão (Abneigung) por parte do Eu – impeliu inicialmente a Vorstellung patogênica para fora da associação e agora se opõe ao seu retorno para a lembrança. Aparece uma Assoziationswiderstand (resistência de associação) onde encontramos um “Nichtwissenwollen” (vontade de não saber, não querer saber, vontade de nada saber, vontade de saber nada). Lembremos que havia escrito anteriormente a base da Vorstellung que não abreagiu a um momento ou fatores sexuais. Este vontade de nada saber está comprometida tanto com não exprimir um saber sexual (wissen aqui vale por um sentido de sabedoria mais do que um saber intelectual), quanto uma forma de manter uma atividade sem vir a ser “estragada” por uma descoberta através da enunciação de um saber dela – de seu discurso. Na neurose não é tão simples quanto apenas não ter vontade de saber, esta incluso um empenho em manter o ato a salvo do discurso que o desvelaria podendo, assim, atrapalhar ou interromper sua execução a revelia da censura.

Nichtwissenwollen não só é difícil de traduzir como também é denso em significação. Nicht significa não, um direção no sentido de uma negação, mas, a negação (Verneinung) é um tipo de negação tão intensa que chega perto de sua inversão em uma afirmativa. Wissen significa saber, erudição, (grande) conhecimento; está relacionado com a consciência moral ou ética (Gewissen). Wollen significa querer, tensionar, desejar, pretender; wolle significa lã, pelo e o adjetivo wollen se refere a coisas feitas de lã – o querer esta nos pelos, na flor da pele. A língua alemã permite a reunião de termos em uma unidade significante, ao partirmos esta unidade para traduzir perdemos a maneira como os termos se compõe. Nicht representa uma força afirmativa apesar de corresponder a uma negação, sabemos bem como uma criança sempre começa por se afirmar através do “não”, trata-se da maneira originária através da qual o sujeito afirma-se. Wollen também corresponde a um sentido de afirmação, a vontade. O não e o querer na mesma unidade corresponde a um sentido fortemente ativo, uma presentificação incisiva do sujeito. Wissen, a sabedoria, algo muito sedutor e desejado aparece na companhia da vontade e do não. Esta atitude perante uma situação analítica, perante um analista representa uma potência ativa incisiva, uma marcação forte de manifestação do sujeito em relação ao seu gozo.

“Der Kranke trägt[26] es gleichsam ab, indem er es in Worte umsetzt[27]”[28]. O doente como que se desfaz dela, conforme a coloca em palavras. Algumas páginas adiante esclarece novamente a que tipo de palavra se refere. “O doente se liberta dos sintomas histéricos apenas quando reproduz a impressão patogênica motivadora (verursachenden) e as externaliza sob a manifestação de afeto, apenas nisso consiste a tarefa terapêutica, coloca-lo neste movimento (bewegen) e, uma vez esta tarefa esteja liberada, nada mais resta para o médico corrigir ou suspender[29]”.

Tanto o termo “trägt” quanto “umsetzt” são preciosos. A presença do trägt representa uma saída do princípio da inércia, ficar no sintoma é uma tendência inercial; a pessoa não agüenta mais. “Umsetzt” implica uma transposição, uma mudança de lugar da causa, transplanta para a linguagem alguma coisa que está na ordem do corpo; esta transposição faz acontecer no discurso e na relação clínica aquilo que acontece no corpo e na subjetividade. Logo em seguida Freud deixa ver como esta linguagem aparecerá carregada de afeto e da impressão patogênica. O transplante para a linguagem da situação patogênica corresponde ao ofício analítico, apesar de se referia a isso como sendo “apenas isso” se trata de uma mudança de lugar das mais dificultosas. Não tanto pelo desejo inconsciente em si que tem uma vocação pela linguagem mas, mais exatamente, pelo próprio clínico que pode apresentar muita dificuldade em lidar com esta presença na linguagem e na situação clínica. Vamos ver o que nos diz sobre resistência quanto a este transplante.

“nach quantitativer Relation zwischen Ursache und Wirkung auch auf psychischem Gebiete..[30]” Uma relação quantitativa entre a causa e a efeito no campo psíquico. No que foi apresentado até agora a idéia de uma resistência foi calcada no primeiro plano; deixei ver como, através de nosso trabalho terapêutico, fomos conduzidos para o ponto de vista da histeria como sendo formada através do Verdrängung[31] de uma Vorstellung incompatível com a finalidade da defesa (Motive der Abwehr); a verdrängte Vorstellung permanece como um vestígio (fracamente intensivo) na lembrança, enquanto o afeto que é dela arrancado (entrissene significa ser arrancado, arrebatado, salvo da morte) se torna transformado em uma inervação somática: conversão da exitação (Konversion der Erregung). O Vorstellung se torna, através de seu Verdrängung a causa do sintoma adoecedor, portanto, patogênica.[32]

Portanto, a resistência corresponde ao impedimento do surgimento de uma Vorstellung que não é compatível com o Eu e aquilo que a defesa defende. Por isso, de inicio, o trabalho terapêutico esbarra com um muro bastante impermeável, o sintoma representa uma resistência cuja demolição ameaça aquilo que a defesa defende, ou seja, o próprio Eu do paciente. O afeto que permanece circulando promove alterações correspondentes mas sem o elemento que o apresente para a consciência, elemento este que colocaria a identidade e os desejos conscientes do paciente em desarranjo. Trata-se de um retorno delicado, o deste Vorstellung verdrängt, implica em um novo arranjo daquilo que é defendido pela defesa sendo que o afeto encontrou uma maneira de se expressar – através da conversão sintomática. É a partir de seu Verdrängung que a Vorstellung se torna patogênica, uma vez que é tornada objeto da resistência e ameaçadora. Freud está centrando sua atenção no Vorstellung que se torna objeto da defesa, em relação à qual atua a resistência. A dificuldade imposta ao trabalho analítico e à recuperação do paciente diz respeito a esta incompatibilidade entre o Vorstellung verdrängt e o Eu do paciente sendo que, a recuperação desta Vorstellung está diretamente relacionada à cura.

O Verdrängung aparece agindo sobre o Vorstellung não sobre o Afekt. Como o Vorstellung está referido às bases das condições da linguagem: trata-se das condições que possibilitam o relacionamento de elementos distintos – tais como palavra e coisa – de maneira que um venha a representar o outro em seus registros próprios; o trabalho clínico se passará nestas condições de base da linguagem. A aplicação da defesa encontra condições mais pertinentes nas condições da linguagem.

Na página 79 deste texto Freud escreve que, na histeria: a defesa é o evento primário. O ofício analítico vai se concentrar em torno da defesa. Esta defesa acionada devido a presença de uma incompatibilidade. Quanto a este ofício, este se depara com um material estruturado em várias dimensões, Freud vai dizer ‘estratificado em pelo menos três formas diferentes: em primeiro lugar há um núcleo constituído a partir de lembranças (uma vivência ou seqüência de pensamentos), as quais culminaram no fator traumático ou onde sua idéia patógena encontra sua construção esboçada. Em torno deste núcleo encontramos uma mistura rica de outros materiais mnêmicos que devem ser elaborados na análise que é, como dissemos, arranjado em ordem tríplice. Primeiro existe uma inegável ordem linear, cronológica inserido no sítio de cada tema singular.....tais agrupamentos de elementos mnêmicos semelhantes em uma coleção arranjada linearmente como uma pasta de documentos, por exemplo, constitui a formatação de um “tema”. Estes temas constituem o segundo tipo de arranjo; estes estão, não posso expressar de maneira diferente, historicizados constrictadamente em torno do núcleo patogênico. Não é difícil se dizer o que produz esta estratificação, qual a magnitude crescente ou decrescente que a ordena. São estratificadas igualmente, na direção do núcleo suas resistências aumentam e deste modo igualmente em cada transformação consciente (Bewusstseinsveränderung), nas quais cada tema singular abrange. As camadas periféricas contém conteúdos de temas diferentes em lembranças (ou fascículos), são facilmente recordados e sempre são de uma consciência clara; quanto mais profundo se chega, mais difíceis se tornam as lembranças de surgirem sendo reconhecidas, até que perto do núcleo se chega a um ponto onde o paciente chega a negar sua reprodução.

“É esta estratificação (Schichtung – estratificação, sedimentação) concêntrica do material psíquico patogênico que, como viemos a saber pela análise, vem a ser seu traço característico. Uma terceira espécie de ordenação precisa ser citada, a mais essencial, mas aquela sobre a qual é menos fácil se fazer uma afirmação genérica. Trata-se de uma ordenação a partir do conteúdo do pensamento, o enlace (Verknupfung) através deles que chega até o núcleo é feita por uma linha lógica, que em cada caso, de forma especial, tende a seguir um caminho irregular e sinuoso. Esta ordenação possui um caráter dinâmico, em contraste com o arranjo morfológico das duas estratificações anteriores. Enquanto as outras duas seriam esboçados em um esquema através de uma linha contínua, curva ou reta, o curso da cadeia lógica teria que ser indicado por uma interrompida, passando pelos caminhos mais indiretos, da superfície até os estratos mais profundos e retornando, contudo, de modo geral, avançaria da periferia até o núcleo central, tocando em toda estação intermediária, algo semelhante ao movimento do cavalo no tabuleiro de xadrez.

“...A conecção lógica não corresponde apenas a uma linha em ziguezague, retorcida mas, antes a uma ramificação, e muito especialmente um sistema de linhas convergentes. Contém pontos nodais nos quais duas ou mais linhas se reúnem continuando a partir daí como um só e, em geral, várias linhas se estendem independentemente, ou são conectados em vários pontos por caminhos colaterais desembocando no núcleo...para dizer em outras palavras, é notável como um sintoma é determinado de maneira plural (mehrfach), sobredeteminado (überbestimmt)[33].

A Vorstellung verdrängt se torna enredada por uma complexidade, um enovelamento lógico de elementos mnêmicos. Esta situação a torna de difícil acesso mas a mantém ativa – no núcleo da formação sintomática, nos diz Freud. Este processo faz parte da Verdrängung. A lógica diz respeito ao fato das conecções não serem feitas aleatoriamente mas seguindo uma lógica de sentido, um sentido possibilitado pela linguagem. Podemos ter um texto ordenado como uma narrativa, como uma poesia etc. Opera “como uma linguagem” articulando-se através dos significantes. Freud encontra alguma dificuldade, na sua época, de falar de uma lógica não linear, o exemplo do cavalo no xadrez é muito bom: é uma peça que pode “pular” sobre outras ocupando posições sem continuidade lógica mas possibilitadas pela lei de seu movimento. Estes “saltos” sem continuidade aparente precisam ser procurados em um lei não linear, uma lógica da complexidade. Um elemento que amplia esta complexidade é o fato de se poder encontrar mais de uma Vorstellung verdrängt. Tanto a Verdrängung não funciona em se tratando de uma extirpação quanto os métodos de tratamento que visam “eliminar” a causa do sintoma também não tem efetividade. Freud escreve sobre isso:

“Este agrupamento psíquico patogênico, por outro lado, não se deixa ser extirpado completamente do Eu, seus estratos mais exteriores passam, em geral, como a respeito de uma parte do Eu normal; pertencendo a este do mesmo modo que à organização patogênica. Na análise, os limites entre ambos são fixados de forma totalmente convencional...A organização patogênica comporta-se não propriamente como um corpo estranho (Fremdkörper) mas sim como um infiltrado[34].” A concepção de doença está, neste sentido, muito distante da maneira como usualmente esta aparece na patologia clássica. As Vorstellungen verdrängt enraízam formações defensivas passando a comporem o Eu como as demais Vorstellungen. A característica distintiva permanece relacionada á presença da resistência e da defesa. Na primeira construção o tecido construído em torno das Vorstellungen verdrängt já aparecia de modo complexo, agora, aqui, esta complexidade esta infiltrada no Eu, fazendo parte dele. A noção clássica da clínica enquanto uma eliminação extrativa do ‘mal’ fica inviabilizada por ambas as situações. Além disso, estamos falando de Vorstellungen, elementos simbólicos produzindo efeitos de realidade sobre o corpo e na linguagem mas que, efetivamente não são “algo” que possa ser tomado como objeto – mesmo que possa eventualmente ser confundido com algo objetificado – esta confusão se revela assim que o objeto for eliminado mas a situação sintomática permanecer deslocada.

Freud se mostra cônscio desta dificuldade de abordagem da situação anímica já nestes primórdios de seu ofício: “Es ist ganz aussichtslos, direkt zum Kerne der pathogenen Organisation vorzudringen[35]”.[36] É totalmente sem esperança a possibilidade de uma penetração direta no núcleo da organização patogênica. Como a neurose esta relacionada com a defesa, uma situação que ameace com invasão ou controle faz aumentar a reação defensiva e, com isso, a própria neurose. Não se pode abordar a clínica anímica “armado”, perseguir a situação. Nesta área todo o aparato bélico da clínica (médica) sucumbe diante de qualquer indivíduo sozinho com sua neurose. “Nós mesmos podíamos saber a resposta, mas o doente, presenteado com nosso esclarecimento, não poderia se apossar deste saber e através dele sua psique não poderia vir a ser ajudada”. O que se poderia fazer? Freud sugere algumas possibilidades:

“Não nos resta outra alternativa, inicialmente permanecemos na periferia do campo psíquico patogênico”. “É melhor deixar que, por algum tempo, reproduza sem influência....as coisas (Dinge) que assim trás, geralmente se mostram sem ligação, mas oferecem material que poderá mais tarde ser reconhecido em alguma articulação”. “Temos aqui, em geral, de nos prevenir de duas coisas: se interferirmos no doente na reprodução do fluxo de seu deixar cair (Einfall) embaraçado, podemos “entupir” o que mais tarde só poderão ser liberadas com grande dificuldade. Por outro lado, não ficar muito influenciados por uma “Intellinz” de seu inconsciente não lhe deixando na direção de todo o trabalho....Das Vordringen geschieht já dadurch, dass man in der vorhin angedeuteten Weise Widerstand überwindet[37]. A penetração é conseguida, como sabemos, quando a resistência for conseguida conforme assinalamos. “Mas de regra antes temo de conseguir outra tarefa. Man muss ein Stück des logischen Fadens in die Hand bekommen, unter dessen Leitung man allein in das Innere einzudringen hoften darf.” Devemos lançar mão de um pedaço da linha lógica, sob esta orientação exclusivamente poderemos ter a esperança de penetrar no interior.

Que linha lógica seria esta? Freud continua sua formulação da seguinte forma: “mas o médico tem todo o direito de procurar o que está escondido nestes pontos fracos como forma de abordar o material de camadas mais profundas e procurando, ali, encontrar as linhas conectivas (die Fäden des Zusammenhanges) está rastreando.. [38]. A linha lógica que interessa ao trabalho clínico é encontrada nos pontos falhos do discursos, em vazios. Já havíamos visto que o sintoma diz respeito a Vorstellungen que não ab reagiram devido a sua ligação com a sexualidade. Estas situações podem ocorrer devido: 1- uma precocidade da sexualidade de forma a que o corpo e o comportamento não está apto a dar vazão às moções excitatórias da sexualidade presentes; 2- situações traumáticas que produzam no corpo um tipo de excitação à qual não está apto a dar conta; 3- situações desejantes ou vividas que vêm a adquirir um sentido interditado apenas posteriormente.

O afekt aparece através de inervações somáticas ou de ängst[39]; a Vorstellung se torna verdrängt dando este efeito no discurso. Freud está tomando corpo, discurso e realidade como desdobramentos, pregas de mesmo acontecimento. Cada um destes elementos apresentam um aspecto manifesto e um inconsciente, daí a metáfora de “prega” ser razoavelmente apropriada.

“Eine Lockerung dieser Beziehungen liegt nicht im Machtbereiche der Neurose[40]”. Um desbloqueio destas ligações não é permitido na esfera de poder da neurose. Aqui novamente a neurose aparece associada a defesa, sua presença não permite a penetração pelas linhas de articulação das Vorstellungen. O paciente nega a ligação, não dá importância, bloqueia a associação. O que se designa neurose corresponde àquilo mesmo que dificulta sua desmobilização visto, esta desmobilização ser alcançada na medida em que se alcançam as Vorstellungen verdrängt mas, a neurose é a própria dificuldade desta evolução. A queixa de que o paciente resiste não procede uma vez que, se não resistisse não estaria neurótico. A neurose aparece como um “Machtbereiche”(limite ou esfera de poder, ação). Esta esfera de poder, como qualquer esfera de poder lida com táticas de manutenção. Freud continua: “Desta forma, portanto, através de seguir a pista (Aufspüren) a partir das lacunas (Lücken: lacunas, omissões, falhas, vazios, brechas, aberturas, espaços vazios) na primeira apresentação (Darstellung) do paciente, geralmente estando recobertas (gedeckt) através de “falsas ligações (falsche Verknüpfungen)”, agarramos um pedaço da linha lógica na periferia daí vindo uma outra trilha (bahnt) através do processo de pressão (Druckprozedur[41])[42]. A neurose se constitui em um procedimento de defesa em relação ao verdrängt. Neste processo aparecem as lacunas, denegações, falsas ligações etc. Um trabalho que apenas levasse em conta a decifração e revelação do recalcado, não faria nada em relação a este arranjo defensivo, a atividade clínica ficaria neutralizada com explicações de um lado e imobilidade do outro. O elemento diferenciador é o que foi realçado anteriormente quanto à confiança e transferência em relação ao clínico, esta situação pode constituir uma vivência que venha afrouxar as táticas defensivas e permita uma liberação do acesso ao verdrängt, não só ao terapeuta mas, mais efetivamente à consciência do paciente de uma forma vivida por ele e não racionalizada a partir de um ensinamento.

Sobre esta característica do processo analítico Freud retorna mais uma vez: “não estamos em condições de impingir (aufzudrängen) ao paciente a respeito de coisas (Dingen), que ele nem supõe saber ou procurar influenciar a vivência da análise através de excitações de sua expectativa (Erwartung : esperança, expectativa)[43].” O terapeuta só pode seguir um caminho sensível de entrada, reconhecendo as condições da esfera de poder da neurose. Sem este manejo o enrolamento caracterizado pela neurose não possibilita qualquer cura. Normalmente o paciente está em uma situação frágil, passiva, inclusive pode estar fortemente motivado para sair de sua situação de neurose mas, isso não significa nada em relação a esta “esfera de poder da neurose”. A situação que a neurose defende pode ser de tal maneira significativa, a outros níveis para o paciente, que se constitua uma força brutal contra seu desmantelamento. Estamos usualmente diante de uma “força passiva”, um tipo de resistência usualmente não consciente mas operando de forma inexorável. Vamos percorrer um pouco mais do que Freud formula neste texto a respeito do sintoma para tentarmos ir elucidando um pouco melhor aquilo do qual se trata na psicanálise, esta força paradigmática misturando passividade e atividade, potência e impotência, esfera de poder e perda do poder.

Freud se refere a participação ou manifestação do sintoma ao longo do trabalho analítico com um termo muito interessante “Mitsprechens” – linguagem, ou fala com, ou contra; ou seja, uma espécie de “interferência” de uma linguagem sobre outra. “A intensidade do sintoma aumenta quanto mais profundamente penetramos na região da organização patógena onde a etiologia deste sintoma jaz; alcança seu clímax um pouco antes de expelir (eindringt) a lembrança (Erinnerungen) patógena, diminuindo de súbito ou mesmo desaparecendo inteiramente por algum tempo, assim que tiver terminado de ser expelida[44]. “A lembrança (Erinnerung) patógena permanece atacando; o sintoma permanece junto o tempo todo sob a ordem do dia. Caso seja necessário se deixar de lado por um tempo a linha à qual o sintoma está amarrado, assim também o sintoma recua para a obscuridade e, em um período mais tarde da análise voltará novamente para ser tocado. “Efetivamente há uma reta ininterrupta desde os não modificados restos mnêmicos (Erinnerungsresten) de vivências carregadas de afeto e atos de pensamentos (Denkakte) até os sintomas histéricos, seus símbolos mnêmicos (Erinnerungs-symbolen).” Temos aqui um jogo delicado de termos: Erinnerungsresten, sintomas histéricos e Erinnerungs-symbolen. As vivências carregadas de afeto deixam restos não absorvidos, geralmente por efeito da Verdrängung; entre estes resíduos e o sintoma há uma ligação direta mantida, e por onde o trabalho analítico trafega, feito pelos Erinnerungs-symbolen : os símbolos mnêmicos destas vivências carregadas de afeto. A noção de Erinnereung em Freud é complexa, resvala no sentido de reminiscência, ou seja, a lembrança do que não aconteceu. Como aparece neste texto existe uma vivência carregada de afeto que não é completamente absorvida – quer pelo excesso quer pelo Verdrängung – este resíduo, proveniente de um excesso, produz a experiência de falta. Esta lembrança se trata de uma lembrança que nunca se supôs lembrança, uma memória antecipativa, repetitiva e não puramente “mecânica”, “informática”. O símbolo mnêmico, ou lembrança-símbolo destas vivências se trata de algo colocado em seu lugar, algo que lhe represente; este elemento constitui uma via direta entre os sintomas histéricos e os resíduos mnêmicos. Este símbolo será objeto da interpretação, a interpretação procura trazer os resíduos através dos quais se pode penetrar na rede em torno da Vorstellung verdrängt. Esta lembrança símbolo não pode ser confundida com a causa do sintoma, apesar de apresentar-se como tal, na medida em que é seu símbolo. Uma lembrança símbolo evoca uma cadeia simbólica, uma vez que a própria lembrança, o sistema mnêmico é composto de símbolos – se trata de símbolos de símbolos. Estes símbolos, porém, emergem originalmente como efeitos da estimulação gerada pela vivência carregada de afeto e pelo ato do pensar.

Neste nível uma vivência carregada de afeto e um ato de pensamento produzem efeitos semelhantes. O ato pensante tem o efeito de uma vivência. Não se trata, portanto, de uma noção intelectiva do pensamento mas de seu tipo de participação na vida humana. Temos uma base complexa representada por resíduos, restos de vivência e de ato. Estes resíduos ganharão uma forma, uma singularidade através de um símbolo – Erinnerung-symbolen. Isto permitirá que possa parecer que o sintoma tenha uma tal forma precisa, caso se tome o símbolo como sendo a coisa mesma. Nesta complexidade reside toda importância e sutileza da interpretação.

Vamos abordar a questão da interpretação em psicanálise (Deutung) em outros textos onde Freud delineia esta atividade, por aqui vamos apresentar o percurso que, nesta época, formula para a psicanálise.

“é inteiramente impossível levar adiante uma análise de um sintoma em um só empuxo (Zuge: empurrão, pincelada, trem, marcha) ou as pausas de nosso trabalho serem distribuídas de forma a se ajustarem aos pontos de pausa de sua execução. Freqüentemente interrupções introduzem-se imperativamente devido a circunstâncias em torno do tratamento, tal como o prensamento dos horários, muitas vezes isto se dá em sítios incovenientes, exatamente quando nos aproximávamos de um novo tema[45].”... “surgem ocasiões no tratamento (Behandlung) onde o paciente é tomado (“gepackt”) em seu interesse, nestes momentos suas condições gerais ficam cada vez mais dependentes da situação do trabalho.....toda vez que o trabalho se paralisa e a confusão atrapalha a carga psíquica aumenta, o paciente aflige-se, seu sentimento de infelicidade aumenta, sua prova de resistência (Leistungsunfähigkeit).” Uma análise não se desenvolve em um estado constante nem linear. As atitudes quanto ao seu desenlace sofrem alterações dependendo do material que está sensibilizado. Uma grande parte da sutileza do ofício analítico é saber conviver com as obstruções e condições impostas pelo tratamento.

Quando ocorre uma imobilização do trabalho Freud localiza três possibilidades: 1- nada há para ser encontrado no ponto onde se está investigando; 2- defrontamo-nos com uma resistência que só pode ser superada depois, ou seja, estamos em uma camada não qual ainda não se pode penetrar ou, 3- algum obstáculo externo, não inerente ao material, isto é, quando a relação entre o analista e o paciente é perturbada, sendo este o pior obstáculo.

A resistência pode ser trabalhada principalmente através dos efeitos da pessoa do analista. O manejo de uma cadeia de pensamento erótico exige uma força de trabalho do paciente implicando uma oferta pessoal, o que implica uma compensação amorosa – “Die Mühewaltung und geduldige Freundlichkeit des Arztes haben als solches Surrogat zu genügen[46]”. A disponibilidade em dar-se ao esforço e uma amizade valiosa do médico vem a ser uma tal compensação. Caso esta relação do analista com o paciente for perturbada, a disposição do paciente falha (versagt), o paciente fica preso pela consciência das queixas que vêm acumulando contra o analista. Freud aponta três situações onde surge este obstáculo:

1-se houver um afastamento pessoal (Bei persönlicher Entfremdung) – se o paciente sentir-se rejeitado (zurückgesetzst), pouco apreciado, desacreditado, insultado pelo analista ou se tiver sabido opiniões desabonadoras a respeito do analista ou seu método. Esta não é uma das situações mais grave, pode ser superada pela explicação mesmo que a suspeita de alguns pacientes possa atingir dimensões fora de proporção.

2-quando o paciente se torna abalado pelo medo (Wenn die Kranke von der Furcht ergriffen wird), de se tornar muito habituado a pessoa do analista, perdendo sua autonomia em relação a ele. Este é um caso imporante. Sua principal causa é o tipo de disponibilidade e solicitude inerente ao manejo analítico.

3-quando o paciente se assusta, devido a estar transferindo Vorstellungen penosos para a pessoa do analista surgidas a partir da análise. A tranferência ao analista se dá devido a uma falsa ligação (falsche Verknüpfung). O desejo do paciente aparece na consciência sem ligação com a época em que ocorrera, vindo a ser contemporizado como se fosse na atualidade, expressamente na situação analítica. O paciente cai em equívoco a cada nova ocasião que este desejo se lhe oferece.

Freud é explicito aqui: “Man kann keine Analyse zu Ende führen, wenn man dem Wiederstande, der sich aus diesen drei Vorfällen ergibt, nicht zu begegner weiss[47]. Não se pode conduzir nenhuma análise ao seu final se não soubermos com a resistência que surge a partir destes três incidentes. Vai mais além: “inicialmente ficava muito aborrecido com o aumento de meu trabalho psíquico até que me dei conta de que a totalidade deste acontecimento tinha uma regularidade (uma lei, estava em conformidade com a lei) e, portanto, esta transferência[48] não implicava um trabalho a mais. O trabalho para o paciente continuava o mesmo: superar o afeto penoso despertado por um tal desejo mesmo que por alguns momentos; não fazendo diferença se o esforço para o repúdio (Abstossung) psíquico tivesse sido em circunstâncias já partes da história , ou no tema do trabalho recente comigo. Os pacientes aprendem gradativamente por si que uma tal transferência para com a pessoa do médico se trata de uma compulsão e ao manejo de uma ilusão (Täuschung), que desaparece com a conclusão da análise[49]”. Freud começa a apreender a transferência como uma condição do tratamento e algo regular em uma análise. O seu método de tratar através da catarse e da hipnose se remetendo ao passado pode ser conduzido ao presente, a transferência cuidará de colocar no presente aquilo que a hipnose e a catarse colocava no passado – o desejo repudiado. O trabalho que teria em tratar de um acontecimento passado envolvendo outras pessoas ausentes, seria praticamente o mesmo àquele que envolve uma circunstância atual no setting analítico. A introdução da transferência fará uma diferença significativa no manejo clínico e na temporalidade do desejo inconsciente.

No final do texto aponta seu objetivo, onde deixa ver a simplicidade de sua atitude: “Ich zweifle já nicht, dass es dem Schicksale leichter fallen müsste als mir, Ihr Leiden zu beheben; aber Sie werden sich überzeugen, dass viel damit gewonnen ist, wenn es uns gelinsgt, Ihr hysterisches Elend in gemeines Unglück zu verwandeln. Gegen das letztere werden Sie sich mit einem wiedergenesenen Seelenleben besser zur Wehre setzen können[50]”. Não tenho dúvidas de que as vicissitudes resolveriam estes sofrimentos mais facilmente que eu; mas, podes estar certo de que há um pouco de ganho com nosso método, quando conseguimos transformar o infortúnio (miséria, sofrimento) histérico em uma desventura (infelicidade, desgraça, falta de sorte, revés, desventura) comum. Em relação a esta última se estiveres com uma vida anímica restabelecida poderás estar em melhores posições para evita-la (se defender, criar um dique, barragem, armar-se).

A respeito da psicoterapia (Über Psychotherapie)

1905.

Freud tematiza a situação da psicanálise com a psicoterapia. Uma questão em nós enroscada mas que, vamos ver, para Freud mesmo não parecia haver problemas.

Começa situando o campo do sintoma: “os efeitos produzidos por traumas psíquicos devido a um impedimento partindo dos afetos (Zurückhaltung von Affekt), bem como a concepção dos sintomas histéricos como sendo resultado de uma transposição para o corpo de uma excitação, idéia para a qual cunhamos os termos “ab-reação” e “conversão”[51]”. A questão gravita em torno da problemática entre os afetos e sua manifestação no campo anímico – através das Vorstellungen. A antiga problemática entre palavra e afeto. O fato de alguns afetos não querem a palavra. O direcionamento para o corpo significa um movimento na direção da fonte de excitação. Este direcionamento pode se dar devido a vários motivos: interromper a excitação na sua fonte, procurar uma realização mais perto da origem da excitação, evitar uma experiência compartilhada implicada em toda linguagem, etc.

A excitação passaria pelo sistema anímico (rede de Vorstellung) onde estariam implicados o juízos morais, os trilhamentos da consciência implicando as vias e formas de efetivação da excitação, as articulações com o outro e, principalmente o desejo do outro. Esta passagem pode vir a ser muito embaraçada e implicar um tempo isuportável para a ansiedade (a pressão da excitação e a tendência do sistema anímico para ficar em condições inerciais, ou seja, desvencilhar-se o quanto antes da excitação). Vamos ver o que Freud pode indicar a respeito desta opção histérica não ser eficaz de forma a vir a ser sintomática.

A questão que começa a discutir diz respeito a influência que o clínico teria neste tipo de situação. O paciente está sofrendo de um adoecimento decorrente de seus afetos. Para se tratar dos afetos é preciso envolver-se com eles. Freud aponta o fato de, em todo tratamento, agir a influência do paciente. A esta influência exercida pelo paciente no processo de cura, a importância de sua disponibilidade e interesse, se dá o nome de psicoterapia – der “gläubigen Erwartung” (expectativa crente). A psicoterapia corresponde a um manejo clínico desta “gläubigen Erwartung”. É o paciente quem tem menos intenção de abandonar esta expectativa, ela retira o processo de um plano frio, para um universo maior e mais fantasioso onde o paciente pode sentir-se implicado.

“und ganz besonders die Psychoneurosen, seelichen Einflüssens weit zugänglicher sind als jeder anderen Medikation[52]”. E especialmente as psiconeuroses são mais prontamente influenciáveis animicamente do que através de qualquer outra medicação...”diese Krankheiten nicht das Medikament heilt, sondern der Arzt, das heisst wohl die Persönalichkeit des Arztes, insofern er psychischen Einfluss durch sie ausübt.” Estas enfermidade não se curam com medicamentos mas, pelo médico, isto é, mais pela personalidade do médico, através da qual ele exerce a influência psíquica. No caso do tratamento anímico o remédio é o próprio terapeuta. Daí todo o cuidado que este deve ter para ocupar este lugar. Neste ponto é onde talvez residam as maiores questões da profissão, principalmente as questões éticas. Até onde vai a influenciabilidade efetiva do clínico e até onde este processo é controlado, procurado e produzido pelo paciente?

A referência feita por Freud é apenas no sentido do processo ser demandado pelo paciente, ou seja, a manutenção de seu sentimento de crença. Quanto a responsabilidade pelo desdobramento desta situação temos densas discussões. Uma sutileza da discussão reside no fato de se saber se a neurose torna o sujeito frágil de maneira a poder vir a ser submetido a situações que lhe prejudicam através da “porta aberta” pelo sintoma e pela demanda neurótica ou, se, o sujeito está também implicado enquanto desejante nesta abertura. Ou seja, caso o médico influencie, se esta influencia está sobre seu controle ou sobre o controle do paciente. Freud atribui importância ao efeito do médico, uma vez apontar para a importância de se desenvolver um conhecimento, através do qual se possa manejar esta abertura, em favor do tratamento. Mas, neste campo de sutilezas do desejo e do psiquismo o que é saúde e doença, melhor ou pior ficam muito obscuros, estamos em pleno domínio moral. Freud sita Fausto: Ich weiss, das Physikalische.

Wirkt öfters aufs Moralische.

“Sei que o físico, se efetiva freqüentemente na direção da moral”. Temos aqui toda a envergadura moral do tratamento anímico. Tanto a constituição do sintoma está implicado coma a moral – com uma oclusão dos afetos – quanto o tratamento se dará em um ambiente implicado com valores morais. O sintoma enquanto evento físico, a própria ação e reação física estará implicada em um direcionamento moral – tanto no sentido afirmativo quanto no sentido transgressor. Freud faz um comprometimento dos maiores: o que trata é a personalidade do médico. Esta se dispondo a desenvolver um método para utiliza esta influência, uma vez sua participação no tratamento ser inevitável pelo fato do paciente a fazer existir, principalmente como desdobramento de sua “gläubigen Erwartung”.

A questão da “neutralidade” está posta no sentido de como o clínico utilizará a crença do paciente, mas, não no sentido de ignora-la, ou achar que pode manter-se fora da área de influência sobre o paciente, a partir de alguma atitude ou postura qualquer quando, na verdade, é o paciente quem inevitavelmente instaura esta “área de influenciabilidade”.

O físico influencia a moral no sentido das pressões físicas freqüentemente levarem as pessoas a alterações de seus valores morais, pelo menos enquanto a pressão não for reduzida. Inversamente a moral influencia o físico, principalmente nesta área de produção dos sintomas conversivos. Nas afecções onde o corpo físico sofre alterações graves podemos encontrar pressões repressivas muito fortes, no caso de crianças podemos encontrar freqüentemente um campo moral complicado nos pais ou na família e, consequentemente, em seu sistema moral pessoal.

A influenciabilidade da moral pelo físico pode estabelecer situações, mesmo a nível desejante, que, uma vez alterando a situação física deslanchem reações morais complexas. Sob a pressão do físico uma pessoa pode se permitir situações ou desejos dos quais venha a se penalizar duramente uma vez a situação física tendo se aliviado. Aqui está implicada toda a problemática da pulsão e seus efeitos de rebote na produção dos sintomas. Devido a esta influência do físico sobre a moral sempre se cuidou de intervir desde cedo sobre o corpo, através da educação e dos castigos criando, desta forma, barreiras no corpo tentando prevenir possibilidades de avanços sobre a moral. É comum que muitos adoecimentos correspondam a prevenções que o organismo toma, para criar uma barreira física em relação a detecção de alguma possibilidade de desvio moral.

“Es gibt viele Arten und Wege der Psychotherapie. Alle sind gut die zum Ziel der Heilung führen[53].” Existem muitas espécies e caminhos de psicoterapia. Todos os que conduzem à cura são bons....”Ich darf behaupten, die analytische Methode der Psychotherapie ist die jenige, welche am eindringlichsten wirkt, am weitesten trägt, durch welche man die ausgiebigste Veränderung des Kranken erzielt”. Posso assegurar de que o método analítico de psicoterapia é aquele que efetua uma penetração maior, leva mais longe, através do qual se atingem as transformações mais férteis do paciente.

Nem faz uma diferença entre psicoterapia e psicanálise, nem negativiza as psicoterapias não psicanalíticas. A questão aparece quanto ao objetivo que se espera de uma psicoterapia. Estabelece-se uma diferença entre “os que conduzem à cura, e são bons”, e um aprofundamento, um ir mais longe e conseguir riquezas e fertilidades maiores. A psicanálise está se vinculando a um “mais além” (eindringlichsten, weitesten, ausgiebigste). O distintivo deixa de ser conseguir a cura mas, o que pode tirar do processo ao longo do qual esta cura é conseguida. As diversas formas de psicoterapia existem porque apresentam resultados. Freud mesmo aponta estes resultados como respostas ao tipo de demanda feita pelo paciente, uma vez o psicoterapeuta não atrapalhar demais a “gläubigen Erwartung” faz seu trabalho. Mas existe uma outra questão, também do campo moral ou ético, que seja: o que se consegue neste processo. A questão deixa de ser o objetivo mas a maneira como este objetivo é alcançado, o caminho muito mais que a chegada se torna importante. A clínica psicanalítica sempre mostra pessoas que se curam logo para evitar a analise, outras que resistem a cura para manterem-se no processo analítico, pessoas que nos surpreendem como se curaram apesar de nós, outras que não se curam apesar dos esforços de analistas bastante competentes. Estamos, assim, diante da questão do trajeto muito mais do que do objetivo. Uma coisa é pensar o resultado, outra é pensar as condições oriundas deste resultado.

Apesar de situar-se entre as demais psicoterapias quanto ao resultado, a psicanálise se preocupa também com aquilo que pode ser conseguido ao longo do trajeto onde se consegue o resultado. Este tipo de demanda não é genérico, não são todas as pessoas que se interessam pelo trajeto, aliás, a maioria se interessa exclusivamente pelo resultado. Quanto ao resultado, mesmo na linha da psicanálise, a hipnose, o método catártico e da pressão com as mãos produzem resultados “quando usados nas condições adequadas”, diz Freud. Mas, aquilo que se está inserindo se trata da questão do trajeto. O que pode tirar de uma situação na qual se tem uma condição de acessibilidade ao inconsciente, do tipo neurose, psicose, perversão?

Quando uma psicoterapia não funciona se deve olhar para uma não resposta a “expectativa crente” do paciente ou para o efeito da pessoa do psicoterapeuta nas condições de transferência e concretas. Afora isso o direcionamento da cura não tem muitos mistérios, visto o próprio paciente produzir este efeito. O trabalho mais delicado, que exige maior sutileza e habilidade do terapeuta, consiste em se trabalhar o caminho, aquilo que pode surgir ou se fazer surgir no processo ao longo do qual o paciente cura-se. O aprofundamento apontado por Freud não é apenas um elemento de complemento, sua função é a de prevenir outros deslocamentos do sintoma e outras crises. Por outro lado, como uma análise dura um tempo é possível se deparar com ocorrência de outros episódios sintomáticos na evolução do tratamento. Quando um tratamento é curto ocorrem reincidências mas podem não vir ao conhecimento do clínico, de forma a parecer que o resultado fora definitivo.

Freud distingue a psicanálise: 1- a catarse age per la via di porre (pela via do colocar), a psicanálise age per la via di levare (pela via do tirar). A terapia psicanalítica não procura acrescentar nem introduzir nada de novo, mas a retirar algo, a fazer aflorar alguma coisa.

2- fazer falar e proceder a partir disso o tratamento psicanalítico não é tarefa em nada fácil, encontramos muitas resistências e uma pessoa inábil pode produzir resultados desastrosos no manejo do psiquismo exposto desta maneira.

3- o tratamento psicanalítico exige muito do paciente (sinceridade, sacrifício de si mesmo, tempo e dispendio) e do clínico (tempo, estudo da técnica e aceitar o exercício de um ofício bastante laborioso).

4- as condições onde Freud encontra indicações para seu tratamento são apontadas como: a) “os pacientes que não possuírem um grau razoável de capacidade de fazer construções (Bildungsgrad) e caráter de certa maneira idôneo devem ser recusados[54]”. Neste sentido psicanalistas levaram avante a experiência psicanalítica não só com pacientes com déficit intelectual acentuado como, também, em transgressores acentuados. b) “o paciente deve estar em um estado normal – psicose, estados de confusão e depressão profundamente arraigados não se prestam a psicanálise”. Aqui principalmente muitos avanços foram feitos. c) “a idade dos pacientes tem grande importância para se determinar a adequação de um tratamento psicanalítico – as pessoas idosas não são mais curáveis – por outro lado, pessoas muito jovens (abaixo da adolescência) muitas vezes s ão excessivamente influenciáveis”. Aqui também a psicanálise produz muitas possibilidades de tratamento. d) “a psicanálise não deve ser tentada quando se requer a rápida remoção de sintomas perigosos, por exemplo, em casos de anorexia histérica”.

5- a psicanálise praticada de forma segura não trás danos aos pacientes. Mas pode acontecer que venha a deflagrar ou acentuar alguma situação sintomática

6- a terapia psicanalítica se baseia em um reconhecimento das Vorstellungen inconscientes; uma penetração da Vorstellung inconsciente na consciente. Isso se deve pelo fato de partir da perspectiva de que a situação mórbida é sustentada pelo estado inconsciente destas Vorstellungen. Este procedimento é trabalhoso pelo fato deste movimento em relação às Vorstellungen ser desprazeiroso encontrando resistências.

Em seguida Freud faz uma formulação importante quanto a sexualidade tal como aparece na psicanálise. Pergunta: “não seria mais simples visar diretamente a recuperação, recomendando-se a atividade sexual como medita terapêutica, ao invés de perseguir a trilha sinuosa e árdua do tratamento anímico?[55]...a necessidade (Bedürftigkeit) e a privação (Entbehrung) sexuais é apenas um dos fatores em ação no mecanismo das neuroses mas, se o problema todo fosse esse, o resultado seria uma situação de vida desregrada e não de doença....um outro fator que não pode ser deixado de lado é a aversão sexual (Sexualabneigung) dos neuróticos, sua inabilidade (Unfähigkeit) para com o amor, aquele traço psíquico que denominei “Verdrängung”. É apenas quando ocorre um conflito entre uma tendência (Strebungen) dúbia que se dá o adoecimento portanto, indicar a atividade sexual para a psiconeurose apenas raramente seria um bom conselho.”

Possibilidades futuras da psicoterapia psicanalítica.

1910.

Freud começa o artigo com um apelo marcante: “nicht Ihr wissenschafliches, sondern Ihr ärztliches Interesse anrufen[56]. Apelo não para seu interesse científico mas ao médico. Com isso deixa claro seu interesse eminentemente prático. Freud era um experimentador gabaritado, sabia bem os problemas que a psicanálise teria referentes a ciência clássica, positivista. A práxis psicanalítica não obedece aos parâmetros do experimentalismo e altera tanto o sujeito quanto ao objeto.

Aponta as duas fases iniciais de quem entra na área clínica, no caso a psicanalítica: “o entusiasmo inicial devido ao aumento inesperado de nossas capacidades terapêuticas e o da depressão a respeito da grandeza das dificuldades que se colocam no caminho de nossos esforços”. A atividade clínica prega peças, o entusiasmo inicial se deve tanto a um elemento imaginário ativado quando imaginamos nosso trabalho, quanto ao fato do trabalho clínico sofrer inicialmente um avanço rápido pela vontade do paciente em livrar-se de sua angústia e querer agradar ao terapeuta mas, conforme o trabalho avança para além desta situação as resistências começam a “se colocarem no caminho de nossos esforços”. O avanço inicial começa a fazer água. A remoção de uma crise não é tão difícil, o problema aparece quanto ao trabalho propriamente dito.

O avanço da psicanálise não deve ser procurado nesta situação de entusiasmo inicial, nem ficar tratando neste território evitando o terreno mais espinhoso mas mais importante para um tratamento. Seu avanço depende de empenho e dedicação, virá:

1-através de um progresso interior (inneren);

2-através do crescimento (Zuwachs) de sua autoridade (Autorität);

3-através de tornar geral a efetividade (Allgemeinwirkung) de nosso trabalho.

Quanto ao progresso interno feito pela psicanálise como conhecimento e como técnica Freud aponta:

Quanto ao conhecimento diz que: “estamos ainda muito longe de entender tudo o que o inconsciente de nossos pacientes requer. Está claro que cada avanço em nosso saber significa um aumento de poder para nossa terapia”... “No inicio o tratamento analítico era inexorável e exaustivo. O paciente devia dizer tudo de si e a atividade do médico era a de pressioná-lo (drängen) incessantemente. Atualmente isso é bem mais amigável (freundlicher). A cura se estabelece em duas partes: a que o médico decifra (errät) e diz ao paciente; do lado do paciente, aquilo que este elabora daquilo que ouviu. O mecanismo de nosso auxílio é fácil de se compreender; oferecemos ao paciente a bewusste Erwartungs-vorstellung ( a vorstellung de sua expectativa consciente) a partir de sua semelhança com a verdrängte é encontrada por ele no inconsciente”. O mecanismo mais poderoso, porém, é lembrado por Freud, como sendo a transferência.

Geralmente todo analista passa por esta experiência que Freud relata, mais ou menos como a cada pessoa não é poupado o fato de precisar engatinhar, cair para andar. Cada um começa de forma mais impositiva para flexibilizar com o tempo.

Este oferecimento da “Erwartungs-vorstellung” é bastante significativo. Aquilo que o analista oferece é algo que o paciente tem uma certa expectativa em ouvir, corresponde a um elemento de sua consciência. Mobilizado por este desejo de ter ouvido o que esperava ouvir, supõe uma semelhança disso com a Vorstellung verdrängte estabelecendo uma ligação associativa. Aquilo que vai surgir em sua associação, bem como aquilo que vai elaborar do que ouviu, pode não corresponder com o que o analista disse ou pretendeu dizer. O elemento central, ligado à transferência, está na realização de uma expectativa, ao efeito devido a liberação advinda desta realização. Isso seria muito diferente do que se poderia dizer, de que o analista teria de fato desvelado o inconsciente – quando fala a Vorstellung verdrängte geralmente desperta resistências e desprazer não cooperação. Trata-se de um “jogo” bem mais sutil do que o poder de saber e revelar a “verdade do inconsciente ou do verdrängte” que geralmente tanto o analista gostaria de possuir como, principalmente, o paciente gostaria tanto que este tivesse que até mesmo age como se o analista tivesse esta possibilidade.

Freud é bastante cônscio de seus limites neste sentido, revela que o que faz é enunciar a “bewusste Erwartungs-vorstellung”. Espera que o efeito da realização deste desejo transferencial produza uma abertura, uma brecha por onde o paciente deixe aparecer e fluir o obstruído (verdrängte) liberando o fluxo libidinal.

Quanto à técnica, Freud aponta seu desenrolar na seguinte direção: começara com o método catártico onde se procurava a elucidação dos sintomas; passou ao empenho em se tentar desvendar os “complexos”; atualmente o empenho está em torno do encontro (Auffindung) e superação (Überwindung) das resistências. Em conseqüência da superação das resistências os complexos vêm a luz sem dificuldade.

Trata-se de um movimento técnico significativo, entre a perspectiva médica clássica da importância dos sintomas até um envolvimento quanto a resistências que implicam o paciente e o analista nas condições de cura. Freud menciona uma ligação da resistência, principalmente masculina, ao complexo com o pai. Trata-se portanto de um posicionamento ativo quanto as condições de determinação sobre o corpo próprio e existência.

O complexo com o pai implica o aparecimento de um terceiro, que torna evidente a existência do sujeito como originada de um relacionamento sexual do pai com a mãe. Por isso só este elemento já se torna bastante problemático a nível da identidade: não tendo se originado na mãe, nem no pai, mas numa relação o sujeito é remetido a um trabalho de construção de sua identidade – não advém de um simples destacamento ou continuidade. A participação de um triângulo deste instaura um relacionamento conflitivo, como qualquer relacionamento triangular – Lacan é quem lembra que o homem não sabe contar três. O complexo com o pai tem seu centro no parricídio, o processo de identificações e relacionamentos através dos quais o pai vai se tornando desnecessário para vir a ser desejado enquanto pai. Faz parte inerente a este procedimento a instauração dos sentimentos sociais que virão a serem postulados por Freud em seu trabalho “Totem e Tabú”.

Por ora nos interessa o fato do complexo com o pai evocar uma situação conflitiva, de rivalidade e ameaças sobre a identidade. Este evento torna-se metaforizado na situação clínica onde a relação dual entre o paciente com seu sintoma se torna objeto de intervenção de um terceiro que, supostamente, quer o sintoma para si, esta interessado em separar o sujeito de seu sintoma e, tudo indica que se interessa pelos sintomas. Widerstand (resistência) é manter, sustentar (stand) uma posição em contrário (Wider). Esta oposição pode ser tanto uma forma defensiva como uma espécie de prazer. Estas duas formas não são excludentes, pelo contrário, geralmente se dão simultaneamente mas o aspecto mais marcante depende da forma como está na pessoa o complexo paterno. Não é segredo algum para quem se dedica à clinica o fato de muitos pacientes desafiarem os clínicos com suas doenças e utilizarem seu não resultado como forma de superar o clínico. Inclusive os clínicos mais renomados são os alvos mais comuns deste tipo de paciente.

Um outro elemento perturbador na atividade analítica é apontado: “die Gegenübertragung”. Geralmente traduzida como “contra transferência”. Gegen significa contra mas também ir na direção de. É uma situação densa. O que Freud escreve? “se instala no médico através de uma influência do paciente sobre a sensibilidade (Fühlen[57]) inconsciente do médico....cada psicanalista apenas pode ir até onde seus complexos e resistências internas lhe permitirem; em conseqüência se requer que sua atividade comece com uma Selbstanalyse[58], enquanto estiver praticando com pacientes indo cada vez mais profundamente. Quem não conseguir sustentar uma tal Selbstanalyse , deve fazer expirar (Fähigkeit), a análise do paciente que estava manejando sem outras combinações[59]”. Trata-se de uma situação muito espinhosa, já foi tentado seu contorno pela exigência na formação da análise didática mas nenhuma formalidade pode dar conta do que se esta se referindo. Estamos novamente em um campo ético. O analista que não conseguir levar adiante sua análise pessoal, particularmente em torno daquilo que está tratando em seus pacientes, deve abandonar estas análises considerando-se incapaz de realiza-las (em outros) uma vez não ser capaz de realizá-las (em si mesmo).

Esta influência sobre a Fühlen inconsciente do analista é bastante inquietante. O pulso indica as condições do organismo, a que e como o organismo reage. Freud fala da sensibilidade do inconsciente como um pulso, o paciente apalpa toca o pulso do analista. Sabemos bem a dificuldade que existiria em se pensar a possibilidade de controlar a reação de nossas pulsações; a singularidade daquilo que toca o pulso das pessoas. O analista trabalha com esta “Fühlen” sendo suas condições que vão determinar o desenlace de seu ofício com um paciente determinado ou com sua clínica no geral. Temos ai a marcação de um limite, o que cada um pode. Enquanto está trabalhando, o analista também esta em um trabalho analítico constante consigo mesmo. Este trabalho é o que lhe permite uma margem de possibilidade de lidar com as influências inconscientes em curso de tal forma que possa não sucumbir a elas mas maneja-las adequadamente. A pessoa que não conseguir fazer isso deve desistir do tratamento, como um cirurgião deve desistir de uma cirurgia se notar que seu equipamento está contaminado.

Já houve épocas quando se pensava nestas condições como uma “purificação” ou um estado ideal a partir do qual o analista não mais sofreria estes efeitos. Freud é muito claro, trata-se de um trabalho constante e sistemático e cujo material aparece enquanto estamos atendendo. Não se trata de um estado de imunidade (visto trabalharmos com esta sensibilidade) mas as condições de seu reconhecimento e manejo. Se o pulso do analista estiver batendo sob a égide do paciente, sem que o analista possa trabalhar dentro dos parâmetros clínicos, sua intervenção estará neutralizada ou trará malefícios ao paciente.

Gegen é um termo denso: contra, em direção a, para, para com, cerca de, em comparação com; em troca de. Já se pensou que a contra transferência seria evitada através de uma atitude insípida e regular para com o paciente; o problema é bem diverso. A Übertragung diz respeito àquilo que o paciente leva consigo, traz a respeito das coisas e pessoas, carrega, o que ele leva de superior. Ir na direção ou contra estes elementos, se encaixar neles, reagir a eles ou se aproveitar deles diz respeito a Gegenübertragung.

Freud relativisa a técnica que está desenvolvendo ás histerias “estamos chegando, agora, á opinião de que se deve modificar a técnica psicanalítica, em certos setores, de acordo com as pulsões predominantes no paciente”. Quanto à fobia, por exemplo, aponta uma transformação técnica: “devido à fobia estes pacientes não podem trazer materiais para dissolve-as (Auflösung), uma vez que, através da observância (Einhaltung) da fobia, sentem-se entrincheirados (geschützt) em suas condições (Bedingung). Não se pode tentar conseguir a cura através da ocupação de seu abrigo (Schutzvorrichtung) e obrigá-los a trabalhar desde o início sob condições de Angst. Podemos, porém, auxiliá-los traduzindo (Übersetzung) seu inconsciente, até que possa resolverem-se (entschliessen), renunciar (verzichten) ao seu abrigo (Schutz) tendo criado (aussetzen) uma não mais tão grande Angst[60]”

Temos aqui duas diferenças técnicas da maior importância. Por um lado a fobia corresponde a um entrincheiramento em algum objeto – o que se metaforiza em algum reduto de discurso. Freud revela isso ao mostrar como a pessoa fóbica não tem a mesma “volúpia” discursiva que tem a pessoa na histeria, também não possui o mesmo relacionamento de sedução com a verdade, o desvelamento. Freud fala, então, em “Übersetzung” em vez da “Deutung”. Na fobia a pessoa não só não traz material para uma “Deutung” como também não se relaciona bem com os efeitos da Deutung, tanto a mobilização do material quanto a Deutung geram Angst.

“Übersetzung” significa colocar algo sobre, estabelecer algo em relação a. Uma tradução, portanto é uma colocação de um text