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A arte da psicanálise em Freud.
Jorge Luiz Veschi.
Introdução.
Vamos fazer um percurso ao longo dos textos técnicos de
Freud. Existem movimentos importantes de reformulação
ao longo de seu trabalho clínico. Porém, o eixo de
sua questão começa logo cedo na sua atividade clínica:
alguma coisa que se processa através da linguagem mas não
pode ser controlado pela linguagem. Esta problemática aparece
na sua dificuldade em se adequar, integralmente, a prática
do hipnotismo e da catarse. As dificuldades de Freud parecem se
relacionar bem com aquilo que a neurose também não
acolhe bem.
Existe uma elaboração lenta de seu método.
Sua habilidade maior é considerar os efeitos de suas intervenções,
lutar com sua dificuldade em ouvir os clientes e os colegas, sua
aptidão pela linguagem e uma arraigada tradição
de inspecionar e interpretar devido a sua linhagem judaica. Como
qualquer sujeito se constitui no ponto de forças de sua história,
sua época e sua tradição. Com isso não
apareceria outro semelhante e, em se tratando deste tipo de obra,
se torna difícil apreender efetivamente o seu trabalho. Mas,
podemos, até certo ponto, “pinçar” e trabalhar
algum elementos de seu trabalho. Claro, qualquer procedimento de
leitura é também uma atualização, tanto
em termos de traduzirmos o pensamento do outro em nossos termos
quanto, o adequarmos a realidade na qual estamos inserido e da qual
fazemos parte.
Uma arte implicada na palavra encontra, de início, o problema
da tradução. As palavras possuem um elemento genérico
que lhes permite serem traduzidas e compreendidas por outros mas,
possuem também elementos singularizantes implicados alguns
com a cultura, outros com a época e, ainda outros com a pessoa
que os emprega. Na psicanálise nos deparamos cotidianamente
com estes limites subjetivos, que criam um terreno de equívocos
– comuns e necessário para a clínica.
Existe uma discussão a respeito de se utilizar o termo
arte ou técnica no caso da prática psicanalítica.
Atualmente o termo técnica está comprometido com um
sentimento mecânico, pragmático; arte está comprometido
com uma atividade sem utilidade imediata e prática onde a
presença da subjetividade é bastante delineada. Mas,
aquilo que chamamos de arte, em muitos ambientes não está
dissociado da arte. Quando dizemos, por exemplo, arte indígena,
para o índio são elementos de seu uso cotidiano. O
aspecto de arte da psicanálise se refere a forte dose de
subjetividade mas, deveria se tratar de uma atividade participante
do cotidiano, da maneira de ser de algumas pessoas. Uma produção
artística tem uma finalidade imediata e uma que transcende
ao imediato. Em toda produção do artífice existe
uma utilidade mas, seu produto é também expressão
de alguma coisa para além do produto, do artificie e de quem
o utiliza. Toda produção humana porta em si um sonho.
Este sonho é indiferenciado, congrega elementos do sonho
de quem o fez, quem o utiliza e dele próprio.
Alguns elementos são precisos no trabalho psicanalítico
mas, sua conceituação varia bastante. Esta variação
vai determinar para cada uma delas a abrangência a um público
específico e a uma maneira de ser específica de psicanalista.
A maneira de trabalhar e de interpretar expõe quem o faz.
Longe de apresentar uma técnica verdadeira, apresentam a
verdade de quem as formula e que pode corresponder a demanda, ou
necessidade de alguns outros.
Manejo psíquico. (Manejo da alma).
Psychische Behandlung (Seelenbehandlung). 1.890
Iniciamos com um entrave grande de termos. Behandlung, traduzido
geralmente como tratamento, porta uma referência ao sentido
de “mãos” (hand). Esta referência á
mão se refere a uma atividade sem mediação
de instrumentos, trata-se de “meter a mão na massa”,
uma prática sem mediação ou proteção.
Refere-se, também, a um exercício bastante “primitivo”,
inaugural não em termos históricos mas relativo aos
princípios – tanto no sentido de trabalhar com os princípios,
desde onde brota aquilo que aparece nos acontecimentos, quanto como
algo sempre inaugural, sempre nos seu próprio começar.
O método psicanalítico está sempre no seu começo
e abordando o campo a partir de onde os acontecimentos principiam.
Freud começa dizendo que: “Psique é uma palavra
grega que pode ser traduzida no alemão como Seele. Seele
é um termo alemão que pode ser traduzido pelo termo
latino alma. Seele se distingue na tradição alemã
de Geist (espírito, intelecto) pelo fato de Seele se referir
a algo mais telúrico, carnal, sensório; Geist se refere
a alguma coisa mais abrangente, transcendente – como quando
se fala em “Espírito do tempo”, por exemplo.
Portanto, não se trata de um trabalho intelectual, nem referido
ao sentido de “mente” como se traduz oficialmente, mente
tem uma referência muito forte com a razão, tal como
o tem Geist, não é esta a referência que Freud
utiliza. Seele ser refere ao imaterial do corpo, àquilo que
promove ao corpo sua experiência de uma totalidade. Psique
era, para o grego, o sopro que nos habita e nos deixa na respiração
mantendo um interação permantente entre interior e
exterior – entre o mundo e seu além.
Nas línguas latinas, alma se refere ao nome da causa oculta
dos movimentos vitais, princípio sensitivo e de significado
da vida; princípio imaterial da vida, do pensamento e da
ação; coração como centro das paixões,
da consciência e aquilo que dá expressão e força
não só ao físico como também ao moral;
fonte e motor de todos os atos humanos; assombração,
fantasma.
Seelenbehandlung seria o sentido de um ofício de lidar,
com bastante intimidade e envolvimento, com o aspecto sensível
do corpo e do viver. Freud acentua que se trata de um: “Behandlung
von der Seele aus, Behandlung – seelischer oder körperlicher
Störungen – mit Mitteln, welche zunächt und unmittelbar
auf das Seelische des Menschen einwirken”[1]. Manejo a partir
da alma, manejo – de perturbações anímicas
ou corporais – com medidas as quais, em primeiro lugar e sem
mediação, se efetivam sobre a alma humana. O “meio”,
as medidas utilizadas neste tipo de manejo agem diretamente na alma
humana. Este índice de penetração é
da maior importância em ser considerado. Vamos encontrar,
no desenvolvimento de sua formulação, o motivo do
poder de penetração deste método. Uma situação
psicanalítica pode tanto fazer bem quanto mal visto que,
uma vez se constituindo seus meios de trabalho, age sem mediação
sobre o anímico. É preciso se considerar que, devido
ao termo Behandlung incluir o sentido de “mãos”,
esta ação sem mediação no anímico
é tanto no paciente quanto no psicanalista.
Logo em seguida começa a formular o desdobramento desta
formula: “Ein solches Mittle ist vor allem das Wort, und Worte
sind auch das wesentliche Handwerkszeug der Seelenbehandlung”.
Tal meio é, perante todos os outros a palavra, as palavras
sendo assim, o instrumento essencial do manejo anímico. Este
sentido de “vor” é importante na medida em que
qualquer método ou abordagem humana está envolvido
por algum ambiente de palavra, ou seja, dentro de um ambiente qualquer
de linguagem. A palavra é apresentada como instrumento privilegiado
nos assuntos da alma humana. Age sobre a alma sem mediação.
Mas seria qualquer palavra? Vamos ver a que tipo de palavra Freud
se refere neste trabalho seu introdutório.
Freud se mantém apegado a desfazer a dicotomia entre alma
e corpo mas sem reduzir um ao outro no plano simbólico. A
alma se mantém de maior importância para comportar
esta sensação que ainda é corpo mas falta substância,
todo espaço de continente dos outros e a dimensão
da linguagem. O corpo se encontra em uma situação
‘vor das Wort’, perante a palavra. A realização
de suas excitações e a efetivação de
suas demandas dependem da linguagem. Freud vai encontrar os sintomas
se neste território. “os sintomas são muito
claramente influenciados por aquilo que parte das moções
(Aufregungen), das mobilizações de sentimentos (Gemütsbewegungen),
precauções (Sorgen), etc[2]”. O próprio
corpo nos é apresentado como um texto para se empurrar para
fora as mobilizações de sentimentos: “Todos
os estados anímicos de uma pessoa são colocados para
fora em suas tensões e relaxamentos de sua musculatura facial,
estabelecimento de seu olhar, preenchimento de sangue nos vasos
da pele, no tipo de requisição absorvente de seu aparato
sonoro e na movimentação de seus membros, principalmente
as mãos[3]”.
Freud introduz nestes primórdios indícios do que
seria mais tarde o efeito transferencial. Este efeito faz parte
ativa do sentido de “Behandlung”, conforme o significado
de “meter a mão na massa”. Leva a palavra para
uma espécie de além dela, para as paragens do mítico,
passional. “A efetividade destes métodos estabelecidos
pelos médicos decorrem da composição de duas
partes colocadas juntas. Uma delas, que as vezes concorre com uma
parcela maior, outras menor, não podendo, porém, jamais
ser negligenciada, se deve a atitude anímica do paciente.
A expectativa crente (gläubige) com a qual enfrenta a influência
do médica sem mediações vai depender, por um
lado, da intensidade de sua aspiração de recuperação
e, por outro lado, da sua confiança de que esta dando os
passos certos, isto é também verdadeiro para a arte
médica em geral, do poder que atribui a pessoa do médico
e, mesmo, a pura simpatia humana que o médico despertou nele.
Existem médicos que tem uma capacidade maior de despertar
a simpatia dos pacientes[4].” Abordar o sentido de fé
e crença não é fácil mas é da
maior importância para se colocar a questão da efetividade
da arte psicanalítica. Por um lado se trata de uma espécie
de “para além do princípio da linguagem”,
todo aparato da linguagem repousa em horizonte de crença,
aquilo que nos vai fazer acreditar no sentido de uma palavra, de
que estas são o mundo. Por outro lado Freud lembra de como
a fé (Glaube) traz, oculta, a ambição (Ehrgeiz
– avidez de honra, de prestígio). Freud pertence a
uma tradição onde a fé, a crença é
da maior importância e, possui uma singular capacidade crítica
afiada, isto lhe permite uma leitura bastante incisiva e efetiva
a respeito deste sentimento; sabe de sua importância e sua
característica, sua correspondência com a projeção
dos ideais anímicos mais elevados, seu aspecto representativo
das ambições da alma realizada nas religiões
e ídolos.
A instrumentalidade da palavra como meio de agir sobre a vida
anímica está posta, aqui, articulada com o fato das
vivências humanas se darem dentro da linguagem e, pelo efeito
das aspirações de desejo do paciente. “Worte
sind já die wichtigsten Vermittler für den Einfluss,
den ein Mensch auf den anderen ausüben will; Worte sind gute
Mittel, um seelische Veränderungen bei dem hervorzurufen, am
den sie gerichtet werden,...[5]” . As palavras são
o meio mais importante pelo qual uma pessoa exerce influência
nos outros; as palavras são um bom meio de se pode puxar
para fora transformações em quem são dirigidas,...
Freud enuncia alguns fatores elementares de cuidado com o exercício
deste método: “Com a suspensão da escolha livre
do paciente de seu médico um ligação impotantíssima
para a influenciabilidade anímica do paciente seria aniquilada”[6].
A autocracia na raiz da personalidade resistiria a participação
de qualquer pessoa não autorizada dentro do ambiente anímico.
Existem uma série de protocolos com os quais o sistema anímico
opera, vamos ver ao longo de nosso estudo como Freud os explicita;
estes protocolos determinam a influenciabilidade anímica.
“O médico é obrigado a deixar de lado uma grande
quantidade de meios bastante eficazes sobre o sistema anímico.
Ele não tem o poder, ou não tem o direito de os invocar”[7].
Nomeadamente aqui: a provocação de afetos muito fortes,
as relações presas em sentimentos de ternura, o poder
de promover alterações deve estar restrito ao plano
deliberado do paciente. Delineiam-se contornos éticos importantes,
particularmente no que tange aos limites de que poder o médico
pode lançar mão.
Nesta época Freud está as voltas com o hipnotismo.
Quais os pontos que ressalta do hipnotismo? São pontos que
o dirigem para o método psicanalítico mais adiante:
o rapport – a atitude do paciente para com o hipnotizador.
Esta atitude tem com eixo a docilidade, obediência (gehorsam)
e credulidade (glaubig). A docilidade depende da afeição
que o paciente sinta pela terapeuta, afeição esta
que não pode ser conseguida através da sedução
ou da utilização de ligações ternas,
portanto é uma base muito delicada de se manejar, não
é qualquer pessoa que pode ocupar este lugar nem sua escolha
depende de valores objetivos. A credulidade se liga as ambições
da alma. As ambições da alma promovem a maior parte
de sua tendência ao adoecimento, uma vez colocar a pessoa
em choque com os limites e as frustrações, mas criam
também as condições de tratamento, uma vez
a pessoa poder projetar suas ambições na forma de
crença para com alguém ou alguma coisa. Uma pessoa
que não tenha ambições na alma é difícil
de ser influenciada. A mesma ambição presente na alma
de quem manda está na alma de quem obedece.
O termo chave desta construção é “influência
(Einfluss – fluxo para dentro, fluxo penetrante)”. Freud
esta ocupado em decifrar e administrar a atividade da influência.
Sua conclusão inicial e básica é que a influência
se enraiza na palavra. Agora, todo seu dispositivo diz respeito
a uma complexidade da qual a psicanálise é parte constituinte
enquanto resposta – na forma de seu método –
e enquanto decifração de sua forma de instaurar-se
– na forma de sua teoria e metapsicologia. Vejamos estes parágrafos,
como exemplo: “Aquilo que o hipnotizador coloca perante o
hipnotizado através da palavras que lhe oferece, lhe puxou
para fora uma atitude anímica-corporal correspondente ao
conteúdo que imprimiu nele. Isto por lado implica a obediência,
por outro lado um aumento da influência corpórea de
uma idéia. As palavras ganham outra vez a efetividade da
magia.[8]” Um pouco mais adiante escreve: “ fora da
hipnose e dentro da vida efetiva (wirklichen Leben) apenas da criança
em direção às pessoas amadas mais velhas, se
estabelece uma submissão resignada de sua vida anímica
a uma outra pessoa, ou seja, como uma forma incompleta em referência
a um relacionamento amoroso feito com extrema dedicação
(Hingebun – onde haja muito desamparo no fundo). Uma combinação
de uma estima exclusiva com uma obediência crente é
geralmente o cerne do amor.[9]” Veja como Freud está
delineando um campo dos mais sensíveis: o manejo da alma
humana, a influência através da palavra e os efeitos
baseados nas características do amor.
No parágrafo final aparece uma afirmação
que merece atenção. “Eine tiefere Einsicht in
die Vorgäng des Seelenlebens, deren erste Anfäng gerade
auf den hypnotischer Erfahrungen ruhen, wird Mittel und Wege dazu
weisen[10].” Um insight mais aprofundado no acontecimento
da vida anímica, cujo começo foi gerado pelas experiências
hipnóticas, virá apontar os meios e caminhos para
sua natureza. Este convite e a maneira como Freud se expõem
através de suas incertezas está no âmago mesmo
do ofício analítico sendo, também, seu aspecto
mais árduo e difícil de encontrar nas práticas
clínicas cotidianas, onde vamos encontrar muitas certezas
e estabelecimentos para se manter um acontecimento analítico.
Sobre a psicoterapia da histeria.
(Zur Psychotherapie der Hysterie). 1893.
Freud começa seu artigo introduzindo dois elementos importantes
do trabalho clínico que estava desenvolvendo: “Encontramos
logo no começo, para nossa grande surpresa, que cada sintoma
histérico singular desaparecia imediatamente e sem retorno,
quando se conseguia ressuscitar a lembrança[11]do acontecimento
provocador em toda sua transparência e o afeto que lhe acompanha[12]
como uma sentinela quando evocado e, quando ao doente é possibilitado
desentocar de maneira minuciosa o acontecimento e leva a efeito[13]
o afeto em palavra[14].”
Este método: “Ele levanta (hebt[15]) a Vorstellung[16]
originariamente não tendo sido abreagida, que o afeto mesmo
emperrou, fazendo que seja escoada através da permissão
da fala (das Rede) e a traga para uma associação corrigida,
introduzindo-a na consciência normal (em hipnose leve) ou
eliminando-a através de sugestão clinica, como acontece
no sonambulismo seguido de amnésia[17].”
Temos aqui alguns termos compondo uma a situação:
Erinnerung, Affekt, Vorstellung, Rede. O afeto aparece como precisando
aparecer junto com a lembrança mas, também como aquilo
mesmo que estrangula a Vorstellung originalmente. Outro problema
é a passagem entre afeto e fala, particularmente em um ambiente
onde a Vorstellung está estrangulada.
Erinnerung pode ter o sentido de reminiscência. Reminiscência
significa, desde a filosofia platônica, a lembrança
daquilo que (ainda) não aconteceu; este sentido será
referido ao sentido de desejo na psicanálise. Affekt é
definido por Freud no seu trabalho “Projeto para uma psicologia”
como “restos de Erinnerungen”, os afetos agiriam como
uma fonte interna na produção de estímulos
sobre o sistema psi, de uma maneira semelhante a como atuam as cargas
provenientes do mundo externo. Os afetos podem, portanto, não
só misturarem-se como, até mesmo, concorrerem com
os estímulos do mundo externo na produção da
percepção. Estes “restos de Erinnerungen”
podem dizer respeito a partes de um contexto que não chegaram
a ser assimilados na consciência, resíduos de reminiscência
que nunca chegaram a se efetivar em uma realização
– como escreve Freud aqui: não abreagiram originalmente.
Das Rede significa falatório, palavreado, uma fala sem
muita conseqüência. Este tipo de fala, que Freud encontrava
muito na atitude de seus clientes, começa a lhe despertar
um tipo de atenção distinto daquela que despertava
em seus colegas médicos da época. Isto começa
a lhe parecer uma tentativa fracassada de escoar o afeto pela fala,
procurar uma permissão através da fala para o escoamento
do afeto. Esta procura de uma permissão está comprometida
no tipo de direcionamento que o paciente adotava com o clínico.
Mas, não é apenas o clínico que vai permitir,
a permissão é lançada à própria
linguagem, se esta autoriza este tipo de expressão. Tanto
o significado de afeto com o qual estamos acostumados a lidar, quanto
o significado de lembrança dificulta-nos trabalhar o campo
“primitivo” onde Freud está operando. Trata-se
de marcas, impressões onde não está distinto
os componentes provenientes do “mundo externo” daqueles
provenientes do ‘mundo interno’. O significado de “resto”
tem muita força na medida em que a capacidade do afeto pode
não se dar por apenas um elemento mas a um conjunto de restos
díspares entre si, também pode não portar um
sentido claro ou preciso.
Uma Vorstellung que não foi abreagida significa que, a
conecção simbólica entre um acontecimento e
aquilo de palavra referido a ele não foi colocado ao acesso
da consciência. Uma situação desta deixa parecer
uma ameaça/desejo de repetição das condições
originárias desta Vorstellung. Isto corresponde ao desejo
inconsciente ou ao surgimento do recalcado acionando o ängst[18].
O procedimento de levantamento desta Vorstellung depende da permissão
da fala. Esta permissão deve-se a interação
da Vorstellung com a linguagem e pelo fato da fala precisar acolher
em si elementos de intensidade perturbadores para a “rede”
que sustenta a fala. Quando Freud aponta a relação
entre o sonho e esta situação de base deixa ver como
ela desperta uma impressão de acontecimento, impressão
esta pesada para a fala sendo, devido ao que este peso representa
para a fala de incômodo e ameaça, por isso que dependerá
de algumas condições criadas no enquadramento clínico
a aceitação na fala desta Vorstellung que não
pode ser abreagida.
A abreação ou catarse implica uma intensidade na
fala que a aproxima do acontecimento. Não é um enunciado
explicativo, informativo ou ao nível da comunicação,
trata-se de um dispêndio de energia. Freud esta procurando
na fala os instrumentos de seu método. Parece cada vez mais
convicto a respeito da relação entre neurose e linguagem.
Logo em seguida aparece um avanço significativo. “Es
drängte sich mir zunächt die Erkenntnis auf, dass, insofern
man von einer Verursachung sprechen könne, durch welche Neurosen
erworben würden, die Ätiologie in sexuellen Momente zu
suchen sei”[19]. Fui pressionado de início ao reconhecimento
de que, até onde se pode falar de uma causação,
através da qual a neurose vem a ser adquirida, esta etiologia
deve ser procurada em fatores sexuais. O termo “erworben”
realçado juntamente com “sexuellen” tem uma importância
crucial. Erworben pode significar adquirir, alcançar, ganhar,
merecer, modo de vida, ganha pão, ofício, trabalho.
Nesta franja de significados está implícito as condições
da neurose e seu tipo de relacionamento com a sexualidade. O ganho
secundário com a neurose, o fato da neurose representar um
estilo de vida, a maneira como através dela se alcança
e se adquire um certo tipo de sexualidade....
Estávamos trilhando uma implicação da neurose,
principalmente de seu manejo clínico, com a fala, agora Freud
introduz neste ambiente a sexualidade. Temos assim um elemento de
complexidade, a intervenção de um vetor de profundidade
de campo. Estes “sexuellen Momente” vale pelo afeto
que emperrou a Vorstellung que não abreagiu, que havíamos
comentado logo acima. Existe uma rede sendo transada implicando
as Vorstellungen, a sexualidade, a causação da neurose
e seus fatores de aquisição.
Logo no final do parágrafo aparece uma construção
para a clínica da transferência: “Acontece que
as características etiológicas coincidem com as constantes
clínicas”. Este estar junto (zusammen) da clínica
com a etiologia da neurose constitui um nó da maior importância,
através disso se pode participar do regime das causas e,
para Freud que era um pesquisador ferrenho, estabelecia na situação
clínica um trabalho de investigação de campo,
in loco. Zusammen significa junto, um com o outro, coincidindo,
em companhia, ao todo, englobadamente, em colaboração.
Mas não devemos ficar muito satisfeito com o sentido de coincidência.
Há toda uma margem de possibilidade para um significado imaginário
de englobamento de uma situação à outra na
procura de um sentido de totalidade. Também temos o sentido
da clínica colaborando, fazendo companhia para a etiologia
de forma a se constituir as condições de possibilidade
para a neurose de transferência, ou seja, as condições
clínicas criam um contexto tal que, juntamente com as condições
etiológicas constituem ao se juntarem, uma neurose –
a neurose de transferência.
De inicio Freud fica com o primeiro significado, a situação
clínica coincide com a etiologia. Com o tempo, vamos ver
isso no desdobramento de seus textos, começa a formular este
segundo sentido, a neurose de transferência está ligada
ao desejo, a uma demanda de totalização e de inserção
do psicanalista no regime das causas. A situação clínica
não é neutra, não resolve apenas; é
preciso que crie parte daquilo que vai se dispor a resolver.
Freud se encontra enroscado na nosologia. Procura se utilizar dos
conceitos da psicopatologia psiquiátrica mas vai, o tempo
todo, trabalhando a mistura das entidades clínicas. “As
neuroses que ocorrem comumente são melhor descritas como
“gemischte (mistura)”[20]. Quanto a etiologia escreve:
reconhecemos que o aspecto prioritário da etiologia das neuroses
é o de que sua gênese é überdeterminiert
(sobre determinada, super determinada)[21]. Está entrando
em um território sem a segurança oferecida por uma
concepção única de causa. Causa esta que seria
tratada, removida proporcionando a cura. Todo edifício de
um relacionamento de causa-efeito começa a ser abalado. Estamos
diante de uma situação sobre determinada, esta situação
será vivida no tratamento misturando, às suas próprias
misturas, as condições do tratamento (neurose de transferência).
A questão que começa a se esboçar é:
como pode uma situação de misturas ansiar por uma
totalidade, ou uma unidade? Sendo esta demanda o que aparece no
paciente como sua atitude quanto ao seu desejo ou sua identidade.
As condições de sobre determinação,
o fato da necessidade de uma situação vivida na base
da clínica são condições de um território
alheio ao ambiente clínico clássico. Não se
trata de um clínico que “extirpa” de seu paciente
um mal reconhecido por ele e ao qual é externo. As condições
sob as quais se dará a vivência clínica implicam
dramaticamente o clínico. Tratam-se sempre de misturas. Tanto
a concepção da causa única, de um quadro preciso
e definido quanto a neutralidade do clínico – sua exterioridade
ao processo - são deixados de lado.
Mais adiante exprime elementos decisivos para a vivência
psicanalítica: “Das Verfahren ist mühselig und
zeitraubend für den Arzt, es setzt ein grosses Interesse für
psychologische Vorkommnisse und doch auch persönliche Teilnahme
für den Kranken bei ihm voraus[22]”. O procedimento é
fatigante e vagaroso para o médico se fundamentando em um
grande interesse para com os acontecimentos psicológicos
e, também, na simpatia para com a personalidade do doente.
Acrescenta o exemplo de como seria possível manter o tratamento
de uma pessoa atacada por reumatismo, independente de uma simpatia
ou aprovação quanto a personalidade em tratamento
e, que este não é o caso do tratamento analítico.
Para Freud é necessário um certo nível de
inteligência por parte do paciente; mais importante que a
atenção integral do paciente é sua “Zutrauen
(confiança)”. Um grande número de pacientes,
acrescenta, para quem este tipo de manejo seria adequado, abandonam
o médico tão logo pressentem pelo que começa
a aparecer, qual seria a direção da pesquisa que está
sendo empreendida. “es scheint, als ob eine solche Einwirkung
des Arztes die Bedingung sei, unter welcher die Lösung des
Problems allein gestattet ist[23]”. Parece, que uma influência
do médico é necessária, para uma tal deixada
dos problemas se tornar estabelecida. É praticamente inevitável,
escreve Freud, que a referência pessoal ao médico se
torne, durante algum tempo, indevidamente calcada no primeiro plano
(ungebührlich in den Vordergrund drängt).
Uma diferença elementar, decisiva e complicadora do tipo
de manejo clínico que esta sendo elaborado para as neuroses
implica um tipo especifico de escolha. Esta escolha envolve o interesse
do clínico pela personalidade que vai tratar e uma confiança
do paciente em relação a personalidade do clínico.
O paciente deixará seus problemas em troca, inicialmente,
de um aporte na personalidade do clínico. A expressão
de sua intimidade e a disposição em uma vivência
de seus fantasmas não poderia se dar sem o elemento de confiança.
Um clínico não suportaria eficazmente as fatigantes
e vagarosas condições do manejo psicanalítico,
sem que as condições do trabalho psicológico
lhe sejam gratificantes e sem que se interesse por uma convivência,
ao nível de intimidade implicado em uma análise, lhe
seja atraente com aquela pessoa a quem trata. Estas condições
nem mesmo são acessórias ao tratamento, estão
na base, nas condições de possibilidades do tratamento.
Freud trás a tona algo inusitado para o pensamento clínico
da época. A concepção de um “pensamento
de defesa (Gedanke der Abwehr)”, uma resistência no
sentido de manter as condições “da doença”.
“Através de meu trabalho psíquico precisava
superar uma força psíquica nos pacientes que resistia
ao vir a ser consciente (lembrar – Erinnern) das Vorstellungen
patogênicas”[24]. Existe uma intimidade grande entre
neurose e defesa. O pensamento de defesa age como resistência
ao vir a ser consciente. Começa a se delinear a importância
do trabalho com esta resistência da defesa. O manejo clínico
vai se concentrar em uma diminuição do pensamento
de defesa. Este pensamento pode, inclusive, camuflar a realidade
do paciente. A confiança, apontada anteriormente como parte
fundamental para o trabalho analítico, é da maior
importância para a desativação do sentimento
de defesa. Esta defesa visa proteger as fantasias, o sonho, a imagem
de si do paciente. O manejo vai deixando ver como as condições
da neurose vão cedendo na proporção que o sentimento
de defesa cede. A tomada de consciência implica esta desativação
do sentimento de defesa, um estar bem com o sentimento de vulnerabilidade
devido a uma desmobilização do sentimento de perigo
– proveniente dos desejos inconscientes.
Tanto a fala contida quanto a desenfreada, bem como vários
tipos de apresentação discursiva de fantasias ou sonhos
podem ser “pensamentos de defesa”. É muito difícil
uma expressão que não seja defensiva, a expressão
artística é o paradigma do rebaixamento das defesas.
O manejo psicanalítico começa a procurar um efeito
deste tipo no discurso. Este efeito aparece como antídoto
para as forças de recalcamento e repressivas na base da produção
da situação neurótica.
Freud escreve: O Eu do doente foi abordado por uma Vorstellung
que se mostrou inassimilável, provocando uma força
de repulsão (Kraft der Abstossung) por parte do Eu, com a
finalidade de defender-se desta Vorstellung intolerável.
Esta defesa de fato foi bem sucedida, a Vorstellung referida foi
empurrada (gedrängt) para fora da consciência e da lembrança[25]”.
Uma força psíquica – uma aversão (Abneigung)
por parte do Eu – impeliu inicialmente a Vorstellung patogênica
para fora da associação e agora se opõe ao
seu retorno para a lembrança. Aparece uma Assoziationswiderstand
(resistência de associação) onde encontramos
um “Nichtwissenwollen” (vontade de não saber,
não querer saber, vontade de nada saber, vontade de saber
nada). Lembremos que havia escrito anteriormente a base da Vorstellung
que não abreagiu a um momento ou fatores sexuais. Este vontade
de nada saber está comprometida tanto com não exprimir
um saber sexual (wissen aqui vale por um sentido de sabedoria mais
do que um saber intelectual), quanto uma forma de manter uma atividade
sem vir a ser “estragada” por uma descoberta através
da enunciação de um saber dela – de seu discurso.
Na neurose não é tão simples quanto apenas
não ter vontade de saber, esta incluso um empenho em manter
o ato a salvo do discurso que o desvelaria podendo, assim, atrapalhar
ou interromper sua execução a revelia da censura.
Nichtwissenwollen não só é difícil
de traduzir como também é denso em significação.
Nicht significa não, um direção no sentido
de uma negação, mas, a negação (Verneinung)
é um tipo de negação tão intensa que
chega perto de sua inversão em uma afirmativa. Wissen significa
saber, erudição, (grande) conhecimento; está
relacionado com a consciência moral ou ética (Gewissen).
Wollen significa querer, tensionar, desejar, pretender; wolle significa
lã, pelo e o adjetivo wollen se refere a coisas feitas de
lã – o querer esta nos pelos, na flor da pele. A língua
alemã permite a reunião de termos em uma unidade significante,
ao partirmos esta unidade para traduzir perdemos a maneira como
os termos se compõe. Nicht representa uma força afirmativa
apesar de corresponder a uma negação, sabemos bem
como uma criança sempre começa por se afirmar através
do “não”, trata-se da maneira originária
através da qual o sujeito afirma-se. Wollen também
corresponde a um sentido de afirmação, a vontade.
O não e o querer na mesma unidade corresponde a um sentido
fortemente ativo, uma presentificação incisiva do
sujeito. Wissen, a sabedoria, algo muito sedutor e desejado aparece
na companhia da vontade e do não. Esta atitude perante uma
situação analítica, perante um analista representa
uma potência ativa incisiva, uma marcação forte
de manifestação do sujeito em relação
ao seu gozo.
“Der Kranke trägt[26] es gleichsam ab, indem er es in
Worte umsetzt[27]”[28]. O doente como que se desfaz dela,
conforme a coloca em palavras. Algumas páginas adiante esclarece
novamente a que tipo de palavra se refere. “O doente se liberta
dos sintomas histéricos apenas quando reproduz a impressão
patogênica motivadora (verursachenden) e as externaliza sob
a manifestação de afeto, apenas nisso consiste a tarefa
terapêutica, coloca-lo neste movimento (bewegen) e, uma vez
esta tarefa esteja liberada, nada mais resta para o médico
corrigir ou suspender[29]”.
Tanto o termo “trägt” quanto “umsetzt”
são preciosos. A presença do trägt representa
uma saída do princípio da inércia, ficar no
sintoma é uma tendência inercial; a pessoa não
agüenta mais. “Umsetzt” implica uma transposição,
uma mudança de lugar da causa, transplanta para a linguagem
alguma coisa que está na ordem do corpo; esta transposição
faz acontecer no discurso e na relação clínica
aquilo que acontece no corpo e na subjetividade. Logo em seguida
Freud deixa ver como esta linguagem aparecerá carregada de
afeto e da impressão patogênica. O transplante para
a linguagem da situação patogênica corresponde
ao ofício analítico, apesar de se referia a isso como
sendo “apenas isso” se trata de uma mudança de
lugar das mais dificultosas. Não tanto pelo desejo inconsciente
em si que tem uma vocação pela linguagem mas, mais
exatamente, pelo próprio clínico que pode apresentar
muita dificuldade em lidar com esta presença na linguagem
e na situação clínica. Vamos ver o que nos
diz sobre resistência quanto a este transplante.
“nach quantitativer Relation zwischen Ursache und Wirkung
auch auf psychischem Gebiete..[30]” Uma relação
quantitativa entre a causa e a efeito no campo psíquico.
No que foi apresentado até agora a idéia de uma resistência
foi calcada no primeiro plano; deixei ver como, através de
nosso trabalho terapêutico, fomos conduzidos para o ponto
de vista da histeria como sendo formada através do Verdrängung[31]
de uma Vorstellung incompatível com a finalidade da defesa
(Motive der Abwehr); a verdrängte Vorstellung permanece como
um vestígio (fracamente intensivo) na lembrança, enquanto
o afeto que é dela arrancado (entrissene significa ser arrancado,
arrebatado, salvo da morte) se torna transformado em uma inervação
somática: conversão da exitação (Konversion
der Erregung). O Vorstellung se torna, através de seu Verdrängung
a causa do sintoma adoecedor, portanto, patogênica.[32]
Portanto, a resistência corresponde ao impedimento do surgimento
de uma Vorstellung que não é compatível com
o Eu e aquilo que a defesa defende. Por isso, de inicio, o trabalho
terapêutico esbarra com um muro bastante impermeável,
o sintoma representa uma resistência cuja demolição
ameaça aquilo que a defesa defende, ou seja, o próprio
Eu do paciente. O afeto que permanece circulando promove alterações
correspondentes mas sem o elemento que o apresente para a consciência,
elemento este que colocaria a identidade e os desejos conscientes
do paciente em desarranjo. Trata-se de um retorno delicado, o deste
Vorstellung verdrängt, implica em um novo arranjo daquilo que
é defendido pela defesa sendo que o afeto encontrou uma maneira
de se expressar – através da conversão sintomática.
É a partir de seu Verdrängung que a Vorstellung se torna
patogênica, uma vez que é tornada objeto da resistência
e ameaçadora. Freud está centrando sua atenção
no Vorstellung que se torna objeto da defesa, em relação
à qual atua a resistência. A dificuldade imposta ao
trabalho analítico e à recuperação do
paciente diz respeito a esta incompatibilidade entre o Vorstellung
verdrängt e o Eu do paciente sendo que, a recuperação
desta Vorstellung está diretamente relacionada à cura.
O Verdrängung aparece agindo sobre o Vorstellung não
sobre o Afekt. Como o Vorstellung está referido às
bases das condições da linguagem: trata-se das condições
que possibilitam o relacionamento de elementos distintos –
tais como palavra e coisa – de maneira que um venha a representar
o outro em seus registros próprios; o trabalho clínico
se passará nestas condições de base da linguagem.
A aplicação da defesa encontra condições
mais pertinentes nas condições da linguagem.
Na página 79 deste texto Freud escreve que, na histeria:
a defesa é o evento primário. O ofício analítico
vai se concentrar em torno da defesa. Esta defesa acionada devido
a presença de uma incompatibilidade. Quanto a este ofício,
este se depara com um material estruturado em várias dimensões,
Freud vai dizer ‘estratificado em pelo menos três formas
diferentes: em primeiro lugar há um núcleo constituído
a partir de lembranças (uma vivência ou seqüência
de pensamentos), as quais culminaram no fator traumático
ou onde sua idéia patógena encontra sua construção
esboçada. Em torno deste núcleo encontramos uma mistura
rica de outros materiais mnêmicos que devem ser elaborados
na análise que é, como dissemos, arranjado em ordem
tríplice. Primeiro existe uma inegável ordem linear,
cronológica inserido no sítio de cada tema singular.....tais
agrupamentos de elementos mnêmicos semelhantes em uma coleção
arranjada linearmente como uma pasta de documentos, por exemplo,
constitui a formatação de um “tema”. Estes
temas constituem o segundo tipo de arranjo; estes estão,
não posso expressar de maneira diferente, historicizados
constrictadamente em torno do núcleo patogênico. Não
é difícil se dizer o que produz esta estratificação,
qual a magnitude crescente ou decrescente que a ordena. São
estratificadas igualmente, na direção do núcleo
suas resistências aumentam e deste modo igualmente em cada
transformação consciente (Bewusstseinsveränderung),
nas quais cada tema singular abrange. As camadas periféricas
contém conteúdos de temas diferentes em lembranças
(ou fascículos), são facilmente recordados e sempre
são de uma consciência clara; quanto mais profundo
se chega, mais difíceis se tornam as lembranças de
surgirem sendo reconhecidas, até que perto do núcleo
se chega a um ponto onde o paciente chega a negar sua reprodução.
“É esta estratificação (Schichtung –
estratificação, sedimentação) concêntrica
do material psíquico patogênico que, como viemos a
saber pela análise, vem a ser seu traço característico.
Uma terceira espécie de ordenação precisa ser
citada, a mais essencial, mas aquela sobre a qual é menos
fácil se fazer uma afirmação genérica.
Trata-se de uma ordenação a partir do conteúdo
do pensamento, o enlace (Verknupfung) através deles que chega
até o núcleo é feita por uma linha lógica,
que em cada caso, de forma especial, tende a seguir um caminho irregular
e sinuoso. Esta ordenação possui um caráter
dinâmico, em contraste com o arranjo morfológico das
duas estratificações anteriores. Enquanto as outras
duas seriam esboçados em um esquema através de uma
linha contínua, curva ou reta, o curso da cadeia lógica
teria que ser indicado por uma interrompida, passando pelos caminhos
mais indiretos, da superfície até os estratos mais
profundos e retornando, contudo, de modo geral, avançaria
da periferia até o núcleo central, tocando em toda
estação intermediária, algo semelhante ao movimento
do cavalo no tabuleiro de xadrez.
“...A conecção lógica não corresponde
apenas a uma linha em ziguezague, retorcida mas, antes a uma ramificação,
e muito especialmente um sistema de linhas convergentes. Contém
pontos nodais nos quais duas ou mais linhas se reúnem continuando
a partir daí como um só e, em geral, várias
linhas se estendem independentemente, ou são conectados em
vários pontos por caminhos colaterais desembocando no núcleo...para
dizer em outras palavras, é notável como um sintoma
é determinado de maneira plural (mehrfach), sobredeteminado
(überbestimmt)[33].
A Vorstellung verdrängt se torna enredada por uma complexidade,
um enovelamento lógico de elementos mnêmicos. Esta
situação a torna de difícil acesso mas a mantém
ativa – no núcleo da formação sintomática,
nos diz Freud. Este processo faz parte da Verdrängung. A lógica
diz respeito ao fato das conecções não serem
feitas aleatoriamente mas seguindo uma lógica de sentido,
um sentido possibilitado pela linguagem. Podemos ter um texto ordenado
como uma narrativa, como uma poesia etc. Opera “como uma linguagem”
articulando-se através dos significantes. Freud encontra
alguma dificuldade, na sua época, de falar de uma lógica
não linear, o exemplo do cavalo no xadrez é muito
bom: é uma peça que pode “pular” sobre
outras ocupando posições sem continuidade lógica
mas possibilitadas pela lei de seu movimento. Estes “saltos”
sem continuidade aparente precisam ser procurados em um lei não
linear, uma lógica da complexidade. Um elemento que amplia
esta complexidade é o fato de se poder encontrar mais de
uma Vorstellung verdrängt. Tanto a Verdrängung não
funciona em se tratando de uma extirpação quanto os
métodos de tratamento que visam “eliminar” a
causa do sintoma também não tem efetividade. Freud
escreve sobre isso:
“Este agrupamento psíquico patogênico, por outro
lado, não se deixa ser extirpado completamente do Eu, seus
estratos mais exteriores passam, em geral, como a respeito de uma
parte do Eu normal; pertencendo a este do mesmo modo que à
organização patogênica. Na análise, os
limites entre ambos são fixados de forma totalmente convencional...A
organização patogênica comporta-se não
propriamente como um corpo estranho (Fremdkörper) mas sim como
um infiltrado[34].” A concepção de doença
está, neste sentido, muito distante da maneira como usualmente
esta aparece na patologia clássica. As Vorstellungen verdrängt
enraízam formações defensivas passando a comporem
o Eu como as demais Vorstellungen. A característica distintiva
permanece relacionada á presença da resistência
e da defesa. Na primeira construção o tecido construído
em torno das Vorstellungen verdrängt já aparecia de
modo complexo, agora, aqui, esta complexidade esta infiltrada no
Eu, fazendo parte dele. A noção clássica da
clínica enquanto uma eliminação extrativa do
‘mal’ fica inviabilizada por ambas as situações.
Além disso, estamos falando de Vorstellungen, elementos simbólicos
produzindo efeitos de realidade sobre o corpo e na linguagem mas
que, efetivamente não são “algo” que possa
ser tomado como objeto – mesmo que possa eventualmente ser
confundido com algo objetificado – esta confusão se
revela assim que o objeto for eliminado mas a situação
sintomática permanecer deslocada.
Freud se mostra cônscio desta dificuldade de abordagem da
situação anímica já nestes primórdios
de seu ofício: “Es ist ganz aussichtslos, direkt zum
Kerne der pathogenen Organisation vorzudringen[35]”.[36] É
totalmente sem esperança a possibilidade de uma penetração
direta no núcleo da organização patogênica.
Como a neurose esta relacionada com a defesa, uma situação
que ameace com invasão ou controle faz aumentar a reação
defensiva e, com isso, a própria neurose. Não se pode
abordar a clínica anímica “armado”, perseguir
a situação. Nesta área todo o aparato bélico
da clínica (médica) sucumbe diante de qualquer indivíduo
sozinho com sua neurose. “Nós mesmos podíamos
saber a resposta, mas o doente, presenteado com nosso esclarecimento,
não poderia se apossar deste saber e através dele
sua psique não poderia vir a ser ajudada”. O que se
poderia fazer? Freud sugere algumas possibilidades:
“Não nos resta outra alternativa, inicialmente permanecemos
na periferia do campo psíquico patogênico”. “É
melhor deixar que, por algum tempo, reproduza sem influência....as
coisas (Dinge) que assim trás, geralmente se mostram sem
ligação, mas oferecem material que poderá mais
tarde ser reconhecido em alguma articulação”.
“Temos aqui, em geral, de nos prevenir de duas coisas: se
interferirmos no doente na reprodução do fluxo de
seu deixar cair (Einfall) embaraçado, podemos “entupir”
o que mais tarde só poderão ser liberadas com grande
dificuldade. Por outro lado, não ficar muito influenciados
por uma “Intellinz” de seu inconsciente não lhe
deixando na direção de todo o trabalho....Das Vordringen
geschieht já dadurch, dass man in der vorhin angedeuteten
Weise Widerstand überwindet[37]. A penetração
é conseguida, como sabemos, quando a resistência for
conseguida conforme assinalamos. “Mas de regra antes temo
de conseguir outra tarefa. Man muss ein Stück des logischen
Fadens in die Hand bekommen, unter dessen Leitung man allein in
das Innere einzudringen hoften darf.” Devemos lançar
mão de um pedaço da linha lógica, sob esta
orientação exclusivamente poderemos ter a esperança
de penetrar no interior.
Que linha lógica seria esta? Freud continua sua formulação
da seguinte forma: “mas o médico tem todo o direito
de procurar o que está escondido nestes pontos fracos como
forma de abordar o material de camadas mais profundas e procurando,
ali, encontrar as linhas conectivas (die Fäden des Zusammenhanges)
está rastreando.. [38]. A linha lógica que interessa
ao trabalho clínico é encontrada nos pontos falhos
do discursos, em vazios. Já havíamos visto que o sintoma
diz respeito a Vorstellungen que não ab reagiram devido a
sua ligação com a sexualidade. Estas situações
podem ocorrer devido: 1- uma precocidade da sexualidade de forma
a que o corpo e o comportamento não está apto a dar
vazão às moções excitatórias
da sexualidade presentes; 2- situações traumáticas
que produzam no corpo um tipo de excitação à
qual não está apto a dar conta; 3- situações
desejantes ou vividas que vêm a adquirir um sentido interditado
apenas posteriormente.
O afekt aparece através de inervações somáticas
ou de ängst[39]; a Vorstellung se torna verdrängt dando
este efeito no discurso. Freud está tomando corpo, discurso
e realidade como desdobramentos, pregas de mesmo acontecimento.
Cada um destes elementos apresentam um aspecto manifesto e um inconsciente,
daí a metáfora de “prega” ser razoavelmente
apropriada.
“Eine Lockerung dieser Beziehungen liegt nicht im Machtbereiche
der Neurose[40]”. Um desbloqueio destas ligações
não é permitido na esfera de poder da neurose. Aqui
novamente a neurose aparece associada a defesa, sua presença
não permite a penetração pelas linhas de articulação
das Vorstellungen. O paciente nega a ligação, não
dá importância, bloqueia a associação.
O que se designa neurose corresponde àquilo mesmo que dificulta
sua desmobilização visto, esta desmobilização
ser alcançada na medida em que se alcançam as Vorstellungen
verdrängt mas, a neurose é a própria dificuldade
desta evolução. A queixa de que o paciente resiste
não procede uma vez que, se não resistisse não
estaria neurótico. A neurose aparece como um “Machtbereiche”(limite
ou esfera de poder, ação). Esta esfera de poder, como
qualquer esfera de poder lida com táticas de manutenção.
Freud continua: “Desta forma, portanto, através de
seguir a pista (Aufspüren) a partir das lacunas (Lücken:
lacunas, omissões, falhas, vazios, brechas, aberturas, espaços
vazios) na primeira apresentação (Darstellung) do
paciente, geralmente estando recobertas (gedeckt) através
de “falsas ligações (falsche Verknüpfungen)”,
agarramos um pedaço da linha lógica na periferia daí
vindo uma outra trilha (bahnt) através do processo de pressão
(Druckprozedur[41])[42]. A neurose se constitui em um procedimento
de defesa em relação ao verdrängt. Neste processo
aparecem as lacunas, denegações, falsas ligações
etc. Um trabalho que apenas levasse em conta a decifração
e revelação do recalcado, não faria nada em
relação a este arranjo defensivo, a atividade clínica
ficaria neutralizada com explicações de um lado e
imobilidade do outro. O elemento diferenciador é o que foi
realçado anteriormente quanto à confiança e
transferência em relação ao clínico,
esta situação pode constituir uma vivência que
venha afrouxar as táticas defensivas e permita uma liberação
do acesso ao verdrängt, não só ao terapeuta mas,
mais efetivamente à consciência do paciente de uma
forma vivida por ele e não racionalizada a partir de um ensinamento.
Sobre esta característica do processo analítico Freud
retorna mais uma vez: “não estamos em condições
de impingir (aufzudrängen) ao paciente a respeito de coisas
(Dingen), que ele nem supõe saber ou procurar influenciar
a vivência da análise através de excitações
de sua expectativa (Erwartung : esperança, expectativa)[43].”
O terapeuta só pode seguir um caminho sensível de
entrada, reconhecendo as condições da esfera de poder
da neurose. Sem este manejo o enrolamento caracterizado pela neurose
não possibilita qualquer cura. Normalmente o paciente está
em uma situação frágil, passiva, inclusive
pode estar fortemente motivado para sair de sua situação
de neurose mas, isso não significa nada em relação
a esta “esfera de poder da neurose”. A situação
que a neurose defende pode ser de tal maneira significativa, a outros
níveis para o paciente, que se constitua uma força
brutal contra seu desmantelamento. Estamos usualmente diante de
uma “força passiva”, um tipo de resistência
usualmente não consciente mas operando de forma inexorável.
Vamos percorrer um pouco mais do que Freud formula neste texto a
respeito do sintoma para tentarmos ir elucidando um pouco melhor
aquilo do qual se trata na psicanálise, esta força
paradigmática misturando passividade e atividade, potência
e impotência, esfera de poder e perda do poder.
Freud se refere a participação ou manifestação
do sintoma ao longo do trabalho analítico com um termo muito
interessante “Mitsprechens” – linguagem, ou fala
com, ou contra; ou seja, uma espécie de “interferência”
de uma linguagem sobre outra. “A intensidade do sintoma aumenta
quanto mais profundamente penetramos na região da organização
patógena onde a etiologia deste sintoma jaz; alcança
seu clímax um pouco antes de expelir (eindringt) a lembrança
(Erinnerungen) patógena, diminuindo de súbito ou mesmo
desaparecendo inteiramente por algum tempo, assim que tiver terminado
de ser expelida[44]. “A lembrança (Erinnerung) patógena
permanece atacando; o sintoma permanece junto o tempo todo sob a
ordem do dia. Caso seja necessário se deixar de lado por
um tempo a linha à qual o sintoma está amarrado, assim
também o sintoma recua para a obscuridade e, em um período
mais tarde da análise voltará novamente para ser tocado.
“Efetivamente há uma reta ininterrupta desde os não
modificados restos mnêmicos (Erinnerungsresten) de vivências
carregadas de afeto e atos de pensamentos (Denkakte) até
os sintomas histéricos, seus símbolos mnêmicos
(Erinnerungs-symbolen).” Temos aqui um jogo delicado de termos:
Erinnerungsresten, sintomas histéricos e Erinnerungs-symbolen.
As vivências carregadas de afeto deixam restos não
absorvidos, geralmente por efeito da Verdrängung; entre estes
resíduos e o sintoma há uma ligação
direta mantida, e por onde o trabalho analítico trafega,
feito pelos Erinnerungs-symbolen : os símbolos mnêmicos
destas vivências carregadas de afeto. A noção
de Erinnereung em Freud é complexa, resvala no sentido de
reminiscência, ou seja, a lembrança do que não
aconteceu. Como aparece neste texto existe uma vivência carregada
de afeto que não é completamente absorvida –
quer pelo excesso quer pelo Verdrängung – este resíduo,
proveniente de um excesso, produz a experiência de falta.
Esta lembrança se trata de uma lembrança que nunca
se supôs lembrança, uma memória antecipativa,
repetitiva e não puramente “mecânica”,
“informática”. O símbolo mnêmico,
ou lembrança-símbolo destas vivências se trata
de algo colocado em seu lugar, algo que lhe represente; este elemento
constitui uma via direta entre os sintomas histéricos e os
resíduos mnêmicos. Este símbolo será
objeto da interpretação, a interpretação
procura trazer os resíduos através dos quais se pode
penetrar na rede em torno da Vorstellung verdrängt. Esta lembrança
símbolo não pode ser confundida com a causa do sintoma,
apesar de apresentar-se como tal, na medida em que é seu
símbolo. Uma lembrança símbolo evoca uma cadeia
simbólica, uma vez que a própria lembrança,
o sistema mnêmico é composto de símbolos –
se trata de símbolos de símbolos. Estes símbolos,
porém, emergem originalmente como efeitos da estimulação
gerada pela vivência carregada de afeto e pelo ato do pensar.
Neste nível uma vivência carregada de afeto e um ato
de pensamento produzem efeitos semelhantes. O ato pensante tem o
efeito de uma vivência. Não se trata, portanto, de
uma noção intelectiva do pensamento mas de seu tipo
de participação na vida humana. Temos uma base complexa
representada por resíduos, restos de vivência e de
ato. Estes resíduos ganharão uma forma, uma singularidade
através de um símbolo – Erinnerung-symbolen.
Isto permitirá que possa parecer que o sintoma tenha uma
tal forma precisa, caso se tome o símbolo como sendo a coisa
mesma. Nesta complexidade reside toda importância e sutileza
da interpretação.
Vamos abordar a questão da interpretação em
psicanálise (Deutung) em outros textos onde Freud delineia
esta atividade, por aqui vamos apresentar o percurso que, nesta
época, formula para a psicanálise.
“é inteiramente impossível levar adiante uma
análise de um sintoma em um só empuxo (Zuge: empurrão,
pincelada, trem, marcha) ou as pausas de nosso trabalho serem distribuídas
de forma a se ajustarem aos pontos de pausa de sua execução.
Freqüentemente interrupções introduzem-se imperativamente
devido a circunstâncias em torno do tratamento, tal como o
prensamento dos horários, muitas vezes isto se dá
em sítios incovenientes, exatamente quando nos aproximávamos
de um novo tema[45].”... “surgem ocasiões no
tratamento (Behandlung) onde o paciente é tomado (“gepackt”)
em seu interesse, nestes momentos suas condições gerais
ficam cada vez mais dependentes da situação do trabalho.....toda
vez que o trabalho se paralisa e a confusão atrapalha a carga
psíquica aumenta, o paciente aflige-se, seu sentimento de
infelicidade aumenta, sua prova de resistência (Leistungsunfähigkeit).”
Uma análise não se desenvolve em um estado constante
nem linear. As atitudes quanto ao seu desenlace sofrem alterações
dependendo do material que está sensibilizado. Uma grande
parte da sutileza do ofício analítico é saber
conviver com as obstruções e condições
impostas pelo tratamento.
Quando ocorre uma imobilização do trabalho Freud
localiza três possibilidades: 1- nada há para ser encontrado
no ponto onde se está investigando; 2- defrontamo-nos com
uma resistência que só pode ser superada depois, ou
seja, estamos em uma camada não qual ainda não se
pode penetrar ou, 3- algum obstáculo externo, não
inerente ao material, isto é, quando a relação
entre o analista e o paciente é perturbada, sendo este o
pior obstáculo.
A resistência pode ser trabalhada principalmente através
dos efeitos da pessoa do analista. O manejo de uma cadeia de pensamento
erótico exige uma força de trabalho do paciente implicando
uma oferta pessoal, o que implica uma compensação
amorosa – “Die Mühewaltung und geduldige Freundlichkeit
des Arztes haben als solches Surrogat zu genügen[46]”.
A disponibilidade em dar-se ao esforço e uma amizade valiosa
do médico vem a ser uma tal compensação. Caso
esta relação do analista com o paciente for perturbada,
a disposição do paciente falha (versagt), o paciente
fica preso pela consciência das queixas que vêm acumulando
contra o analista. Freud aponta três situações
onde surge este obstáculo:
1-se houver um afastamento pessoal (Bei persönlicher Entfremdung)
– se o paciente sentir-se rejeitado (zurückgesetzst),
pouco apreciado, desacreditado, insultado pelo analista ou se tiver
sabido opiniões desabonadoras a respeito do analista ou seu
método. Esta não é uma das situações
mais grave, pode ser superada pela explicação mesmo
que a suspeita de alguns pacientes possa atingir dimensões
fora de proporção.
2-quando o paciente se torna abalado pelo medo (Wenn die Kranke
von der Furcht ergriffen wird), de se tornar muito habituado a pessoa
do analista, perdendo sua autonomia em relação a ele.
Este é um caso imporante. Sua principal causa é o
tipo de disponibilidade e solicitude inerente ao manejo analítico.
3-quando o paciente se assusta, devido a estar transferindo Vorstellungen
penosos para a pessoa do analista surgidas a partir da análise.
A tranferência ao analista se dá devido a uma falsa
ligação (falsche Verknüpfung). O desejo do paciente
aparece na consciência sem ligação com a época
em que ocorrera, vindo a ser contemporizado como se fosse na atualidade,
expressamente na situação analítica. O paciente
cai em equívoco a cada nova ocasião que este desejo
se lhe oferece.
Freud é explicito aqui: “Man kann keine Analyse zu
Ende führen, wenn man dem Wiederstande, der sich aus diesen
drei Vorfällen ergibt, nicht zu begegner weiss[47]. Não
se pode conduzir nenhuma análise ao seu final se não
soubermos com a resistência que surge a partir destes três
incidentes. Vai mais além: “inicialmente ficava muito
aborrecido com o aumento de meu trabalho psíquico até
que me dei conta de que a totalidade deste acontecimento tinha uma
regularidade (uma lei, estava em conformidade com a lei) e, portanto,
esta transferência[48] não implicava um trabalho a
mais. O trabalho para o paciente continuava o mesmo: superar o afeto
penoso despertado por um tal desejo mesmo que por alguns momentos;
não fazendo diferença se o esforço para o repúdio
(Abstossung) psíquico tivesse sido em circunstâncias
já partes da história , ou no tema do trabalho recente
comigo. Os pacientes aprendem gradativamente por si que uma tal
transferência para com a pessoa do médico se trata
de uma compulsão e ao manejo de uma ilusão (Täuschung),
que desaparece com a conclusão da análise[49]”.
Freud começa a apreender a transferência como uma condição
do tratamento e algo regular em uma análise. O seu método
de tratar através da catarse e da hipnose se remetendo ao
passado pode ser conduzido ao presente, a transferência cuidará
de colocar no presente aquilo que a hipnose e a catarse colocava
no passado – o desejo repudiado. O trabalho que teria em tratar
de um acontecimento passado envolvendo outras pessoas ausentes,
seria praticamente o mesmo àquele que envolve uma circunstância
atual no setting analítico. A introdução da
transferência fará uma diferença significativa
no manejo clínico e na temporalidade do desejo inconsciente.
No final do texto aponta seu objetivo, onde deixa ver a simplicidade
de sua atitude: “Ich zweifle já nicht, dass es dem
Schicksale leichter fallen müsste als mir, Ihr Leiden zu beheben;
aber Sie werden sich überzeugen, dass viel damit gewonnen ist,
wenn es uns gelinsgt, Ihr hysterisches Elend in gemeines Unglück
zu verwandeln. Gegen das letztere werden Sie sich mit einem wiedergenesenen
Seelenleben besser zur Wehre setzen können[50]”. Não
tenho dúvidas de que as vicissitudes resolveriam estes sofrimentos
mais facilmente que eu; mas, podes estar certo de que há
um pouco de ganho com nosso método, quando conseguimos transformar
o infortúnio (miséria, sofrimento) histérico
em uma desventura (infelicidade, desgraça, falta de sorte,
revés, desventura) comum. Em relação a esta
última se estiveres com uma vida anímica restabelecida
poderás estar em melhores posições para evita-la
(se defender, criar um dique, barragem, armar-se).
A respeito da psicoterapia (Über Psychotherapie)
1905.
Freud tematiza a situação da psicanálise com
a psicoterapia. Uma questão em nós enroscada mas que,
vamos ver, para Freud mesmo não parecia haver problemas.
Começa situando o campo do sintoma: “os efeitos produzidos
por traumas psíquicos devido a um impedimento partindo dos
afetos (Zurückhaltung von Affekt), bem como a concepção
dos sintomas histéricos como sendo resultado de uma transposição
para o corpo de uma excitação, idéia para a
qual cunhamos os termos “ab-reação” e
“conversão”[51]”. A questão gravita
em torno da problemática entre os afetos e sua manifestação
no campo anímico – através das Vorstellungen.
A antiga problemática entre palavra e afeto. O fato de alguns
afetos não querem a palavra. O direcionamento para o corpo
significa um movimento na direção da fonte de excitação.
Este direcionamento pode se dar devido a vários motivos:
interromper a excitação na sua fonte, procurar uma
realização mais perto da origem da excitação,
evitar uma experiência compartilhada implicada em toda linguagem,
etc.
A excitação passaria pelo sistema anímico
(rede de Vorstellung) onde estariam implicados o juízos morais,
os trilhamentos da consciência implicando as vias e formas
de efetivação da excitação, as articulações
com o outro e, principalmente o desejo do outro. Esta passagem pode
vir a ser muito embaraçada e implicar um tempo isuportável
para a ansiedade (a pressão da excitação e
a tendência do sistema anímico para ficar em condições
inerciais, ou seja, desvencilhar-se o quanto antes da excitação).
Vamos ver o que Freud pode indicar a respeito desta opção
histérica não ser eficaz de forma a vir a ser sintomática.
A questão que começa a discutir diz respeito a influência
que o clínico teria neste tipo de situação.
O paciente está sofrendo de um adoecimento decorrente de
seus afetos. Para se tratar dos afetos é preciso envolver-se
com eles. Freud aponta o fato de, em todo tratamento, agir a influência
do paciente. A esta influência exercida pelo paciente no processo
de cura, a importância de sua disponibilidade e interesse,
se dá o nome de psicoterapia – der “gläubigen
Erwartung” (expectativa crente). A psicoterapia corresponde
a um manejo clínico desta “gläubigen Erwartung”.
É o paciente quem tem menos intenção de abandonar
esta expectativa, ela retira o processo de um plano frio, para um
universo maior e mais fantasioso onde o paciente pode sentir-se
implicado.
“und ganz besonders die Psychoneurosen, seelichen Einflüssens
weit zugänglicher sind als jeder anderen Medikation[52]”.
E especialmente as psiconeuroses são mais prontamente influenciáveis
animicamente do que através de qualquer outra medicação...”diese
Krankheiten nicht das Medikament heilt, sondern der Arzt, das heisst
wohl die Persönalichkeit des Arztes, insofern er psychischen
Einfluss durch sie ausübt.” Estas enfermidade não
se curam com medicamentos mas, pelo médico, isto é,
mais pela personalidade do médico, através da qual
ele exerce a influência psíquica. No caso do tratamento
anímico o remédio é o próprio terapeuta.
Daí todo o cuidado que este deve ter para ocupar este lugar.
Neste ponto é onde talvez residam as maiores questões
da profissão, principalmente as questões éticas.
Até onde vai a influenciabilidade efetiva do clínico
e até onde este processo é controlado, procurado e
produzido pelo paciente?
A referência feita por Freud é apenas no sentido do
processo ser demandado pelo paciente, ou seja, a manutenção
de seu sentimento de crença. Quanto a responsabilidade pelo
desdobramento desta situação temos densas discussões.
Uma sutileza da discussão reside no fato de se saber se a
neurose torna o sujeito frágil de maneira a poder vir a ser
submetido a situações que lhe prejudicam através
da “porta aberta” pelo sintoma e pela demanda neurótica
ou, se, o sujeito está também implicado enquanto desejante
nesta abertura. Ou seja, caso o médico influencie, se esta
influencia está sobre seu controle ou sobre o controle do
paciente. Freud atribui importância ao efeito do médico,
uma vez apontar para a importância de se desenvolver um conhecimento,
através do qual se possa manejar esta abertura, em favor
do tratamento. Mas, neste campo de sutilezas do desejo e do psiquismo
o que é saúde e doença, melhor ou pior ficam
muito obscuros, estamos em pleno domínio moral. Freud sita
Fausto: Ich weiss, das Physikalische.
Wirkt öfters aufs Moralische.
“Sei que o físico, se efetiva freqüentemente
na direção da moral”. Temos aqui toda a envergadura
moral do tratamento anímico. Tanto a constituição
do sintoma está implicado coma a moral – com uma oclusão
dos afetos – quanto o tratamento se dará em um ambiente
implicado com valores morais. O sintoma enquanto evento físico,
a própria ação e reação física
estará implicada em um direcionamento moral – tanto
no sentido afirmativo quanto no sentido transgressor. Freud faz
um comprometimento dos maiores: o que trata é a personalidade
do médico. Esta se dispondo a desenvolver um método
para utiliza esta influência, uma vez sua participação
no tratamento ser inevitável pelo fato do paciente a fazer
existir, principalmente como desdobramento de sua “gläubigen
Erwartung”.
A questão da “neutralidade” está posta
no sentido de como o clínico utilizará a crença
do paciente, mas, não no sentido de ignora-la, ou achar que
pode manter-se fora da área de influência sobre o paciente,
a partir de alguma atitude ou postura qualquer quando, na verdade,
é o paciente quem inevitavelmente instaura esta “área
de influenciabilidade”.
O físico influencia a moral no sentido das pressões
físicas freqüentemente levarem as pessoas a alterações
de seus valores morais, pelo menos enquanto a pressão não
for reduzida. Inversamente a moral influencia o físico, principalmente
nesta área de produção dos sintomas conversivos.
Nas afecções onde o corpo físico sofre alterações
graves podemos encontrar pressões repressivas muito fortes,
no caso de crianças podemos encontrar freqüentemente
um campo moral complicado nos pais ou na família e, consequentemente,
em seu sistema moral pessoal.
A influenciabilidade da moral pelo físico pode estabelecer
situações, mesmo a nível desejante, que, uma
vez alterando a situação física deslanchem
reações morais complexas. Sob a pressão do
físico uma pessoa pode se permitir situações
ou desejos dos quais venha a se penalizar duramente uma vez a situação
física tendo se aliviado. Aqui está implicada toda
a problemática da pulsão e seus efeitos de rebote
na produção dos sintomas. Devido a esta influência
do físico sobre a moral sempre se cuidou de intervir desde
cedo sobre o corpo, através da educação e dos
castigos criando, desta forma, barreiras no corpo tentando prevenir
possibilidades de avanços sobre a moral. É comum que
muitos adoecimentos correspondam a prevenções que
o organismo toma, para criar uma barreira física em relação
a detecção de alguma possibilidade de desvio moral.
“Es gibt viele Arten und Wege der Psychotherapie. Alle sind
gut die zum Ziel der Heilung führen[53].” Existem muitas
espécies e caminhos de psicoterapia. Todos os que conduzem
à cura são bons....”Ich darf behaupten, die
analytische Methode der Psychotherapie ist die jenige, welche am
eindringlichsten wirkt, am weitesten trägt, durch welche man
die ausgiebigste Veränderung des Kranken erzielt”. Posso
assegurar de que o método analítico de psicoterapia
é aquele que efetua uma penetração maior, leva
mais longe, através do qual se atingem as transformações
mais férteis do paciente.
Nem faz uma diferença entre psicoterapia e psicanálise,
nem negativiza as psicoterapias não psicanalíticas.
A questão aparece quanto ao objetivo que se espera de uma
psicoterapia. Estabelece-se uma diferença entre “os
que conduzem à cura, e são bons”, e um aprofundamento,
um ir mais longe e conseguir riquezas e fertilidades maiores. A
psicanálise está se vinculando a um “mais além”
(eindringlichsten, weitesten, ausgiebigste). O distintivo deixa
de ser conseguir a cura mas, o que pode tirar do processo ao longo
do qual esta cura é conseguida. As diversas formas de psicoterapia
existem porque apresentam resultados. Freud mesmo aponta estes resultados
como respostas ao tipo de demanda feita pelo paciente, uma vez o
psicoterapeuta não atrapalhar demais a “gläubigen
Erwartung” faz seu trabalho. Mas existe uma outra questão,
também do campo moral ou ético, que seja: o que se
consegue neste processo. A questão deixa de ser o objetivo
mas a maneira como este objetivo é alcançado, o caminho
muito mais que a chegada se torna importante. A clínica psicanalítica
sempre mostra pessoas que se curam logo para evitar a analise, outras
que resistem a cura para manterem-se no processo analítico,
pessoas que nos surpreendem como se curaram apesar de nós,
outras que não se curam apesar dos esforços de analistas
bastante competentes. Estamos, assim, diante da questão do
trajeto muito mais do que do objetivo. Uma coisa é pensar
o resultado, outra é pensar as condições oriundas
deste resultado.
Apesar de situar-se entre as demais psicoterapias quanto ao resultado,
a psicanálise se preocupa também com aquilo que pode
ser conseguido ao longo do trajeto onde se consegue o resultado.
Este tipo de demanda não é genérico, não
são todas as pessoas que se interessam pelo trajeto, aliás,
a maioria se interessa exclusivamente pelo resultado. Quanto ao
resultado, mesmo na linha da psicanálise, a hipnose, o método
catártico e da pressão com as mãos produzem
resultados “quando usados nas condições adequadas”,
diz Freud. Mas, aquilo que se está inserindo se trata da
questão do trajeto. O que pode tirar de uma situação
na qual se tem uma condição de acessibilidade ao inconsciente,
do tipo neurose, psicose, perversão?
Quando uma psicoterapia não funciona se deve olhar para
uma não resposta a “expectativa crente” do paciente
ou para o efeito da pessoa do psicoterapeuta nas condições
de transferência e concretas. Afora isso o direcionamento
da cura não tem muitos mistérios, visto o próprio
paciente produzir este efeito. O trabalho mais delicado, que exige
maior sutileza e habilidade do terapeuta, consiste em se trabalhar
o caminho, aquilo que pode surgir ou se fazer surgir no processo
ao longo do qual o paciente cura-se. O aprofundamento apontado por
Freud não é apenas um elemento de complemento, sua
função é a de prevenir outros deslocamentos
do sintoma e outras crises. Por outro lado, como uma análise
dura um tempo é possível se deparar com ocorrência
de outros episódios sintomáticos na evolução
do tratamento. Quando um tratamento é curto ocorrem reincidências
mas podem não vir ao conhecimento do clínico, de forma
a parecer que o resultado fora definitivo.
Freud distingue a psicanálise: 1- a catarse age per la via
di porre (pela via do colocar), a psicanálise age per la
via di levare (pela via do tirar). A terapia psicanalítica
não procura acrescentar nem introduzir nada de novo, mas
a retirar algo, a fazer aflorar alguma coisa.
2- fazer falar e proceder a partir disso o tratamento psicanalítico
não é tarefa em nada fácil, encontramos muitas
resistências e uma pessoa inábil pode produzir resultados
desastrosos no manejo do psiquismo exposto desta maneira.
3- o tratamento psicanalítico exige muito do paciente (sinceridade,
sacrifício de si mesmo, tempo e dispendio) e do clínico
(tempo, estudo da técnica e aceitar o exercício de
um ofício bastante laborioso).
4- as condições onde Freud encontra indicações
para seu tratamento são apontadas como: a) “os pacientes
que não possuírem um grau razoável de capacidade
de fazer construções (Bildungsgrad) e caráter
de certa maneira idôneo devem ser recusados[54]”. Neste
sentido psicanalistas levaram avante a experiência psicanalítica
não só com pacientes com déficit intelectual
acentuado como, também, em transgressores acentuados. b)
“o paciente deve estar em um estado normal – psicose,
estados de confusão e depressão profundamente arraigados
não se prestam a psicanálise”. Aqui principalmente
muitos avanços foram feitos. c) “a idade dos pacientes
tem grande importância para se determinar a adequação
de um tratamento psicanalítico – as pessoas idosas
não são mais curáveis – por outro lado,
pessoas muito jovens (abaixo da adolescência) muitas vezes
s ão excessivamente influenciáveis”. Aqui também
a psicanálise produz muitas possibilidades de tratamento.
d) “a psicanálise não deve ser tentada quando
se requer a rápida remoção de sintomas perigosos,
por exemplo, em casos de anorexia histérica”.
5- a psicanálise praticada de forma segura não trás
danos aos pacientes. Mas pode acontecer que venha a deflagrar ou
acentuar alguma situação sintomática
6- a terapia psicanalítica se baseia em um reconhecimento
das Vorstellungen inconscientes; uma penetração da
Vorstellung inconsciente na consciente. Isso se deve pelo fato de
partir da perspectiva de que a situação mórbida
é sustentada pelo estado inconsciente destas Vorstellungen.
Este procedimento é trabalhoso pelo fato deste movimento
em relação às Vorstellungen ser desprazeiroso
encontrando resistências.
Em seguida Freud faz uma formulação importante quanto
a sexualidade tal como aparece na psicanálise. Pergunta:
“não seria mais simples visar diretamente a recuperação,
recomendando-se a atividade sexual como medita terapêutica,
ao invés de perseguir a trilha sinuosa e árdua do
tratamento anímico?[55]...a necessidade (Bedürftigkeit)
e a privação (Entbehrung) sexuais é apenas
um dos fatores em ação no mecanismo das neuroses mas,
se o problema todo fosse esse, o resultado seria uma situação
de vida desregrada e não de doença....um outro fator
que não pode ser deixado de lado é a aversão
sexual (Sexualabneigung) dos neuróticos, sua inabilidade
(Unfähigkeit) para com o amor, aquele traço psíquico
que denominei “Verdrängung”. É apenas quando
ocorre um conflito entre uma tendência (Strebungen) dúbia
que se dá o adoecimento portanto, indicar a atividade sexual
para a psiconeurose apenas raramente seria um bom conselho.”
Possibilidades futuras da psicoterapia psicanalítica.
1910.
Freud começa o artigo com um apelo marcante: “nicht
Ihr wissenschafliches, sondern Ihr ärztliches Interesse anrufen[56].
Apelo não para seu interesse científico mas ao médico.
Com isso deixa claro seu interesse eminentemente prático.
Freud era um experimentador gabaritado, sabia bem os problemas que
a psicanálise teria referentes a ciência clássica,
positivista. A práxis psicanalítica não obedece
aos parâmetros do experimentalismo e altera tanto o sujeito
quanto ao objeto.
Aponta as duas fases iniciais de quem entra na área clínica,
no caso a psicanalítica: “o entusiasmo inicial devido
ao aumento inesperado de nossas capacidades terapêuticas e
o da depressão a respeito da grandeza das dificuldades que
se colocam no caminho de nossos esforços”. A atividade
clínica prega peças, o entusiasmo inicial se deve
tanto a um elemento imaginário ativado quando imaginamos
nosso trabalho, quanto ao fato do trabalho clínico sofrer
inicialmente um avanço rápido pela vontade do paciente
em livrar-se de sua angústia e querer agradar ao terapeuta
mas, conforme o trabalho avança para além desta situação
as resistências começam a “se colocarem no caminho
de nossos esforços”. O avanço inicial começa
a fazer água. A remoção de uma crise não
é tão difícil, o problema aparece quanto ao
trabalho propriamente dito.
O avanço da psicanálise não deve ser procurado
nesta situação de entusiasmo inicial, nem ficar tratando
neste território evitando o terreno mais espinhoso mas mais
importante para um tratamento. Seu avanço depende de empenho
e dedicação, virá:
1-através de um progresso interior (inneren);
2-através do crescimento (Zuwachs) de sua autoridade (Autorität);
3-através de tornar geral a efetividade (Allgemeinwirkung)
de nosso trabalho.
Quanto ao progresso interno feito pela psicanálise como
conhecimento e como técnica Freud aponta:
Quanto ao conhecimento diz que: “estamos ainda muito longe
de entender tudo o que o inconsciente de nossos pacientes requer.
Está claro que cada avanço em nosso saber significa
um aumento de poder para nossa terapia”... “No inicio
o tratamento analítico era inexorável e exaustivo.
O paciente devia dizer tudo de si e a atividade do médico
era a de pressioná-lo (drängen) incessantemente. Atualmente
isso é bem mais amigável (freundlicher). A cura se
estabelece em duas partes: a que o médico decifra (errät)
e diz ao paciente; do lado do paciente, aquilo que este elabora
daquilo que ouviu. O mecanismo de nosso auxílio é
fácil de se compreender; oferecemos ao paciente a bewusste
Erwartungs-vorstellung ( a vorstellung de sua expectativa consciente)
a partir de sua semelhança com a verdrängte é
encontrada por ele no inconsciente”. O mecanismo mais poderoso,
porém, é lembrado por Freud, como sendo a transferência.
Geralmente todo analista passa por esta experiência que
Freud relata, mais ou menos como a cada pessoa não é
poupado o fato de precisar engatinhar, cair para andar. Cada um
começa de forma mais impositiva para flexibilizar com o tempo.
Este oferecimento da “Erwartungs-vorstellung” é
bastante significativo. Aquilo que o analista oferece é algo
que o paciente tem uma certa expectativa em ouvir, corresponde a
um elemento de sua consciência. Mobilizado por este desejo
de ter ouvido o que esperava ouvir, supõe uma semelhança
disso com a Vorstellung verdrängte estabelecendo uma ligação
associativa. Aquilo que vai surgir em sua associação,
bem como aquilo que vai elaborar do que ouviu, pode não corresponder
com o que o analista disse ou pretendeu dizer. O elemento central,
ligado à transferência, está na realização
de uma expectativa, ao efeito devido a liberação advinda
desta realização. Isso seria muito diferente do que
se poderia dizer, de que o analista teria de fato desvelado o inconsciente
– quando fala a Vorstellung verdrängte geralmente desperta
resistências e desprazer não cooperação.
Trata-se de um “jogo” bem mais sutil do que o poder
de saber e revelar a “verdade do inconsciente ou do verdrängte”
que geralmente tanto o analista gostaria de possuir como, principalmente,
o paciente gostaria tanto que este tivesse que até mesmo
age como se o analista tivesse esta possibilidade.
Freud é bastante cônscio de seus limites neste sentido,
revela que o que faz é enunciar a “bewusste Erwartungs-vorstellung”.
Espera que o efeito da realização deste desejo transferencial
produza uma abertura, uma brecha por onde o paciente deixe aparecer
e fluir o obstruído (verdrängte) liberando o fluxo libidinal.
Quanto à técnica, Freud aponta seu desenrolar na
seguinte direção: começara com o método
catártico onde se procurava a elucidação dos
sintomas; passou ao empenho em se tentar desvendar os “complexos”;
atualmente o empenho está em torno do encontro (Auffindung)
e superação (Überwindung) das resistências.
Em conseqüência da superação das resistências
os complexos vêm a luz sem dificuldade.
Trata-se de um movimento técnico significativo, entre a
perspectiva médica clássica da importância dos
sintomas até um envolvimento quanto a resistências
que implicam o paciente e o analista nas condições
de cura. Freud menciona uma ligação da resistência,
principalmente masculina, ao complexo com o pai. Trata-se portanto
de um posicionamento ativo quanto as condições de
determinação sobre o corpo próprio e existência.
O complexo com o pai implica o aparecimento de um terceiro, que
torna evidente a existência do sujeito como originada de um
relacionamento sexual do pai com a mãe. Por isso só
este elemento já se torna bastante problemático a
nível da identidade: não tendo se originado na mãe,
nem no pai, mas numa relação o sujeito é remetido
a um trabalho de construção de sua identidade –
não advém de um simples destacamento ou continuidade.
A participação de um triângulo deste instaura
um relacionamento conflitivo, como qualquer relacionamento triangular
– Lacan é quem lembra que o homem não sabe contar
três. O complexo com o pai tem seu centro no parricídio,
o processo de identificações e relacionamentos através
dos quais o pai vai se tornando desnecessário para vir a
ser desejado enquanto pai. Faz parte inerente a este procedimento
a instauração dos sentimentos sociais que virão
a serem postulados por Freud em seu trabalho “Totem e Tabú”.
Por ora nos interessa o fato do complexo com o pai evocar uma
situação conflitiva, de rivalidade e ameaças
sobre a identidade. Este evento torna-se metaforizado na situação
clínica onde a relação dual entre o paciente
com seu sintoma se torna objeto de intervenção de
um terceiro que, supostamente, quer o sintoma para si, esta interessado
em separar o sujeito de seu sintoma e, tudo indica que se interessa
pelos sintomas. Widerstand (resistência) é manter,
sustentar (stand) uma posição em contrário
(Wider). Esta oposição pode ser tanto uma forma defensiva
como uma espécie de prazer. Estas duas formas não
são excludentes, pelo contrário, geralmente se dão
simultaneamente mas o aspecto mais marcante depende da forma como
está na pessoa o complexo paterno. Não é segredo
algum para quem se dedica à clinica o fato de muitos pacientes
desafiarem os clínicos com suas doenças e utilizarem
seu não resultado como forma de superar o clínico.
Inclusive os clínicos mais renomados são os alvos
mais comuns deste tipo de paciente.
Um outro elemento perturbador na atividade analítica é
apontado: “die Gegenübertragung”. Geralmente traduzida
como “contra transferência”. Gegen significa contra
mas também ir na direção de. É uma situação
densa. O que Freud escreve? “se instala no médico através
de uma influência do paciente sobre a sensibilidade (Fühlen[57])
inconsciente do médico....cada psicanalista apenas pode ir
até onde seus complexos e resistências internas lhe
permitirem; em conseqüência se requer que sua atividade
comece com uma Selbstanalyse[58], enquanto estiver praticando com
pacientes indo cada vez mais profundamente. Quem não conseguir
sustentar uma tal Selbstanalyse , deve fazer expirar (Fähigkeit),
a análise do paciente que estava manejando sem outras combinações[59]”.
Trata-se de uma situação muito espinhosa, já
foi tentado seu contorno pela exigência na formação
da análise didática mas nenhuma formalidade pode dar
conta do que se esta se referindo. Estamos novamente em um campo
ético. O analista que não conseguir levar adiante
sua análise pessoal, particularmente em torno daquilo que
está tratando em seus pacientes, deve abandonar estas análises
considerando-se incapaz de realiza-las (em outros) uma vez não
ser capaz de realizá-las (em si mesmo).
Esta influência sobre a Fühlen inconsciente do analista
é bastante inquietante. O pulso indica as condições
do organismo, a que e como o organismo reage. Freud fala da sensibilidade
do inconsciente como um pulso, o paciente apalpa toca o pulso do
analista. Sabemos bem a dificuldade que existiria em se pensar a
possibilidade de controlar a reação de nossas pulsações;
a singularidade daquilo que toca o pulso das pessoas. O analista
trabalha com esta “Fühlen” sendo suas condições
que vão determinar o desenlace de seu ofício com um
paciente determinado ou com sua clínica no geral. Temos ai
a marcação de um limite, o que cada um pode. Enquanto
está trabalhando, o analista também esta em um trabalho
analítico constante consigo mesmo. Este trabalho é
o que lhe permite uma margem de possibilidade de lidar com as influências
inconscientes em curso de tal forma que possa não sucumbir
a elas mas maneja-las adequadamente. A pessoa que não conseguir
fazer isso deve desistir do tratamento, como um cirurgião
deve desistir de uma cirurgia se notar que seu equipamento está
contaminado.
Já houve épocas quando se pensava nestas condições
como uma “purificação” ou um estado ideal
a partir do qual o analista não mais sofreria estes efeitos.
Freud é muito claro, trata-se de um trabalho constante e
sistemático e cujo material aparece enquanto estamos atendendo.
Não se trata de um estado de imunidade (visto trabalharmos
com esta sensibilidade) mas as condições de seu reconhecimento
e manejo. Se o pulso do analista estiver batendo sob a égide
do paciente, sem que o analista possa trabalhar dentro dos parâmetros
clínicos, sua intervenção estará neutralizada
ou trará malefícios ao paciente.
Gegen é um termo denso: contra, em direção
a, para, para com, cerca de, em comparação com; em
troca de. Já se pensou que a contra transferência seria
evitada através de uma atitude insípida e regular
para com o paciente; o problema é bem diverso. A Übertragung
diz respeito àquilo que o paciente leva consigo, traz a respeito
das coisas e pessoas, carrega, o que ele leva de superior. Ir na
direção ou contra estes elementos, se encaixar neles,
reagir a eles ou se aproveitar deles diz respeito a Gegenübertragung.
Freud relativisa a técnica que está desenvolvendo
ás histerias “estamos chegando, agora, á opinião
de que se deve modificar a técnica psicanalítica,
em certos setores, de acordo com as pulsões predominantes
no paciente”. Quanto à fobia, por exemplo, aponta uma
transformação técnica: “devido à
fobia estes pacientes não podem trazer materiais para dissolve-as
(Auflösung), uma vez que, através da observância
(Einhaltung) da fobia, sentem-se entrincheirados (geschützt)
em suas condições (Bedingung). Não se pode
tentar conseguir a cura através da ocupação
de seu abrigo (Schutzvorrichtung) e obrigá-los a trabalhar
desde o início sob condições de Angst. Podemos,
porém, auxiliá-los traduzindo (Übersetzung) seu
inconsciente, até que possa resolverem-se (entschliessen),
renunciar (verzichten) ao seu abrigo (Schutz) tendo criado (aussetzen)
uma não mais tão grande Angst[60]”
Temos aqui duas diferenças técnicas da maior importância.
Por um lado a fobia corresponde a um entrincheiramento em algum
objeto – o que se metaforiza em algum reduto de discurso.
Freud revela isso ao mostrar como a pessoa fóbica não
tem a mesma “volúpia” discursiva que tem a pessoa
na histeria, também não possui o mesmo relacionamento
de sedução com a verdade, o desvelamento. Freud fala,
então, em “Übersetzung” em vez da “Deutung”.
Na fobia a pessoa não só não traz material
para uma “Deutung” como também não se
relaciona bem com os efeitos da Deutung, tanto a mobilização
do material quanto a Deutung geram Angst.
“Übersetzung” significa colocar algo sobre, estabelecer
algo em relação a. Uma tradução, portanto
é uma colocação de um text |